Os Filhos de Fenrir
60 Jacob- Prelúdio da guerra
Receber o conselho e finalmente restaurar o equilíbrio no vilarejo trouxe um alívio que eu não sabia que precisava tanto. A justiça havia sido feita — Nessie estava no lugar que sempre foi dela e nossos filhos protegidos. Mas, apesar de tudo, a verdade nua e crua permanecia: éramos casados no papel, mas não na prática. Não havia intimidade entre nós. Nem beijos, nem abraços, muito menos a proximidade que eu tanto ansiava.
Nessie tinha deixado claro toda sua mágoa antes de nos mudarmos para a nova casa. Ela me amava, sim, e eu sabia que o imprinting tornava essa ligação indestrutível. Mas havia feridas profundas demais para serem ignoradas. Eu precisava de mais do que o tempo para consertar as coisas. Precisava mostrar com ações que ela podia confiar em mim de novo.
Com esses pensamentos ainda me rondando, recebi Sam Uley, Paul Lahote e Embry Call na vila. A visita da matilha do clã Ulley era um lembrete de que nossos problemas não eram só internos. Havia uma guerra lá fora, e ela não esperaria até que resolvêssemos nossas questões pessoais.
— Sam — cumprimentei, apertando sua mão firmemente. — Bom vê-lo de novo.
— Jacob, é sempre bom ver um irmão de luta — Sam respondeu, com aquele tom firme de líder que sempre tinha.
Emmett estava ao meu lado. Eu sabia que Sam não o conhecia ainda, então decidi fazer as devidas apresentações.
— Este é Emmett Swan — comecei. — Ele é do clã Swan. Recentemente se estabeleceu em Vindalheim com suas irmãs, antes do ataque de Asgardheim.
Sam olhou Emmett de cima a baixo, avaliando-o como faria com qualquer guerreiro que ele não conhecia.
— Ouvi falar sobre o ataque — Sam disse, com uma leve inclinação de cabeça. — Recebi a mensagem sobre o acampamento de soldados de Asgardheim em Vindalheim. Fizemos uma averiguação recentemente e... a situação é crítica.
Emmett, que até então mantinha um olhar confiante, mudou de expressão. A preocupação ficou evidente em seu rosto.
— E minha família? — Emmett perguntou, sua voz baixa e tensa. — Meu pai , avós e irmãs de guerra estavam lá quando o ataque aconteceu. Eles devem estar entre os civis.
Sam assentiu, seu rosto inexpressivo, mas os olhos transmitindo uma gravidade que só guerreiros entendem.
— Existem civis sendo feitos de escravos. Muitos estão nas mãos dos soldados de Asgardheim.
O peso das palavras caiu sobre nós, e Emmett ficou visivelmente abalado. Sabia que sua família estava em perigo, e aquilo acendia uma urgência dentro dele.
— Se minha família estiver lá... — Emmett começou, a voz firme. — Não posso deixá-los à mercê desses monstros.
Sam deu um passo à frente, encarando tanto Emmett quanto eu.
— Temos uma chance de retomar Vindalheim — ele propôs. — Unimos as tribos. Niflheim faz um ataque surpresa ao acampamento deles. Se formos rápidos, o exército de Asgardheim será forçado a recuar, e eles não terão forças para avançar nas nossas terras.
Refleti por um momento. O plano de Sam era arriscado, mas sabia que era a melhor chance que tínhamos de não só proteger nosso território, mas também de libertar os civis, incluindo a família de Emmett e Nessie.
— Concordo — disse finalmente, cruzando os braços. — Vamos reunir os clãs. Niflheim vai liderar o ataque.
Emmett respirou fundo, aliviado, mas determinado. Ele sabia que sua luta estava apenas começando.
— Eu lutarei ao lado de vocês — Emmett declarou, com convicção. — Por minha família e por Vindalheim.
Sam assentiu, satisfeito com o comprometimento.
— Então estamos todos de acordo. Preparem seus guerreiros. Asgardheim não sabe o que está por vir.
Enquanto as palavras de Sam ecoavam na minha mente, não pude deixar de pensar em Nessie e em nossos filhos. Essa guerra estava longe de terminar, mas eu estava decidido a enfrentar cada batalha, seja no campo de guerra ou em casa, com ela.
Eu sabia que Kamy estava tendo dificuldades desde que veio morar conosco, mas a paciência estava se esgotando. As desculpas e os comportamentos rebeldes não paravam de surgir, e ela não estava facilitando as coisas para ninguém. Quando ouvi seus gritos vindos de dentro da casa, a irritação tomou conta de mim. Eu já sabia que mais uma vez ela estava descontando suas frustrações em Fay ou Nessie.
Entrei na casa com firmeza e encontrei Kamy de pé, claramente exaltada, enquanto Nessie e Fay pareciam à beira de perder a paciência.
— O que está acontecendo aqui? — perguntei, meu tom firme.
Kamy abriu a boca para tentar se justificar, mas a expressão dela entregava que não havia desculpa real para o que estava fazendo.
— Chega, Kamy — disse, elevando o tom. — Estou farto disso.
Ela recuou um pouco, surpresa com a minha dureza, mas era necessário. Eu sabia que Kiara havia envenenado Kamy com suas mentiras, e mesmo à distância, não permitiria que Kiara continuasse a manipular minha filha.
— Nessie, Fay, me deixem a sós com Kamy — pedi, e ambas assentiram, saindo da casa sem dizer uma palavra.
O silêncio entre mim e Kamy era pesado, mas eu o mantive. Precisava que ela entendesse o peso da situação.
— Kamy, já passou da hora de você entender o que está acontecendo — comecei, cruzando os braços. — O que aconteceu com sua mãe foi reflexo dos atos dela. Você sabe disso. E agora você tem a oportunidade de reconstruir sua vida, longe dos julgamentos e das manipulações dela.
— Eu... me sinto sozinha, pai — ela murmurou, tentando conter as lágrimas.
Eu sabia que aquilo vinha do fundo do coração, mas não podia deixar que a compaixão me cegasse.
— Você não está sozinha — respondi com firmeza. — Você tem irmãos que estão dispostos a amá-la e a serem seus amigos. Josh, Fay... até Jason. Mas você os agride com seu comportamento. E Nessie? Ela quer ser sua amiga, mas você a trata mal, sem motivo. Se continuar assim, Kamy, você vai acabar realmente sozinha, porque entre Renesmee e você, eu escolho Renesmee.
Kamy arregalou os olhos, chocada com minha declaração. A dor em seu rosto era evidente.
— Você não me ama mais? — ela perguntou, a voz quebrada.
Suspirei, fechando os olhos por um momento para controlar a emoção.
— Eu te amo, Kamy — respondi. — Mas não posso aceitar que você se perca desse jeito. Não posso deixar que continue a agir como sua mãe. Estou te pedindo, como seu pai, que repense seus atos. Pense em Jason, no que ele sentiria se você fosse mandada embora também.
Ela ficou em silêncio, encarando o chão, processando o que eu tinha dito.
— Essa é sua última chance, Kamy — avisei, minha voz grave. — Se você não mudar de atitude, se não começar a agir com respeito com Nessie e seus irmãos, não será eu, seu pai, quem vai conversar com você da próxima vez. Será o alpha.
Ela engoliu em seco, visivelmente assustada com a ideia de enfrentar o meu julgamento como alpha por seu comportamento.
— Agora, vá para o seu quarto. E só saia de lá depois de repensar seus atos.
Kamy assentiu em silêncio e subiu as escadas, claramente abalada. Enquanto a observava, torcia para que aquelas palavras tivessem um impacto. Ela precisava mudar, ou perderia muito mais do que sua liberdade.
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