A floresta de Niflheim parecia viva ao meu redor, uma presença antiga e poderosa que me envolvia conforme eu adentrava cada vez mais em sua escuridão. As árvores gigantescas, cujos troncos eram largos como casas, se erguiam em direção ao céu, seus galhos entrelaçados formando um teto de folhas que mal deixava a luz da lua penetrar. O ar era frio e úmido, e eu sentia o cheiro fresco da terra e da vegetação que se espalhava pelo chão como um tapete verdejante.

Os contos antigos diziam que a floresta que dividia os acampamentos dos lobos e das lobas era sagrada, o lar das raízes de Yggdrasil, a árvore que sustentava os nove mundos. Diziam que, se você prestasse bastante atenção, poderia ouvir o pulsar da vida através das raízes sob seus pés, como o coração da terra batendo lentamente. Nunca imaginei que um dia atravessaria essas terras proibidas, mas ali estava eu, avançando sem rumo em meio à escuridão, guiada apenas pelo desejo de escapar.

Eu nunca havia saído de Lysvärn antes, e a vastidão da floresta logo começou a me confundir. Todas as direções pareciam iguais, as árvores imponentes formando um labirinto sem saída. Eu continuava andando, tropeçando em raízes que se erguiam do solo, sentindo o cansaço se acumular em meus músculos e a fome roer meu estômago.

Minhas pernas estavam pesadas, e cada passo se tornava mais difícil do que o anterior. A sensação de estar perdida tomou conta de mim. Olhei ao redor, tentando encontrar algum ponto de referência, mas tudo o que vi foram sombras e árvores que pareciam olhar para mim com desdém.

Finalmente, avistei o som de água corrente à frente e segui em sua direção, a esperança renovada por um breve momento. A clareira se abriu diante de mim, revelando uma cachoeira deslumbrante que caía em cascata sobre as pedras, criando uma piscina límpida abaixo. A visão era quase surreal, como se eu tivesse entrado em um dos contos mágicos que as anciãs contavam nas noites de inverno.

Eu me aproximei da água, exausta e com sede. Ajoelhei-me na beirada da piscina e mergulhei as mãos na água fria, trazendo-a aos lábios e bebendo com avidez. A sensação de frescor foi revigorante, mas o vazio em meu estômago não demorou a me lembrar de que eu precisava de mais do que água.

Olhei ao redor em busca de algo que pudesse comer, e vi uma árvore próxima com frutos pequenos e brilhantes pendendo dos galhos mais baixos. Eu os colhi, hesitante no início, mas o sabor doce e suave que explodiu em minha boca logo me fez devorar mais alguns. Com o estômago finalmente satisfeito, senti o cansaço me dominar.

Olhei ao redor uma última vez antes de me recostar na base de uma árvore próxima. O sono chegou rapidamente, pesado e inevitável, e meus olhos se fecharam antes que eu pudesse lutar contra ele.

***

Um som vindo da floresta me despertou abruptamente. Eu me sentei, o coração disparado, tentando entender o que havia me acordado. O crepitar de folhas secas e o farfalhar das árvores eram diferentes do som natural da floresta, e meu corpo, ainda grogue de sono, instintivamente sabia que eu não estava sozinha.

Levantei-me, o medo correndo por minhas veias como fogo, e corri para me esconder atrás de uma das grandes árvores. Prendi a respiração, os olhos arregalados, enquanto escutava o som se aproximando. Ele parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo, cercando-me.

Foi então que eu os vi.

Passando rapidamente entre as árvores, como vultos na escuridão, os lobos de Niflheim se moviam em silêncio, suas silhuetas poderosas mal visíveis à luz fraca da lua que conseguia atravessar as folhas. Seus olhos brilhavam com uma luz fria e predatória, e eu sabia que, se me encontrassem, não haveria escapatória.

Eu me pressionei contra o tronco da árvore, torcendo para que eles passassem sem notar minha presença. Meu coração batia tão alto que eu temi que eles pudessem ouvi-lo, mas os lobos passaram correndo, suas formas indistintas desaparecendo tão rápido quanto haviam surgido.

Esperei alguns momentos antes de me mover, garantindo que eles realmente haviam ido embora. Quando o silêncio voltou à floresta, soltei a respiração que havia prendido, minhas pernas trêmulas. Eu estava sozinha novamente, mas a sensação de segurança havia desaparecido. A floresta, que antes me parecia mágica, agora parecia cheia de perigos ocultos. Eu sabia que precisava continuar, mas para onde? Eu estava perdida e, pior ainda, estava sendo caçada.

Arrastei-me com cuidado entre a vegetação densa, cada movimento calculado para não alertar os lobos que rodeavam o lugar. O medo me consumia por dentro, mas eu sabia que precisava ser silenciosa. Eles haviam sentido meu cheiro, disso eu tinha certeza. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar pela floresta, mas eu me forçava a continuar, um passo de cada vez.

De repente, senti um calafrio percorrer minha espinha. Um dos lobos estava próximo demais. Parei onde estava, quase prendendo a respiração. Era a primeira vez que via os lobos de Niflheim de tão perto, e a visão era aterrorizante. Eles eram gigantescos, muito maiores do que eu jamais imaginara, suas formas robustas e musculosas se movendo com uma graça assustadora. Sequer se comparavam às lobas do acampamento, que tinham apenas metade do tamanho deles.

O lobo mais próximo de mim levantou a cabeça, suas narinas se alargando enquanto farejava o ar. Eu me encolhi ainda mais, esperando desesperadamente que ele se afastasse. Por um momento, o mundo parecia ter parado ao meu redor, cada som amplificado na minha mente. Finalmente, os lobos começaram a se afastar, e eu soltei um suspiro aliviado, quase inaudível.

Aproveitei a chance para me levantar, meu corpo tenso e pronto para correr a qualquer sinal de perigo. Disparei pela floresta, meus pés mal tocando o chão enquanto eu corria em meio à escuridão, tentando escapar antes que eles voltassem. O frio da noite cortava minha pele, e as sombras das árvores se alongavam, tornando tudo ainda mais surreal.

Mas então, a floresta se fechou ao meu redor. Senti uma presença antes de vê-la, e meu corpo parou instintivamente. Na escuridão à minha frente, uma grande fera surgiu, emergindo das sombras como se fizesse parte delas. Seus olhos brilhavam, fixos em mim, enquanto seus pelos negros balançavam ao ritmo de suas passadas lentas e controladas.

O lobo era enorme, maior do que qualquer outro que eu tivesse visto. Sua presença dominava o espaço ao nosso redor, fazendo o ar parecer mais pesado. Ele rosnou, um som baixo e ameaçador que reverberou em meu peito. Suas presas reluziam sob a luz da lua, afiadas e mortais.

Meus pés estavam enraizados no chão, o medo me paralisando completamente. Eu deveria correr, gritar, fazer qualquer coisa, mas tudo o que conseguia fazer era encarar aqueles olhos brilhantes que agora estavam fixados nos meus. Havia uma inteligência ali, algo que ia além da simples fúria de um predador. Era como se ele estivesse me estudando, avaliando cada movimento, cada respiração que eu dava.

Eu sabia que esse poderia ser meu fim.

Meu corpo tremia incontrolavelmente, os músculos rígidos, incapazes de reagir. A luz da lua cheia iluminava a floresta ao meu redor, as sombras das árvores dançando à medida que a brisa gelada passava. Os outros lobos emergiram das trevas, seus olhos brilhantes refletindo a luz prateada enquanto me cercavam em um círculo apertado. Eu estava presa, no centro da armadilha deles, sem qualquer chance de fuga.

Olhei para frente novamente, mas o grande lobo que me encarava antes havia desaparecido. Meu coração afundou no peito ao perceber que estava completamente capturada. Não havia como lutar, nem como escapar. Completamente exausta, minhas pernas cederam, e eu caí de joelhos no chão, sentindo a terra fria contra minhas mãos.

Frustração e desespero se misturaram dentro de mim, formando um nó apertado em minha garganta. Tentei, sem sucesso, controlar as lágrimas que ameaçavam cair. Se a situação já era difícil antes, agora se tornara um verdadeiro pesadelo. Eu sabia que as guardiãs de Lysvärn não tolerariam minha desobediência. A punição seria severa, e meu destino, incerto.

Foi então que ouvi passos suaves, quebrando o silêncio opressivo da floresta. Levantei a cabeça, meu olhar buscando a fonte do som. Ali, à minha frente, estava um homem. A lua iluminava seus traços fortes e o brilho intenso em seus olhos. Era ele, o lobo que havia me encontrado. De alguma forma, eu sabia que ele era o líder, o Alpha.

Ele se aproximou lentamente, seus movimentos controlados e seguros. Meu coração disparou, e o medo se misturou a uma estranha curiosidade. Sem dizer uma palavra, ele estendeu a mão para mim, o gesto inesperadamente gentil em meio àquela situação assustadora. Um sorriso suave curvou seus lábios enquanto ele oferecia ajuda para que eu me levantasse.

— Está tudo bem? — perguntou ele, a voz grave e reconfortante, contrastando com o terror que eu havia sentido momentos antes.

Fiquei imóvel por alguns segundos, tentando processar o que estava acontecendo. Sua mão estava ali, estendida, esperando que eu a aceitasse. Senti um turbilhão de emoções, e, por um instante, quase esqueci do perigo que me cercava. Mas a dúvida me consumia. Ele era realmente uma ameaça, ou havia algo mais por trás de sua aparência feroz?

Finalmente, com um suspiro trêmulo, levantei a mão e a coloquei na dele. O toque era firme, mas suave, e ele me puxou de volta para meus pés com facilidade. Seus olhos não deixaram os meus, e por um breve momento, o mundo ao nosso redor pareceu desaparecer. Era como se estivéssemos sozinhos naquela clareira, apenas eu e ele.

— Quem é você? — perguntei, minha voz saindo mais fraca do que eu gostaria.

O sorriso dele se alargou um pouco mais, mas seus olhos mantiveram uma intensidade que me deixou sem fôlego.

— Meu nome é Jacob — respondeu ele, sem desviar o olhar. — E eu sou o Alpha desta matilha.

A simples menção de sua posição fez um arrepio percorrer minha espinha. Ele era o líder dos lobos, o mais poderoso entre eles. E agora, eu estava em suas mãos.