Os Filhos de Fenrir
7 Nessie- Ensinamentos
Acordei com um leve sobressalto, ainda desorientada pelo cansaço e pelas lembranças nebulosas da noite anterior. O calor das cobertas e o ambiente familiar do meu quarto no acampamento de Lysvärn contrastavam com a sensação de velocidade e o vento gelado que eu havia experimentado enquanto corria pela floresta montada em Jacob. A presença confortável da minha cama me confundiu. Como eu havia chegado ali?
Sentei-me lentamente, meus pensamentos se reorganizando enquanto a clareza retornava aos poucos. O quarto estava vazio, e eu me perguntei onde estavam as outras garotas. Levantei-me, sentindo minhas pernas um pouco fracas, e caminhei para fora da tenda. O acampamento estava movimentado como de costume, com as outras garotas indo e vindo, envolvidas em suas tarefas diárias.
Minha atenção foi imediatamente atraída por Claire, que, ao me ver, correu em minha direção, a preocupação evidente em seus olhos.
— Que bom que acordou, Nessie — disse ela, sem fôlego. — Eu fiquei preocupada quando vi você sendo trazida desacordada.
Sorri, tentando acalmá-la, embora ainda estivesse processando tudo que havia acontecido.
— Eu estou bem, eu acho — respondi, minha voz soando um pouco hesitante até para mim mesma.
Claire olhou para mim com uma mistura de alívio e curiosidade.
— Você foi trazida por um lobo, Nessie. Não se fala em outra coisa no acampamento.
O calor subiu ao meu rosto, e senti a vergonha me invadir. Odiava ser o centro das atenções, especialmente em situações como essa, onde a exposição era inevitável.
— Sim, os lobos me encontraram — admiti, minha voz baixa.
Claire me olhou com preocupação genuína.
— Mas por que você fugiu, Nessie?
Olhei ao redor, certificando-me de que ninguém mais estivesse ouvindo, antes de responder.
— Você sabe que eu não consigo me transformar, Claire. Isso... isso me assusta.
Claire abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, fomos interrompidas por Martha e Sarah, que se aproximaram de nós, cumprimentando-nos com sorrisos.
— Bom dia! — disse Martha, com seu típico entusiasmo. Ela então se virou para Claire. — Você precisa se unir às demais garotas para o teste de aptidão.
Claire assentiu rapidamente e, depois de lançar um olhar preocupado para mim, correu na direção das outras, deixando-me sozinha com Martha e Sarah.
Eu comecei a me afastar, pensando que também deveria me unir às outras, mas Martha me deteve com um olhar sério.
— Você não participará do teste, Nessie.
Confusa, franzi as sobrancelhas, tentando entender o motivo.
— Por quê? — perguntei, a incerteza tomando conta de mim.
Sarah, que estava observando tudo em silêncio, fez um gesto para que eu a seguisse.
— Venha comigo, Nessie.
Soltei um suspiro profundo, esperando pelo pior, e segui Sarah em silêncio enquanto ela me guiava pelo acampamento. À medida que nos afastávamos das outras garotas, uma sensação de desconforto começou a crescer dentro de mim.
— Nessie — começou Sarah, quebrando o silêncio —, você sabe a importância de uma beta para um alpha?
Refleti por um momento, lembrando-me das histórias e lições que nos eram ensinadas.
— Sei que a beta é a conselheira e a companheira do alpha. Ela ajuda a liderar e a tomar decisões, e deve ser alguém em quem o alpha confie plenamente. Ela é, de certa forma, a segunda em comando, mas com uma responsabilidade ainda maior, porque influencia diretamente as outras mulheres do grupo.
Sarah sorriu levemente, aprovando minha resposta.
— Exatamente. A escolhida pelo alpha deve ser uma mulher obediente e exemplar, pois todas as demais irão segui-la. O mesmo poder que o alpha tem sobre os lobos, a beta tem sobre as escolhidas dos lobos.
Continuamos andando, e percebi que estávamos nos afastando cada vez mais do acampamento principal. O desconforto dentro de mim crescia a cada passo. Quando avistei a tenda das betas ao longe, meu coração disparou.
Olhei para Sarah, surpresa, tentando entender por que estávamos indo naquela direção.
— Por que você está me levando para lá? Eu... eu estou sendo punida? — perguntei, o nervosismo evidente em minha voz.
Sarah parou e se virou para mim, seus olhos suaves, mas firmes.
— Acalme seu coração, minha criança — disse ela com um sorriso tranquilo. — Você não está sendo punida. Apenas terá um treinamento especial nos próximos dois dias.
Assenti lentamente, ainda incerta sobre o que esperar. Mas, ao mesmo tempo, senti um pequeno alívio ao perceber que, apesar dos desafios, não estava sozinha nessa jornada. Sarah me guiaria, e de alguma forma, isso me dava forças para enfrentar o que estava por vir.
A tenda das betas era diferente de todas as outras que eu havia visto no acampamento. Era maior, com um tecido mais grosso e reforçado, decorado com padrões intricados que pareciam antigos, quase como se contassem uma história. As cores eram mais escuras, em tons de azul profundo e verde floresta, contrastando com as tendas mais simples das outras garotas.
Ao entrar, fui surpreendida pela riqueza de detalhes. O interior era iluminado por pequenas lâmpadas de óleo, que emitiam uma luz suave e reconfortante. No centro, havia uma mesa de madeira rústica, coberta por mapas e pergaminhos antigos. Tapetes macios cobriam o chão, abafando o som dos nossos passos, e nas paredes, pendiam tapeçarias que representavam cenas de batalhas e alianças antigas entre alphas e suas betas.
Sarah me conduziu até um quarto privado, separado do restante da tenda por uma pesada cortina de veludo. Quando ela a puxou, revelando o interior, não pude deixar de sentir um certo espanto.
O quarto era simples, mas ao mesmo tempo acolhedor. Havia uma cama grande, com um colchão que parecia incrivelmente macio, coberto por cobertores grossos e uma colcha de um azul escuro, quase negro. No canto, uma pequena mesa de madeira escura, com uma cadeira esculpida à mão. Uma vela em um castiçal de prata estava acesa sobre a mesa, sua chama tremeluzente projetando sombras dançantes nas paredes de tecido. Um baú antigo, feito de madeira polida e com detalhes em ferro, estava encostado ao pé da cama.
Sarah abriu o baú, revelando uma variedade de roupas dobradas cuidadosamente. Havia túnicas em tons neutros, calças de couro macio e botas resistentes, todas claramente feitas para resistir ao ambiente severo do acampamento.
— Escolha algo confortável — disse Sarah, puxando uma túnica cinza e uma calça de couro marrom claro do baú e entregando-as a mim. — Em uma hora, virei buscá-la. Prepare-se.
Assenti, observando-a sair do quarto e deixando-me sozinha. Suspirei, sentindo o peso da incerteza pressionar meu peito enquanto tentava entender o que estava acontecendo.
Eu havia fugido e agora estava sendo... recompensada? Não fazia sentido. Desde quando uma deserção era tratada com tanto cuidado e consideração?
Coloquei as roupas sobre a cama e me sentei, sentindo o tecido macio sob mim. Estiquei-me, deitando lentamente, enquanto meus pensamentos corriam desordenados. O colchão cedeu sob meu peso, me abraçando com um conforto inesperado. Fechei os olhos por um instante, tentando ordenar os pensamentos.
— O que está acontecendo? — murmurei para mim mesma, com as mãos repousando sobre minha barriga, sentindo o leve subir e descer da minha respiração. Sorri involuntariamente, embora o nervosismo ainda estivesse presente.
Estava em um lugar que não compreendia, recebendo um tratamento que não conseguia justificar. Algo maior estava acontecendo, algo que eu ainda não conseguia ver claramente. Mas naquele momento, deitada na cama confortável e com o som distante das outras garotas se preparando para seus testes, senti uma estranha calma me envolver.
Eu não sabia o que o futuro me reservava, mas estava pronta para descobrir.
Vesti a roupa escolhida por Sarah e me aproximei do espelho, observando o reflexo que me devolvia o olhar. A túnica cinza caía perfeitamente sobre meu corpo, e as calças de couro marrom claro moldavam-se às minhas pernas como uma segunda pele. Pela primeira vez, senti que aquelas roupas eram verdadeiramente minhas, e isso trouxe uma sensação inesperada de felicidade. Crescendo sem pais, sempre usei as roupas que ganhava de outras garotas, principalmente de Claire. Mas agora, ali estava eu, com algo que era só meu.
Sorri ao ver o reflexo no espelho, sentindo uma pontada de orgulho. No entanto, meus pensamentos foram interrompidos quando Sarah entrou no quarto. Ela ficou em silêncio por um momento, me observando atentamente, como se estivesse avaliando cada detalhe.
— Você está linda — disse ela, finalmente, com um leve sorriso nos lábios.
Senti meu rosto esquentar e sorri de volta.
— Obrigada pelas roupas, Sarah.
Ela assentiu, mas seu olhar ficou mais sério.
— Em dois dias, você terá seu destino cumprido, Nessie. Eu tenho a obrigação de transformá-la na melhor entre todas.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo o que ela disse. Meu destino? Não conseguia entender completamente o que aquilo significava, mas a seriedade de Sarah me fazia acreditar que era algo de grande importância.
— Como você sabe que me escolherão? — perguntei, sentindo a dúvida e a incerteza crescerem dentro de mim.
Sarah me olhou com uma confiança inabalável e respondeu simplesmente:
— Confie em mim, criança.
Suspirei, tentando acalmar meus pensamentos confusos, e ela fez um gesto para que eu a acompanhasse. Caminhamos lado a lado pela grande tenda até sairmos para um jardim encantador. Uma pequena cachoeira fluía suavemente, o som da água caindo trazendo uma sensação de paz e tranquilidade. Não pude deixar de sorrir ao ver o cenário, e Sarah me convidou a sentar ao lado dela.
— Venha, sente-se comigo — disse ela, apontando para um banco de pedra ao lado da cachoeira.
Assenti e me sentei ao lado dela, ainda maravilhada com a beleza do lugar. Sarah me observou por um momento antes de fazer a pergunta que parecia ter ensaiado em sua mente.
— Você sabe o que acontece entre o lobo e sua escolhida na segunda noite da lua nova, após a bênção de Ephraim?
Olhei para ela, confusa, e balancei a cabeça.
— Não, não sei.
Sarah suspirou levemente, como se já esperasse por essa resposta.
— Eu imaginava que não. — Ela começou a falar com uma voz suave, mas firme. — Quando um lobo e sua escolhida recebem a bênção de Ephraim, eles estão ligados de maneira profunda e espiritual. Na segunda noite da lua nova, essa conexão se fortalece através da intimidade. — Ela fez uma pausa, escolhendo cuidadosamente suas palavras. — Nessie, esse é o momento em que vocês consumam a união. Vocês se tornam um só, em corpo e espírito, e é o primeiro passo para conceber o primogênito, aquele que herdará a força e as qualidades do alpha.
Senti meu rosto queimar de vergonha ao entender o que ela estava dizendo. Relações íntimas. Era disso que ela estava falando, e a simples ideia me deixava sem reação.
— Como eu... Como vou fazer isso? — gaguejei, sentindo meu coração disparar. — Não saberei o que fazer...
Sarah riu suavemente, me olhando com carinho.
— Não se preocupe, querida. — Ela colocou uma mão reconfortante sobre a minha. — A única coisa que você precisa fazer é confiar no seu parceiro. Ele saberá guiá-la, e você só precisará fazer o que ele pedir. Nesse dia, vocês terão a primeira chance de conceber o primogênito, e tudo acontecerá de forma natural.
Eu queria acreditar nas palavras dela, queria encontrar conforto na sua confiança, mas ainda me sentia perdida. Não sabia como aquilo tudo funcionava, nem se estaria pronta quando o momento chegasse. Porém, uma coisa era clara: o destino que Sarah mencionava parecia ser algo muito maior do que eu jamais havia imaginado.
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