Os Filhos de Fenrir

8 Nessie- A última noite


Os dois dias que se seguiram foram intensos, mais do que eu jamais poderia ter imaginado. Sarah estava determinada a me preparar, e desde o amanhecer até o anoitecer, eu estava sob sua tutela, aprendendo tudo o que ela acreditava que uma futura beta deveria saber.

Logo no primeiro dia, ela me levou até uma clareira escondida dentro da floresta, um lugar afastado do acampamento onde poderíamos treinar sem sermos interrompidas. A clareira era cercada por árvores altas, e o chão era coberto por uma fina camada de musgo macio. Era o lugar perfeito para o que Sarah tinha em mente.

— Aqui, Nessie, você aprenderá a se conectar com seu lobo interior, mesmo que ainda não possa se transformar — disse ela, sua voz calma, mas firme e eu fiquei parada sem esboçar nenhuma reação, Sarah sabia que eu nao conseguia, mas como ela havia descoberto?— Você precisa entender a força que habita dentro de você, e isso começa com o controle da respiração e dos pensamentos.

Ela me ensinou técnicas de meditação, maneiras de acalmar minha mente e focar em minha energia interior. No início, parecia impossível. Eu estava nervosa, minha mente era um turbilhão de pensamentos e preocupações. Eu não conseguia me concentrar, e minha respiração ficava cada vez mais acelerada, frustrando meus esforços.

— Respire fundo, Nessie — Sarah me instruía pacientemente. — Sinta o ar entrando em seus pulmões, sinta sua presença aqui, agora.

Tentei seguir suas instruções, mas minha mente vagava para longe, e logo me pegava pensando no que os outros estariam fazendo, ou se estavam falando de mim no acampamento. Sarah, no entanto, era incansável em sua paciência. Toda vez que eu perdia o foco, ela me trazia de volta, me lembrando de que estava ali para aprender a dominar minha própria energia.

Finalmente, depois de várias tentativas, algo começou a mudar. Consegui acalmar meus pensamentos o suficiente para sentir uma leve pulsação em meu interior, como se uma pequena faísca de energia estivesse despertando dentro de mim. Não era muito, mas era um começo.

— Isso é o que você deve buscar, essa conexão com seu lobo — disse Sarah, sorrindo ao perceber meu progresso. — Continue praticando. A cada vez que tentar, ficará mais fácil.

No segundo dia, Sarah mudou o foco do treinamento. Ela me ensinou sobre as responsabilidades e a influência que uma beta tem sobre as outras fêmeas da alcateia. Aprendi que, como beta, minha postura, minhas palavras e até meus gestos seriam observados e imitados por todas.

— Você deve ser um exemplo, Nessie — disse Sarah enquanto caminhávamos pela floresta. — Tudo o que você faz, as outras farão. Se você demonstrar força, elas se sentirão fortes. Se você mostrar fraqueza, elas também vacilarão.

Ela me fez praticar minha postura e minha maneira de falar. Ensaiamos diferentes situações em que eu teria que tomar decisões ou acalmar conflitos entre as outras. Sarah simulava ser uma das lobas, agindo de forma desafiadora ou confusa, e eu tinha que lidar com isso da melhor maneira possível.

Em uma dessas simulações, ela fingiu estar furiosa, quase à beira de um ataque. Minha primeira reação foi tentar acalmá-la com palavras suaves, mas Sarah me interrompeu, dizendo:

— Não, Nessie! Não hesite. Como beta, você precisa mostrar firmeza e segurança. Se precisar dar uma ordem, faça isso sem medo.

Respirei fundo e tentei novamente, mas dessa vez, minha voz tremeu, e Sarah balançou a cabeça, desapontada.

— Tente novamente — insistiu ela. — Sem medo.

Depois de várias tentativas, finalmente consegui falar com a firmeza que Sarah queria ver. Ela sorriu, satisfeita, e disse que eu estava começando a entender.

Esses dois dias foram exaustivos. Meu corpo estava cansado, minha mente, sobrecarregada. Havia momentos em que eu pensava em desistir, em voltar correndo para a segurança da minha antiga vida, onde nada disso existia. Mas então me lembrava das palavras de Sarah, da confiança que ela tinha em mim, e isso me dava forças para continuar.

Na última noite, antes de nos separarmos, Sarah me chamou para um último exercício.

— Agora, Nessie, quero que você me mostre o que aprendeu sobre controle da mente — disse ela, apontando para um pequeno riacho que corria ali perto. — Use tudo o que praticamos e tente mover a água, mesmo que apenas um pouco.

Me posicionei à beira do riacho, sentindo o cansaço pesar sobre meus ombros. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me conectar com aquela faísca de energia que havia sentido no primeiro dia. A água fluía suavemente, como se estivesse me desafiando a fazer algo impossível. Concentrei toda a minha atenção no som da água, na sua fluidez, e tentei imaginar como seria movê-la.

Por um longo momento, nada aconteceu. O silêncio da floresta parecia zombar de mim, mas então, senti uma leve mudança. A água balançou, quase imperceptivelmente, mas o suficiente para que Sarah notasse.

— Você conseguiu — disse ela, e havia um tom de orgulho em sua voz que aqueceu meu coração.

Era apenas um pequeno movimento, quase nada, mas para mim, era um enorme passo. Sarah se aproximou e colocou a mão no meu ombro.

— Amanhã, seu treinamento terá terminado, mas o que você aprendeu aqui, Nessie, isso levará para toda a vida.

Assenti, ainda absorvendo tudo o que havia acontecido nesses dois dias. Errei muito, mas também acertei. Aprendi coisas sobre mim mesma que nunca imaginei que existissem. E agora, estava mais próxima do meu destino, seja ele qual fosse.

O último dia de treinamento começou cedo, como todos os outros, mas dessa vez havia uma leveza no ar, como se algo importante estivesse prestes a acontecer. Sarah me acordou com um sorriso suave, me dizendo que o dia seria um pouco diferente.

— Hoje, Nessie, vamos trabalhar em algo essencial para a vida que você terá em breve — disse ela enquanto caminhávamos juntas para a cozinha na tenda das betas. — Cuidar de uma casa e preparar refeições saborosas não é apenas uma tarefa cotidiana; é uma forma de mostrar carinho e criar um lar acolhedor.

Ela me ensinou a preparar alguns pratos tradicionais, explicando cada passo com paciência. Começamos com um ensopado simples, mas muito saboroso. Sarah me mostrou como cortar os vegetais de maneira uniforme, como temperar a carne para que ficasse macia e suculenta, e como ajustar os temperos para equilibrar os sabores.

— Lembre-se, Nessie, a comida que você prepara é uma extensão de quem você é. Quando cozinhar para alguém, coloque seu coração nisso — ela disse, sorrindo enquanto mexia a panela. — É uma maneira de mostrar amor, cuidado e respeito.

Eu tentei seguir suas instruções, mas logo cometi um erro, colocando sal demais no ensopado. Sarah riu e me tranquilizou.

— Acontece com todo mundo, Nessie. É por isso que precisamos provar a comida enquanto cozinhamos. Vamos consertar isso juntas.

Corrigimos o erro adicionando mais água e alguns ingredientes extras, e no final, o ensopado ficou delicioso. Depois, ela me ensinou a fazer um pão simples, mas macio, que acompanharia o ensopado. Amassar a massa era mais difícil do que parecia, e no início, eu não conseguia acertar a textura.

— Coloque mais força, mas não tanta — instruiu Sarah, guiando minhas mãos com as dela. — Você vai sentir quando estiver certo.

Foi preciso prática, mas eventualmente consegui amassar a massa de forma adequada, e logo o pão estava no forno, dourando e enchendo a cozinha com um aroma reconfortante.

— Agora, você está pronta para criar um lar que seja um refúgio, um lugar onde quem entrar se sentirá amado — disse Sarah enquanto tirava o pão do forno e me deixava sentir o aroma.

No final do dia, Sarah apareceu com um vestido azul de um tom profundo, quase da cor do céu ao entardecer, e uma coroa de flores frescas. Ela me entregou o vestido com um sorriso.

— Vista isso, Nessie. Esta noite é especial, e você também é.

Assenti e fui me trocar. O vestido era lindo, mais bonito do que qualquer outra coisa que eu já havia usado. Ao me olhar no espelho, senti uma pontada de orgulho. Pela primeira vez, eu estava vestindo algo que me fazia sentir especial. Quando Sarah voltou, seus olhos brilharam ao me ver.

— Você está deslumbrante — disse ela, colocando a coroa de flores em minha cabeça com cuidado. — Lembre-se do que aprendeu nesses dias. Tudo tem um propósito, e você está prestes a descobrir o seu.

Saímos juntas da tenda das betas e caminhamos de volta para o acampamento de Lysvärn. O lugar estava transformado. As garotas estavam todas trajando vestidos brancos, movendo-se pelo espaço com nervosismo e expectativa. Quando me juntei a elas, senti os olhares curiosos e as risadinhas abafadas.

Leah, sempre provocativa, não perdeu tempo.

— O seu vestido é diferente, Nessie. Talvez para destacar que você é uma mestiça?

As demais riram, mas eu a encarei com firmeza e respondi, mantendo a voz firme.

— Ou talvez para mostrar que sou alguém especial.

Leah soltou uma risada curta, como se tivesse ouvido uma piada.

— É uma piada — comentou ela, ainda rindo.

Claire, que estava por perto, me lançou um olhar de apoio e sussurrou:

— Gostei da resposta, Nessie.

Antes que eu pudesse responder, Marta, uma das líderes, fez o anúncio. Ela subiu em uma pequena plataforma e todas nós nos viramos para ouvi-la.

— Garotas, chegou o momento tão esperado — começou ela, sua voz ecoando por todo o acampamento. — Esta noite, os lobos escolherão suas companheiras. Aquelas que forem escolhidas terão a honra de compartilhar suas vidas com eles, de ser parte da alcateia de uma maneira que poucos entendem. Quem não for escolhida retornará a Lysvärn e terá a chance de ser escolhida no próximo ano. Mas lembrem-se, cada uma de vocês tem um papel importante, escolhida ou não.

As palavras de Marta pairaram no ar, carregadas de significado. Leah se virou para mim com um sorriso malicioso.

— Espero que goste de mais um ano em Lysvärn, Nessie.

Sacudi a cabeça, ignorando-a, mas por dentro, eu sentia uma mistura de ansiedade e esperança.

— Está na hora de partir — disse Sarah, aparecendo ao meu lado e colocando uma mão reconfortante em meu ombro.

Ela pediu que todas entrassem nas carruagens, e obedecemos sem questionar. Enquanto me acomodava em meu assento, meu coração batia acelerado, e eu tentava não pensar demais no que a noite traria. O que quer que estivesse para acontecer, eu sabia que estava tão preparada quanto poderia estar, graças a Sarah e ao treinamento que havia recebido.