Os Filhos de Fenrir

4 Nessie- A reunião


As jovens começaram a se dispersar, indo em direção às suas cabanas, mas eu permaneci em silêncio, caminhando entre elas com a cabeça baixa, tentando evitar qualquer olhar que pudesse ser lançado na minha direção. Eu estava tão absorta em meus próprios pensamentos que quase não percebi quando Leah, uma das lobas mais respeitadas entre as jovens, apareceu diante de mim, bloqueando meu caminho.

— Então, a sangue ruim vai mesmo ao acampamento dos lobos? — Leah zombou, com um sorriso cruel no rosto.

Antes que eu pudesse responder, Claire se adiantou, com os olhos faiscando de raiva.

— Deixe-a em paz, Leah! Ou eu vou chamar minha tia Marta.

Leah não se deixou intimidar, cruzando os braços com um sorriso sarcástico.

— Vá em frente, Claire. Eu não tenho medo. Mas você deveria se preocupar com a sua amiga. Ela sabe que não pertence a esse lugar. Quem, em sã consciência, vai querer uma beta com o sangue manchado por Odin?

As palavras de Leah me atingiram como uma lâmina, cortando fundo na minha alma. Baixei a cabeça, sentindo o aperto familiar no peito, e segurei o braço de Claire, impedindo-a de avançar.

— Deixa, Claire. Não vale a pena. — murmurei, sem encará-la.

Claire hesitou, mas cedeu ao meu toque. Leah deu uma última risada cruel antes de se afastar, satisfeita por ter cumprido seu objetivo.

Eu não disse mais nada, apenas me afastei dali, dando passos largos, querendo deixar para trás o peso daquela noite. Caminhei por entre as árvores, seguindo o caminho que eu já conhecia tão bem, até chegar à cachoeira. O som da água caindo sempre me acalmava, me trazendo uma sensação de paz em meio ao caos que era a minha vida. Parei diante da cachoeira, os olhos embargados de lágrimas, e olhei para o céu estrelado, onde eu sempre imaginava que meus pais me observavam.

— Mãe... pai... — comecei, com a voz trêmula. — Eu não sei o que fazer. — As lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto, mas eu continuei. — Eu tento ser forte, tento me encaixar, mas é tão difícil... Eu sinto como se nunca fosse suficiente, como se nunca fosse ser aceita de verdade. Eles me chamam de sangue ruim... e talvez eles tenham razão. Talvez eu não pertença a este lugar. Talvez eu nunca vá pertencer a lugar nenhum. — Solucei, apertando os punhos. — Eu queria tanto que vocês estivessem aqui. Eu queria saber o que fazer, como enfrentar isso tudo. Mas, às vezes, eu só quero... fugir. Fugir de tudo isso. Será que vocês me ouviriam, se eu fizesse isso? Será que vocês ainda estariam orgulhosos de mim?

Eu sabia que não haveria resposta, mas a dor em meu peito diminuiu um pouco ao desabafar com as estrelas, como eu sempre fazia. O silêncio ao meu redor era confortável, até que ouvi um movimento suave atrás de mim. Virei-me devagar e vi Sarah, com seu sorriso gentil, me observando com olhos ternos. Ela havia escutado tudo, e mesmo assim, não havia nenhum julgamento em sua expressão.

— Nessie, minha querida... — Sarah começou, sua voz era doce, como o som de uma melodia antiga. Ela se aproximou de mim e colocou uma mão reconfortante no meu ombro. — Eu entendo que você esteja assustada, e não há vergonha nisso. Você carrega um fardo que nenhuma de nós pode compreender completamente. Mas quero que saiba que você é muito mais forte do que imagina.

Eu tentei desviar o olhar, envergonhada, mas Sarah me fez olhar para ela, seus olhos fixos nos meus.

— Eu vejo em você a coragem de sua mãe e a determinação de seu pai. Eles te amaram tanto, Nessie. E é por isso que você está aqui hoje. Eles te deram a chance de lutar, de mostrar quem você é. Não importa o que os outros digam ou pensem. O que importa é como você se vê. E eu vejo uma jovem loba que ainda tem muito a mostrar para este mundo. — Ela sorriu, e foi como se uma brisa suave tivesse soprado minhas preocupações para longe. — Não deixe que o medo ou as palavras cruéis de outros apaguem a luz que brilha dentro de você. Você tem um propósito, Nessie. E quando a hora certa chegar, você saberá exatamente o que fazer. E lembre-se, você nunca está sozinha. Não enquanto tiver pessoas que se importam com você.

As palavras de Sarah penetraram fundo em meu coração, aquecendo-me de uma forma que eu não sentia há muito tempo. Eu me permiti sorrir, mesmo que apenas um pouco, e a abracei, sentindo a segurança que sua presença me trazia.

— Obrigada, Sarah. — murmurei, minha voz embargada pela emoção.

Ela me abraçou de volta, e por um momento, todo o peso do mundo pareceu se dissipar, deixando apenas a certeza de que, de alguma forma, eu encontraria meu caminho. Eu só precisava acreditar.

Caminhei de volta para a clareira ao lado de Sarah, tentando organizar os pensamentos e acalmar o turbilhão que se agitava dentro de mim. Ao me aproximar do círculo de jovens, vi Claire acenando para mim com um sorriso de alívio. Eu me coloquei novamente ao seu lado, tentando parecer tranquila, embora meu coração ainda estivesse inquieto.

— Você está bem, Nessie? — Claire sussurrou, olhando para mim com preocupação.

Assenti com um leve sorriso, tentando afastar o medo que ameaçava tomar conta.

— Estou, sim. — Respondi, embora a incerteza ainda se alojasse fundo em meu peito.

Antes que Claire pudesse perguntar mais alguma coisa, Sarah deu um passo à frente e chamou a atenção de todas.

— Tenho um último aviso para dar antes que vocês retornem às suas tendas. — Sua voz ecoou pela clareira, exigindo nossa total atenção. — Amanhã cedo, todas deverão se reunir aqui para o teste de aptidão. Cada uma de vocês mostrará seus dons e habilidades. E, como sabem, será o momento de assumirem sua forma de loba.

Um arrepio percorreu minha espinha, fazendo meu corpo enrijecer. Senti meu coração bater mais rápido, e um nó se formar na minha garganta. Eu tinha um grande problema, e sabia que não podia mais fugir dele. A verdade era que eu não conseguia me transformar. Desde o momento em que todos os jovens lobos começam a treinar suas habilidades, eu sempre falhava. Eu era diferente. Se já era maltratada por causa do meu sangue, o que seria de mim quando descobrissem que eu não podia tomar a forma lupina?

Sarah encerrou o aviso com firmeza, lançando um olhar significativo para todas nós.

— Agora, retornem às suas tendas e descansem. Amanhã será um dia crucial para cada uma de vocês.

O murmúrio de vozes começou a preencher a clareira, e todas começaram a se dispersar. Eu caminhei em silêncio ao lado de Claire, sentindo o peso do meu segredo crescendo dentro de mim. Entramos juntas na tenda, e ela rapidamente começou a falar sobre seu nervosismo em relação ao último treinamento.

— Eu ainda estou me recuperando daquele exercício com os alvos móveis... quase perdi a noção de tudo! — Claire riu, mas havia uma ponta de ansiedade em sua voz. — Mas estou ansiosa para conhecer o acampamento dos lobos. Dizem que é incrível!

Eu sorri timidamente, tentando disfarçar a angústia que se acumulava dentro de mim. Deitei-me em minha cama, ouvindo Claire continuar a falar. Sua voz foi diminuindo aos poucos, até que o silêncio finalmente tomou conta da tenda. Olhei para o lado e percebi que ela havia adormecido.

Suspirei, sentindo o peso da decisão que sabia que precisava tomar. Se eu não podia me transformar, o que restava para mim? Eu não suportaria a humilhação de ser exposta diante de todas. Talvez fosse a hora de seguir meu próprio caminho, longe de tudo isso, de todos eles.

Levantei-me silenciosamente, tomando cuidado para não acordar Claire. Arrumei algumas poucas coisas em uma pequena bolsa, e saí da tenda sem fazer barulho. O acampamento estava mergulhado em silêncio, e a lua brilhava intensamente no céu, iluminando meu caminho.

Dei um último suspiro profundo, tentando reunir a coragem que restava, e comecei a caminhar, deixando o acampamento para trás e entrando na floresta. As árvores me envolviam em uma escuridão reconfortante, e eu segui em frente, sem olhar para trás, em direção ao desconhecido.