Os Filhos de Fenrir
28 Jacob- Sacrifício
Eu acariciava suavemente as costas de Nessie enquanto ela permanecia aconchegada em meu peito, sua respiração ritmada e quente contra minha pele. O vento entrava pela janela aberta, balançando as cortinas, criando uma atmosfera calma, quase melancólica. Beijei seus cabelos, tentando trazer algum conforto, mesmo que apenas por um momento.
O silêncio foi quebrado por sua voz baixa e hesitante:
— Eu não posso te dar filhos, Jacob... — ela murmurou, suas palavras carregadas de dor. — Não quero mais tentar.
Fechei os olhos por um momento, suspirando, enquanto continuava a acariciá-la. Eu já sabia que esse pensamento a consumia, mas ouvir suas palavras em voz alta me atingiu de forma diferente.
— Não pense mais nisso, amor — pedi, tentando manter a calma em minha voz. Mas eu sabia que, por mais que dissesse isso, era algo que pesava nela de maneira insuportável.
— Todos já perceberam — ela continuou, levantando a cabeça para me olhar. — Todos sabem que eu não posso te dar um herdeiro...
Suspirei profundamente, apertando-a um pouco mais contra mim.
— Eu te amo, Nessie. Nada disso muda isso. Nunca vai mudar.
— Eu sei... — respondeu ela, mas havia uma hesitação. Um medo. — Mas... você vai me deixar, Jacob? Eu conheço as leis. Sei que, se não puder te dar filhos, eles vão exigir que você escolha outra. Mas eu não quero pertencer a nenhum outro homem...
Minha mente girava. Eu sabia que as leis ditavam que o Alpha precisava ter herdeiros. E que, se a Beta não pudesse cumprir essa função, ele seria forçado a tomar outra mulher. Mas nada, absolutamente nada, me faria abandonar Nessie.
— Isso não vai acontecer — assegurei, segurando seu rosto com cuidado para que ela olhasse bem nos meus olhos. — Você conhece a lenda de Luna?
Ela balançou a cabeça, confusa.
— Não... nunca ouvi falar.
— Então vou te contar — comecei, meus dedos ainda acariciando seus cabelos. — A história diz que Fenrir, o Deus dos Lobos, uma vez teve um imprinting com uma das mulheres mais lindas de Niflheim. O nome dela era Sigrid. Ela era desejada por todos os homens, a mais cobiçada da tribo. Mas Fenrir... ele a escolheu. O lobo dele a marcou, e ela se tornou sua Beta. Eles passaram anos tentando ter filhos, mas Sigrid nunca conseguiu engravidar.
Nessie me observava atentamente, absorvendo cada palavra.
— E então, depois de muito tempo, Fenrir foi obrigado a escolher outra mulher para lhe dar descendentes — continuei. — Ele escolheu uma mulher forte, descendente de uma linhagem poderosa. Seu nome era Astrid. Ela se tornou a nova Beta, aquela que poderia dar filhos a Fenrir. Mas... — olhei para Nessie com firmeza — Fenrir nunca abandonou Sigrid. Ela era o imprinting dele, a escolhida do seu coração. Então, ele a nomeou sua Luna, a dona da sua vida e de seu amor.
Nessie piscou, tentando processar o significado da história.
— Ninguém na tribo estava acima de Luna. Nem mesmo a Beta, que deu descendentes a Fenrir. Luna era a verdadeira dona do coração do Deus dos Lobos. E Fenrir fez um acordo com Sigrid. Ele a levou para um lugar especial, longe da tribo, onde viveram juntos. Ele só deixava esse lugar em noites de lua nova para ver sua Beta e gerar frutos com ela. Mas Sigrid... ela sempre foi a primeira. A única.
Nessie permanecia em silêncio, mas havia algo novo em seus olhos, uma compreensão. Eu apertei sua mão entre as minhas e continuei:
— Você é minha Luna, Nessie. Isso nunca vai mudar. Mesmo que as leis me obriguem a tomar outra Beta para continuar nossa linhagem... você é a única que eu amo. A única a quem pertenço. Nada nem ninguém pode mudar isso.
Ela se aninhou novamente em meu peito, suas lágrimas silenciosas molhando minha pele.
— Eu só quero você, Jacob... — ela murmurou, a voz embargada.
— E você me tem, para sempre — respondi, beijando o topo de sua cabeça. — Não importa o que o futuro traga.
Na manhã seguinte, minha decisão já estava tomada. Quando acordei, Nessie ainda dormia ao meu lado, seu corpo frágil e encolhido sob os lençóis. Toquei suavemente seu rosto e, de imediato, senti o que não queria admitir: sua pele estava pálida, quase sem cor, e quente ao toque. Um calor anormal. Um frio percorreu minha espinha. Ela estava doente.
A preocupação me dominou de imediato, e eu sabia que não poderia perder tempo. Vesti-me rapidamente e saí de casa, procurando minha mãe, Sarah. Ao encontrá-la na clareira ao lado da casa, minha voz saiu urgente:
— Preciso de uma curandeira. Agora.
Sarah me olhou com uma seriedade que só as mães possuem, entendendo sem que eu precisasse explicar mais. Ela acenou para Leah, que estava por perto, e disse:
— Leah, vá chamar Sue imediatamente e diga para que traga suas ervas. Precisamos dela na casa do Alpha.
Leah assentiu e partiu em disparada. Voltei para casa com minha mãe ao meu lado, o peso da decisão ainda no fundo da minha mente, mas ofuscado pela preocupação com Nessie. Quando entramos, ela ainda dormia, sua respiração rítmica, mas frágil.
Não demorou muito para que Sue chegasse, carregando suas ervas e utensílios. Ela me lançou um olhar breve, mas cheio de entendimento. Sabia o que estava acontecendo. Sue se aproximou de Nessie, examinando-a com cuidado. Eu fiquei ao lado, inquieto, cada segundo que passava aumentando minha culpa e ansiedade.
Depois de algum tempo, Sue finalmente se levantou e se voltou para mim.
— Ela perdeu muitas crianças em seguida, Jacob. Isso está matando-a — a voz de Sue era firme, mas cheia de compaixão. — Vocês precisam parar. O corpo dela não aguenta mais isso.
Minha garganta secou, e um peso insuportável caiu sobre meus ombros. Sue estava certa. Eu já sabia disso no fundo, mas ouvir em voz alta tornou a realidade inescapável.
— O que posso fazer por ela? — perguntei, a voz quase um sussurro.
— Ela precisa de repouso e cuidados constantes. Se seguirmos por esse caminho, ela vai se recuperar. Mas precisa de tempo — Sue respondeu.
Sarah, que até então estava quieta, se aproximou e colocou a mão no meu ombro.
— Você precisa escolher alguém para ser acompanhante de Nessie, Jacob. Sei que você tem responsabilidades na tribo, e ela vai precisar de alguém ao lado dela o tempo todo.
Olhei para Nessie, sua fragilidade quase me quebrando. Inclinei-me e beijei seus cabelos suavemente, uma promessa silenciosa de que faria tudo o que fosse necessário para que ela ficasse bem.
Ao sair do quarto com minha mãe, o peso da minha decisão ainda sobrevoava meus pensamentos. Eu sabia o que precisava ser feito, mas isso não tornava a escolha menos dolorosa.
— Você não precisa ceder a isso, Jacob — minha mãe começou, sua voz calma, mas firme. — Você tem irmãos. Eles podem dar o alfa Black que Fenrir exige.
Suspirei, sabendo que ela tinha razão, mas também entendendo as consequências de não cumprir a promessa que havia sido feita.
— Não cumprir o acordo com os Alteara pode desencadear um conflito, mãe. Eles têm força, e isso pode trazer consequências sérias para nossa tribo. — Eu passei a mão pelo rosto, cansado.
Sarah suspirou ao meu lado, sua expressão preocupada.
— Então a decisão já foi tomada — ela murmurou, mais para si mesma do que para mim.
— Eu preciso da sua ajuda com Nessie — pedi, olhando para ela com esperança. — Não será fácil... mas sei que você entende.
Sarah ficou em silêncio por um momento, e então falou com suavidade:
— Não será fácil, não... Mas lembre-se, ao menos Nessie não é uma loba. Ela não teve seu reliqua, a retribuição do seu imprinting. Ela vai sofrer, sim... mas não tanto quanto você.
Seus olhos encontraram os meus com uma preocupação genuína, mas também com uma aceitação da realidade que agora se impunha sobre nós.
— Isso pode fazer com que ela deixe de me amar — sussurrei, meu coração apertado só de pensar nessa possibilidade.
Sarah olhou para mim com uma tristeza serena.
— É um risco, Jacob. Mas você precisa decidir o que é pior: perder o amor dela ou vê-la morrer por essa expectativa.
Eu sabia qual era a minha resposta, mesmo que ela me rasgasse por dentro.
— Eu a amo tanto, mãe, que preferiria que isso acontecesse. Preferiria que ela me deixasse do que vê-la doente, sofrendo dessa maneira.
Minha mãe assentiu, mas o silêncio que se seguiu entre nós era pesado, como o eco de uma escolha que mudaria nossas vidas para sempre. Eu sabia que, qualquer que fosse o caminho, não haveria vitória para mim. Apenas sacrifícios.
Sue apareceu na porta, como se sentisse que seu momento de intervir havia chegado. Olhei para ela e senti um peso extra em meu peito. Cada passo que dava em direção à minha decisão me puxava mais para baixo, mas eu sabia que era necessário.
— Sue, preciso que peça a Leah para me encontrar ao anoitecer — falei, com a voz grave, mas firme.
Ela sorriu de leve, um sorriso quase de entendimento, como se já soubesse o que eu estava prestes a dizer.
— Então, Leah é a escolhida do Alpha para ser a acompanhante de sua Luna? — perguntou, uma leve curiosidade em sua voz.
Balancei a cabeça afirmativamente.
— Leah é uma Black. E minha cunhada. É alguém em quem confio plenamente.
Sue assentiu, mas havia uma chama em seus olhos, algo mais profundo. Ela conhecia a filha, sabia do orgulho e da força de Leah, e talvez entendesse o que eu estava pedindo. Para Leah, isso não seria apenas uma tarefa; seria uma responsabilidade de vida ou morte.
— Eu darei o recado a ela — prometeu Sue antes de se retirar, ainda com aquele pequeno sorriso.
Assim que ela saiu, minha mãe, Sarah, me olhou com certa surpresa.
— Leah? — perguntou, incrédula. — Ela é Jacob. As duas sempre viveram em conflito. Como espera que ela seja a acompanhante de Nessie?
Eu respirei fundo, buscando as palavras certas. Não era uma decisão tomada sem reflexão.
— Não vi conflito entre elas, mãe. Todas as vezes que estavam juntas, Leah a defendeu de comentários e desrespeitos. Vi a lealdade dela, o jeito como é fiel a Fenrir, mesmo quando é difícil. E isso é o que precisamos agora. Uma protetora leal e forte. Leah tem isso em seu sangue.
Minha mãe observou meu rosto por um momento, lendo a seriedade em meus olhos, antes de dar um leve aceno.
— Muito bem. Mas isso não vai ser fácil, Jacob. — Havia uma preocupação genuína em sua voz, mas também um entendimento de que o que eu fazia era por um bem maior.
— Eu sei — respondi.
Eu sabia que Leah seria desafiadora, mas também sabia que não havia ninguém mais qualificada para estar ao lado de Nessie. Leah entendia a luta, o peso do sacrifício, talvez melhor do que qualquer outra pessoa.
— Mãe — comecei, com um tom mais suave —, preciso que cuide de Nessie até eu voltar. Fique com ela. Ela precisa de alguém que a ame ao seu lado.
Minha mãe sorriu com ternura, mas também com uma força que sempre admirei nela.
— Não se preocupe, Jacob. Ficarei com ela — disse, com firmeza. — Agora me diga, para onde vai?
Senti um aperto no peito, mas sabia que não poderia hesitar.
— Cuidar do futuro da tribo — falei, a voz pesada com a gravidade do que viria. — Já tomei minha decisão.
Ela assentiu, sem mais perguntas. Sabia o peso que eu carregava.
Antes de sair, voltei até o quarto onde Nessie ainda descansava. Minha decisão estava tomada, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Ajoelhei-me ao lado dela e beijei seus cabelos macios. O calor de sua pele ainda queimava contra meus lábios, e o medo de perdê-la apertou meu coração mais uma vez.
Faria de tudo para protegê-la. Tudo. Mas agora, era hora do Alpha se sacrificar por um bem maior.
Enquanto saía de casa, sentia o peso do que estava por vir sobre meus ombros. Meu destino estava selado. Não pelo que eu queria, mas pelo que a tribo precisava.
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