Segui pela vila, o peso da decisão já se acomodando em meus ombros. Enquanto caminhava, o jovem mensageiro que enviei para chamar Ephraim já se afastava para entregar minha solicitação. Eu sabia que o conselho não tardaria em se reunir. Cada passo me aproximava de um destino que não era só meu, mas da tribo inteira.

Antes que pudesse ir muito longe, avistei Jeremy e Solomon se aproximando. Meus irmãos eram sempre um porto seguro, mas naquele momento eu sentia que nem mesmo eles poderiam me ajudar a carregar o fardo do que estava prestes a fazer.

— Jacob — começou Jeremy, com uma expressão séria, mas solidária. — Já estamos ouvindo os boatos. A vila inteira já fala sobre sua decisão.

Solomon cruzou os braços e suspirou.

— Não deve ser fácil, irmão — acrescentou, olhando diretamente nos meus olhos. — Mas estamos com você. Essa é uma decisão que só um verdadeiro Alpha poderia tomar.

Eu sorri, mas o peso ainda me sufocava.

— Sabem que não há volta depois disso, certo? A tribo precisa de força, e os Alteara... Eles não vão aceitar qualquer solução pacífica se eu falhar com a promessa. Mas... não há amor nisso, nenhum sequer.

Jeremy assentiu, colocando a mão em meu ombro.

— É difícil, Jake. Mas às vezes, o Alpha precisa sacrificar suas próprias vontades pelo bem de todos. E se há alguém capaz de passar por isso, esse alguém é você.

Solomon, sempre o mais pragmático dos dois, balançou a cabeça.

— Você sabe que os Altearas são poderosos, e nós precisamos manter essa aliança. Mas lembre-se, Jake: independentemente de qualquer coisa, você ainda é o Alpha. Está no comando. Não importa o que aconteça.

Antes que eu pudesse responder, senti a presença de alguém se aproximando. Kiara.

Ela andava em nossa direção com um sorriso gentil no rosto, um contraste gritante com o peso da situação. Jeremy e Solomon se despediram com breves acenos e me deixaram a sós com ela, como se entendessem que eu precisava lidar com aquilo sem espectadores.

— Jacob — disse ela, sua voz leve, quase alegre.

Olhei para ela, sabendo que, apesar de sua disposição, Kiara era a peça que mais sofreria nesse jogo de poder. Ela também não tinha escolha. Não era justo tratá-la mal, por isso forcei a suavidade em meu tom.

— Kiara — respondi, gentilmente. — Vamos caminhar.

Ela assentiu e caminhou ao meu lado pela vila. Os olhares de curiosidade e murmúrios nos seguiam enquanto íamos em direção à cachoeira. Eu sabia o que as pessoas pensavam, e não as culpava. Sabiam que algo estava para acontecer.

— Como você está, Kiara? — perguntei, querendo suavizar o clima.

Ela sorriu, um brilho alegre em seus olhos.

— Estou bem, Jacob. Na verdade, estou animada. — Seus olhos brilharam, e ela parecia alheia ao peso de tudo aquilo. — Minha família me contou que sua decisão foi tomada e... bem, estou pronta para o que vier.

Eu a observei enquanto continuávamos andando. Era difícil não simpatizar com ela. Kiara não tinha culpa. Era apenas uma peça em um tabuleiro maior.

Quando chegamos à cachoeira, o barulho suave da água caindo preenchia o silêncio entre nós. Eu a observei por um momento, sabendo que não poderia adiar a conversa que realmente importava.

— Kiara — comecei, mais sério desta vez —, em breve você será a nova Beta da tribo.

Ela assentiu, sem hesitação.

— Eu sei, Jacob. Estou preparada para isso.

Respirei fundo, preparando-me para a parte mais difícil.

— Você sabe, Kiara, que o Alpha tem uma Luna. — Minha voz era firme, mas havia um peso por trás das palavras.

Ela olhou para mim, surpresa, mas depois assentiu lentamente.

— Sim, Jacob. Conheço as histórias. Sei que Fenrir teve sua Luna.

Eu suspirei, apertando o maxilar.

— Isso significa que, enquanto você será a Beta e a mãe dos meus descendentes, haverá uma outra posição... uma posição que pertence à minha Luna. Você sabe que isso significa que não haverá amor vindo de mim. — Minhas palavras saíram mais duras do que eu pretendia, mas era a verdade.

Kiara não recuou. Seu olhar encontrou o meu, firme e decidido.

— Eu aceito, Jacob. Farei o que for melhor para nossa tribo. Sei qual é o meu papel, e estou pronta para desempenhá-lo.

Sua resposta me pegou desprevenido. Por mais que eu soubesse que esse era o acordo, sua aceitação rápida e sua força me surpreenderam. Ela era mais forte do que eu havia imaginado.

Assenti, apertando de leve o queixo dela com meus dedos, em um gesto respeitoso.

— Muito bem, Kiara. Então estamos em acordo. Estou indo agora falar com o conselho. Prepare-se, pois na próxima lua nova, você virá morar na casa da Beta.

Ela assentiu novamente, o brilho de determinação em seus olhos permanecendo. Enquanto eu me afastava, uma parte de mim se preparava para o sacrifício que estava por vir, mas outra parte desejava que essa decisão não tivesse que ser tomada. Que o futuro da tribo não precisasse ser carregado por escolhas tão pesadas.

Mas eu era o Alpha. E o Alpha faz o que é necessário.

Eu e Kiara caminhávamos de volta à vila, e logo avistamos Kalli Alteara, a mãe dela. A expressão rígida de Kalli denunciava sua desaprovação antes mesmo de qualquer palavra ser dita.

— O que minha filha estava fazendo sozinha com o Alpha? — Kalli perguntou, seu olhar fixo em mim, como se estivesse avaliando cada movimento.

Suspirei, mantendo a compostura.

— Precisava conversar com sua filha, Kalli. Em breve, ela será minha parceira. É importante que as coisas estejam claras entre nós.

Kalli estreitou os olhos, seus lábios finos se apertando em uma linha tensa.

— Estou ciente de que vocês serão parceiros, mas espero que o Alpha respeite as regras. Kiara é uma Alteara, e há expectativas a serem seguidas.

Eu assenti, evitando qualquer confronto desnecessário. Kalli estava apenas cumprindo seu papel como mãe, e eu sabia que ela faria de tudo para proteger sua filha, mesmo que significasse se opor a mim.

Ela tomou Kiara pelo braço e a conduziu para longe, lançando um último olhar de aviso antes de se afastar. Soltei um suspiro pesado, sabendo que isso era apenas o início de uma longa jornada de acordos e sacrifícios.

Com a mente focada, segui para a casa de Ephraim. Quando cheguei, todos os anciãos da tribo já estavam lá, sentados em seus lugares, aguardando minha chegada. O ambiente estava carregado de expectativa, e os olhos dos homens mais velhos me seguiam enquanto eu entrava no salão.

O velho Alteara, Caleb, estava sentado ao lado de meu pai, Billy. Assim que me aproximei, o ancião Alteara foi o primeiro a falar, com seu tom áspero e direto.

— Espero que essa reunião seja para trazer boas notícias, Jacob. — Ele não estava perguntando. Estava exigindo.

Eu me mantive firme, cruzando os braços enquanto olhava para todos na sala.

— Vim aqui para cumprir a promessa. Kiara será minha mulher, mas sob as minhas regras. Se vocês não concordarem com elas, nada mudará. — Minha voz saiu firme e inabalável.

Billy, ao meu lado, assentiu. Seu tom era calmo, mas carregava a força de um Alpha experiente.

— Jacob é o Alpha. Suas regras serão seguidas, como sempre.

O silêncio que se seguiu foi denso, todos aguardando minhas condições.

Respirei fundo e comecei.

— Renesmee irá morar em um local apenas dela. Ela não pode ser incomodada por ninguém, além das pessoas que ela decidir receber. — Fiz uma pausa, olhando diretamente para Caleb, que me observava atentamente. — Ela será minha Luna. Isso significa que estará acima de qualquer um nesta tribo, inclusive da Beta.

O rosto de Caleb se contorceu levemente, mas ele se manteve em silêncio enquanto eu continuava.

— Kiara será minha Beta. Ela vai morar na minha residência, e na próxima lua nova, eu a tomarei como minha mulher. — Meus olhos percorreram a sala, observando a reação dos presentes. — No entanto, isso só acontecerá durante a lua nova. Fora desse período, eu pertencerá à minha Luna.

O velho Alteara coçou o queixo, pensativo, antes de falar.

— Está de acordo. Toda criança é concebida na lua nova, é um acordo justo.

Caleb, no entanto, parecia mais incomodado. Sua voz soou grave quando finalmente se manifestou.

— Minha filha é jovem, Jacob. Ela tem sentimentos, ela não é apenas um nome ou um símbolo.

Olhei diretamente para ele, compreendendo sua preocupação. Por mais que essa fosse uma aliança política, envolvia a vida e o futuro de Kiara, e, por mais fria que a situação pudesse parecer, havia sentimentos humanos em jogo.

— Caleb — comecei, com a voz mais suave, mas ainda firme —, nada faltará a sua filha. Ela terá conforto, segurança e respeito. Mas meu coração... esse, ela não terá.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas necessário. Caleb me olhou por longos segundos antes de suspirar, derrotado.

— Se é assim que deve ser — ele murmurou, sem ânimo, aceitando as condições, mesmo que a contragosto.

Olhei para meu pai e, em seguida, para Ephraim, que observava tudo de forma silenciosa, mas com o olhar atento de quem entende as implicações de cada palavra. Por fim, dirigi-me ao velho Alteara.

— Então estamos de acordo? — perguntei.

Ele assentiu lentamente, os olhos cansados, mas firmes.

— Estamos, Alpha.