Os Filhos de Fenrir

30 Jacob- Nosso refúgio


O ciclo lunar ocorreria em 28 dias. Eu tinha esse tempo para organizar tudo antes da união com Kiara. A conversa com Nessie não havia sido fácil. Ela concordou, mas eu sabia que, por dentro, estava sofrendo. Ver isso rasgava minha alma. Eu faria tudo ao meu alcance para evitar seu sofrimento, mas, honestamente, não tinha ideia de como conseguiria.

Reuni a matilha para uma tarefa especial. A proteção de Niflheim havia sido delegada ao clã Ulley, após um acordo com Ephraim. O segundo Alpha da linhagem de Fenrir seria responsável pela segurança de todos lá.

Chegamos ao local que chamávamos de Björkveld, o bosque que ficava nos limites do nosso povoado, na fronteira com as terras dos Black. Era um lugar abençoado por sua beleza natural. Montanhas cercavam o bosque, protegendo um lago de águas cristalinas e cachoeiras cujas quedas revelavam minerais nas rochas ao redor. Era um verdadeiro santuário.

Assim que chegamos, desci do meu cavalo, sentindo o vento frio do lugar. Jeremy, Solomon, David, Eliezar e Esaú me acompanharam. Eu sabia que eles estavam impressionados com a paisagem.

— Isso aqui é incrível, Jake — disse Solomon, seus olhos fixos nas cachoeiras.

Jeremy concordou, batendo nas minhas costas. — É o lugar mais digno da sua Luna.

— Nessie merece isso. — Olhei ao redor, inspirando o ar puro do bosque. — Ela é sagrada pra mim. E vou protegê-la de tudo e de todos.

Eliezar observava o terreno, já pensando em como começar. — Por onde começamos, Alpha?

Apontando para uma área aberta perto do lago, dei as instruções. — A casa será ali. Quero uma construção grande, mas simples, de madeira clara. Algo que se integre ao ambiente, como se a natureza tivesse dado permissão para que a casa ficasse aqui. Uma varanda ampla, voltada para o lago.

David concordou, assentindo com a cabeça. — Podemos construir isso em poucos dias. A madeira aqui é boa, resistente.

— E o jardim? — Esaú perguntou, levantando uma sobrancelha. — Vai querer algo especial?

Pensei por um momento, e uma imagem surgiu na minha mente.

— O jardim deve ser cheio de flores silvestres. Que pareça natural, como se sempre estivesse aqui. Quero um caminho de pedras levando até o lago, com uma pequena fogueira ao lado. Esse lugar será o refúgio dela.

Nos dias seguintes, o trabalho foi intenso. A matilha e eu nos revezamos nas tarefas, e, após vinte dias, a casa estava pronta.

Era uma casa de madeira clara, com um telhado inclinado e grandes janelas de vidro que refletiam as montanhas ao redor. A varanda ampla de que eu falara dava uma vista privilegiada para o lago, e uma brisa suave soprava constantemente pelo lugar. Ao redor da casa, o jardim estava repleto de flores silvestres de todas as cores. Havia o caminho de pedras que levava ao lago, onde uma fogueira estava pronta para aquecer as noites frias.

A sensação de paz e isolamento fazia parecer que o mundo lá fora não existia. Era perfeito. O refúgio que Nessie precisava.

A lua nova estava se aproximando, e, em poucos dias, tudo mudaria.

Eu caminhava a passos lentos com o cavalo pelas trilhas das montanhas, sentindo o corpo leve de Nessie contra o meu, enquanto ela observava a paisagem de Björkveld com um brilho nos olhos. Os últimos dias haviam sido totalmente dedicados a ela, e aquele momento era especial. Ela estava prestes a conhecer o lugar que construí para nós dois, o refúgio que a protegeria de tudo que estava por vir.

— Esse lugar é lindo, Jake — ela disse, a voz suave se misturando com o vento, enquanto seu olhar se perdia nas montanhas e no verde que nos cercava.

Quando nos aproximamos da casa, desci do cavalo primeiro e, gentilmente, a ajudei a descer. Ela pousou os pés no chão e ficou ali, em silêncio, admirando a construção. Um sorriso suave apareceu em seus lábios.

— É perfeita — disse ela, virando-se para mim. — Você construiu tudo isso para nós?

Assenti, observando cada detalhe em seu rosto. — Gosta?

— Eu adoro... — Nessie olhou em volta mais uma vez, mas logo o sorriso em seus lábios vacilou, e um semblante de tristeza cobriu seu rosto. — Mas...

Suspirei, sabendo exatamente o que vinha em seguida. Segurei sua mão com firmeza, tentando transmitir toda a força que eu conseguia.

— Eu sei que é difícil — murmurei.

Ela balançou a cabeça, mordendo o lábio enquanto seus olhos evitavam os meus. — Sinto como se tudo estivesse desmoronando. Como se a vida que eu imaginei para nós dois estivesse desaparecendo, e eu... não sei como lidar com isso. Mas entendo. Sei que você não tem escolha.

A dor em suas palavras atingiu meu peito como uma faca. Era a verdade nua e crua. Eu estava preso às minhas responsabilidades como Alpha, e a decisão que tomei com relação a Kiara era a única forma de manter a paz entre nossas tribos. Mas isso não diminuía o sofrimento de Nessie.

Sem soltar sua mão, a conduzi para dentro da casa. Assim que cruzamos a porta, seus olhos se iluminaram mais uma vez.

O interior era acolhedor, repleto de móveis de madeira clara e grandes janelas que deixavam a luz do sol banhar todo o espaço. As cortinas de linho balançavam suavemente com o vento, e o cheiro da madeira nova se misturava ao aroma das flores que estavam do lado de fora. A sala era ampla, com uma cadeira macia em frente a uma lareira de pedra. Havia detalhes simples, mas elegantes, como tapetes artesanais e prateleiras cheias de livros e objetos decorativos que minha mãe havia escolhido com carinho. Um corredor longo levava aos outros cômodos, e, ao fundo, a cozinha se abria para a varanda, oferecendo uma vista deslumbrante do lago e das montanhas.

Nessie percorreu o espaço com os olhos, maravilhada.

— É tão lindo aqui... — Ela passou os dedos pelo encosto do sofá, admirando cada detalhe. — Parece um sonho.

Sorrindo, eu a observei enquanto ela explorava seu novo lar. — Você pode ir ao povoado sempre que quiser. Você é livre, Nessie. Ninguém pode te impedir de nada.

Ela parou e virou-se para mim, com um olhar sério e um suspiro pesado escapando de seus lábios.

— Eu não quero ir. Vai ser menos doloroso se eu não te ver ao lado de Kiara. Cada vez que você estiver com ela, será como uma faca no meu coração. Prefiro ficar aqui, longe disso.

Meu coração apertou com suas palavras, mas eu a entendi. Era cruel demais pedir que ela testemunhasse algo assim.

— Eu voltarei para você — falei, aproximando-me e segurando seu rosto com ambas as mãos, acariciando sua pele macia. — Eu te amo, Nessie. Sempre amei e sempre amarei.

Ela assentiu levemente, mas eu sabia que não seria fácil para ela acreditar nisso com o passar do tempo. Ainda assim, eu faria o possível para manter essa promessa.

Inclinei meu rosto para mais perto do dela e a beijei com suavidade. Seus lábios eram quentes e macios, e o gosto familiar me trouxe a sensação de que, naquele momento, o mundo estava completo, ainda que o futuro fosse incerto. Ela retribuiu o beijo, com um toque de doçura e tristeza, e o tempo pareceu parar.

Quando o beijo terminou, eu a peguei nos braços, sentindo seu sorriso contra meu peito.

— Acho que está na hora de conhecermos a cama — sussurrei, meu tom cheio de um humor leve, embora meu coração ainda carregasse o peso de tudo que estava por vir.

Ela riu suavemente e me apertou mais forte. Ao menos, por enquanto, éramos apenas nós dois naquele paraíso.