Os Filhos de Fenrir

31 Jacob- A nova Beta de Niflheim


A despedida com Nessie foi dura e dolorosa, mesmo que temporária. Eu poderia voltar para ela assim que o primeiro descendente fosse anunciado, e esperava que isso ocorresse o mais rápido possível. Se fosse um menino, o acordo me livraria da obrigação de me deitar com Kiara novamente. Um filho homem seria suficiente para cumprir meu dever e, finalmente, eu poderia voltar a viver com a mulher que amava, aquela que era dona da minha vida. Mas, até lá, eu teria que suportar esse fardo.

Caminhei de volta ao vilarejo com o coração dilacerado, embora com a certeza de que faria o possível para acelerar esse processo. O vilarejo estava em festa, preparando-se para a cerimônia que selaria meu compromisso com Kiara. Mas, enquanto todos se alegravam, meu semblante era de dor e resignação. Em poucas horas, o acordo seria consumado.

Enquanto seguia pelas ruas, Sarah se aproximou, seu sorriso reconfortante contrastando com o meu humor sombrio. Ela acariciou meu rosto, como sempre fazia quando queria me acalmar.

— Meu filho, sei que essa jornada é difícil para você — disse ela, com aquele tom doce e compreensivo. — Mas lembre-se, tudo que você está fazendo é pelo bem de seu povo, e principalmente por ela. Sua Luna sabe disso, e ela é forte. Você também é.

Suspirei, sentindo o peso de suas palavras, mas encontrando algum conforto nelas.

— Eu farei o que precisa ser feito, mãe. Só espero que... isso acabe logo — murmurei, tentando manter a voz firme.

Rachel, que estava ao lado, me abraçou com força.

— Jake, eu não consigo imaginar a dor que você está sentindo, mas quero que saiba que estou muito orgulhosa de você. Você é um exemplo de Alpha. Não sei se conseguiria fazer o mesmo no seu lugar.

Sorri brevemente para minha irmã. Sua força e lealdade sempre me tocavam, mesmo nos piores momentos.

— Vocês prepararam a casa para Kiara? — perguntei, mudando o foco da conversa para algo mais prático.

— Sim — respondeu Sarah, com um aceno de cabeça. — Mudamos todos os móveis e a decoração. Não há mais vestígios de lembranças antigas.

Assenti, grato, embora meu coração ainda estivesse pesado. Sabia que, por mais que a casa estivesse diferente, nada apagaria a ausência de Nessie.

Continuei andando pelo vilarejo, observando as movimentações para a cerimônia e a festa que se aproximavam com a lua nova. Eu não estava no clima de celebração, mas minhas responsabilidades me forçavam a seguir adiante.

Ao me aproximar da tenda onde costumava me alimentar, ouvi uma discussão. Reconheci as vozes de Kiara e Leah e, com um suspiro, me aproximei.

— O que está acontecendo aqui? — perguntei, interrompendo as duas.

Kiara estava com lágrimas nos olhos, visivelmente frustrada. — Leah... ela se nega a cumprir minhas ordens! Ela não me aceita como a nova Beta!

Olhei para Leah, que permanecia de braços cruzados, encarando Kiara com um olhar desafiador.

— Leah, você sabe que minha mãe já fez a cerimônia de passagem — comecei, mantendo o tom firme. — Agora, você só responde a uma pessoa: a Luna. Apenas Nessie pode te dar ordens. Você é livre para comer o que quiser e sempre estará aqui para buscar o que Renesmee precisar. Entendido?

Leah deu um sorriso irônico, cruzou os braços e lançou um olhar de desdém para Kiara antes de se virar e sair, sem dizer mais nada.

Kiara me olhou com o rosto corado, humilhada. — Você me humilhou diante dela — disse, a voz embargada pelas lágrimas.

Suspirei, frustrado com a situação. — Kiara, não seja infantil. Você é a Beta agora, então comporte-se como uma. Renesmee foi Beta por quase um ano e não houve uma única reclamação sobre sua liderança. Espero que siga o exemplo dela.

Ela ficou em silêncio, seu olhar fixo no chão. Eu sabia que ela estava magoada, mas, no fundo, ela precisava ouvir aquilo. O fardo de ser Beta vinha com responsabilidades, e ela não poderia se dar ao luxo de se deixar dominar por emoções.

— Vejo você à noite, na cerimônia — acrescentei. — A casa está pronta. Você deve levar suas coisas para lá.

Ela assentiu em silêncio, e eu me afastei, irritado, sentindo o peso de tudo aquilo apertar ainda mais meu peito.

A lua nova brilhava alta no céu, iluminando a noite com uma luz suave e pálida. Era o prenúncio de um novo ciclo, mas, para mim, parecia o início de um pesadelo que eu não podia evitar. Com um suspiro pesado, coloquei meu bracelete de Alpha, sentindo o peso de gerações de responsabilidade se prender ao meu pulso. Depois, vesti a túnica de meus antepassados, o tecido antigo e imponente. Cada dobra dela parecia carregar a história da minha tribo, e naquele momento eu me senti esmagado por ela.

Ao sair da casa, o vilarejo estava em plena celebração. Todos me cumprimentavam com sorrisos e palavras de honra. Acenei para cada um, tentando esconder o tumulto dentro de mim. Eu era o Alpha, afinal, e o Alpha não demonstrava fraqueza. Meu sorriso era uma máscara bem treinada, mas por dentro, a cada passo, tudo em mim gritava para correr. Fugir. Buscar Nessie e desaparecer no mundo. Mas não podia. Eu sabia que não tinha força para envergonhar minha tribo dessa maneira. Minha honra, meu dever, tudo aquilo me prendia a esse destino.

Diante de uma grande fogueira, o vilarejo inteiro estava reunido. As duas famílias, os Alteara e os Black, estavam de pé, observando a cerimônia prestes a começar. Quando vi minha irmã Rebecca se aproximar, senti um alívio momentâneo. Ela, que agora vivia no povoado Ulley com seu companheiro, parecia trazer um pouco de paz em meio ao caos dentro de mim.

— Você está aguentando firme, Jake — disse ela, ao me abraçar com força. — Nenhum lobo que sofreu imprinting conseguiria fazer o que você está fazendo.

Assenti, tentando encontrar forças em suas palavras.

— Será um sacrifício temporário — murmurei. — Hoje mesmo eu darei um passo para que isso acabe o mais rápido possível.

Rebecca me olhou com compreensão, mas não respondeu. Sabíamos que não havia mais nada a ser dito. Aquele momento era inevitável.

Logo, vi a chegada de Kiara, e o tempo pareceu desacelerar. Ela estava vestida com um vestido branco, ao lado de seus pais, Caleb e Kalli. Eles caminhavam com uma aura de orgulho e tradição, a noite toda envolvida no simbolismo dessa união.

Caleb, com um semblante sério e determinado, entregou a mão de Kiara para mim, como se estivesse passando o destino da filha para o Alpha.

— Cuide dela, Jacob — disse Caleb, com um tom que ecoava responsabilidade.

Segurei a mão de Kiara, sentindo o frio gelado da realidade tomar conta de mim. Ela sorriu, e eu apenas retribuí com um leve aceno de cabeça. Não havia palavras que pudessem expressar o turbilhão que se passava dentro de mim.

Ephraim, o velho líder da tribo, se aproximou e levantou os braços, pedindo a atenção de todos.

— Hoje, sob a bênção da lua nova, celebramos a união do Alpha Jacob Black e sua prometida, Kiara Alteara, como foi decidido no dia de seus nascimentos. Esta união sela os destinos de suas linhagens e fortalece o elo entre as tribos Quileute e Alteara. Que o sangue que corre em suas veias produza descendentes fortes e dignos do legado de seus antepassados. Que sua união seja um farol de honra e poder para todos nós.

Todos ao redor comemoraram, soltando gritos e aplausos. O velho Alteara, explodindo de felicidade, deu um passo à frente.

— Que muitos descendentes sejam feitos, Jacob! Esta é a união mais forte que já vimos!

Por dentro, eu estava em pedaços, mas mantive o rosto impassível, sabendo o que vinha a seguir. Ephraim voltou a falar, sua voz grave soando como um martelo no meu peito.

— O Alpha deve agora comprovar a pureza de sua Beta para que esta união seja validada. Que o ciclo se complete e que a noite de hoje traga um novo futuro para o nosso povo.

Assenti lentamente, sentindo uma dor surda e aguda se espalhar pela minha alma. Não havia como fugir disso. Segurei a mão de Kiara com mais firmeza, e ela, sem notar meu tormento, sorriu para mim. Então, caminhamos juntos, entre os olhares de todos, em direção à nossa casa.

Cada passo que eu dava parecia uma sentença, cada olhar uma lembrança de que eu estava me afastando, mesmo que temporariamente, da única pessoa que realmente importava para mim.

Entramos na casa, e Kiara parecia radiante. Ela olhava para cada detalhe com olhos cheios de admiração, como se estivesse dentro de um sonho.

— Tudo está lindo, Jacob. Muito obrigada por isso — ela disse, sorrindo, mas havia um nervosismo evidente em sua voz. — Eu... eu estou um pouco nervosa.

Assenti, tentando controlar o turbilhão dentro de mim. Cada segundo parecia um teste de força.

— Darei um tempo para que você se prepare — murmurei, evitando encontrar seu olhar por muito tempo, com medo de que ela visse o peso que eu carregava.

Kiara assentiu, soltando um suspiro nervoso, e subiu as escadas apressada. Fiquei ali, parado no meio da sala por um momento, tentando me recompor, tentando me convencer de que eu conseguia fazer isso. De que precisava fazer isso.

Minha mão encontrou uma garrafa da bebida mais forte que tínhamos na casa, e sem hesitar, dei um longo gole, direto da garrafa. O líquido queimou minha garganta, mas não conseguiu queimar a imagem de Renesmee da minha mente. Ela estava lá, como uma sombra, uma lembrança persistente que ameaçava quebrar minha determinação.

Esqueça ela, eu repetia para mim mesmo. Só essa noite, esqueça.

Mas sabia que, se continuasse pensando em Nessie, eu acabaria desistindo de tudo. Tomando mais um gole, dei tempo suficiente para Kiara se preparar antes de finalmente subir as escadas. Minhas pernas pesavam como se cada passo fosse uma luta contra o destino que eu tanto queria evitar.

Quando entrei no quarto, Kiara estava de pé, de frente para a janela, vestida com uma camisola branca. A luz da lua iluminava seu perfil, realçando sua juventude e inocência. Ela parecia perdida em pensamentos, e ao me ver, virou-se lentamente, caminhando em minha direção.

Seus olhos brilhavam com uma mistura de expectativa e insegurança.

— Jacob... — começou ela, com a voz baixa e trêmula. — Esta é minha primeira vez. Eu sei que... eu sei que você não me ama e que provavelmente não me deseja... — seus olhos abaixaram, e eu senti o peso de cada palavra. — Mas... por favor, seja gentil comigo. Faça deste momento algo especial, pelo menos para mim. Eu não quero que essa noite seja uma lembrança ruim.

Suas palavras atingiram meu peito como um golpe. Kiara não tinha escolha. Ela estava ali porque era o que sua família havia decidido. Era inocente nessa situação, forçada a cumprir seu papel assim como eu. Ela só queria um pouco de dignidade nessa noite que marcaria sua vida para sempre.

Respirei fundo, tentando afastar a amargura que queimava em minha garganta.

— Eu... eu serei gentil com você, Kiara — respondi, sentindo o peso do momento crescer sobre mim. — Isso é o mínimo que posso fazer.

Eu tirei a túnica devagar, deixando-me apenas com a calça, e dei alguns passos em sua direção. Ela olhava para mim, vulnerável, mas também confiante de que eu não a machucaria. Quando cheguei perto, segurei-a delicadamente pela cintura e a puxei para mais perto. Seu corpo estava quente, e ela tremia levemente. Eu a beijei com suavidade, tentando transmitir calma e segurança, mesmo que por dentro meu coração estivesse em pedaços.

A noite seria longa, e eu teria que deixar meu próprio sofrimento de lado. Kiara não merecia menos do que o meu respeito e minha gentileza.