Os Filhos de Fenrir
52 Jacob: Conflitos
Ao retornar ao vilarejo, fui recebido por uma multidão de olhares curiosos, todos ávidos por respostas. As perguntas sobre Renesmee vinham de todos os lados. Meus irmãos estavam desconfiados, eles haviam espalhado a noticia, mas eu os fuzilei com os olhos, sem paciência para explicações naquele momento. O silêncio deles foi imediato.
Sarah se aproximou de mim com um sorriso suave no rosto, sempre capaz de ler nas entrelinhas.
— É verdade, então? — perguntou, com uma mistura de surpresa e felicidade. — Ela voltou. E... dois filhos?
Eu apenas assenti, sentindo o peso da realidade se abater sobre mim. Os filhos de Nessie. Nossos filhos.
Sarah olhou na direção onde Kiara e Karin estavam, e eu segui seu olhar. Ao ver as duas, um suspiro pesado escapou de mim. Foi então que a venda caiu completamente dos meus olhos. Eu finalmente entendi. Eu havia interpretado errado o conselho de Fenrir. O filho homem que o Deus havia mencionado... era o filho de Renesmee, de Nessie. Não era o filho que eu havia buscado ter com Kiara ou outra mulher.
Sarah, sempre sábia, percebeu minha mudança de humor.
— Quero conhecer meus netos — disse ela, sorrindo com ternura. — Quando eles vêm para o vilarejo?
— Em breve, mãe — respondi, ainda digerindo a enxurrada de sentimentos. — Primeiro, preciso construir uma casa para eles. Algo adequado para a nossa nova realidade.
Ela assentiu em silêncio, compreendendo a gravidade da situação. Enquanto isso, vi Kiara e Karin se afastarem, e um suspiro pesado escapou de mim. Tinha que lidar com isso.
Depois de dar alguns avisos à matilha, finalmente segui para casa. Quando entrei, encontrei as duas esposas à minha espera. Kiara estava com uma expressão séria, enquanto Karin mantinha a mesma calma de sempre.
Kiara foi a primeira a falar, sem rodeios.
— Não vou abrir mão do meu direito de ser Beta, Jacob. — Sua voz estava firme, desafiadora. — Eu lutei por essa posição e mereço mantê-la.
Ela lançou um olhar em direção a Karin, esperando apoio da irmã.
— Karin, diga a ele — insistiu Kiara. — Você sabe que tenho razão.
Karin hesitou por um momento, mas em seguida balançou a cabeça.
— Eu confio no Jacob — disse ela com calma. — Sei que ele tomará a decisão que for melhor para todos nós, para o vilarejo e para a família.
A resposta de Karin foi um balde de água fria para Kiara, que a olhou com desprezo.
— Você é uma idiota — disparou Kiara, o rosto contorcido de raiva. — Sempre tão submissa. Nunca teve força suficiente para lutar por nada!
Aquelas palavras me tiraram do sério. Eu me aproximei, furioso.
— Basta! — gritei, sentindo a raiva ferver dentro de mim. — Eu não vou permitir que você maltrate a Karin desse jeito! Nunca mais fale assim com ela, Kiara, entendeu?
Kiara me encarou, chocada com a minha reação, mas não disse mais nada. Ela apenas virou as costas e subiu as escadas, batendo os pés a cada degrau, sua frustração clara.
O silêncio voltou a reinar na sala, e eu suspirei, esfregando o rosto com as mãos. Karin se aproximou de mim, sua presença sempre tão serena, e tocou meu rosto de leve.
— Obrigado pela sua compreensão, Karin — disse, tentando manter a calma que ela sempre parecia ter.
Ela sorriu gentilmente.
— Eu confio no Deus Fenrir, Jacob. E também confio em você. Espero que ele seja generoso comigo — respondeu ela, com um toque de esperança na voz.
Karin se inclinou e depositou um beijo suave no meu rosto.
— Vou dormir com Josh esta noite — disse ela, sem qualquer ressentimento ou mágoa. — Boa noite, Jacob.
Com isso, ela se virou e subiu as escadas, deixando-me sozinho com meus pensamentos. As emoções conflitantes continuavam a me assolar. As peças finalmente estavam se movendo, mas nada disso seria fácil.
A noite foi longa, sem descanso. O simples fato de saber que Nessie estava perto e, ao mesmo tempo, distante, me consumia por dentro. Minha mente estava em guerra, revivendo tudo o que havíamos passado juntos e tudo o que eu ainda precisava resolver. Quando o sol finalmente nasceu, levantei-me sem hesitação, buscando qualquer coisa que me distraísse daquele turbilhão interno.
O cheiro de café recém-feito chegou até mim, e segui o aroma até a cozinha. Ao chegar à mesa, fui recebido pelo sorriso de Karin. Josh, como sempre, correu para me abraçar, enquanto Kamy, sentada à mesa, me lançou um olhar fuzilador de sua cadeira.
— Bom dia, filha — disse, tentando manter o tom calmo.
Ela cruzou os braços, claramente irritada, e respondeu sem rodeios:
— Você dormiu em casa? Achei que estivesse com sua Nessie.
Aquelas palavras, impregnadas de veneno, não eram de Kamy. Eu sabia exatamente quem estava por trás delas. Segurei o olhar sério sobre ela por um instante e, em seguida, virei-me para Karin, que observava a cena com preocupação.
— Kah, será que pode me deixar a sós com minha filha? — pedi, tentando não deixar o peso da tensão transparecer.
Karin assentiu sem hesitação, chamando Josh.
— Vamos buscar pão na tenda, querido — disse ela com suavidade.
Josh olhou para o prato à sua frente e protestou:
— Mas eu ainda estou comendo...
O olhar que lancei foi suficiente para que ele entendesse que não era hora de questionar. Relutante, ele obedeceu e saiu com Karin, deixando-me sozinho com Kamy.
Minha filha, sempre tão forte, me encarava com um misto de desdém e confusão. Era óbvio que Kiara havia plantado essas sementes, manipulando-a como eu já esperava. Não seria fácil, mas eu precisava ser direto.
Ela falou primeiro, com uma voz cheia de desafio:
— Vai gritar comigo como fez com a mamãe?
Respirei fundo e puxei uma cadeira, sentando-me à sua frente. Sabia que precisava escolher bem minhas palavras. O amor que eu tinha por Kamy era genuíno, e Kiara, consciente desse fato, estava disposta a usá-lo contra mim.
— Filha, eu te amo — comecei, buscando seus olhos. — E é exatamente por isso que aceitei sua mãe como Beta todos esses anos, mesmo depois do que ela fez.
Kamy franziu a testa, visivelmente confusa.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou, o tom de voz vacilando.
Eu sabia que essa conversa a abalaria, mas era necessária. Continuei, firme:
— Sua mãe matou seus irmãos, Kamy. Eles estavam na barriga de Nessie, seus irmãos... e Kiara tirou a vida deles. Isso é um fato. E por mais que isso não mude o que você e Josh significam para mim, você precisa saber a verdade.
O choque atravessou o rosto de Kamy como uma tempestade. Ela balançou a cabeça, como se tentasse afastar minhas palavras.
— Isso não é verdade! — exclamou, a voz quebrada. — A mamãe... a mamãe não faria isso!
— Ela fez. — Não havia espaço para dúvida em minha voz. — Nada vai mudar para você ou para Josh. Vocês são meus filhos, sempre serão. Mas eu te peço, Kamy, não se envolva nisso. Não deixe que o que sua mãe fez destrua o que ainda temos.
Eu segurei seu olhar, implorando silenciosamente para que ela entendesse.
— Você vai conhecer Fenrir e Fay — continuei. — Fay tem quase a sua idade. Tenho certeza de que vocês se darão bem, mas... pelo seu bem, eu te peço... não me obrigue a esquecer que sou seu pai e do amor que sinto por você.
Kamy permaneceu em silêncio, sua expressão desmoronando aos poucos enquanto tentava processar o que acabara de ouvir. Sabia que ela estava dividida, entre a lealdade que sentia por Kiara e o amor que tinha por mim. Mas, naquele momento, só me restava esperar que ela fizesse a escolha certa.
Quando saí de casa, a tensão ainda pulsava em meu peito. As palavras de Kamy continuavam reverberando na minha mente, mas eu precisava de ar. Lá fora, encontrei Karin com Josh ao seu lado. Ela parecia visivelmente nervosa, suas mãos inquietas apertando a roupa, e aquilo me preocupou imediatamente.
— O que está acontecendo, Karin? — perguntei, tentando manter a calma, mas algo me dizia que havia mais em jogo.
Ela respirou fundo antes de soltar as palavras:
— Nessie... Ela está na tenda. Está frente a frente com Kiara.
Um frio tomou conta do meu corpo, e o tempo pareceu parar. Não esperei mais nada, apenas corri. Meu coração batia acelerado, cada passo me levava mais perto da confusão que eu sabia estar prestes a explodir. E, quando cheguei à tenda, a cena diante de mim era ainda pior do que eu imaginava.
Kiara, em sua forma de loba, estava caída no chão, ofegante e cheia de ferimentos. Acima dela, com um olhar feroz e imponente, estava Nessie, também em sua forma de loba. Ela pressionava Kiara contra o solo, e a multidão ao redor observava a cena em silêncio, atônita.
Os olhos de Nessie brilharam ao me ver, mas seu foco não se desviou de Kiara por um segundo. Eu podia sentir o poder da alfa emanando dela, a raiva contida, e percebi que aquele embate era muito mais profundo do que uma simples briga de território.
Corri até elas, sem hesitar, e me coloquei entre as duas lobas, minha voz firme usando meu comando de alpha:
— Parem! Agora!
Nessie, relutante, recuou alguns passos, seu corpo ainda tenso e preparado para um ataque, mas me deu espaço. Kiara, por outro lado, parecia enfraquecida, mas seus olhos brilhavam de ódio enquanto tentava se levantar.
Transformei-me de volta em minha forma humana, tentando trazer calma à situação, e me virei para Nessie, ainda em sua forma de loba.
— Nessie — falei, suavemente, tentando acalmar a tempestade que estava dentro dela. — Isso não vai resolver nada.
Ela hesitou por um segundo antes de voltar à sua forma humana, ofegante, com os olhos cheios de fúria.
— Ela... — Nessie começou, apontando para Kiara. — Ela tem que pagar pelo que fez. Não vou deixar que continue manipulando todos.
Eu podia ver a dor nos olhos de Nessie, misturada à raiva que carregava por anos. Ela não estava apenas lutando contra Kiara; estava lutando contra o passado, contra tudo que foi tirado dela.
Kiara, por sua vez, levantou-se, ainda tremendo de raiva, e me encarou com uma expressão amarga.
— Você sempre vai escolher ela, não é, Jacob? — disse, sua voz cheia de veneno. — Sempre foi sobre ela.
Eu sabia que essa luta entre as duas nunca seria resolvida com uma batalha física. Era muito mais do que isso — era sobre o controle, sobre o poder, sobre o que cada uma acreditava ser seu direito. Mas, naquele momento, eu precisava interromper o caos antes que algo pior acontecesse.
— Chega! — Gritei, minha voz ecoando pela tenda. — Isso não vai continuar assim. Não agora.
Nessie ainda tremia, mas parecia estar tentando se acalmar. Kiara, por outro lado, mantinha seu olhar fixo em mim, desafiadora, mas ferida demais para continuar o embate.
— Nós vamos resolver isso — declarei, mais calmo. — Mas não assim.
Nessie respirou fundo e se afastou lentamente, seu corpo ainda tensionado, mas disposta a ceder. Kiara, por sua vez, me lançou um último olhar, cheio de rancor, antes de se afastar também, cambaleando um pouco devido aos ferimentos.
A multidão ao redor começou a se dispersar, murmurando entre si, mas eu sabia que nada estava realmente resolvido. A tensão ainda pairava no ar, e a luta entre Nessie e Kiara estava longe de acabar.
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