Os Filhos de Fenrir
66 Jacob- Cerimônia da passagem
O retorno a Niflheim foi silencioso. Não houve celebrações, apenas o peso da morte, e o som abafado de nossos passos, ecoando como uma lembrança do que havíamos perdido. Nessie estava ferida, gravemente. A cada respiração dela, o meu coração apertava, o medo de perdê-la se enraizando mais fundo.
Sue Clearwater e Renée Swan cuidavam dela agora. Renée foi uma benção no caminho de volta, sempre ao lado da neta, mantendo-a viva quando tudo parecia desmoronar. Edward havia permanecido para liderar os sobreviventes em Vindalheim, enquanto Renée e Tanya vieram conosco. Eu tive que confiar Nessie nas mãos delas. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, além de esperar e rezar que ela resistisse.
Mas havia outra dor que eu precisava enfrentar. Uma que eu preferia evitar, mas que não podia mais ignorar. Kiara estava morta, e eu tinha que contar à nossa filha.
Abracei Kamy antes de falar. Seus olhos, grandes e brilhantes, buscavam respostas no meu rosto. Ela sabia que algo estava errado.
— Pai... o que aconteceu? Por que todos estão tão calados? — ela perguntou, a voz trêmula.
Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas, mesmo que não existissem palavras que pudessem suavizar o impacto.
— Kamy... — comecei, minha voz soando estranhamente distante. — Kiara... sua mãe... morreu em batalha.
Vi o choque em seus olhos, a forma como seu corpo ficou rígido, os lábios tremendo como se as palavras não fizessem sentido para ela.
— Não... — ela balançou a cabeça, recuando, tentando se afastar da realidade. — Não, ela não pode estar morta, pai. Ela não pode!
A dor em sua voz me perfurou como uma faca. Eu dei um passo em direção a ela, mas ela recuou.
— Kamy, me escuta... — eu implorei, a voz falhando. — Ela morreu como uma verdadeira Beta. Lutou com coragem, protegendo nossa tribo... e você. Ela queria que você estivesse segura.
Ela desabou nos meus braços, o choro violento sacudindo seu corpo. Eu a segurei firme, sentindo sua dor como se fosse a minha. Porque era.
— Por que... por que ela estava lá? — Kamy sussurrou entre os soluços, a voz cheia de confusão e desespero. — Ela não devia estar lá, pai... Ela devia estar aqui... comigo.
Eu fechei os olhos, sentindo o peso da pergunta. A verdade é que eu também não sabia o que Kiara estava fazendo ali. Ela não deveria ter saído do vilarejo Ulley. Ela estava proibida de sair do vilarejo, Kiara não era uma Beta para estar no campo de batalha.
— Eu não sei, filha... — admiti, minha voz um sussurro cansado. — Mas o que importa agora é que ela te amava. E deu a vida para proteger tudo o que amamos. Ela foi corajosa, Kamy. Ela foi uma Beta até o fim.
Ela chorou mais forte, e eu a segurei como nunca antes, desejando poder apagar a dor, mesmo Kiara cometendo muitos crimes, desejei poder trazer Kiara de volta, nem que fosse por um segundo, para que Kamy não precisasse sofrer assim.
— Eu queria que ela tivesse ficado... — sussurrou Kamy, o rosto molhado de lágrimas contra o meu peito. — Eu queria tanto...
— Eu também, filha... eu também.
O silêncio que veio depois foi pesado, preenchido apenas pelos soluços abafados de Kamy. Eu sabia que essa dor não seria curada facilmente, mas, naquele momento, tudo o que eu podia fazer era segurá-la e garantir que ela soubesse que, mesmo com toda a dor, eu estaria ali.
O vento soprou com uma melancolia pesada naquela manhã, trazendo o cheiro salgado do mar e a fragrância das fogueiras acesas. Todos estavam reunidos diante do lago, como era a tradição dos nossos ancestrais. Os corpos dos mortos foram cuidadosamente colocados em pequenas jangadas de madeira, cada uma ornada com flores e tecidos, o reflexo do sol nas águas calmas parecia lamentar junto com todos nós.
No passado, era assim que honrávamos os nossos guerreiros. E hoje, não seria diferente. As chamas seriam acesas pelas flechas, libertando suas almas nas águas, enquanto as ondas os levariam para longe, para o descanso eterno.
Eu fiquei ao lado dos meus filhos, observando em silêncio enquanto o último dos corpos era colocado na água. Fenrir e Fay estavam ao meu lado, firmes, mas eu podia sentir a dor deles. Kamy estava ali também, com o rosto abatido, mas segurando a mão de Fay com uma força que me deixou orgulhoso. Pelo menos, elas estavam unidas. Aquilo, em meio ao caos e à dor, era algo que me trazia paz.
Ephraim Black, o ancestral e espírito guia, elevou a voz para falar. A multidão se calou instantaneamente, todos respeitando a figura imponente do primeiro líder dos lobos. Sua voz ecoou firme e solene, trazendo uma gravidade ainda maior ao momento.
— Hoje, dizemos adeus àqueles que partiram de nós. Homens e mulheres que viveram com honra, que morreram com coragem, e cujos espíritos agora se juntam aos antigos, entre as estrelas e os ancestrais. Esses guerreiros deram suas vidas por nossa liberdade, por nossa tribo, por nossas famílias. Não há maior sacrifício do que este. — Ele fez uma pausa, olhando para as jangadas que agora começavam a flutuar lentamente, levadas pela corrente. — O fogo que acendemos hoje não é um sinal de luto, mas sim de honra. Essas chamas representam o espírito indomável que vive em todos nós, o fogo que nunca se apaga, mesmo na escuridão da morte.
A multidão permaneceu em silêncio, as palavras de Ephraim reverberando no ar como um eco de tempos passados.
— Que suas almas encontrem paz nas águas e que o vento os leve para o descanso. Que nós, que ficamos, nunca nos esqueçamos dos seus nomes, e que seus feitos sejam contados para as próximas gerações. Porque nós, os lobos, somos eternos. E assim como eles, seremos lembrados não pela maneira como morremos, mas pela maneira como vivemos e lutamos.
Ele ergueu a mão e, em sinal, os arqueiros se prepararam. Eu vi os homens puxando o arco, as flechas com fogo já acesas, prontas para serem lançadas.
— Agora, liberem-nos para a eternidade.
As flechas cortaram o ar em um movimento sincronizado, o som de suas pontas rasgando o vento foi abafado apenas pelo estalo das chamas que se acenderam nas jangadas. As labaredas cresceram rapidamente, e os corpos dos nossos mortos começaram a ser consumidos pelo fogo sagrado, sua fumaça subindo em espirais negras para o céu.
Olhei para os meus filhos. Fenrir estava sério, mas o vi com o olhar distante, provavelmente pensando no que aquilo significava para ele. Fay, ao meu lado, segurava firme a mão de Kamy. Quando ela sentiu meu olhar sobre ela, deu-me um sorriso leve, uma tentativa de consolo. O que quer que a guerra tivesse tirado de nós, ela tinha deixado algo ainda mais forte: nossa família.
Quando a cerimônia terminou e as chamas começaram a se extinguir, nos recolhemos em silêncio. Caminhei de volta para casa ao lado dos meus filhos, o coração apertado com tudo que havia acontecido. Nessie ainda estava ferida, e sua recuperação era incerta. Eu sabia que meus deveres como alpha eram imensos, mas naquele momento, tudo o que eu queria era estar ao lado dela.
Ao entrar em casa, vi que a quietude se instalara. A tensão da batalha, da perda, ainda pairava no ar, mas havia também um senso de esperança, de que dias melhores poderiam estar por vir.
Olhei para meus filhos, reunidos ao redor da lareira. Fenrir e Fay estavam sentados juntos, conversando baixinho, enquanto Kamy observava em silêncio.
— Vamos cuidar de sua mãe — eu disse, quebrando o silêncio. Fenrir me olhou, e pela primeira vez desde a batalha, ele pareceu realmente ouvir. — Ela vai precisar de todos nós para superar isso.
Eles assentiram, e com isso, sabíamos que o próximo passo seria lutar por algo muito maior do que territórios: lutar por nossa família.
Fale com o autor