Os Filhos de Fenrir

17 Jacob - A herança de Fenrir


A lua nova pairava no céu, escura e misteriosa, iluminando as montanhas com um brilho suave. As sombras que cobriam a trilha de pedra levavam ao coração da montanha, onde o templo de Fenrir estava escondido, uma fortaleza esculpida na rocha. A lenda dizia que Fenrir, o grande lobo ancestral, uma vez caminhou por aquelas terras e deixou suas pegadas nas encostas íngremes, marcando-as para sempre como sagradas. Diziam também que, nas noites de lua nova, sua presença podia ser sentida, observando aqueles que o serviam.

O vento frio da noite nos envolvia enquanto todos os Alphas das tribos se reuniam ao redor da grande fogueira no templo. Estávamos lado a lado com os mais velhos, as figuras imponentes de Joshua Ulley diante de seu filho, Sam, Quill Alteara III com seu filho Quil, Harry Clearwater ao lado de Seth, e, finalmente, meu pai, Billy Black, ao meu lado. Ephraim estava no centro, a figura mais venerável entre todos nós, seu olhar carregado de uma sabedoria que transcendeu gerações.

Ele ergueu a mão para nos silenciar, e sua voz ecoou nas paredes da montanha, reverberando como um trovão.

— O que vocês carregam nos ombros, meus filhos, não é apenas o peso de um nome ou de uma linhagem. É o legado de Fenrir, o espírito que nos conecta a esta terra, à nossa matilha, e ao destino que nos aguarda. Por gerações, lutamos, protegemos e sacrificamos por este legado. Agora, mais do que nunca, nossa responsabilidade é grande, pois uma nova guerra se aproxima. Não se trata apenas de nossas vidas, mas de proteger aqueles que nos são destinados.

Ephraim fez uma pausa, olhando diretamente nos olhos de cada um de nós. Havia um peso em suas palavras que todos sentíamos, um chamado à altura do que estava por vir.

— Minha hora se aproxima — continuou ele, sua voz firme, mas carregada de uma aceitação tranquila. — Fenrir já fez sua escolha. Ele já encontrou meu sucessor. — Ele começou a caminhar em minha direção, ajudado por Billy, seu corpo envelhecido movendo-se com dificuldade. Parei, sentindo o olhar de todos sobre mim. Quando ele finalmente chegou à minha frente, tirou o bracelete de Fenrir que sempre usou em seu braço, símbolo de liderança lhe dada pelo próprio deus, e me estendeu.

— Ephraim, eu... — Minhas palavras se engasgaram na garganta. — Não posso aceitar. Você ainda é o líder.

— Deixei de ser o líder no momento em que Fenrir falou com você — respondeu ele, com um olhar que transmitia tanto compreensão quanto determinação. — O fardo agora é seu, Jacob.

Senti o peso dos olhos de todos os Alphas sobre mim enquanto olhava para o bracelete em minhas mãos. Era mais do que um simples pedaço de couro e metal; era o símbolo de uma responsabilidade ancestral, e, apesar de todo o treinamento, de toda a força que me ensinavam a ter, naquele momento, eu me senti... pequeno.

— Não estou pronto — confessei, com a voz quase falhando.

Ephraim riu levemente, uma risada carregada de anos de experiência.

— Ninguém nunca está pronto, Jacob. Mas você aprenderá. Assim como todos nós aprendemos. — Os outros Alphas assentiram, suas expressões sérias, mas solidárias. Havia um entendimento tácito entre todos nós, como se cada um deles já tivesse passado por esse momento.

Engoli em seco, respirando fundo antes de deslizar o bracelete em meu braço. A sensação foi imediata, quase como se o peso físico fosse absorvido por algo maior dentro de mim. Eu era o Alpha agora. O líder. E o futuro da nossa matilha estava, em grande parte, nas minhas mãos.

Os outros Alphas começaram a se afastar, voltando para suas matilhas, e meu pai, Billy, apertou meu ombro com firmeza. Seus olhos, sempre tão difíceis de ler, agora transbordavam de orgulho.

— Estou orgulhoso de você, Jacob — disse ele, com um sorriso sincero.

— Obrigado, pai — murmurei, sentindo uma mistura de alívio e responsabilidade. Antes que pudesse processar completamente o que acabara de acontecer, meus irmãos vieram me cumprimentar, batendo em minhas costas e me parabenizando. A tensão da noite começou a se dissipar, e por um momento, eu me permiti relaxar.

No entanto, o momento de alegria foi abruptamente interrompido pela chegada das garotas do acampamento. Elas caminhavam entre nós, suas risadas e vozes enchendo o ar. Meus olhos, quase sem querer, se voltaram diretamente para Renesmee.

Nosso olhar se encontrou, e o mundo ao meu redor pareceu silenciar. Tudo o que eu havia sentido naquela noite, a confusão, a luta interna, a responsabilidade, tudo se dissipou no instante em que a vi. Ela estava ali, diante de mim, a razão pela qual todo o meu ser mudara.

Minha atenção estava completamente voltada para Renesmee. Eu não conseguia tirar os olhos dela, e senti o peso daquele momento como uma onda silenciosa, mas intensa, me varrendo. Não era apenas a responsabilidade de ser Alpha que me atingia agora. Era a impressão. Era ela.

Enquanto eu ainda estava perdido em pensamentos, senti uma presença familiar se aproximando. Minha mãe, Sarah, surgiu com seu sorriso caloroso e sereno. Ela se aproximou de Billy e, com a mesma doçura de sempre, o beijou. Meu pai a puxou para mais perto, abraçando-a com carinho. Ele sempre teve uma forma especial de demonstrar afeto, e aquilo fez meus lábios se curvarem em um sorriso, mesmo no meio de tanta tensão.

Billy percebeu onde estava meu olhar fixo e, como só ele faria, soltou uma piada enquanto seus olhos cintilavam com diversão.

— Me lembro da primeira vez que vi sua mãe assim — comentou ele, rindo suavemente. — Eu não conseguia parar de olhar, assim como você agora.

Eu ri junto com ele, mesmo que minhas emoções estivessem agitadas. Minha mãe se afastou do abraço de Billy e me envolveu em um abraço apertado. Aquele tipo de abraço que só uma mãe pode dar, cheio de segurança e conforto.

Ela inclinou a cabeça para perto do meu ouvido e, em um sussurro suave, disse:

— Ela está pronta;

Senti um nó se formar na minha garganta e apenas assenti, incapaz de falar por um segundo. Mamãe sempre sabia o que dizer, e suas palavras tinham um peso especial. Era como se tudo estivesse prestes a se alinhar, como se todo o destino que Fenrir reservou para mim e para Renesmee estivesse ao nosso alcance.

Billy, que ainda segurava a mão da minha mãe, começou a caminhar em direção a Renesmee. Ele ainda era o patriarca da matilha Black, e mesmo com o fardo de Alpha agora em meus ombros, havia algo nele que nunca mudaria. Sarah o acompanhou, e juntos caminharam até onde Renesmee estava.

Ephraim, sempre atento, se aproximou também, sua presença imponente entre nós. Ele falou algumas palavras às jovens, lembrando-lhes do papel sagrado que elas desempenhavam. A transformação era inevitável. Elas eram lobas. Sempre soubemos que um lobo só teria sua impressão por alguém da sua própria espécie, e isso confirmava que todas ali, todas as escolhidas, se transformariam. Mesmo a concepção de filhos entre lobos só ocorria se a parceira fosse uma loba, e agora tudo fazia sentido.

Os outros lobos começaram a se mover. Um a um, cada lobo e Alpha se aproximava da sua escolhida. Era uma visão poderosa. Algumas matilhas se misturaram, criando novos laços e prometendo a formação de novos clãs. Aquilo era bom, uma renovação que Fenrir abençoava.

Apesar da vontade que crescia dentro de mim de correr até Renesmee, de tê-la nos meus braços, eu me contive. Sabia que ela era ansiosa, e esse traço nela sempre me encantou. O brilho nos olhos dela, a maneira como seu corpo refletia cada emoção, me fascinava.

Quando finalmente ela ficou sozinha, eu dei alguns passos em sua direção. Minha respiração estava pesada, mas eu mantive meu sorriso enquanto estendia a mão para ela. Renesmee me olhou por um momento, e vi a hesitação se transformar em aceitação. Ela segurou minha mão, e o toque dela, frio e trêmulo, me fez sentir um calor percorrer meu corpo.

Sem dizer nada, começamos a caminhar juntos em direção ao grande chefe, Fenrir em espírito, para selarmos o que o destino havia escrito para nós. O futuro se desenrolava à nossa frente, e, com ela ao meu lado, senti que estava pronto para encarar qualquer desafio que viesse.