Os Filhos de Fenrir

34 Capítulo especial, Kiara- A filha do Alpha


Estava sozinha na tenda, organizando meticulosamente cada frasco de ervas. Eu sabia exatamente onde colocar cada um, e meus dedos trabalhavam rápidos, ágeis. Contudo, meu olhar voltava-se de tempos em tempos para o vidro escondido. Aquele frasco em particular era o meu segredo mais obscuro, aquele que me ajudara a me livrar de minha rival. Quando meus olhos pousaram sobre ele mais uma vez, um sorriso discreto curvou meus lábios.

Segurei o vidro entre os dedos, admirando-o por um momento. A sensação de controle me preenchia, até que uma voz me tirou de meus devaneios.

— Kiara?

A voz de Leah soou às minhas costas, e o susto fez o frasco escorregar de minhas mãos. Ele caiu no chão com um som seco, fazendo com que todas as minhas certezas se estilhaçassem junto com o vidro. Leah, com os olhos apertados de desconfiança, se aproximou.

— Você está bem? — perguntou ela, a voz com uma curiosidade mal disfarçada.

Eu me abaixei rapidamente, tentando limpar os cacos do chão antes que ela visse algo de mais. Meu coração batia acelerado, mas mantive minha expressão o mais calma possível.

— Estou, sim — respondi, apressada. — Não precisa se preocupar. Eu resolvo isso.

Leah se abaixou ao meu lado antes que eu pudesse impedir, os dedos dela começaram a juntar algumas folhas que estavam no chão, folhas daquela erva que eu jamais deveria ter deixado exposta.

— Deixe que eu ajudo — insistiu ela, a voz suave, porém incisiva.

— Não é necessário, Leah. Eu posso cuidar disso sozinha.

— Eu faço questão — disse ela, olhando-me diretamente nos olhos antes de pegar uma folha em particular e erguê-la para que eu pudesse ver melhor. — Você sabe o que essa erva faz, não sabe?

Minha respiração parou por um segundo. Eu não queria encarar aquilo, mas seu olhar exigia uma resposta.

— Não… — murmurei. — Não conheço essa erva. Eu... só achei esse vidro por acaso.

Ela riu, mas era um riso sem alegria, cheio de uma certeza perigosa.

— Engraçado você dizer isso, Kiara. Seu nome está escrito na tampa do vidro.

Eu fiquei imóvel por um momento, o sangue gelando nas minhas veias. Leah ergueu a tampa e mostrou-me, como se esperasse minha reação. A situação estava saindo de controle.

— Leah — comecei, com a voz firme, o tom da Beta saindo naturalmente. — Eu ordeno que você vá embora.

Ela apenas sorriu, com um ar vitorioso, como se finalmente tivesse chegado ao que procurava.

— Sempre desconfiei de você, Kiara. E agora eu tenho como provar o que você fez.

Eu senti uma onda de desespero subir pela minha garganta, mas mantive a postura. Não podia deixar transparecer o medo, não agora. Leah estava mais próxima do que nunca de desenterrar um segredo que eu não podia permitir que viesse à tona.

O silêncio que se seguiu após a ameaça de Leah era sufocante. Eu tentava manter a compostura, mas por dentro, meu coração estava uma tempestade. Não era apenas o medo de ser desmascarada que me atormentava, mas também a incerteza que me corroía sobre o destino de Jacob.

Faziam três meses desde o desaparecimento dele. Três longos meses desde que as notícias de sua rejeição por Renesmee tinham se espalhado, causando um abalo devastador na alcateia. Renesmee havia ido embora, e os boatos que corriam entre os membros da matilha diziam que Jacob não tinha resistido à dor de perder seu imprinting. Diziam que ele poderia estar morto. Mas eu me recusava a acreditar nisso. Jacob era forte, muito mais do que qualquer um poderia imaginar. Ele tinha que estar vivo.

Eu acariciei levemente meu ventre inchado. Faltavam poucos dias para meu filho nascer. O filho de Jacob. Eu contava que fosse um menino, herdeiro direto do Alpha. Sem Jacob, todos os meus esforços para chegar até aqui teriam sido em vão. Toda a manipulação, todas as mentiras que eu havia sutilmente plantado, nada teria valor se ele não estivesse ao meu lado no final. Eu sempre o amei, desde que éramos jovens. Enganar Renesmee tinha sido fácil demais; ela era ingênua e tola, cegamente confiante no vínculo do imprinting, achando que nada poderia rompê-lo.

Mas eu sabia como. Eu tinha estudado as ervas, os rituais, e descoberto maneiras de enfraquecer até mesmo a conexão mais profunda entre almas. Quando vi a oportunidade, agi. A erva que Leah agora segurava em suas mãos tinha sido a chave para tudo. Não só para eliminar minha rival anterior, mas também para garantir que Jacob fosse libertado de Renesmee. O imprinting não significava nada se ela não estivesse mais ali para ele. E agora, ela se fora. Jacob estava sozinho, vulnerável, e eu sabia como conquistá-lo.

— Então, o que vai fazer com o que descobriu? — perguntei a Leah, tentando soar fria, mesmo que o nervosismo ainda latejasse em mim.

Ela me lançou um olhar longo e avaliador antes de responder.

— Eu ainda estou pensando — disse Leah, com um meio sorriso. — Talvez seja melhor deixar o resto da matilha saber quem você realmente é. Ou talvez eu guarde isso para mim, até o momento certo.

Eu me aproximei lentamente dela, meu olhar fixo nos seus. Não podia deixar Leah interferir, não agora, não quando eu estava tão perto de alcançar tudo o que sempre quis.

— Se você souber o que é melhor para você — murmurei, controlando a raiva que borbulhava em mim —, vai esquecer tudo isso e me deixar em paz.

Ela hesitou por um momento, claramente ponderando suas opções. Mas então, com um último olhar carregado de desconfiança, Leah se virou para sair da tenda, deixando-me sozinha com meus pensamentos e o caos que eu sabia que estava por vir.

Eu suspirei profundamente, abaixando-me para recolher o que restava do frasco quebrado. Jacob precisava voltar. Ele precisava estar aqui para mim, para o nosso filho. E quando ele voltasse, seria fácil. Ele estaria devastado pela rejeição de Renesmee, vulnerável à dor. Eu estaria lá, oferecendo-lhe consolo, mostrando-lhe que eu era a única pessoa que realmente o entendia, que sempre estive ao seu lado.

Eu sabia exatamente como trazê-lo para mim.

Os dias se arrastaram em um silêncio agonizante. Não havia notícias de Jacob, e a incerteza sobre seu destino corroía meus pensamentos. Eu tentava me manter firme, mas, a cada dia que passava, a esperança diminuía, e o peso do meu ventre aumentava, trazendo consigo uma sensação constante de urgência.

Naquela tarde, as dores começaram de repente. Fortes, lancinantes. Eu estava em casa com minha mãe, Kalli, e Sarah, uma das mulheres mais experientes da tribo. O ar estava pesado, cheio de expectativa e ansiedade. Eu sabia que, lá fora, os líderes da tribo esperavam ansiosos, como lobos à espreita, prontos para saber se meu filho seria o herdeiro que todos esperavam.

Mas naquele momento, tudo o que eu sentia era dor.

— Ah! — Eu gemi, segurando minha barriga, enquanto uma onda de dor subia e tomava conta do meu corpo.

— Respire, filha, respire fundo — disse Kalli, com a voz firme e ao mesmo tempo carinhosa, como se soubesse exatamente o que fazer. Ela se ajoelhou ao meu lado, segurando minha mão com força.

Sarah correu para me auxiliar, colocando panos limpos e preparando a água. Eu podia ouvir murmúrios abafados vindos do lado de fora da casa, homens e mulheres preocupados, aguardando notícias. As contrações vinham em ondas, cada vez mais intensas, e eu lutava para respirar entre elas.

— Vai ficar tudo bem, Kiara. Você é forte — encorajou Sarah.

Mas a dor era avassaladora, e meus pensamentos voltavam-se para Jacob. Onde ele estava? Será que ainda estava vivo? Eu precisava dele. A cada nova contração, gritava seu nome.

— Jacob! — Meu grito reverberou pela casa, mas não havia resposta. Não houve movimento algum, apenas o som abafado dos murmúrios e da expectativa lá fora.

O tempo pareceu se arrastar, até que finalmente, com um último esforço, senti a pressão aliviar. O choro agudo de um bebê preencheu o espaço, um som tão puro e frágil, mas que ao mesmo tempo me trouxe um alívio que eu não sabia que precisava.

— O que é? — perguntei, minha voz embargada de emoção e exaustão, meus olhos marejados enquanto tentava focar no que estava acontecendo.

Kalli olhou para mim, tentando esconder a preocupação em seus olhos.

— Descanse agora, filha — ela disse suavemente, mas eu insisti.

— O que é, mãe? Por favor…

Sarah se aproximou com a criança envolta em um pano macio e quente. Ela me olhou, hesitante, mas finalmente me entregou o bebê.

— É uma menina, Kiara.

Meu coração apertou. A frustração cresceu dentro de mim como uma sombra. Eu tinha esperado por um menino. Um herdeiro, alguém que pudesse assegurar meu lugar e o de Jacob entre os líderes da tribo. Mas eu sabia que não podia demonstrar essa decepção. Respirei fundo e sorri para a pequena criatura em meus braços.

Quando a olhei, meu coração se suavizou. Ela era tão pequena, frágil, mas seu rosto... Ela parecia com Jacob. Seus traços estavam ali, nos olhos, na pequena boca que tremia levemente enquanto ela chorava baixinho. Eu a segurei com cuidado, como se o mundo inteiro pudesse desmoronar ao nosso redor, mas ela seria minha âncora.

Kalli e Sarah, percebendo o momento, se retiraram, deixando-me sozinha com minha filha.

Eu suspirei, sentindo uma onda de emoções me atingir. Era impossível ignorar o amor que começava a brotar em meu peito por aquela pequena vida em meus braços, mesmo que a frustração ainda latejasse por não ter sido o que eu esperava.

— Você parece tanto com ele… — sussurrei, acariciando suavemente o rosto dela. — Mas onde ele está?

Eu sabia que precisava de Jacob. Que esse vazio, essa incerteza, só seria preenchida quando ele estivesse ao meu lado. Fechei os olhos, tentando não chorar, e me permiti sentir o peso de tudo o que ainda estava por vir.