Os Filhos da Kitsune

1 Os Filhos da Kitsune - Parte 1


Notas iniciais
Olá! Estou publicando esta two-shot para que conheçam a minha versão sobre a origem do Ikki e do Shun. Imaginem que a mãe deles seja uma poderosa Kitsune, escolhida, em um acordo entre os deuses, para gerar guerreiros que batalhem pela causa de Atena. Convido-os para que conheçam a saga desta fiel kitsune em busca de proteger seus filhos dos intentos de Hades, em busca de seu receptáculo ideal. Essa mini-história faz parte da minha fic principal. Apesar disso, ela pode ser entendida de forma independente. Espero que gostem! Bjos!

Desde os tempos imemoriais, a deusa Inari é venerada no Oriente como a guardiã da fertilidade, da colheita e da prosperidade. Sempre ao seu lado caminham as kitsunes, raposas místicas e poderosas, conhecidas não apenas por sua astúcia, mas também por sua devoção inabalável à deusa.

Essas criaturas encantadas, dotadas de habilidade de assumir forma humana e portadoras de magia ancestral, são suas fiéis mensageiras e protetoras. As nove caudas em suas costas simbolizam sabedoria, longevidade e o elo entre o divino e o terreno.

Entre elas, uma kitsune especial carrega um destino singular, chamado a cumprir uma missão grandiosa.

Em meio a uma floresta, os sinos sagrados do santuário ressoaram. No centro de uma torii, um círculo de luz dourada se formou, e dela emergiu a deusa Inari, serena, radiante, com olhos azuis cristalinos e longos cabelos brancos como a neve.

_ Yoko, minha fiel Kitsune... É chegada a hora! _ a deusa disse com voz profunda, direcionando-se a uma figura elegante que surgiu dentre as árvores. Do dorso dela, nove caudas fluíam como véus vivos.

Ela se ajoelhou diante da deusa com reverência, respondendo ao chamado:

_ Minha deusa... eu a ouvi mesmo antes dos sinos tocarem. Meu espírito sentiu seu chamado.

_ Você me serviu com lealdade por eras. Agora confiarei a você uma missão que selará um equilíbrio da Terra no futuro. _ respondeu a deusa Inari enquanto Yoko erguia os olhos em expectativa, e ela continuou: _ Lembra-se daquele homem? Mitsumasa Kido?

Yoko sorriu suavemente e respondeu:

_ Sim, como poderia esquecer? Em forma de raposa, vaguei faminta por entre as casas dos homens. E foi ele quem, sem hesitar, me alimentou com as próprias mãos. Ele não sabia quem eu era, não exigiu nada, apenas teve compaixão…

Inari afirmou com leveza:

_ Por esse gesto, eu o abençoei com riqueza e prosperidade. Mas vi além, e o escolhi para ser parte de algo maior. Você, Yoko, o amou, e seu amor foi puro.

Emocionada, disse com voz suave e grata:

_ Foi impossível não amá-lo, minha senhora. Minha alma se entrelaçou à dele. E agora lhe pergunto, esse amor também era parte do seu plano?

_ Sim. Desejo que você e Kido tragam ao mundo dois filhos. Eles não serão comuns. Serão guerreiros destinados a lutar ao lado de Atena pela proteção da Terra contra a força de Hades. _ Yoko permaneceu imóvel, sentindo a importância da missão. E Inari continuou: _ O primeiro será Ikki. Como você, herdará o domínio do fogo. Terá dentro de si a essência da fênix e, por acordo antigo com Atena, será o primeiro a vestir a armadura dessa constelação mística. O segundo será Shun. A ele darei um presente mais raro. Um coração puro. Tão puro quanto meu. Ele será a manifestação da misericórdia, pois será um cavaleiro que lutará sem violência, com alma gentil.

Se levantou, pensativa:

_ Mas... senhora... Então será ele... o escolhido por Hades?

Inari assentiu:

_ Sim, Hades desejará tomá-lo como receptáculo. A pureza de Shun atrairá as trevas, como a luz atrai as sombras. Mas ele resistirá. Ele lutará. Seu destino não será o de ser dominado... e sim o de proteger. Ele será o cavaleiro de Andrômeda.

_ E eu o protegerei, com tudo o que sou. Darei minha essência para fortalecê-lo, e se precisar... darei minha vida.

Inari tocou a testa da kitsune com um dedo de luz: _ Você é a minha mais sábia serva, Yoko. E agora será mãe de dois dos mais nobres guerreiros que a Terra já conheceu.

Mas a kitsune ainda carregava uma centelha de dúvida, e ela indagou à deusa:

_ Senhora, qual será a natureza dos meus filhos? Serão youkais ou humanos?

_ Yoko, minha fiel kitsune... Teus filhos serão humanos porque nascerão no mundo dos homens, para caminhar entre eles. Mas dentro de cada um pulsará a luz do teu espírito ancestral.

Yoko sorriu em silêncio, e uma lágrima de fogo escorreu pelo seu rosto.

Era uma noite tranquila nos arredores do templo escondido entre os campos floridos do Monte Kurama. Entre as cerejeiras havia inquietação nos corações de duas pessoas que ali se encontravam.

Mitsumasa Kido, vestindo um kimono escuro simples, a esperava com olhos de ansiedade. Até que viu a silhueta dela surgir sob a luz da lua. Yoko caminhava sobre as folhas secas. Seus longos cabelos negros balançavam com o vento. Os olhos dourados, intensos e serenos, brilhavam sob a penumbra. Vestia-se como uma humana comum, mas com uma elegância sobrenatural em seus gestos.

Kido sorriu, mas com uma angústia contida:

— Eu sabia que viria... mesmo que fosse pela última vez.

Yoko baixou os olhos e respondeu:

— Você sempre me esperaria... mesmo sem entender porque eu desapareço nas sombras…

Ele se aproximou, tocando sua mão, e ela permitiu:

— Eu te amo, Yoko. Nunca importou de onde veio, ou que mistérios carrega. Eu quero ficar ao seu lado. Quero me casar com você.

Yoko fechou os olhos com pesar, mas não respondeu imediatamente. Por isso, ele continuou:

— No entanto, por que você foge e se esconde de mim? Chegamos a ficar quase um ano e meio sem nos ver, até que ainda a vi uma última vez, há pouco mais de três meses. E mesmo assim, nunca consegui te esquecer…

Ela suspirou, com a voz doce, mas carregada de dor:

— Eu te amo, meu querido, mas eu pertenço a algo muito maior do que este mundo. E eu não posso permanecer onde o tempo corre de forma tão frágil. Além disso, minha senhora me espera.

Ele se afastou, ferido por dentro. Não podia compreender aquelas palavras tão enigmáticas:

— E eu? O que eu sou para você?

Yoko se aproximou e tocou suavemente o rosto dele, expressando seu amor e também o seu lamento:

— Você foi o único a ver a minha alma e, por isso, lhe dei duas dádivas.

Kido ficou confuso. O que ela queria dizer com isso? Mas Yoko, percebendo a confusão em seu rosto, logo lhe revelou:

— Sim, tive um filho seu, Mitsumasa. E estou esperando o segundo.

Ele recuou, surpreso e com os olhos arregalados, sem saber como reagir:

— Onde eles estão? Por que escondeu isso de mim por tanto tempo?

Yoko olhou para as estrelas:

— Eles não vieram ao mundo por mim, nem por você. Foram chamados por minha senhora para cumprir um destino. Lutarão pelo bem da Terra, ao lado da deusa da sabedoria e da justiça…

De repente, ela fechou os olhos e franziu o cenho. Algo no ar mudou. Ela farejou o perigo.

— Fui seguida. — disse em voz baixa.

— O quê? — perguntou Kido, totalmente confuso.

Yoko, com pressa, respondeu olhando para as sombras:

— Não posso arriscar que te machuquem. Eles me caçam desde que a criança foi concebida... Eles sabem... Hades sabe...

Na penumbra cósmica, dois pares de olhos dourados abriram-se ao mesmo tempo, rompendo o silêncio do antigo depósito de lenha do Castelo Haisten na Alemanha. Hypnos, o deus do sono eterno, projetou-se entre véus de névoa como se pairasse no ar, e Thanatos seu irmão, o Deus da Morte, movia-se com a precisão cruel. Ambos estavam libertos após séculos presos pelo selo de Atena, e enfim podiam sentir novamente os corações pulsantes da humanidade, assim como naquele momento sentiam o da pequena menina de cabelos negros, de pele de porcelana e olhos violeta. Esta era Pandora que acabara de destrancar a caixa de jóias que os selava.

Mal sabia a doce garotinha que ao realizar aquele ato, estaria selando o seu próprio destino, o de receber a alma da entidade que encarna na Terra para ser a irmã de Hades e a comandante de seu exército.

_ Escute, Pandora. Em breve a alma do Senhor Hades renascerá em seu irmão._ foram as palavras proferidas pelos deuses à garotinha, assim que foram libertos.

Atônita e confusa, a pequena garotinha indagou:

_ Meu irmãozinho Hades?

_ Isso mesmo. O rei do submundo a esta era chegará através do corpo de sua mãe. Pandora, você deve proteger a alma dele com a sua vida. Até que a hora chegue. Pois num lugar ao Leste daqui, os guerreiros do submundo, os 108 espectros também renascerão. E então a batalha final entre os deuses consolidará o senhor Hades como o rei supremo em toda a Terra! E a você, Pandora, daremos poderes para que governe e comande todo o nosso exército! Até lá, proteja o senhor Hades com a sua vida! Faça isso e ganhará a vida eterna! Há ha ha!

Naquele momento, a menina veio assumir o peso do seu destino. Entrando em transe, os seus olhos se escureceram para tudo o que tinha vivido até então. Esquecera-se das cores da natureza, do calor das relações humanas, da convivência com a sua família, vendo tudo ao seu redor perder a vida, inclusive a de seus pais, assim que sua mãe deu a luz à alma do Senhor do submundo. A partir dali não seria mais a menina doce do Castelo Haisten, e sim, Pandora, a líder máxima do exército do submundo. E sua primeira missão seria encontrar o receptáculo puro e perfeito para receber a alma de seu irmão.

Atentos a esse anseio, Hypnos e Thanatos sentiram que o receptáculo já estava em vias de ser concebido:

_ você sentiu, irmão? _ sussurrou Hypnos, com os cabelos dourados e esvoaçando ao redor do seu rosto sereno._Uma luz… tão pura… que quase nos cega…

_ Sim. _ respondeu Thanatos, com a voz grave. _ Uma alma em gestação. Um coração que brilha com compaixão e bondade. Uma criança ainda não nascida que possui a essência que o nosso senhor tanto procura.

Hypnos fechou os olhos, e um sorriso sutil se desenhou em seus lábios:

_ Ele será um receptáculo perfeito para Hades. Sua alma é pura como uma tela em branco…

_ Mas há um problema. _ disse Thanatos, erguendo a mão e mostrando uma luz flutuante: uma silhueta feminina envolta em luz dourada e caudas flamejantes _ A mãe da criança. Ela não é humana.

Hipnos contemplou a imagem com curiosidade:

_ Uma kitsune… serva de Inari. Isso é incomum. Divindades do oriente interferindo no nosso jogo…

_ Inari ousa plantar sementes na guerra que pertence ao Olimpo e ao submundo! _ disse Thanatos com desprezo. _ Devemos agir antes que ela interfira ainda mais!

Os dois irmãos viraram-se ao mesmo tempo para uma figura que se aproximava. Um vulto feminino vestido de negro, com asas translúcidas e olhos de um Violeta profundo: Ker, a deusa do destino infortúnio, e irmã dos gêmeos, que há pouco tempo havia sido quase morta por Aiolos, o cavaleiro de Sagitário*.

Ker, você conhece os caminhos. Encontre a mulher. Observe cada passo. Quando a criança nascer saberemos o momento exato de tomar o que é nosso.

_ E se a kitsune tentar esconder o menino?_ perguntou o que era com um sorriso perverso nos lábios.

_ Então destrua quem for necessário. _ respondeu Thanatos, sem alterar o tom de voz. _ Mas lembre-se, o receptáculo deve ser intocado. Hades não tolerará o receptáculo ferido ou impuro.

Ker curvou-se diante dos dois irmãos e se dissolveu nas sombras com um redemoinho de energia púrpura.

Entre as árvores centenárias, ali caminhava Yoko, em sua forma humana. Trazia no ventre uma nova vida, e no colo o pequeno Ikki, com olhos azuis intensos e curiosos, de quase dois anos de idade. Sua presença ressoava como um eco de poder antigo e ancestral.

Yoko usava um kimono simples, mas seus olhos dourados denunciavam algo além do humano. Orelhas levemente pontiagudas escondidas sobre os cabelos negros enunciavam sua verdadeira natureza: uma kitsune.

Enquanto caminhava, algo perturbava sua alma.

_ Sinto uma presença. Não é humana, nem animal. Mas é algo faminto…

Do alto de uma rocha, Ker a observava. A deusa do destino infortúnio ocultava-se entre planos, mas com olhar atento:

_ Então é ela… _ murmurou Ker. _ A raposa de Inari. Bela… poderosa. Uma oferenda interessante, mas o que me interessa são seus filhotes.

Seus olhos se voltaram para Ikki, que brincava com um graveto na beira de um riacho. O menino parou de repente. Seu olhar encontrou o vazio entre os arbustos como se sentisse algo, e o ar ao redor dele pareceu vibrar por um instante.

Ker franziu o cenho:

_ Mas o que é isso? _ sussurrou. _ Esse garoto… seu cosmo é agressivo… selvagem. Tão diferente do que meus irmãos esperavam. Ele sim… ele teria a força para carregar um deus como Hades.

Ela desviou o olhar para o ventre de Yoko:

_ No entanto, é o outro que nascerá puro. Fraco. Submisso. Uma alma inútil. _ seus olhos se estreitaram_ Isso é um desperdício! Por que dar a um cordeiro poder de um rei das trevas? O lobo seria um receptáculo muito melhor!

Ker se ergueu, e com sua presença obscurecendo o seu redor, ali mesmo arquitetou o seu plano:

_ Sim. Quando o cordeiro nascer, eu matarei. E tomarei o lobo. E assim darei aos meus irmãos um receptáculo digno.

No fundo da mata, Yoko abraçou Ikki com força. Seu coração de mãe sentia perigo se aproximando:

_ Ikki… _ disse ela, encostando a testa na dele. _ Prometa que vai proteger seu irmão. Sempre. Mesmo que um dia eu não possa mais estar com vocês.

O menino, ainda sem entender tudo, tocou o ventre da mãe com a pequena mão, e balbuciou:

_ Shun…

Yoko sorriu, mas seus olhos estavam marejados. Alguém a observava, e a caça já havia começado.


Notas finais
Gostaram? Quem diria que Inari, uma deusa do Oriente, planejou a vinda de Shun e de Ikki para serem poderosos guerreiros de Atena? Sei que alguns desígnios podem parecer um pouco contraditórios e trágicos, mas as contradições fazem parte desse jogo em busca de um bem maior! E mais uma vez chegamos ao dilema do amor x dever (destino). Yoko é mais um exemplo disso. E agora, há um perigo à vista. Hades deseja seu receptáculo. No entanto, Ker tem os seus próprios planos...O que será que Yoko terá que enfrentar para proteger seus filhos?