Os Filhos da Kitsune
2 Os Filhos da Kitsune - Parte 2
Alguns meses se passaram. Um casebre escondido em uma floresta isolada, com paredes de madeira rústica coberta por musgo, cercadas por carvalhos. O luar penetrava pelas frestas com sua luz tênue.
O crepitar suave do fogo da lareira dava ao pequeno abrigo um ar de lar, mesmo em meio ao medo constante. Sentada sobre um tatame, Yoko embalava com delicadeza o bebê de poucos meses, cujos olhos verdes e serenos fitavam o teto como se vissem muito além. Shun, mesmo tão pequeno, exalava uma pureza quase sagrada, e seu cosmo pulsava como uma canção divina, e Yoko sabia quem escutava essa canção.
À sua frente, Ikki com apenas dois anos, estava de pé. Seus cabelos azuis escuros caiam desalinhados sobre os olhos intensos e atentos. Apesar de tão jovem, o menino tinha o porte altivo e sério, e olhava o mundo ao redor com olhos de guerreiro.
Yoko o observava, sentindo o peso da escolha que teria que fazer.
_ Ikki… venha aqui, meu amor.
Ele se aproximou, e sentou-se ao lado da sua mãe.
_ Você sabe quem é esse, não sabe?
_ Meu irmão. _ Respondeu Ikki com olhos sérios.
_ Sim. Ele é seu irmão mais novo. Um dia… ele vai precisar muito de você …
_ Por que , mamãe ?
_ Porque há forças que não gostam de luz. E Shun é feito de pura luz. Promete que vai protegê-lo? Promete que, aconteça o que acontecer, vai cuidar dele? _ Yoko pousou um olhar intenso e suplicante para Ikki.
O menino tocou o rostinho de Shun, que agarrou seu dedo com a mão minúscula, e depois respondeu à sua mãe:
_ Eu prometo. Ninguém vai pegar o Shun. Eu vou bater em todo mundo que tentar.
Yoko o envolveu em um abraço apertado, contendo as lágrimas:
_ Você tem um cosmo forte, Ikki. Às vezes até violento. Mas ele é também cheio de amor…
No fundo de sua alma, Yoko sentia que Ker estava cada vez mais próxima, vigiando, à espreita, esperando o momento certo de agir. Ela apertou os dois meninos contra o peito, e transmitiu parte de seu poder ancestral a Ikki, como um escudo que o protegeria quando o inevitável chegasse.
Na lareira o fogo tremeu, e a brisa lá fora cessou. Ker estava prestes a se mover.
Uma figura avançava pelas árvores, movendo-se com letalidade. Ker, com olhar frio e cruel buscava consumar o seu plano. E em suas mãos, a energia púrpura era como veneno, pronta para ceifar vidas.
_ “O fraco não serve” _ murmurou para si mesma. _ “Aquele com o fogo… aquele sim… deve pertencer a Hades”.
Ela se aproximou do casebre, com seu cosmo espalhando escuridão. Dentro, Yoko sentiu o perigo, e seu instinto disparou:
_ Ikki, fique perto de seu irmão! Agora!
O menino obedeceu, os olhos faiscando uma chama de determinação.
Ker apareceu na entrada com sua voz cortante como uma lâmina:
_ Você não pode fugir, raposa! Seu tempo acabou! Sou a deusa Ker, senhora do Infortúnio, e vim buscar seus filhos!
Yoko ergueu as mãos, conjurando um escudo de energia dourada, a luz ancestral da deusa Inari.
_ Se tocar neles, eu juro que sua existência terminará aqui!
Ker riu com frieza e desdenho. Mas seu corpo mostrava os sinais da derrota anterior. Sua aura estava instável. A luta contra Aiolos, embora ela nunca admitisse, deixara sequelas que seu orgulho divino insistia em ignorar.
Yoko, de pé entre seus filhos e a deusa, observava com olhares atentos. Suas nove caudas tremulavam atrás de si. Ela não era apenas uma mãe. Era uma enviada de Inari!
Ker avançou e conjurou correntes de energia negra que tentaram atacar Yoko quebrando o escudo que tinha se formado ao seu redor. Mais um segundo ataque , e este acertou a Kitsune em cheio , deixando-a muito ferida. Mesmo prostrada ao chão, Yoko depois ergueu-se, reunindo todas as últimas forças que lhe restavam. Ainda não entregaria os pontos. A maligna deusa ainda conheceria seu verdadeiro poder de Kitsune de nove caudas!
_ Você subestimou mais do que a mim, Ker. Subestimou o poder do amor!
Ker grunhiu: _ Amor é fraqueza! Eu sou a destruição! E agora… eu levarei o receptáculo certo e matarei o outro!
_ Não! Agora você cairá!
Yoko fez um selo com as mãos e uma aura prateada se formou ao seu redor. Era uma técnica ancestral das kitsunes ensinada apenas às emissárias mais elevadas de Inari: “O Espelho das Mil Almas” .
_ Você é poderosa, Ker… Mas sua alma está fragmentada. Vejo que um cavaleiro de Atena já expôs as suas rachaduras. Tudo o que preciso fazer… é mostrar sua própria escuridão a você !
A luz do espelho se formou diante da deusa. Ker recuou um passo, incerta.
_ Isso é… feitiçaria tola !
Mas ela então viu, no reflexo do espelho, ela mesma. Derrotada, fraca, rejeitada, trancafiada por um milênio, esquecida e ignorada por Hades, e mais uma vez desprezada pelo humano por quem um dia se apaixonou, o cavaleiro de Sagitário.
_ Não… não!
Ker gritou, mas o feitiço já a envolvia, e sua energia se contorcia. Yoko, ofegante, concentrava tudo o que podia para manter o selo ativo. As imagens do espelho invadiram a mente da deusa, forçando-a confrontar o desprezo de todos à sua volta e à sua própria insignificância perante Hades. Era um ataque à alma, e não ao corpo.
Ker tentou lutar, mas a instabilidade de seu cosmo a impedia de romper o encantamento. Com um último urro de ódio, ela se dissipou em névoa sombria, fugindo para as sombras.
Yoko caiu de joelhos, e sangue escorria de sua boca. O feitiço também cobrara um preço alto de seu corpo que já estava ferido pelo ataque anterior de Ker.
Ela sorriu para o filho mais velho, e com uma voz fraca disse:
_ Ikki… você é o fogo… seu irmão é brisa…_ Ela segurou a mão do pequeno menino, que já emanava um cosmo intenso. _ Proteja Shun com a sua vida. Nunca permita que a escuridão o leve. Mesmo sendo tão pequeno saberá o que fazer. Procure por Mitsumassa Kido… Entregue-lhe esta carta. _ Ela retirou de dentro das vestes um papel dobrado com o selo de Inari. _ Ele saberá o que fazer …
Ikki chorava, mas assentiu. Mesmo tão pequeno, algo dentro dele compreendia que não podia hesitar.
_ Eu cuido do Shun, mamãe. Mas onde você vai? Não vai embora…
_ Meus amores... A mamãe ama vocês … e sempre , sempre estarei cuidando de vocês, de onde eu estiver…_ Yoko encostou a testa na de seus filhos, fechando os olhos com um sorriso sereno. Sua alma começou a se desfazer em partículas douradas. Ela voltava ao plano espiritual de onde viera, para junto de sua Senhora.
Quando a luz se apagou, os dois irmãos estavam sozinhos no mundo.
Ker jazia prostrada. O corpo tremia de exaustão. Seus cabelos negros estavam embaraçados. Ainda assim, seus olhos continuavam fulminantes, mesmo diante dos dois deuses gêmeos que estavam diante dela.
_ Você desobedeceu. _ Hypnos foi o primeiro a falar.
Ker ergueu o rosto, ferido, mas altivo.
_Eu fiz o que era certo. O cosmo daquele menino… Ikki… ele é o receptáculo ideal. É forte. É feroz. Shun… é fraco…
Thanatos, com seu olhar gélido, se aproximou lentamente.
_ O que você pensa não importa, irmã. O destino já foi escrito. A alma do nosso mestre escolheu Shun. Você tentou interferir, tentou matar aquele que deve carregar Hades. Isso é… traição!
_ Eu queria o melhor para Hades. Em receptáculo digno. Aquele bebê não suportaria a pressão.
Hypnos aproximou-se da irmã com um gesto suave e disse:
_ Talvez você esteja certa. Talvez não. Mas as ordens são sagradas. E sua rebeldia tem um preço.
Com um aceno sutil dos dedos do deus dos sonhos, uma fenda se abriu atrás de Ker. Dela emergiu uma estrutura que enlaçou seus punhos e tornozelos. Ela tentou resistir, mas estava exaurida. A batalha contra Yoko e as feridas espirituais do espelho das mil almas a deixaram vulnerável demais.
_ Vão me trancar aqui? No mundo dos sonhos? Como ousam? _ rugiu, tentando se soltar.
Thanatos respondeu com frieza:
_ Você quis reescrever o destino. Agora será condenada a sonhar com ele.
As correntes puxaram Ker para dentro do espelho, e seu corpo desapareceu lentamente, e com um som abafado, o espelho se fechou. Então Hypnos se virou para o irmão:
_ É uma pena. Ker amava o nosso senhor Hades. Mas amor sem obediência é perigoso…
Thanatos respondeu:
_ Que ela sonhe … até que o nosso senhor Hades a perdoe…
No castelo Haisten, que àquela altura já havia se transformado no sombrio castelo de Hades, no quarto dos fundos dormia uma criança de cabelos negros. Era Pandora com apenas 3 anos de idade. Seus olhos abriram e diante dela surgiram duas presenças etéreas: Hypnos e Thanatos, envoltos em sombra.
A menina não chorou. Não parecia assustada. Ela já estava sob a possessão da “alma de Pandora, a irmã de Hades”. Só os observou, como se já os conhecesse de outras eras.
Do manto de Hypnos surgiu um colar de prata fina, com um pingente. Gravado nele, lia-se com letras antigas: “Yours Forever”. O deus o depositou suavemente nas mãos de Pandora.
_ Quando encontrar o bebê cuja a aura for a mais pura, coloque esse pingente em seu pescoço. Será o selo. A âncora entre o corpo e a alma do deus.
Pandora apertou o pingente contra o peito e perguntou:
_ Mas… onde ele está?
_ Nossa irmã, Ker, revelou a sua localização antes de ser punida. O receptáculo está no Japão. Ele se chama Shun, e é apenas um bebê.
Hypnos ergueu a mão e revelou uma imagem que flutuava no ar. Um menino de cabelos azuis escuros que parecia observador e protetor.
_ Esse menino… Ikki… ele é perigoso. Não o subestime.
Pandora assentiu. Apesar da idade, uma sombra se projetava em seu semblante.
_ Vá! Encontre Shun. O destino dos deuses depende disso.
A pequena Pandora, já sozinha no seu quarto, apertou o colar e sussurrou:
_ Eu vou te encontrar, irmão. Eu prometo.
O asfalto maltratava os pés descalços do menino que caminhava pelas ruas desertas da noite de Tóquio. Ikki carregava o irmão com surpreendente firmeza. Shun, envolto em um xale, manifestava um pequeno choro, como se já prevesse os perigos que estava por correr.
_ Não se preocupe, Shun. Você está a salvo agora. Nunca vou deixar eles pegarem você. _ Ikki irradiava um cosmo primitivo e feroz, aceso pelo luto, pela promessa e pelo sangue da mãe que não vivia mais. Um cosmo que manifestava nele uma consciência muito mais madura do que a de uma criança normal de sua idade.
O vento mudou. Ikki parou e pressentiu:
_ Eu sei que tem alguém aí… _ murmurou Ikki com uma voz baixa e grave demais para a sua idade.
Uma figura surgiu diante dele. Uma menina de cabelos negros, vestidas em farrapos de cor escura, com a tez branca e fria como a de uma boneca de porcelana. Seus olhos eram gélidos e antigos, muito mais velhos que seu corpo infantil. Era Pandora, que pronunciava seus intentos de buscar Shun.
_ Você não pode fugir de Pandora. Entregue a criança!
Ikki recuou dois passos, segurando o bebê com mais força. Seu olhar se tornou ainda mais firme:
_ Q- quem diabos é você? E o que quer com o Shun?
Impassível, Pandora respondeu:
_ Ele é meu irmão mais novo!
_ Shun é meu irmão! Nós temos a mesma mãe ! Ele é o meu irmãozinho, e não seu! _ o cosmo ao redor de Ikki explodia selvagem, como labaredas vivas em seu corpo.
Pandora segurava um embrulho em seus braços como se emulasse a presença de um bebê. De fato, ela segurava em meio a um manto, a alma de Hades que havia sido trazida ao mundo através da senhora Haisten, mãe da menina. A irmã de Hades olhou determinada para Ikki e lhe explica:
_ Os deuses deram uma vida ao Shun para que cumprisse o seu destino. Ele deve se fundir com esta alma. É a alma do deus do submundo, o senhor Hades! Ele desceu à Terra após 200 anos, e seu irmão foi escolhido para fornecer sua carne a ele, por ter o corpo humano mais puro.
Ikki ficou espantado. Pandora parecia segurar o universo em seus braços.
_ Dá um tempo! Eu nunca vou entregar meu irmão a você !
_ Não importa! Essa criança vai se tornar um deus, e você deveria estar feliz por ele!
_ Até parece! Nunca vou deixar isso acontecer!
Pandora não estava mais disposta a discutir. Seus olhos brilharam como estrelas cintilantes, e com seu cosmo projetou descargas de eletricidade sobre o pequeno Ikki, bradando:
_ Chega de conversa! Entregue a criança! Solte-o senão vai perder os dois braços!
_ Argh! O que é isso? É como se Shun estivesse me dando choques! _ o pequeno Ikki sentiu o doloroso ataque de Pandora, e uma chama clamando pela sobrevivência começou a se expandir ao redor dele, mesmo em meio ao seu sofrimento. O cosmo dele era quente, agressivo, indomável. Era um eco da Kitsune que o gerou. _ Eu não vou deixar você tocar nele! Minha mãe me disse para proteger o Shun. E eu vou! Mesmo que você seja forte! Mesmo que eu morra!
As palavras não pareciam de uma criança. Elas ecoavam na própria essência do cosmo.
Mas, Pandora, ainda assim não hesitou e lançou mais uma rajada de eletricidade em Ikki: _ Que assim seja!
Os músculos doíam, o corpo perdia a sua força e capacidade de se sustentar, e assim Ikki caiu prostrado, com o seu rosto em terra. No entanto, seus pequenos braços ainda envolviam seu irmão Shun. Seu instinto protetor superava qualquer dificuldade, o que deixou Pandora espantada:
_ Mesmo depois de tudo isso, ainda não o solta! Como é persistente!
Pandora aproximou-se de Shun pronta para levá-lo consigo, mas algo a fez hesitar. Pela primeira vez sentiu dúvida. Aquele bebê estava protegido por algo que nem os deuses gêmeos haviam previsto. Naquele instante, o cosmo de Ikki explodiu com mais força. O chão tremeu. Uma aura flamejante se formou ao redor, mesmo com ele estando quase já inconsciente.
_ Mas o que… que cosmo é esse? Por que não consigo chegar perto desta criança?
_ N-não vou entregá-lo a você… mesmo que eu morra… mamãe , me ajude…
_ Que garoto é esse? Mesmo machucado ele não desiste! Não posso arriscar ferir o corpo do hospedeiro do meu senhor… não tenho escolha… Ainda há mais ou menos uma década até que o selo de Atena sob os espectros seja desfeito. Até lá, Ikki, deixo o garoto aos seus cuidados.
Convencida de que aquele cosmo flamejante a impediria e talvez até violasse o corpo de seu senhor, Pandora resolveu esperar. Na hora certa o senhor Hades e Shun se reencontrariam. E para selar essa promessa, ela colocou no corpo de Shun a corrente com o pingente Yours Forever.
_ Enquanto esse pingente existir, nenhum de vocês poderá escapar de mim!_ Foi o que Pandora exclamou ao ir embora dali.
E assim, a semente da rivalidade entre Ikki e Pandora estava plantada. Uma guerra silenciosa, travada desde a infância nas sombras do destino de Hades.
Ikki seguiu pelas ruas com passos firmes, apesar do cansaço que pesava em seu corpo. Seus pés pequenos estavam arranhados e sujos, e seus braços doíam de tanto carregar o seu irmão. Mas ele não parava. Não podia. A imagem da mãe caída no chão, ensanguentada, ainda queimava na memória.
_“ Encontre Mitsumassa Kido… “ _ dizia a voz dela em sua mente _ “ Proteja seu irmão com sua vida…”
O bebê em seus braços chorava faminto. Ikki apertou Shun contra o peito e olhou para o céu que já clareava em um novo dia, e quem sabe para uma nova esperança. Foi quando ele viu duas mulheres se aproximando, talvez saindo para o trabalho. Uma delas, de cabelos grisalhos, os notou:
_ Oh, meu Deus! _ gritou ela_ Haruko, venha ver isso! É um menino… e ele está carregando um bebê! Como isso é possível? _ a mulher se ajoelhou diante de Ikki, incrédula.
_ Pequeno, o que aconteceu com você ? Está machucado ? Onde estão os seus pais?
Ikki não respondeu de imediato. Seu rosto estava sujo, e os olhos marejados de dor. Mesmo assim, balbuciou:
_ Mi… m… minha mãe… morreu… virou luz das estrelas… _ Fez uma pausa tentando lembrar das palavras de sua mãe _ Ela… ela… disse que tenho que proteger o Shun e levar ele até … Mitsumassa Kido…
_ Kido? O senhor Kido? Como você sabe o nome dele? _ Perguntou Haruko perplexa.
_ Minha mãe conhecia ele… Ela disse para eu entregar a ele essa carta…
_ Nós trabalhamos no orfanato do senhor Kido _ disse a mulher emocionada. Ela se ajoelhou e tocou Ikki com leveza.
_ Você chegou ao lugar certo, pequeno. Está seguro agora.
Ikki vacilou, e finalmente permitiu que o cansaço lhe dominasse. Haruko pegou Shun de seus braços, o aconchegando em seu peito. A outra mulher carregou Ikki no colo, e ele, vencido, repousou a cabeça em seu ombro.
_ Você é muito corajoso, pequeno! Sua mãe estaria orgulhosa! _ Sussurrando baixinho, a mulher beijou o garoto que acabara de desmaiar de cansaço em seu colo. E assim as duas mulheres levaram os irmãos para o orfanato Filhos das Estrelas para que encontrassem o senhor Kido.
Um carro parou diante do orfanato. Mitsumassa Kido desceu com passos firmes. Já o aguardavam Haruko, e Olívia que já estava àquela altura exercendo o cargo de diretora da entidade. Ele foi levado até uma sala onde duas crianças descansavam. O bebê dormia em um berço improvisado. O mais velho, exausto, respirava profundamente sobre um futon. Ao vê-los, algo inexplicável moveu o coração de Kido.
Mas antes que pudesse se aproximar, Haruko entregou-lhe um envelope:
_ Isto estava com o menino mais velho. Disse que era para o senhor.
As mãos de Kido tremeram ao rasgar o lacre. Ele reconheceu aquela letra.
“ Mitsumassa, se essa carta chegou até você, é porque já não estou mais neste mundo. O destino me chamou, e tudo o que me resta é confiar em você… Ikki e Shun… são nossos filhos… Eles não são apenas sangue do seu sangue, mas também herdeiros de uma missão maior…
Sou uma Kitsune que você salvou da fome muitos anos atrás, e desde então eu o amei. Minha senhora, a deusa Inari nos escolheu para gerar dois guerreiros que nasceram para lutar sob a bandeira da deusa Atena. Os deuses já traçaram seu caminho. Por isso, peço que prepare-os! Dê a eles a chance de se tornarem guerreiros dignos de proteger a deusa. Sei que peço muito. Talvez você me odeie e até amaldiçoe os deuses por isso. Me perdoe também por não ter revelado tudo antes, mas o perigo me cercava e o cercaria também. Eu tive que dar a minha vida para eliminar inimigos fortes! Mas agora sei que eles poderão ficar seguros contigo.
Cuide deles… E me perdoe… Apesar de tudo, eu sempre te amei!
Yoko”
As mãos de Kido apertaram o papel, seus olhos marejados escondidos pelas sobrancelhas cerradas. Ele olhou novamente para os meninos. O mais velho, mesmo dormindo, mantinha os punhos cerrados para proteger o irmão até no inconsciente.
Uma dor cortante atravessou o peito de Mitsumassa. Ele já havia perdido tantas pessoas que amava. Saiaka, tantos filhos abortados, agora Yoko… Olhou para Olívia que estava bem à sua frente que também o olhava em expectativa. Sua afilhada também havia perdido Aiolos, e com certeza, também perderia a chance de viver com seu filho, tudo pela causa de Atena. Saori, a pequena bebê que chegou em seu caminho, ele já temia perder para o destino dos deuses.
E agora… dois filhos de seu próprio sangue, entregues a ele como armas do futuro. Mas que brincadeira sórdida é essa dos deuses? Fora ele, Mitsumassa Kido, escolhido para sacrificar àqueles a quem ama para uma causa maior? Deveria ele ignorar a vontade dos deuses e desobedecer seus desígnios? Ou resignar-se , e oferecer um sacrifício vivo diante deles?
Ele respirou fundo, e sua decisão nasceu como uma sentença cruel:
_ Não… _ murmurou consigo mesmo. _ Eu não posso chamá-los de filhos. Não posso me apegar… ou sofrerei ainda mais…
Guardou a carta no bolso interno do paletó, como quem sela um segredo eterno. Em poucos segundos, ele já havia retomado o semblante frio do homem de negócios:
_ Olívia, acolha estes dois meninos juntamente com os demais órfãos. A mãe, uma velha conhecida, antes de morrer, nos entregou para que cuidássemos deles. Providencie tudo para que tenham uma nova família aqui.
Olívia franziu a testa, surpresa com a frieza daquelas palavras, mas não quis questionar. Não naquele momento. Mas em seu coração ela sabia que por trás daquelas palavras ditas com tanta frieza, havia questões muito mais profundas.
Kido virou-se para observar Ikki e Shun uma última vez, e seu coração gritando aquilo que não podia pronunciar:
_ “Meus filhos…”
Mas ao se afastar, fechou os olhos, apagando a palavra da mente como quem sela uma ferida.
No silêncio daquela sala, o destino de Ikki e Shun se alinhava ao das estrelas… Guerreiros de Atena, mas órfãos para sempre !
Naquela noite, enquanto os meninos dormiam, a lua prateada iluminou suas faces. Do lado de fora, o vento sussurrava, como se fosse a voz de Yoko velando seus filhos:
_“ Os fios do destino foram tecidos. Quando a escuridão de Hades despertar, a chama da Fênix e a pureza das correntes se erguerão como resposta. Pois mesmo os deuses não podem apagar o brilho das estrelas”
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