Os Fanáticos
1 Tati
Notas iniciais
“Se arruma logo, Tati, tá a noite inteira aí!”, disse Giuliana, passando os dedos pelo cabelo longo, que atualmente estava preto. Ela mudava tanto de cor e comprimento que às vezes esquecia qual era a conformação atual dele. Já fora castanho claro e escuro, e até mesmo azul; a garota era conhecida pelos seus fios multiformes. “Vamos, Tati! Sei que você não gosta de sushi, mas tenta pelo menos agilizar!”, ela gritou, proferindo um palavrão que ecoou por toda sala de sua casa.
Sala essa que era grande, de paredes de cores claras, com alguns quadros e enfeites requintados. No centro, uma mesa larga e branca, de madeira dispendiosa e seis cadeiras dispostas simetricamente. Em um canto, um sofá marrom escuro, opaco. Giuliana sentou-se nele e segurou a cabeça com as mãos, tentando não borrar a maquiagem. Logo, saindo da porta que dava ao quarto, sua amiga Tatiane surgiu. Ela estava estonteante. Usava uma blusa e saia pretas, de tecido leve e confortável, que se alinhavam muito bem com sua pele morena e cabelos negros como um corvo. Os olhos castanhos estavam sutilmente maquiados, dando-lhes um aspecto gatuno e boca recheada de um batom vermelho espetacular. Tati era alta, de formas arredondadas e voluptuosas, encimadas por um rosto oval e contemplados por um jeito desajeitado e barulhento.
“Desculpa, Giu. Mas tu sabe como eu demoro. Minha mãe me ensinou que uma moça se arruma sempre muito bem.”, a voz alta de Tatiane podia ser ouvida até mesmo nos vizinhos. “Ok, ok. Agora vamos, por favor, não quero deixar minha mãe esperando pra levar a gente”. Ao notar mais uma vez a roupa de Tati, a garota sentiu-se um pouco desconfortável. Usava calças jeans rasgadas, uma blusa branca e batom roxo. Não estava mal vestida, de forma alguma, mas desejou, por um instante, ter se arrumado mais. As suas mãos tremiam de ansiedade para sair logo e suas curtas pernas precisavam andar rápido para acompanhar as passadas largas de Tati.
Logo, saíram de casa e foram em direção ao restaurante. No carro conversavam animadamente, como se o mundo fosse inteiramente delas. “Será que o João vai atrasar? Aquele viado chato”, Tati disse, soltando uma gargalhada. “Até parece né, Tati. João é mega pontual, capaz de chegar antes do horário, guria”, Giu respondeu, olhando-se no espelho do carro. “Se conheço bem, deve estar se pegando com algum macho ou guria lá, tu sabe como ele é”, Tati não parava de rir. “Ai, cala boca, Tati”, Giuliana jogou seu batom na amiga, rindo juntamente com ela. As duas foram falando até chegar ao seu destino. Saíram do carro rapidamente, Giu sempre mais demorada, afinal sua baixa estatura não permitia movimentos muito ágeis, fazendo-a desejar nascer modelo na sua próxima vida.
Ao chegarem, logo encontraram seu amigo João encostado na parede de fora do restaurante, mexendo em seu celular. O amigo era alto e bem magro, tinha pernas compridas, cabelos e olhos castanhos escuros e uma pele branca como neve. Olhou-as com seu olhar penetrante e abraçou-as com carinho e afeto. Todos entraram e correram para pegar uma mesa decente. Tati foi logo comentando que iria pegar algo diferente para comer, pois não gostava de sushi, recebendo olhares de reprovação dos amigos.
“Joni, como vai com o Jota, ele não percebeu ainda?”, Giu perguntou, chamando João pelo apelido que ela dera para ele logo que se conheceram, e citando Jota, o menino pelo qual o amigo era apaixonado. “Cara, eu não sei se ele se faz de burrinho, ou se realmente não se tocou ainda, porque sou muito carinhoso com ele”, respondeu João, corando um pouco. “Ele sabe cara, tô te dizendo, ele sabe, puta que pariu, tenho certeza!”, ela retrucou, rindo. João deu de ombros e focou no seu prato que acabara de chegar.
Ao fim da noite, depois da Tatiane infernizar os dois dizendo que sua mãe queria que ela fosse embora logo, eles saíram do restaurante, satisfeitos por mais uma noite maravilhosa. “Vão até o ponto de ônibus comigo, né?”, ela disse, olhando com cara de pidão pros dois, recebendo respostas afirmativas. No caminho, Tati comentou sobre o fato de o Jota ter cara de gay e parecer ser bem afetado, dizendo que João tinha muitas chances com o rapaz de olhos verdes. O garoto falou que não sabia bem se isso era verdade, afinal, Jota era bastante religioso e isso atrapalhava um pouco questões como aquela. Giuliana disse que não sabia mais nada, sentando-se no ponto de ônibus com as pernas abertas. “Fechas essas pernas, Giu! Aja que nem mocinha!”, Tati gargalhou. “Puta que pariu, Tatiane! Puta que pariu. Eu sento do jeito que eu quiser!”, Giu respondeu.
Depois de o ônibus passar e Tati se despedir dos dois meninos, ambos ficaram conversando sobre a vida, apreciando as poucas estrelas que havia no céu e as flores de uma loja perto. Um silêncio aprazível pairava por eles, até que Giuliana decidiu cortá-lo com uma frase rápida:
– Joni, minha mãe tá estranha.
– Por que, Giu?
– Sei lá, tá super quieta, não tá falando muito comigo.
– Vai ver tá com algum problema no trabalho ou algo assim.
– Será que ela não suspeita de nada? – Giu perguntou, abaixando a cabeça.
– Suspeita de você ser... lésbica?
– Isso.
– Cara, você é super discreta, acho impossível dela suspeitar.
– Eu queria poder contar pra ela.
– Um dia você vai ter seu momento de contar tudo. Acredite nisso.
– Queria que fosse mais fácil.
– Nunca é fácil, Giu, mas sempre vale a pena.
– É, tem razão!
Depois de conversar mais, os dois se despediram e foram para suas casas.
No ônibus, Tati recebia mais uma ligação de sua mãe. Não atendeu, não aguentava mais. Desde que entrara no veículo, já recebera três ligações, mesmo depois de dizer que estava em segurança para sua mãe, e isso a irritava muito, não era mais criança, sabia se cuidar sozinha. Além disso, não estava num bom dia, brigara com seu namorado – Luiz – por besteiras e agora só pensava nisso, agradecendo por ter tido uma noite incrível com seus amigos para espairecer um pouco. Recostou-se mais no banco do ônibus e recebeu mais uma ligação, porém, dessa vez era do seu namorado. Não atendeu também, e guardou o celular na bolsa, não queria falar com ninguém naquele momento, apenas apreciar um pouco o momento sozinha. Pelo menos assim refletia um pouco sobre tudo que estava passando.
Ao chegar em casa, logo encontrou sua mãe preocupada, olhando para ela com os braços cruzados. “Atender ligações para quê, né Tatiane?”, ela disse, fitando a filha. “Você sabia que eu ia voltar para casa logo, não precisava se preocupar, mãe!”, Tati retrucou, indo até seu quarto fingindo não ouvir os protestos de sua mãe ao fundo. Trancou-se e jogou-se na sua cama, pegando seu celular e chamando seus amigos para conversarem. Nem pensou em responder seu namorado, apenas queria esquecer um pouco do mundo e ouvir uma boa música, colocando algo da Beyoncé para tocar.
Seu namoro começara de um jeito engraçado. Ela e Luiz eram apenas amigos, conversavam sobre o relacionamento dele, na época com outra garota, e nem pensavam que um amor poderia surgir dali. Eram infantis, brincalhões, tratavam o outro que nem um irmão e quando viram, estavam um beijando o outro, curtindo momentos maravilhosos. E agora, quase um ano depois de todos os fatos, eles mal se falavam, cada um em seu canto, orgulhosos.
Como reverter uma situação como aquela, especialmente ela que estava no terceiro ano do ensino médio, uma época de puro estresse e tensão, permeada pela pressão dos vestibulares? Tati já estava ficando com dor de cabeça só de imaginar tudo isso. Jogou o celular na cama e levantou-se, apreciando uma fotografia que tinha, na qual apareciam Giuliana e João. “João sempre sorrindo gay, respirando gay, até olhando gay”, ela brincou, gargalhando sozinha, tentando evitar que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto. Prendeu os cabelos pretos em um rabo de cavalo simétrico e decidiu começar a fazer suas tarefas do colégio, contudo, deixaria o orgulho de lado e mandaria uma mensagem para Luiz.
Antes de mandar essa mensagem, entretanto, viu que tinham dez mensagens de João no seu celular. Ela abriu as mensagens assustada, imaginando o que poderia ser. Quando leu, esboçou um sorriso e disse a si mesma:
– Não acredito nisso.
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