Os Fanáticos
2 Giu
Notas iniciais
Ela não conseguia acreditar no que estava lendo. Era aquilo mesmo? Era real ou falso? Tantas perguntas pairavam pela mente criativa de Giuliana que ela não sabia ao certo se estava no mundo real. O que sua mãe acharia daquilo? Por isso, deixou o livro que estava lendo de lado e decidiu pegar seu celular para ficar menos confusa. Na capa dizia que era baseado em fatos reais, mas tudo parecia tão mitológico, tão fictício. Com certeza ela mostraria para sua mãe mais tarde, precisava de uma segunda opinião.
Olhou todas suas mensagens até que se deparou com várias de seu amigo João, e ficou abismada quando leu tudo aquilo. Jota parecia estar dando muitas indiretas de que poderia ser homossexual, o que fazia João ter ainda mais esperanças de que tinha chances com o menino. Nas mensagens ele dizia que o garoto de olhos verdes dissera que gostava muito dele, que queria estar sempre perto, e que aceitava ir ao cinema com ele. Giu quase pulou de alegria em seu quarto, finalmente algum amigo dava uma notícia boa. Ligou rapidamente para Tatiane e ambas conversaram dizendo que pressionariam João para ele dizer tudo sobre o cinema no futuro. Além disso, ela decidiu ir até a casa de seu grande amigo William, pronta para contar as novidades.
“Onde vai assim tão rápido, Giuliana?”, era sua mãe, Elizabeth, que perguntava quando a garota estava praticamente na porta de saída. “Vou na casa do Will, não demoro”, disse, encarando os olhos profundos de sua mãe. “Tudo bem, manda um beijo para aquele querido!”, os olhos da mãe brilhavam de felicidade e uma paz que eram inexplicáveis. “Tá bom, velha”, Giuliana respondeu, chamando-a de velha como sempre chamava quando queria brincar com sua mãe. Dessa forma, com suas pernas curtas e seu jeito pigmeu saiu da casa.
A garota era, certamente, a pessoa mais centrada e madura do grupo, sendo permeada por uma mente que sempre estava pronta para o debate. Giuliana tinha uma fala firme, sabia o que dizia e gostava de estar sempre informada. Como feminista que era, protegia mulheres e qualquer minoria que existisse, sempre estando pronta para dar conselhos e auxiliar quem precisasse. Por isso, tinha a denominação de mãe do grupo, ainda que fosse a mais nova, com apenas 16 anos. Seu tamanho e idade não eram nada para o que aquela garota poderia fazer.
Com os cabelos pretos balançando, chegou até a casa de seu amigo Will, um dos mais animados e dramáticos garotos que ela conhecia. William praticamente cresceu com João, estudando com ele desde a terceira série, porém, assim que foi apresentado até a pequena menina, fora amizade à primeira vista, algo nunca antes visto. O rapaz de 18 anos estava sentado no seu sofá, jogando seu vídeo-game e folgado, sem se importar com a vida, impressionando-se com a visita da amiga.
– Se eu soubesse que teria visita da pequena, tinha me arrumado melhor – brincou William com sua voz que pairava de grave a fina como sempre.
– Ai, até parece, né Will. Vou me sentar aqui que nem caminhoneira. Vou até coçar meu saco imaginário se quiser – ela disse entrando.
– Tá bom, migs. Diga o que quer.
– Viu as mensagens do Joni sobre o Jota?
– Vi siiiim! Que legal, né? – Will virou os olhos.
– Que foi? Não parece muito feliz.
– Tu sabe que eu não gosto muito daquele garoto, Giu. O Jota não me cheira bem.
– Ai, Will! Eu sei que o João é meio foda pra peguetes, mas o Jota parece ter bom coração.
– Desde que o João se assumiu bi, virou uma cachorra também. Só não pega a mãe dele porque é crime – Will levantou-se, indo até a geladeira e deixando mais aparente sua pele dourada e seus cabelos castanhos claros.
– Enfim...
– E as coisas com teus pais, como estão? Alguma suspeita? – William disse olhando carinhosamente para ela com seus olhos cor de mel e distraídos.
– Tão boas. Nenhuma suspeita. Sabe que sou uma sapata de classe – ela gargalhou.
– Só você mesmo, Giuliana. Quer alguma coisa?
– Não, tô bem aqui. E as gurias, como vão? Desde que terminou com a Dai, não ficou com mais nenhuma.
– Tá foda, cara. A gente precisa ir numa balada, um lugar bom mesmo, sabe? Que dê de pegar todo mundo.
– Bem... Eu ouvi falar de um lugarzinho – ela franziu o cenho.
– Giuliana! E por que não disse antes?
– Não sei, cara. Mas, enfim... O nome do lugar é Pixel. É um bar... Balada... Sei lá. Só que é 18 pra cima.
– A gente pode te arranjar a identidade de alguém, de boa.
– Não sou louca assim!
Os dois conversaram durante um bom tempo ainda, até que ela voltou à sua casa, encontrando sua mãe vendo um filme. Giuliana perguntou qual era e sua mãe respondeu que não sabia o nome, só sabia que tinha um casal lésbico. Ela engoliu em seco e olhou fixamente para sua mãe, enrubescendo. “Senta aqui um pouco, assiste com a mãe”, Elizabeth disse, puxando suavemente a filha pelo braço. Nesse momento, na televisão, era possível ver duas garotas se beijando. “Tenho tarefa, mãe. Agora não dá”, disse, correndo até seu quarto e soltando a respiração, assustada. Sentou-se um pouco e pensou naquilo que tinha visto e na reação de sua mãe... Será que estava na hora de contar? Suas mãos pequeninas tremiam e ela preferiu tirar tais pensamentos da mente.
No dia seguinte, Tati e João estavam conversando no pátio da escola da menina. Coberto por lajotas hexagonais com um pouco de limo, o pátio dava um aspecto sombrio e misterioso ao colégio, com um poste no meio e circulado pela biblioteca, algumas salas e o ginásio. Naquela manhã, alguns alunos estavam sentados nos bancos azuis, enquanto outros conversavam animadamente no centro do pátio, todos de uniforme azul e branco. A manhã estava clara e melodiosa.
“Sério mesmo que ele disse tudo isso?”, Tati perguntou, ajustando-se no banco e olhando animada ao amigo. João coçou os cabelos marrons e deu um sorriso envergonhado, “Sério! Ele disse: vou no cinema com você quando quiser. Super querido!”. “Ai, tô tão animada. Pelo menos vai deixar de viadar por aí, né?”, Tati gargalhou alto. “Viadar?”, ele perguntou, intrigado. “O ato de ser viado!”, ela gargalhou de novo, ainda mais alto, “Tu não devia estar na facul?”. “Não tenho aula hoje da manhã”, ele respondeu, solícito.
João disse que ia se encontrar com sua amiga Aline no dia. Aline também era uma antiga colega do garoto e tinha alguns problemas de afetividade, balançando entre momentos de muito amor e momentos que gostava de evitar qualquer tipo de toque humano. Era querida por todos, e também era a que menos falava, contudo, sempre estava muito atenta e ouvindo tudo com muita cautela, quase como um radar. Certamente, aquela garota era um caso a parte no mundo, única, rara.
Aproveitando o resto do intervalo, Tati contou de seus problemas para o seu amigo, falando sobre sua mãe e, especialmente, sobre Luiz, com quem não falava direito ainda. Quase chorou à medida que dizia dolorosamente sobre todas as situações que ocorreram. João sentiu-se mal pela amiga, pois sabia como sua vida era difícil, e como era péssimo ver uma menina tão linda chorar daquela forma, tocando o rosto dela com cuidado e dizendo que tudo ficaria bem, que aquela época de terceirão era difícil mesmo, e que logo tudo se arrumaria de novo. Tati, ainda assim, não sabia qual seria o fim daquela história, desejando logo passar em um vestibular e esquecer aquilo.
Depois do intervalo, na sala de aula, Giuliana olhava para a janela e divagava com seus pensamentos bem longes da aula de trigonometria. Pensava no filme que sua mãe estava vendo, no João e Jota que poderiam dar certo, nas palavras de William e nos problemas de Tati. Tudo aquilo parecia um peso para ela, mas ao mesmo tempo gostava de pensar nos seus amigos e, especialmente, ajudá-los. Tentou focar nas aulas, mas toda hora uma voz estranha pairava em sua mente, dizendo-lhe que deveria contar tudo para seus pais, acabar com aquela história e tentar ser feliz com aquilo. Será que era a ideia certa?
À noite, ela, Tatiane, William e João saíram para ir à sua hamburgueria favorita, com o objetivo de esquecer um pouco dos problemas cotidianos. Estar entre amigos, com uma comida boa e um papo interessante. amenizava muitos percalços da vida. William vestia um suéter vermelho e uma calça em tons de bege, o que tornava sua silhueta esbelta. Tatiane usava uma calça azul marinho e uma blusa verde água, que caía muito bem com seus olhos escuros. Giuliana vestia uma blusa que era como um mosaico de vários tons de roxo, como se a roupa fosse pintada por algum expressionista, o que deixava uma aura de alegria ao redor da garota. João usava uma blusa rosa claro com um casaco preto, contrastando com sua pele branca.
O ambiente possuía uma temática anos 50, com quadro de figuras ilustres da época como Elvis e Monroe recheando as paredes, sofás de um vermelho tão vivo que quase estalavam aos clientes, objetos como guitarras antigas espalhados por todos os lugares e uma jukebox de tons claros e chamativos, um caleidoscópio de nostalgia desabrochando clássicos com sua forma arredondada e estilosa. Esse lugar possuía uma atmosfera tão boa que os amigos iam várias vezes só pelo simples fato de estar ali e de poder deliciar-se com os maravilhosos hambúrgueres.
– Jota não veio por que João? – Tati perguntou, mexendo nos longos fios pretos.
– Tinha apresentação na igreja. Eu insisti, mas não adiantou muito – João deu de ombros.
– Migos, vamos mudar de assunto um pouco. A gente só fala disso recentemente – Will retrucou.
– Tá com ciúme? – O outro garoto gargalhou, tocando nos ombros do amigo.
– Ai, puta que pariu vocês. Parem com isso! Tatiane, me ajuda com eles!
– Se vira com os dois.
– Na verdade, eu soube de uma coisa muito interessante – João tinha um olhar misterioso. — Giuliana está de olho em uma garota no colégio e... Como é o nome mesmo? Ah! Mariana.
– Cala boca, João! Tu não sabe de nada, seu idiotinha!
– Uhhhh! Quem é a garota de sorte? – William perguntou.
– Ai! É uma guria da escola, do terceirão. Cabelo curtinho, simpática, toda linda. Me viu tomando meu suquinho hoje, sorriu para mim!
– Parece que não é só o viado aqui que tá apaixonado. Giu também está. Já deu uns beijos? – Tati fitou a menina.
– Todo mundo está apaixonado nesse grupo aqui, Tati. E não, não dei. Tu sabe como eu sou com pessoas desconhecidas.
– Todo mundo quem? – Disse Tati gargalhando e escondendo o celular que vibrava com as mensagens de seu namorado que ela não queria responder.
– Não beijou ainda! Mas aposto que logo vai estar dando uns pegas fodas! – João abriu um sorriso largo.
– Nunca que ela me notaria, você sabe disso. Podemos mudar de assunto? Obrigada!
– Ok, ok. Só quero dizer que você é linda e tem chances com ela sim. Mas vamos mudar de assunto – William apaziguou a situação.
– Nunca mais falou com a Dai? – João perguntou rapidamente, cortando o breve silêncio que se instalara.
– Nem... Acho que nem deve querer mesmo...
– Também, depois de tu tentar transar com ela no quarto do teu pai e alguém chegar em casa – Giuliana disse, colocando batatas fritas na boca.
– Giu! – Will gritou.
– Que foi?
– Só você sabia disso, eles não! – O garoto corou enquanto João e Tatiane riam.
– Sério!? Mas e sobre o oral que tu fez? Tenho certeza que contou.
– Também não! Fica quieta! – Will tentava segurar suas risadas, mas não conseguia se conter.
– É melhor eu comer minhas batatinhas. Dois segredos numa noite só é demais. Desculpa, Will.
– Tudo bem, ainda te amo – Ele fez um carinho nela.
– Bem, parece que a noite está mais polêmica do que imaginávamos – João falou, ainda rindo.
– Depois de ouvir isso, imagino como deve ser zoado trabalhar aqui – Will disse.
– Cala boca, Will! – Tati gargalhou.
– Vai se fuder! – William também gargalhou.
Ao final da noite, enquanto esperava seu irmão vir lhe buscar após todos seus amigos terem ido embora, Giuliana pensava na garota que atraía sua atenção. Já sonhara que estava beijando-a, o toque quente e suave dos corpos femininos, a sensação deliciosa da troca dos hálitos, o toque forte e ávido das mãos famintas pela carne, arranhando a pele e ritmando-se com as línguas que se entrelaçavam na boca. Tudo isso acompanhando pelos aromas que saíam dos poros, um cheiro de paixão que se misturava no ar da emoção.
É, ela tinha mesmo uma mente fértil, disso não havia dúvidas. Na verdade, aqueles pensamentos deram-na uma coragem nunca antes existente, algo novo, forte, um sentimento que se abria em um leque de outros sentimentos menores, todos como gotas em um mar de bravura. Ela estava totalmente decidida, iria contar aos seus pais naquela noite mesmo.
Chegou em casa.
Abriu a porta com cuidado.
Encontrou seus pais sentados no sofá.
Respirou fundo e começou a falar, mas foi interrompida por uma frase rápida de sua mãe: “Giuliana, descobrimos uma coisa, queremos saber sua versão da história”. A garota olhou para seu irmão, olhou para seus pais, olhou para a televisão. Suas mãos tremiam. O que eles queriam dela?
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