Os Fanáticos
3 Jota
Notas iniciais
Ele estalou os dedos e focou os olhos verdes nas teclas, respirando fundo várias vezes. Estava nervoso, sentia que tinha pressão nas suas costas, um medo que percorria toda sua espinha, dando-lhe arrepios que impediam um pouco sua concentração. Ajustou a gola da camisa, estava levemente apertada, trancando sutilmente sua garganta toda vez que engolia em seco. Estalou os dedos mais uma vez e deu umas batidinhas leves na perna para tentar lembrar-se do ritmo. Contou até três, fechou os olhos, ajeitou seu corpo pequeno e magro, com uma mistura de características infantis a maduras, passou a mão pela pele lisa do rosto, sentiu o cheiro do seu perfume novo, presente de seu pai. Olhou para baixo, apreciou a camisa social lilás e as calças jeans que vestia, estava bem arrumado, apresentável. Sentiu as teclas do teclado com as pontas dos dedos. Respirou fundo mais uma vez. Estava quase na hora. Seu celular vibrou na perna.
Era uma mensagem de João. Ele precisava responder, o assunto era muito interessante para ser desperdiçado daquela forma. Tinha tempo, então digitou com os dedos treinados e guardou rapidamente o aparelho. Apreciou o teclado a sua frente, parecia que dialogava com ele, tentando entender aqueles mistérios em preto e branco.
Jota respirou fundo mais uma vez.
“Que história é essa de seu irmão ganhar uma viagem pro Japão por aquele programa do governo? Você sabia, não?”, a mãe de Giuliana perguntou, enquanto ela soltava ar feliz pelo assunto de sua mãe não ser sobre sua sexualidade. “Ele me pediu para não contar, mãe, então eu não falei”, ela respondeu, de cabeça baixa. “E ele ia viajar sabe-se lá quantos quilômetros sem nos contar?”, o pai de Giu perguntou. “Não, né! Ele ia contar para vocês um dia, só estava esperando a hora certa, eu acho”, ela respondeu. “Bem, só queríamos saber isso de você mesmo, querida. Mais tarde falamos com ele”, Elizabeth afirmou com seu tom calmo.
Giuliana foi até seu quarto e pensou um pouco no seu irmão. Ele ganhara uma viagem com tudo pago, tendo a oportunidade de estudar fora do país, e seus pais certamente não o deixariam ir, achavam aquilo uma ideia muito abstrata. Ela afundou sua cabeça no travesseiro, refletiu um pouco na vida, mas acabou pegando no sono à medida que as ideias iam se esvaindo.
No dia seguinte, enquanto estava sentada no pátio do colégio, Tati olhava distraída as árvores, pensando um pouco na vida à medida que apreciava um pastel assado da cantina. Tudo ainda era muito turvo para ela, muito triste, muito sombrio. Seus pais brigavam mais com ela, sua cabeça parecia que queria explodir, e suas tarefas de física acumulavam. Como alguém sobrevivia àquele ano de terceirão? Mordiscou mais seu pastel e ouviu uma voz lhe chamar, era seu namorado. Olhou para Luiz com uma expressão austera e esperou ele dizer algo, mas o garoto manteve sua cara de cachorro abandonado enquanto segurava a mão dela. Ele desculpou-se, mas disse que gostaria de ouvir um pedido de desculpas dela também, afinal, ele sabia que ela estava errada. “Eu acho isso patético, sempre eu tô errada. Fica falando sozinho” , Tatiane disse, saindo. Luiz segurou seu braço, olhou para ela e pediu mais desculpas. A garota não queria briga, então apenas desvencilhou-se e saiu andando, achando Giu no caminho e puxando-a para um canto, caindo nos braços da amiga e começando a chorar.
Ambas ficaram um bom tempo ali, inclusive matando uma aula. Não falaram, não se mexeram, apenas se abraçaram enquanto a menina chorava nos braços da outra, soltando alguns soluços e apertando as mãos ao redor do pequenino corpo de Giuliana. A mais nova sabia que palavras não eram o necessário naquele momento. Só o tempo, talvez, curasse aquela dor.
No shopping da cidade, William conversava com Aline animadamente. Os cabelos longos perfeitamente lisos, a pele branca em contraste com o batom vermelho, o corpo alto, esbelto, de pernas grossas vestidas em uma calça apertada, tudo nela era construído para ser apreciado, uma figura de extrema beleza e sensualidade. A sua voz grossa alinhava-se ao seu jeito ríspido e, certas vezes, de poucos amigos, com uma personalidade forte e que mudava constantemente, dando-lhe loucas mudanças de humor.
“Nem quero saber o que vai acontecer quando eu começar a faculdade”, Will falou enquanto comia um sorvete. “Olha, amiguinho, vai ver gente bonita e beber. E depois estudar”, ela disse, abrindo um sorriso. “Bom saber que é isso que você faz lá”, ele franziu o cenho. “A culpa não é minha que tem tanto homem bonito. Aqueles garotos de olhos verdes”, ela olhou fixamente ao amigo, ajustando-se na cadeira. “Line, você namora!”, Will gargalhou. “Ele não mora aqui, né! E relaxa aí, eu não fiz nada de errado”, ela retrucou, usando uma colherzinha para pegar um pouco do sorvete dele. “Tá bom, Aline. Por que você na... Pera, aquele não é o Jota?”, ele disse, apontando.
Em pé, olhando a vitrine de uma loja de jogos, Jota procurava algo que lhe chamasse a atenção. O garoto de olhos verdes entortou os lábios várias vezes, mudando o foco da visão rapidamente. Aline, puxando William pela mão, chegou perto dele e sorriu largamente, fazendo carinho no seu cabelo. Jota gargalhou e deu um beijo no rosto da menina e cumprimentou o outro. A baixa estatura do garoto era ainda mais visível perto de duas figuras altas como de Aline e William. “Não tá com o João?”, Aline perguntou. “Não... Por quê?”, ele respondeu, enrubescendo. “Nada não, amiguinho”, ela deu de ombros.
Jota tinha um jeito levemente infantilizado e uma voz fina. Tinha olhos totalmente distraídos, um sorriso de criança e atitudes que, algumas vezes, eram imaturas. Porém, era um dos mais inteligentes da turma, especialista em exatas e sempre informado sobre o mundo da tecnologia. Tinha uma mente brilhante e sabia muito bem disso. Seu cabelo era crespo e cortado sempre da mesma forma, era impossível vê-lo de qualquer outro jeito. Os olhos verdes possuíam uma cor nunca antes vista, brilhando cada vez que o garoto estava com alguma emoção a flor da pele. Quando os abria bem, como um lêmure, aquelas esmeraldas funcionavam quase como um radar, e chamavam a atenção de qualquer um.
Aline puxava papos e mais papos com o garoto, o que irritava William, que gostaria de ficar o mais longe possível dele. Não que odiasse o menino, mas não conseguia entender o que viam de tão bom nele, de tão incrível. Decidiu ficar quieto e não participar da conversa, apenas apreciar os dois conversando enquanto olhava a vitrine da loja de jogos. Queria que o tempo passasse logo, mas Aline falava avidamente com o menino. O que se passava na cabeça dela afinal?
Logo, eles terminaram os papos e Jota foi para casa.
Ao fim do dia, quando Jota chegou em casa, pegou seu celular e percebeu que tinha mensagens de João. Eles trocavam mensagens o dia todo, e isso animava bastante o garoto, afinal, ele gostava de enviar gravações suas tocando teclado e sempre recebia muitos elogios, o que o deixava muito feliz. Decidiu pegar o instrumento e tocar alguma coisa para o amigo, tocaria algo que ele gostasse, como um presente surpresa que estava entregando. Pensou por um bom tempo, contudo, nada apareceu na mente ativa do menino, que estava totalmente sem criatividade, quase que atingido por um bloqueio mental. O que será que estava causando aquilo? Será que era por João?
Na casa de João, William jogava video-game com os olhos fixos na televisão. Ambos os garotos estavam sentados no chão com as pernas cruzadas, sem sequer piscar direito. De vez em quando trocavam xingamentos enquanto enchiam a boca de salgadinhos e gargalhavam. Os dois faziam isso há muito tempo, era praticamente como um tempo sagrado deles, algo que os aproximava de forma magistral.
– Will, quero fazer uma pergunta... – João deixou a frase no ar sem tirar os olhos da tela.
– Diga!
– O que eu faço se acabar o papo entre eu e o Jota quando a gente for sair junto?
– Até parece né! Vocês se falam o dia todo.
– Mas por celular é diferente, você sabe.
– Será que a gente pode mudar de assunto por pelo menos cinco minutos? A gente só fala disso! – William falou, ríspido.
– Vai se fuder! Não precisa ser grosso assim – João pausou o jogo e olhou fixamente para o amigo.
– Não fui grosso, só tava sendo sincero. Não lembro de você ter perguntado sobre minhas peguetes nos últimos dias.
– Você nunca fala nada, nem adianta, seu idiota!
– Cala boca! Desculpa aí se você é sempre o mais importante e o assunto da conversa toda hora.
– Eu nunca disse isso, até porque nem sou. Eu só queria uma ajuda, caralho!
– Tem mais um monte de amigos pra pedir ajuda se precisar, não sou o único.
– O que tem a ver?
– Porra! Você sabe que não gosto do garoto e puxa esse papo. Aí é foda, João!
– Desculpa se eu quero ajuda do meu melhor amigo. Desculpa se meu amigo é um babaca que é grosso pra caralho!
– Ai, nem vem com essa!
– Eu sempre tô errado, Will. Pra você eu nunca faço nada de bom, tudo que realizo é uma merda. Desde que éramos pequenos é assim. Você nunca melhora.
– Não tem como melhorar contigo. Tu tem esse teu orgulho que te cega das coisas. A diferença é que, pra você, nunca nada que tu faz tá errado. Sai desse teu pedestal, cara.
– Vai se fuder, sério. Vai se fuder com força!
– Me xingar não vai mudar nada. Tu e o Jota se merecem mesmo.
– Isso tudo é ciúme teu? É isso mesmo?
– Vai à merda, João. Só isso.
– Vai embora, por favor. Não te quero mais aqui.
William colocou o controle em cima da mesa e saiu, sem se despedir, sem dizer uma palavra, apenas saiu. João fechou a porta com força atrás dele e se jogou na sua cama, tentando conter algumas lágrimas, o que foi em vão. Não eram raras brigas como essas entre os dois, mas, naquele dia, William dissera coisas que atingiram em cheio o menino, que não conseguia sequer raciocinar direito, apenas queria poder voltar no tempo.
O outro garoto andava na rua, desolado. Não gostava de discutir com seu amigo daquela forma, contudo, João merecia ouvir algumas palavras sinceras de vez em quando para abrir sua mente. A teimosia do garoto era enorme, e não conseguia aceitar que estava errado, o que incomodava William. Muitas das vezes que brigavam era simplesmente pelas personalidades muito divergentes de ambos. Também pela vontade que às vezes ele tinha de bater na cara do amigo com força. William sorriu pensando nisso, ainda não caíra a ficha da briga.
João, mais tarde, foi até a casa de Jota para conversar com ele e desabafar um pouco. Estavam sentados comendo pizza enquanto falavam sobre a vida e Jota contava sobre as novas músicas que estava aprendendo para tocar no teclado e João mal respondia, sempre com a cabeça baixa, austero, quase chorando. Jota parou de falar um pouco e ficou quieto, também com a cabeça baixa. “Que foi?”, João perguntou, esboçando um sorriso. “Nada, você tá quieto, cara” , ele respondeu, abrindo bem os olhos verdes. “Pode perguntar, não tem problema”, o outro retrucou. “Sabe que não sou assim, João”, Jota fixou os olhos nele. “Tá... Eu briguei com o Will hoje, foi bem foda, a gente foi grosso um com o outro. Eu sei que a gente sempre briga, mas dessa vez me atingiu muito. Ele falou umas coisas meio grosseiras”, João falou rapidamente, atropelando as palavras. “Talvez ele não esteja tão errado. Tu sabe como tu é uma pessoa difícil. Não escuta muito a gente”, Jota escondeu-se atrás das próprias mãos, com medo da resposta. “Como assim? Sério isso?”
Jota assentiu, com um olhar triste, João corou e ficou momentaneamente triste. Arrependeu-se um pouco do que falou para seu amigo, talvez tenha entendido algo de forma errada demais. Foi até a janela e depois olhou para o garoto de olhos verdes. Este estava parado, olhando de volta, convidando-lhe a irem até seu quarto para ele tocar alguma coisa para animá-los. Ambos foram sorrindo até o quarto de Jota e rapidamente o amigo tocou músicas calmas e divertidas, na tentativa de fazer João sorrir.
A pele branca de João queimava de sensações incríveis, sua boca vermelha estalava e Jota estava como uma figura monumental a sua frente, um deus grego cravejado de esmeraldas que davam vontade de tocar. Jota estava radiante, adorava ter alguém apreciando suas músicas, tinha uma aura magnífica ao seu redor; aquilo só era possível quando João estava por perto, eles tinham uma conexão incrível. Como em um impulso, o garoto mais alto puxou o outro para dar-lhe um abraço forte. Jota caiu por cima do corpo de João, gargalhando e dando uns tapas leve no amigo. A pressão dos dois corpos quentes não fazia bem para João, sentindo que tinha algo crescendo em si, ficando com o rosto completamente vermelho, desejando que Jota não sentisse nada. “Já volto!”, ele disse, derrubando Jota no chão e correndo até o banheiro.
Fechou a porta atrás de si e soltou o ar. Olhou para baixo e viu que a situação estava tensa. Torceu para que Jota não tivesse percebido. Nesse mesmo instante, seu celular vibrou, era Giuliana ligando. “Alô!?”, João atendeu. “Joni, preciso falar contigo, agora!”. “O que aconteceu, Giu?”
Giuliana explicou que brigara com Tatiane pelo telefone. As duas estavam conversando e Tati começou a desabafar, porém, Giu se irritou e disse que ela nunca conseguia desabafar, pois sempre os problemas da outra eram mais importantes. Ambas começaram a chorar pelo telefone e brigaram muito. Tati pedindo desculpa se tinha feito algo de errado e dizendo que se importava com os amigos também. Giu falando que gostaria de ser mais ouvida naquele grupo, que estava um pouco de fora. João sorriu, disse que entendia bem aquela situação toda das duas. Giuliana chorava enquanto contava tudo ao amigo e soluçava baixinho no telefone. João tentou acalmá-la e disse que o mais rápido possível tentaria falar com a Tati também e resolver aquela situação.
Quando voltou ao quarto de Jota, encontrou-o sentado na cama olhando fixamente ao amigo com um sorriso lânguido em seus lábios. João não entendeu tudo aquilo e olhou com uma expressão de dúvida para ele.
– Não tem mais nada que queira me contar, João?
João corou, quase largando seu celular no chão.
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