Notas iniciais
Uma garota sensual, incrível. Um grupo cheio de problemas e questões para serem resolvidas. Era hora de tudo dar errado? Ou era momento certo para a reconciliação?

– Não tem mais nada que queira me contar, João?

João corou, quase largando seu celular no chão.

– Por que acha isso?

– Não sei... Parece que você tem mais a contar pra mim – Jota mantinha-se olhando para o amigo.

– Nada a ver... Nã... Nã... Não tenho nada pra falar – João balbuciou.

– Tem certeza mesmo?

– O que você acha que pode ser? – Ele respondeu o garoto de olhos verdes com outra pergunta

– Seu lá. Você é quem vai dizer.

– Não sei, Jota.

– Então quer dizer que tem algo?

– Caralho, já disse que não sei – João disse, gargalhando.

– Tá bom. Tá bom.

Aline estava deitada em sua cama, esticada e espreguiçando-se. Mexeu nos cabelos longos e ajeitou-se em uma posição mais confortável, pegando seu celular em sua cômoda, mais uma mensagem de seu namorado. Respondeu-o rapidamente e colocou o celular no chão, rolando pela cama e ficando de pé, ajeitando os fios e bocejando. Olhou no espelho, estava bela como sempre, esbelta, incrível, Seu celular apitou mais uma vez, outra mensagem. “Você não me deixa em paz, heim, amor”, ela disse a si mesmo, rindo.

A garota tinha um jeito peculiar aos olhos dos seus outros amigos. Às vezes, estava extremamente carinhosa, gostava de brincadeiras, de rir, de abraços e beijos; às vezes, não gostava que ninguém chegasse perto ou a tocasse, ficava isolada, introspectiva, sendo um pouco grosseira com todos. Isso não era explicado nem por ela mesma, era um estado de espírito, era natural. Seus amigos incomodavam-se com isso algumas vezes, mas não atrapalhava sua relação com eles. Seus problemas de afetividade eram tão inerentes a ela que seus amigos já estavam acostumados com tudo aquilo.

Namorava há quase um ano com um garoto que morava em outra cidade. Davam-se muito bem, mas Aline incomodava-se com o fato dele ser muito meloso, querer sempre estar grudado nela e beijando a garota. Ela gostava de amor, mas aquilo já era demais, ele passava dos limites com ela, e, quando estava em seus momentos ruins, era pior ainda para ele. Sempre reclamava disso para os seus amigos quando tinha oportunidade.

Na noite seguinte, os amigos decidiram sair para uma pizzaria para contar os problemas da vida e esquecerem um pouco do mundo ao seu redor. Somente Tatiane não pôde ir junto, disse que tinha problemas para resolver e não queria ser perturbada, causando rumores entre seus amigos que tentavam adivinhar o que poderia ser. Ela estivera diferente nos últimos dias, estranha, até mesmo um pouco cabisbaixa e eles não sabiam dizer ao certo o porquê.

Jota e João estavam sentados em um dos lados da mesa, enquanto Aline e Giuliana estavam do outro. Todos conversavam animadamente, rindo alto, chegando até a incomodar as mesas vizinhas. William ainda não chegara, estava atrasado como sempre, e dando desculpas para sua demora. Giuliana bebia um suco de morango, seu favorito, e seus amigos bebiam refrigerante. Ainda não tinham começado a comer, estavam esperando a presença de William.

Logo, o garoto chegou, quase derrubando um prato e tendo dificuldade de se ajeitar. Um dos garçons chegou, olhando para todos na mesa, “Pizza de lombinho?”. William olhou estranho, “Não, rodízio!”. Todos os amigos começaram a gargalhar, rindo da cara dele, recendo um olhar de desaprovação do garçom. “Will, já começou o rodízio, ele só tava perguntando se você queria a pizza!”, Giu disse, quase chorando de tanto rir, com as bochechas coradas. Will ficou envergonhado e quis poder sumir dali.

– Gente, o que aconteceu com a Tati? – Aline perguntou, colocando um pedaço de pizza na boca.

– Ninguém sabe, ela anda bem estranha. Não tem falado muito – João respondeu, usando um guardanapo.

– Será que é alguma coisa a ver com a família dela? – Wiliam perguntou.

João não respondeu, nem olhou para ele na verdade, fingiu que o garoto nem existia.

– Pode ser, mas acho que tem mais a ver com o Luiz – Giuliana afirmou.

– E você, como tá com a Tati? Não tinham brigado? – João perguntou.

– Depois que eu te liguei, decidi ligar pra ela também pra pedir desculpas e tal. Ela aceitou super de boa. Ainda bem.

– Tati é teimosa, mas não consegue ficar brigada com os amigos. Sempre aceita desculpas.

– Vocês todos brigam por tudo também, né? Gente... – Aline fez uma expressão irônica. – Ainda bem que o Jota aqui é quieto – Ela apontou sutilmente ao garoto.

– Não sei de nada – ele disse.

– Gente, vou no banheiro, já volto – Will disse, se levantando.

– Eu também. Espera, Will.

Giuliana correu com suas perninhas pequenas até o garoto e, ao caminho do banheiro, segurou-o pelo braço. “Posso saber o que é aquela bomba ali na mesa? Vocês dois estão mal se olhando”, ela disse, sussurrando. “Não é problema meu que ele não admite que tá errado”, Will respondeu. “Se estão assim, por que os dois vieram?”, Giu perguntou, reparando se alguém ouvia a conversa. “Porque não quero deixar ele roubar meus amigos, Giu”. “Ai, Will, até parece né. Todo mundo é amigo de todo mundo ali, não vem com esse papo. Vocês são dois orgulhosos. Vai dar merda ainda”, ela tinha vontade de bater nos dois. “Já deu merda, Giu. Já deu muita merda”, ele respondeu, cabisbaixo.

Na mesa, Aline olhava para João com um sorriso malicioso, apontando para Jota com os olhos. Ele corava e tentava dizer que ainda não tinha tentado nada. Jota estava distraído em seu celular, e de vez em quando olhava para os dois, sorrindo sempre, os olhos verdes ardendo. “Então, amiguinho, e os casos como vão?”, a garota sensual perguntou, olhando fixamente para Jota. “Casos? Eu? Tenho cara de quem tem casos?”, Jota riu, abrindo um largo sorriso a ela. “Poderia ter, talvez tenha alguém de olho”, ela olhou sutilmente para João, recebendo um leve chute dele. “Duvido muito, olha pra mim, sou um bosta”. “Não diga isso, aposto que tem gente de olho”

Tati estava embaixo do prédio do Luiz, com frio, esperando ele vir atendê-la. Tinha tocado o interfone e ele mesmo atendera, hesitando um pouco quando ouviu a voz da garota. Ambos estavam nervosos, ela sabia disso. A noite estrelada e com vento frio incomodavam-na um pouco, tinha uma sensação de solidão estranha. Luiz apareceu, seu rosto estava triste, ele tinha vergonha de olhar para ela. Pela primeira vez na vida, Tatiane engolira seu orgulho e lá estava ela, pronto para perdoar e ser perdoada. Sem escândalos, sem brigar, apenas uma conversa sincera e amigável, afinal, sabia que Luiz tinha um bom coração e faria o mesmo.

Ele abriu o portão do prédio, olhou para ela, sorriu e pegou sua mãe, sem dizer nada. Ambos ficaram se olhando durante certo tempo, aproveitando o único momento em paz que tinham tido nos últimos dias. Ela não sabia como sairia dali, então quis aproveitar ao máximo o momento. Sorriu de volta.

– Quer subir? – Ele perguntou, em tom baixo.

– Tô com frio, mas não precisa, Luiz. Vai ser rapidinho.

– Tá... Pode falar, amor.

– Eu sei que a culpa não é só minha. E não é só tua também... Então tô aqui pra pedir desculpas, deixar de ser idiota um pouco. De ambos sermos.

– Tudo bem, meu amor. Desculpas aceitas. E me desculpa também, Tati. Não quis te magoar.

– Sabe – ela andou, ficando de costas para ele, como se falasse algo para si mesma -, conversei com minha mãe hoje também. Tu sabe como ela é e tal, mas conseguiu me entender, acalmou-se um pouco. Chorei pra caralho, mas disse tudo aquilo que precisava a ela. Quem sabe ela para um pouco – Tati sentiu que algumas lágrimas queriam sair de seus olhos.

– Que bom que se entendeu com sua própria vida.

– Faltava só uma coisa mesmo, por isso vim aqui. Mesmo podendo ser estuprada na rua a essa hora da noite – ela gargalhou.

– Ai, meu amor, não fala isso. Que horror!

– Tô brincando, Luiz, calma.

– Não ia sair com seus amigos hoje?

– Não ia me sentir bem lá!

– São seus amigos, por que não estaria bem?

– Porque você não estaria lá – ela virou-se, olhando fixamente para ele.

– Amor, desculpa. Desculpa mesmo – ele segurou as mãos dela.

– Não precisa se desculpar. O terceirão é que precisa – Tati riu e beijou o menino, abraçando-o com força.

– Agora vamos subir um pouquinho? Tô com frio!

– Vamos.

Ambos deram as mãos e subiram até o apartamento da família de Luiz.

Na pizzaria, os cinco amigos conversavam animadamente, com exceção de João, que falava muito menos que o normal e olhava para William o tempo todo. Ele sabia que tinha um problema ali que precisava ser resolvido, mas não estava disposto a deixar seu orgulho de lado para resolver. Conversava mais com Jota e evitava qualquer contato com seu amigo. Giuliana olhava para ele com um olhar que misturava pena e raiva, e Aline fingia que nada estava acontecendo, tentando, como sempre, manter o controle. William fez uma brincadeirinha e tentou dar um abraço nela, entretanto, foi empurrado sutilmente, que disse que não estava em seus dias bons.

Aline levantou-se e saiu do restaurante, estava recebendo uma ligação, era seu namorado. Conversaram durante um tempo e depois ela decidiu não entrar novamente, queria ficar fora um pouco, pegando um ar. O clima dentro do restaurante estava pesado, e ela sabia muito bem disso. Não gostava, não estava em seu dia de afetividade. Preferia a noite fria que estava fazendo e a visão das pessoas bonitas da mesa 2 que conseguia ver privilegiadamente de onde estava. Soltou o ar pesadamente, queria e precisava de uma festa, nem que fosse sozinha. Gastar dinheiro com festa sempre era bom, sempre valia a pena.

Sentiu-se um pouco sozinha, seus amigos deixavam-na um pouco de lado às vezes. Não que estivessem bravos com ela ou coisa parecida, talvez fosse ela que falasse pouco, ou o grupo que era grande, não sabia dizer ao certo. Desde que iniciara sua faculdade se afastara um pouco das pessoas no geral, estava ciente disso, contudo, nunca era tarde para tentar uma reaproximação. Apoiou-se numa cerca de madeira e ficou olhando as pessoas que passavam.

Na mesa, William olhava com frequência para seu relógio, preocupado. “O que foi, Will?”, perguntou Giu. “Meu pai vem me buscar daqui a quinze minutos, tô de olho na hora daí”, ele respondeu, austero. “Quer ir lá na frente esperar ele? Vou contigo. João e Jota ficam aqui, tudo bem?”, ela olhou para os dois meninos. Jota assentiu com a cabeça e João nada respondeu. William levantou-se e não se despediu de nenhum dos dois, apenas deu as costas e saiu. Giu seguiu-o rapidamente. Aline continuava do lado de fora, acenando e mandando um beijo para Will quando ele passou por ela e despediu-se.

João olhava fixamente para Jota, este distraído, mexendo no celular. Pensou um pouco, talvez fosse a hora de contar, talvez fosse a hora de dizer tudo, Estavam em um ambiente bom, sozinhos, felizes. Ele tentou ver Aline, mas ela nem aparecia, Giu não voltaria tão cedo, estava com a oportunidade em mãos, só bastava agarrá-la. Olhou mais uma vez para Jota, estava realmente na hora certa.

– Jota.

– Fala – ele largou seu celular, prestando atenção em João.

– Lembra quando tu perguntou se eu tinha algo pra contar? Então, tenho mesmo... – balbuciou o garoto, tentando organizar as ideias.

– Eu sabia! Fala! – Jota estava curioso.

– Cara, que vergonha – João gargalhou.

– Relaxa! Fala logo.

– Então, tem a ver com pegação e tal...

– Você sempre fala de pegação, João. Pode dizer.

– Então... Ai que porra! Tá, eu não pego só gurias.

– Como assim?

– Vou explicar com calma. Eu pego garotos também, entende? Tipo, eu não deixei de pegar garotas nem nada, só tenho a adição de garotos também.

– Não é mais fácil dizer que é bi?

– É. Tem razão – João gargalhou. – Isso muda alguma coisa entre a gente?

– Óbvio que sim! Não fala mais comigo... Brincadeira! Cara, você é um dos meus melhores amigos, nunca mudaria contigo por causa disso. Você é incrível, uma pessoa foda, e meu amigo. Nada vai mudar! – Jota abriu um largo sorriso.

– Ai que bom! Não sabe como isso me deixa feliz. Agora... Tenho mais uma coisa pra contar, amigo.

– Pera, eu também tenho. Deixa eu contar primeiro e depois você conta, pode ser?

– Po... Pode – João não sabia ao certo o que viria.

– Então, eu tô gostando de uma pessoa – ele corou.

– Sério? Quem? – João abriu um sorriso.

– Eu tô com vergonha de dizer...

– Fala.

– Tá. João, eu tô namorando uma garota da igreja.

João quase caiu da cadeira, queria poder cavar um buraco no chão e se enterrar nele.

–Sé... Sério? Que... Legal!

– Ela é incrível, ela é linda, ela é inteligente. Tudo de bom!

– Fico feliz por você! Mas estão juntos há muito tempo?

– Cinco meses.

– Cinco meses!? Por que não me disse nada?

– Ninguém sabe, só você agora. Tava com vergonha de falar...

– Fico feliz por ter me contado, por confiar em mim. E quero conhecer ela um dia! Espero que sejam muito felizes juntos.

– Obrigado. E qual era a outra coisa que tinha pra me contar?

– Ah! Não é nada.

João interrompeu a conversa quando Aline voltou e sentou-se com eles. O garoto logo foi embora, desolado, sem saber o que fazer. Queria chorar, queria sofrer, mas o sorriso do amigo falando da garota era tão lindo que ele não conseguia ficar bravo com ele, apenas lembrar os bons momentos iludido, acreditando que tinha chances com Jota.

Aline logo foi para casa também com uma sensação de vazio. Precisava fazer algo, precisava sair, curtir com os amigos. Deitou-se na sua cama, em tédio, tentando pensar em algo decente para fazer. Olhou pelos cantos, tentou ter uma ideia, mas nada veio. Mexeu no seu celular, ouviu músicas, andou pelo quarto. Nada de bom. Seu jeito pouco afetivo estava mais aflorado do que nunca até que, de repente, notou uma foto presa na parede, na qual estava ela com João.

Teve uma ideia brilhante.

Notas finais
Espero que tenham curtido gente! Comentem o que acharam! Elogios e críticas são muito bem vindas e serão todas respondidas. Obrigado por lerem!