Notas iniciais
O esperto integrante do grupo, uma briga, um amor e muitas situações que precisam ser resolvidas. Será que ele conseguiria dar conta de tudo isso?

Com o ônibus em movimento, João encostou-se em uma das paredes, cansado após mais um dia de faculdade. Olhou as pessoas ao seu redor, algumas cansadas, algumas animadas, outras apreciando o caminho, dispersas, fingindo entender o mundo à sua volta. O garoto estava comendo um salgadinho, apreciando sujar os dedos com o tempero, sentia-se como criança, parecia que estava deliciando-se como fazia quando tinha cinco anos. Tinha uma expressão tétrica em seu rosto desde que Jota dissera a verdade a ele. Uma garota? Era isso mesmo? Ele estava aquele tempo todo com ela e sequer a citara em suas conversas, nem mesmo uma foto, nada. Realmente Jota era um menino raro.

João quase dormia no ônibus quando tomou uma decisão que ele mesmo sabia que mudaria sua vida: esquecer de uma vez daquele garoto e de qualquer tipo de relacionamento. Parecia precipitado ou impulsivo a princípio, contudo, ele sabia que era o certo a fazer e estava totalmente decidido. Ele nem imaginava como essa decisão atingiria todo seu comportamento em cheio, tornando-o praticamente uma nova pessoa. Devaneava sobre tudo isso enquanto comia mais salgadinhos, enchendo sua boca rapidamente.

O garoto olhou para o lado e notou outro menino, de cabeça baixa, encarando o chão, parecendo muito cansado. João, com pena, esticou seu braço até ele e balançou o pacote perto do seu rosto, fazendo um barulho abafado e chamando a atenção do garoto que olhou para ele com uma expressão de dúvida. O menino era loiro, de olhos azuis e tinha o rosto coberto por algumas sardas. “Quer?”, João perguntou, sorrindo. O menino ficou meio sem reação, olhou o pacote, olhou para o outro e de novo para o pacote. Assentiu com a cabeça e esticou o braço. “Pode pegar”, João falou, deixando cala letra das palavras escapar lenta e sonoramente pelos lábios vermelhos.

Ele sorriu mais uma vez e recebeu uma ligação, era Aline. A garota falou que tivera uma ideia especial: fazer uma pequena festa na casa de João, afinal, ele sempre oferecia e sua casa sempre estava disponível quando quisesse de acordo com ele. Pensou um pouco e falou que não sabia quem convidar. “Eu, você, Tati, Giu, William e Jota”, ela disse do outro lado da linha. João parou por um instante; William e Jota não eram duas pessoas que ele gostaria de ver recentemente. Disse que não sabia como convidar alguém que estava bravo com ele para ir em sua casa. Aline comentou que ela mesma faria questão de convidar o amigo de pele dourada, e que William aceitaria quando soubesse que todos iriam. Ademais, o garoto no ônibus pensou um pouco em Jota e como não gostaria de ter mais contato com ele, entretanto, eles não tinham brigado, ainda eram amigos, não havia problema em convidá-lo um pouco para sua casa para passar uma noite agradável.

João aceitou a ideia e disse que falaria com seus pais, animando-se prontamente e rindo largamente entre suas bochechas, não escondendo sua alegria. Olhou para o lado e viu o garoto que ele oferecera o salgadinho fitando ele, rindo junto, um sorriso envergonhado, doce, os olhos claros levemente opacos. João não se conteve e deu uma piscadela para o garoto, que respondeu com mais um sorriso envergonhado, dessa vez corando suas bochechas.

Giuliana estava andando pelo pátio da escola procurando por Tatiane e encontrou-a sentada em um banco com Luiz, de mãos dadas com ele e trocando olhares apaixonados. Eles estavam tão bem, tão alegres, que ela não quis estragar aquilo, então deu meia volta e Mariana entrou no seu campo de visão. Ela ficou paralisada por alguns segundos até ter a reação de correr atrás de uma pilastra, observando a bela menina. “Cadê o meu suquinho agora?”, ela pensou, rindo consigo mesma. Mariana andava de uma forma tão bela que é como se os sons dos seus passos pudessem resolver qualquer problema do mundo. Giu não tinha muita reação, apenas conseguia olhar aquela figura tão bela, tão cativante.

Quando a garota saiu de sua visão, ela escorregou pela pilastra sentando no chão e soltando o ar. Era como se tivesse visto uma criatura mitológica, alguém tão belo, tão espectral. Pensou em sua mãe no mesmo momento, o que será que ela acharia daquilo tudo? Provavelmente odiaria, afinal, a garota não conseguia mensurar qualquer reação boa de sua mãe. Ficou cabisbaixa por um instante e levantou-se com rapidez, olhando para o lado e dando de cara com Mariana que olhava com uma expressão doce.

“Você é a Giuliana, certo? Estuda no segundo ano”, a voz da garota era muito sutil. “Sim... Mas todo mundo chama de Giu, ou Giuli, ou... Tá, parei. Ah!”, Giu não conseguia sequer formar uma frase decente, estava suando, nervosa. “Entendi... Bem, Giu, será que pode me responder uma coisa?”, Mariana enrubesceu. “Cla... Claro! Só perguntar”, ela não gostava de como as palavras saíam de sua boca. “Você conhece a Júlia? Cabelo preto longo, baixinha”, enquanto a menina ia falando, Giuliana lembrava daquela figura. “Sim!”. “Então, eu queria um ingresso pra uma festa muito foda que vai ter naquela balada, a Pixel, e soube que ela anda vendendo!”, Mariana olhava animada para a garota. “Posso ver pra você! Depois te falo”

Mariana agradeceu e foi embora, deixando um rastro de perfume que Giu seguiu, enlouquecida.

Em sua casa, Aline pulava de alegria, pois conseguira finalmente tirar seu tédio. Sua afetividade estava em um pico, bem diferente dos últimos dias que foram bastante depressivos. Ela subiu em sua cama, sentiu-se como rainha do mundo. Lembrou que precisava convidar William e agir com cautela, queria evitar brigas, nada poderia estragar sua noite. João ficaria com Jota, Will dançaria loucamente, Giu e Tati ririam de tudo, era algo que beirava a perfeição. Nada que adição de algumas bebidas não ajudasse também. Ela gargalhou e pegou seu celular em cima da cama, já estava na hora de animar todos para que a festa começasse e, quem dera, não tivesse um fim tão cedo.

No dia da pequena festa na casa de João, ele fazia os últimos preparativos. Arrumava uma almofada aqui, um vaso ali, sem esquecer-se de olhar a própria aparência no espelho várias vezes. Estava bonito, a casa estava bonita, seria a noite perfeita, nada podia dar errado. “Exceto...”, ele falou a si mesmo, bufando. Pegou o seu celular e procurou o nome de William na lista de contatos, fazia alguns dias que não conversavam, o que não era normal. Encostou-se no sofá, abraçando as próprias pernas, cantarolando alguma música triste, provavelmente Adele. Não queria estar daquela forma, não queria ter brigado com o amigo; fora idiota, imaturo. Olhou o nome do amigo mais uma vez e pensou em ligar para ele, entretanto, tirou essa ideia da mente, afinal, a noite não podia ser estragada por brigas quaisquer.

Foi até a geladeira quanto ouviu alguém bater na porta, era Jota, ele sabia, Jota sempre chega no horário. Abriu a porta e o garoto de olhos verdes foi logo dando um abraço forte no amigo. João não teve muita reação, apenas abraçou também, não sabia direito o que sentia, apenas queria desvencilhar-se daquele abraço sufocante. Convidou-o para entrar. “A gente não tem se falado muito, tava com saudades”, Jota disse, sorrindo. “Tenho andando muito ocupado, sabe como é”, João respondeu, impassível.

Logo, todos os outros amigos chegaram, cada um do seu jeito, um mais animado que o outro. Tatiane e seu jeito barulhento invadiram a casa, trazendo um tom alegre e doce para todo o ambiente; Giu trouxe a serenidade inquietante para preencher o ar com sua voz gostosa de ouvir; Jota sempre sereno e tranquilo, sendo como uma ponte de equilíbrio entre a loucura e a calma; Aline com sua animação sensual, o olhar vivo e sorriso brilhante, fazendo o papel de embelezar o ambiente; João com seu jeito carinhoso e sorridente, de quem sempre vê o lado bom da vida, sempre sabe o caminho que está trilhando, enchendo categoricamente sua casa com um misto de razão e emoção; e William, que pairava entre o misterioso e o carinhoso, sua voz tranquila e jeito besta que agradava qualquer um que estivesse perto.

Após muito tempo eles estavam finalmente reunidos todos juntos, sem faltas, ainda que se pudesse sentir um conflito vindo de William e João. Aline puxou o dono da casa pelo braço e levou-o até sua cozinha, olhando profundamente em seus olhos castanhos.

– Vocês não fizeram as pazes ainda? Puta que pariu! – Ela disse, brava.

– Ele não veio me pedir desculpas ainda... O que quer que eu faça?

– Ai, vocês são impossíveis mesmo. Peçam desculpa. Não importa quem tá errado, até porque os dois estão!

– Não vou fazer isso! É muita tristeza pra um dia só.

– Do que você tá falando? Que tristeza, João? – Aline tinha uma expressão serena no rosto.

– Nada!

– Agora fala, por favor.

– É que... O Jota... Ele tá namorando uma menina! Ele nunca gostou de mim, Line.

– O que? Mas eu achei que vocês estavam se pegando já!

– Pois é... Não estamos, nem nunca estaremos.

– João... Que droga!

– É sério isso? – William entrou na cozinha, estivera ouvindo a conversa o tempo todo.

– Sai daqui! Não lembro de ninguém te chamando pra conversar, porra! – João disse, olhando para ele.

– Não vou sair, vou ajudar meu amigo.

– Amigo? É isso mesmo?

– Claro que é, João! Vamos deixar a amizade acabar por toda essa merda? Isso não é nada! Me desculpa!

João abaixou a cabeça, olhando para o chão enquanto pensava um pouco, depois levantou a cabeça.

– Me desculpa também! Eu fui idiota, não quis dizer tudo aquilo, foi mal.

– Claro que está perdoado. Agora fala mais dessa história do Jota.

– Eu fico de cara como vocês voltam a ser amigos tão rápido toda vez... Mas agora fala, João.

O garoto explicou calmamente toda a história a eles, contando cada detalhe com calma, cuidando para que ninguém mais estivesse ouvindo. Aline e William ficaram impressionados, pois tinham certeza que Jota estava apaixonado por João. Eles abraçaram o amigo e disseram que ele era especial e que não deveria ficar triste por um guri, que muitos outros surgiriam em sua vida.

Entrando na sala, os três deram de cara com Giuliana, que mexia no computador de João. “Joni, como é o nome daquele site de conversas?”, ela perguntou, ajoelhada no tapete da sala. “Omegle?”, ele respondeu imerso em dúvidas. “Isso! Vamos?”, Giu gritou animada enquanto todos se aproximavam do computador para ver mais de perto como funcionava aquele site. O site de relacionamentos funcionava usando a câmera do computador e era possível falar com qualquer pessoa do mundo. Inicialmente, preferiram ir à parte brasileira do site e encontraram todo tipo de gente, alguns garotos animados, algumas moças bonitas, muitas e muitas genitais e pessoas taradas. Conversaram com um rapaz que tinha um pug chamado Shark, com uma menina que acabou mostrando os peitos, entre outras pessoas mais.

“Gente, o que que é fancha?”, Giuliana perguntou, abismada. “Fan... Como é que é?”, Tati falou. “A mulher escreveu assim: tudo fancha? Não sei o que quer dizer”, ela olhou para todos. Aline abaixou a cabeça e começou a rir, não se contendo. “Fancha quer dizer lésbica, Giu. Ela quis perguntar se todas as garotas daqui são lésbicas”, Aline disse, corando. Todos começaram a rir, incomodando a moça da conversa que acabou saindo.

Durante a noite, Jota estava sentado no chão, tocando violão, enquanto Aline e Giu estavam sentadas com cobertas vendo João e William conversarem no site e Tati mexia no seu celular, ainda que prestasse atenção em tudo ao seu redor. “Ei, por que a gente não acessa a parte de gays do site? Vamos, só pela diversão!”, João disse, rindo. William aceitou e eles trocaram. Viram muitos garotos, poucas meninas, e alguns homens mais velhos que eram extremamente assustadores. O excesso de meninos mais novos impressionou João que não esperava encontrar gente de treze anos em um site como aquele. Conversaram com um português simpático, de pele bem branca que se encantou por João e sua camiseta vermelha, um brasileiro de dezessete anos e muito presunçoso e, por fim, com um chinelo que era a personificação da doçura. Tinha um sorriso cativante, um olhar simpático e tinha uma voz melodiosa. “Ele parece que gostou de você, heim. Vou deixar conversarem a sós”, João disse, levantando-se e rindo. “Pera, João! Não sei conversar com gays e não quero ter que cortar eles. Você é o esperto do grupo, me ajuda!”, Will respondeu, assustado. “Calma, Will! Só vou pegar algo pra comer. Vai enrolando ele”

Quando João saiu, Tati viu como Will tinha jeito para conversar com o garoto, eles estavam se dando muito bem. “Will, se não se cuidar vai virar viadão também”, ela disse. “Cala boca, Tati!”, ele gritou, gargalhando. Will continuou conversando com o menino que o cativara muito, tinha um jeito muito simpático. João voltou e sentou-se ao lado do amigo, que sequer prestou atenção à sua presença, estava entretido. O outro sorriu e foi até perto de Giu e Aline, aninhando-se entre as duas.

“Gente, preciso contar uma coisa pra vocês”, ela falou, ajeitando-se. Então, contou toda a história de como conversara pela primeira vez com Mariana, as emoções que tivera. Falou que a garota endeusada pedira informações sobre ingressos para uma festa e citou como era sua voz, seu cabelo, seu cheiro, tudo. “Você sabe o que dizem: assim que você mata a vaca, tem que fazer um hambúrguer”, Will disse, tocando docemente no braço dela . “Eu não conheço essa frase de algum lugar?”, João perguntou. “Sim. É de uma música da Lady Gaga. Você sabe que gosto dela”, Will respondeu, rindo.

Giu contou mais um pouco da história, até que foi interrompida por Tati.

– Tá, mas onde é essa festa e que dia é?

– É naquela balada, a Pixel. E acho que é nesse fim de semana – Giu respondeu.

– E por que não vamos também? – João falou.

– É só pra maiores de dezoito, nem tem como – Tati olhou para ele com uma expressão irônica.

– Depende, a gente consegue arranjar uma identidade pra você e pra Giu. Eu, Will, Aline e Jota temos dezoito já.

– Eu não vou gente, não vou poder ir – Jota falou baixo.

– Por que não? – João perguntou.

– Eu tenho... Compromissos. Coisas para fazer.

João sorriu para ele, sabia o que isso queria dizer.

– Tudo bem, mas nós cinco vamos. Topam?

– Eu topo, tu sabe que quero uma festa – Aline disse, ficando de pé.

– Eu também, sem problemas – Will afirmou.

Giu e Tati se entreolharam, sorrindo envergonhadas. Era uma oportunidade e tanto, elas não queriam desperdiçar daquele jeito, mas soava tão arriscado que quase perdiam a vontade de ir.

– Vou falar com o Luiz e ver o que ele acha, até porque vai me acompanhar. Pode ser?

– Pode – Will assentiu com a cabeça.- E tu, pequena?

– Não sei. Não esperem que eu vá pegar a Mariana lá dentro só porque estarei lá. Vocês sabem como eu sou com gente estranha.

– Isso não é problema. Teus migos resolvem – João falou. – Só preciso de certeza para conseguir arranjar uma identidade.

– Não vou gente. É muito perigoso, vai dar merda e minha mãe vai saber. Aí fodeu! – Giu falou, as mãozinhas tremendo.

– Olha, não custa tentar. E se der certo, vai ter uma baita história para contar – Aline brincou.

– Tá, eu vou. Mas prometam que vão fazer dar tudo certo!

– Prometemos – Will falou, já ficando alegre.

Os cinco amigos ficaram muito animados com a história. Mal sabiam eles como essa festa mudaria a história de cada um por completo. Tati, Giu, Jota, Aline, João e Will não seriam mais os mesmo depois dos acontecimentos daquela noite festeira. Muitas histórias ainda precisavam ser resolvidas, e mistérios serem revelados.

– Mas, quero certeza, heim! Nada de dar pra trás – João disse. Ele sabia que a noite seria incrível, muito incrível.

– O que nos espera lá? – Aline perguntou, intrigada.

– Veremos – João e Giu disseram quase em coro.

Notas finais
Mais um capítulo que eu espero de coração que tenham gostado! Comentem para eu saber o que estão achando. Obrigado por terem lido! E preparem-se para o próximo capítulo! :)