Os Fanáticos
6 William
Notas iniciais
João estava em sua casa quando recebeu uma mensagem de William falando que Giu e Tati confirmaram a presença. Ele sorriu e viu que tinha a missão de conseguir as identidades para as duas garotas, então, fez algumas ligações rapidamente e tentou conseguir com outros amigos os documentos de pessoas maiores de dezoito anos. Logo, tinha tudo certo para que as meninas entrassem na festa.
Na casa de Aline, William comia o resto do brigadeiro que a menina deixara no pote. Ela provava roupas e perguntava para ele o que achava, ainda que o garoto não demonstrasse muito interesse, parecia entretido em seu celular. Durante um bom tempo ela provou boa parte de seu guarda-roupa, sempre recebendo uma crítica construtiva de seu amigo que ainda devorava o doce. “Will, você é tão bom em escolher roupas, não entendo, sério”, ela disse, jogando uma blusa azul na cama. “Acho que é dom, sei lá. Não é tão difícil quanto parece”, ele disse de boca cheia, sendo difícil de decifrar suas palavras. “Ai, seu gordo. Para de comer e vem me ajudar mais”, Aline falou, jogando uma blusa nele.
“Giu comentou a ideia dela pra ti?”, ele perguntou enquanto olhava uma calça. “Não, por quê?”, ela respondeu se olhando no espelho. “Ela combinou de todo mundo ir se arrumar na casa dela que a mãe dela leva a gente tudo pra balada”. “E vai caber todo mundo num carro?”, Aline alisou o próprio corpo após vestir uma blusa roxa. “Tati não vai se arrumar lá. O pai do Luiz vai levar eles. Só eu, tu e João”, Will deu mais uma colherada no brigadeiro. “Entendi! Eu vou sim, sem problemas. Agora me diz... Essa ficou como?”, a garota vestia uma blusa azul claro. “Meu, melhor que tu vestiu até agora! Muito foda, vai com essa!”, William exclamou.
A garota pulou de alegria e deu um abraço e um beijo no menino, dizendo que ele merecia. William levantou-se e foi até o banheiro, trancando a porta atrás de si. Respondeu pessoas interessantes no seu celular e olhou-se um pouco espelho. Passou os dedos pelos cabelos marrons, abriu bem os olhos cor de mel que estavam docilmente brilhosos, estalou os lábios que contrastavam com sua pele de tom dourado e observou os parcos pelos de barba de jovem, encimados pelas bochechas sutilmente coradas. Gostava do que via, ainda que gostaria muito de poder sumir com algumas espinhas em seu rosto, deixando sua pele mais lisa e bela.
Voltou ao quarto de Aline e sentou-se perto da janela, devaneando. Pensou em como seria aquela festa, nas coisas que aconteceriam. Sabia que o ambiente era de total diversidade, ou seja, qualquer tipo de pessoa poderia entrar, hétero, homo, bi, entre outros. Nunca tinha ido a um ambiente como aquele e não sabia como era. Estava um pouco ansioso e sabia que todos seus amigos também, ainda que cada um demonstrasse de formas diferentes. Se conhecia bem Aline, era comendo, e isso ela estava fazendo muito naquele dia, mesmo que ele tivesse de terminar o brigadeiro.
Na casa de Giuliana, ela e Aline passavam maquiagem no banheiro enquanto João tentava ajeitar a manga da camisa de William com dificuldade. “Cara, tá bom... O problema é que tu é muito fresco, sério”, João disse dobrando as mangas mais uma vez. “Vai se foder! Ainda não tá bom, faz essa merda direito”, Will disse, gargalhando. O outro garoto bufou e tentou mais uma vez com bastante calma e usando todas suas habilidades manuais, fazendo uma dobra perfeita, o que impressionou seu amigo. No banheiro, as duas garotas trocavam maquiagens e conversavam sobre as possíveis pessoas que iam à festa. Aline falava dos guris bonitos e Giuliana das gurias, ainda que só conseguisse manter uma em sua mente. Elas também citavam os conhecidos que poderiam acabar surgindo naquele ambiente que aparentava ser bastante hostil na cabeça deles.
– Será que vão ter garotas bonitas? – João perguntou sentando na cama de Giu.
– Sempre têm garotas bonitas nesses lugares, é só procurar.
– Espero que tenha mesmo. Não quero ir nesse lugar pra ver gente feia – João arrumou a gola da camisa.
– Então é melhor tu nem ir – Will gargalhou.
– Vai à merda – o garoto gargalhou também.
– Olha, a gente até pode...
– AMIGOS! Tenho uma coisa maravilhosa aqui que tinha esquecido – Giu falou, interrompendo a frase do amigo e tirando uma garrafa de água da bolsa.
– Água? – Will perguntou.
– Isso não é água, tenho certeza disso – João disse, quase sussurrando.
– Exatamente. É vodka! Vou levar pra gente beber na fila.
– Ai, Giu, tu lembra da última vez que fiquei bêbado? Fiquei beijando os puxadores do armário do banheiro da minha casa.
– Você sempre diz isso e sempre bebe – ela fez uma expressão irônica para ele.
– É... Tem razão – ele gargalhou.
– Eu passo, Giu. Por hoje quero ficar bem para apreciar o ambiente. E tu, Line? – João olhou diretamente para a garota que estava estonteante.
– Cê sabe que eu nunca recuso uma bebida, né? – Ela sorriu maliciosamente.
– Só tu que é chato mesmo, João – Giu afirmou.
– João é uma vó, eu já disse pra vocês – Will brincou.
– Sou chato mesmo, pelo menos não vou passar mal depois.
– Ai, cala boca, Joni. Ninguém vai morrer com uma garrafinha de vodka.
– Depende né – Will disse quase que para si mesmo.
– Depende muito – Aline falou entrando no quarto e sentando entre os dois meninos.
Enquanto terminavam de se arrumar, todos iam tirando fotos de si mesmo e rindo delas. Faziam caretas, riam, brincavam, passavam um bom momento juntos. Fazia certo tempo que não tinham uma sensação tão boa quanto aquela da noite. Os quatro se divertiam muito e ouviam algumas músicas para ir se animando para a festa antes mesmo de sair de casa. William dançava com Giuliana enquanto Aline e João riam, algo os dizia que a festa seria recheada de surpresas.
Quando chegaram ao local, viram uma enorme fila que os desaminou extremamente, não esperavam algo daquela proporção. Viram Tati de relance e correram até ela, estava de braços dados com o Luiz, no meio da fila. “Chegou cedo, heim!”, Will disse, abraçando a amiga. “Luiz imaginou que teria fila, por isso viemos logo. Entrem aí”, Tati respondeu. “Ah, Tati, meio maldade furar a fila né? Não acho legal fazer isso”, Giu afirmou. “Para com isso, Giuliana. Ninguém vai reclamar, entrem logo aqui”, a amiga falou.
Os quatro amigos entraram sorrateiramente no meio da fila e olharam para os lados pensando que alguém poderia ter visto. William notou como Tatiane estava bela, arrumada como uma verdadeira modelo. Os longos cabelos pretos estavam perfeitamente lisos e brilhosos, quase como uma joia negra. Usava uma roupa tão bonita e que valorizava seu busto de forma tão magistral e delicada que parecia terem criado aquela roupa unicamente para ela. O batom vermelho que percorria o caminho de seus lábios realçava seu rosto juntamente com a sombra escura. Will soltou um suspiro ao ver como a amiga viera para arrasar.
Giuliana puxou a garrafa de sua bolsa e abriu rapidamente, sentindo o cheiro forte de álcool da bebida e explicando para Tati. Olhou para os amigos, respirou fundo e tomou um gole longo da bebida, fazendo uma careta logo depois. Entregou a Aline que bebeu o líquido com vontade, mantendo sua postura de lady. Will bebeu derrubando um pouco em sua roupa e quase se engasgando. João tomou um rápido e curto gole. Tatiane também bebeu um gole longo e seu namorado apenas bebericou a bebida.
Rapidamente, a bebida tinha acabado, enchendo de álcool a corrente sanguínea de todos, em quantidades maiores na de Giu e William, que já começavam a falar um pouco enrolado e rir além do ponto. João sabia que aquilo ia acontecer, mas não estava de forma alguma incomodado, apenas se divertia com toda aquela situação. Ninguém ligava para eles, cada grupo de pessoas estava entretido com suas próprias conversas. Era o lugar perfeito, ninguém incomodava ninguém, Aline observou enquanto recebia um abraço apertado de William que já estava com a roupa molhada.
Após pegarem a senha da fila, impedindo assim que ninguém pudesse furar, Tati puxou seu namorado sutilmente pelo braço até um local mais afastado do seu grupo de amigos. Will, bêbado, mandou vários beijos para ela enquanto gargalhava. “Você não parece muito a vontade, amor”, ela disse, olhando nos olhos dele. “Muita gente, muito aperto! Tem uns caras estranhos e essa coisa de diversidade chama atenção de pessoas estranhas”, ele respondeu, um pouco emburrado. “Para com isso, né. São só uns gays, uns bis e umas pessoas querendo curtir a noite assim como a gente. Tá cheio de casal também”, Tati retrucou, com os olhos brilhando. “Não sei, não sei”, falou Luiz com uma expressão de poucos amigos. Tatiane pensou um pouco, como poderia animar o namorado? Olhou para a fila que estava cada vez maior e depois para ele de novo. Pensou um pouco e teve uma ideia que parecia genial.
“Olha, pensa bem... Nós vamos ter um lugarzinho escuro pra aproveitar, ninguém vai nos incomodar. Vamos dançar, beijar, conversar com os migos, coisas que eu sei que tu gosta”, ela sorriu e deu um beijo demorado no namorado. Luiz descruzou os braços e abraçou a garota, dando-lhe outro longo beijo e sorrindo. “Tá bom, parece ser uma boa ideia. Vamos lá”, ele respondeu, colocando os braços pelos ombros da garota e segurando sua mão com os dedos entrelaçados, sorrindo e corando um pouco.
Na fila, Giuliana já fizera amizade com todas as pessoas a sua volta, sempre rindo alto e gritando enquanto abraçava todos seus amigos e dizia que os amava, recebendo em troca alguns beijos na sua cabeça. William estava pendurado em um muro, tentando escalá-lo com muita dificuldade. “Isso me lembra quando o Will subiu no batente da porta da minha casa em uma festa. Foi muito bom”, João disse, gargalhando enquanto ajudava o amigo a descer do muro. William correu até o começo da fila à medida que cantava uma música que adorava e cumprimentava pessoas conhecidas. Aline estava tão acostumada a ver William daquela forma quando ficava bêbado que não se impressionava.
Por mais que fosse tímido e um pouco retraído às vezes, quando bebia e escutava suas músicas favoritas o garoto soava como uma pessoa totalmente diferente. Ficava falante, extrovertido e muito animado. Seus amigos gostavam tanto desse estado dele que normalmente nem ligavam quando ele passava do ponto na bebida, o que era frequente.
Pixel tinha um aspecto diferente de todas as baladas que tinham ido antes. Parecia um pequeno castelo, com paredes pintadas em um tom grafite externamente e com algumas regiões preenchidas por um vermelho forte. Internamente, era dividida em dois bares e duas pistas de dança, uma no térreo e outra num andar acima. Ela tinha um ar de arte abstrata misturada com extravagância de uma arte expressionista, repleta de quadros pelas paredes, sofás de cor preta e pistas com luzes coloridas e chamativas.
– Tá, é a primeira vez que estamos aqui. Não sei muito o que fazer... – Tati falou.
– Ai, migs, é só curtir a vibe e foda-se o resto – William falou.
– Desculpa se eu não tô bêbada, William.
– Gente, relaxa, é só uma balada. Não estamos num jantar de gala – João retrucou.
– É, gente. Amor, carinho e... Fodeu! – Giuliana escondeu-se atrás de William.
– O que foi? – Ele perguntou.
– Acabei de ver Mariana saindo do banheiro. Ela realmente tá aqui. Me ajuda, Will.
– Calma, Giu. Ela é só uma garota, amiguinha – Aline afirmou.
– Uma garota linda e gostosa, diga-se de passagem. Foda-se também, ou não, talvez. Caralho! – A garota não conseguia formar uma frase decente.
– Vamos entrar antes de tudo, gente! – João empurrou os amigos para irem até pista.
– Pera, quero beber mais! – Will gritou.
– Não vai não. Agora não! Já bebeu demais e não quero ter que ficar carregando amigo.
– Obrigado, vó!
Quando entraram na pista de dança, impressionaram-se com a quantidade de gente e o aperto que era aquilo, ficando totalmente sem reação. Era tanta gente estranha em um espaço tão pequeno que eles queriam sair correndo no mesmo instante daquele lugar. Will puxou Giuliana pelas mãos e essa foi chamando os amigos e adentrando naquela massa de gente suada. O espaço era apertado, mas possível de alguém passar, e logo eles conseguiram fazer uma roda para poderem dançar. William e Giu dançavam loucamente pela pista, sem se importar com o mundo; João começou tímido, mas logo se animou na dança também; Aline mal sabia o que estava fazendo, apenas mexia seu corpo, acompanhada por Tati.
A música alta parecia penetrar pelos poros de todos do grupo como um rio flui por uma correnteza potente. Ela seguia seu caminho pela corrente sanguínea e era bombeada para todo o corpo, chegando a todos os tecidos e fazendo uma lavagem por qualquer timidez do organismo. A música abria espaço para emoções que eram pouco possíveis na normalidade, era deliciosa. O cheiro misturado de perfumes, suor e bebidas apenas aumentava aquela sensação de puro êxtase que aquela balada proporcionava.
Em um momento, Giuliana foi puxada pelo braço e sumiu de seu grupo de amigos, caindo em um grupo de pessoas estranhas, exceto por uma garota. Mariana. A menina olhava para Giu com uma expressão de dúvidas. “Você é a última pessoa que eu esperava encontrar aqui, garota”, Mariana disse no ouvido da menina baixinha, exalando seu hálito maravilhoso. “Decidi no último instante, sabe como é”, a bebida parecia dar confiança para a garota. “Que bom! E como cê tá?”, a mais velha perguntou, sorrindo. “Tô ótim... Tô bem”, por causa da bebida Giuliana ainda não conseguia formar as frases com a cautela que o momento necessitava, e Mariana percebia isso, rindo junto com ela.
“Parece que alguém se passou um pouco, né?”, ela tinha um sorriso levemente malicioso nos lábios. “Bem mais que um pouco”, Giuliana respondeu, gargalhando. “Você é muito bonita, sabia? É hétero?”, Mariana corou. “O... Obri... Obrigada. E... É complicada essa pergunta”, Giuliana apertou as mãos, desejando muito poder estar segurando as mãos de João naquele momento para se acalmar. “Por que a gente não descomplica ficando então?”.
Giu corou completamente. Não sabia o que fazer, não sabia se aceitava ou recusava, se cantava, dançava, abraçava. Estava assustada, perdida, querendo um amigo naquele momento. Mariana passou os braços pela cintura de Giuliana e puxou-a, encostando os dois corpos femininos. A garota queria aquilo, sabia disso, então se entregou ao momento e puxou docemente o rosto de Mariana até sentir que seus lábios se encostaram em um momento que quase soltava faíscas de emoção. Logo, as duas estavam abraçadas e beijando como nunca antes Giu beijara em sua vida, sentindo um gosto doce, um entrelaçar intenso de línguas e mãos que percorriam as formas dos corpos.
Encostaram-se a uma parede e o beijo ficou cada vez mais intenso, os toques mais fortes. “Santo suquinho!”, João disse quando viu aquela cena.
“Gente, vamos até o segundo andar para ver como é?”, William disse, ainda bêbado. “E a Giu?”, Aline perguntou. “Ela vai ficar bem ali, acredite”, João gargalhou. Os amigos subiram as escadas, encontrando algumas pessoas se beijando nos corredores e, quando finalmente chegaram, notaram que era como uma cópia do primeiro, com exceção de um pole dance no meio da pista.
Aline olhou pelos cantos e seus olhos se cruzaram com os de um rapaz. Ela ficou abismada com a beleza do homem de olhos verdes incríveis e um sorriso destruidor. Ela sorriu de volta para ele e o mesmo fez um gesto com a mão chamando-a para aproximar-se. Aline negou com a cabeça e voltou aos seus amigos, entrando no meio de outra roda que eles formaram. Olhou para trás mais algumas vezes e, em todas, ele estava olhando para ela com uma expressão sensual e seus olhos verdes brilhando. Ela fingia que ele nem existia e continuava dançando com os amigos.
Em um momento, o homem se aproximou e segurou a mão dela, beijando-a com carinho e encostando seu corpo no dela. Aline tentou se afastar com cuidado, mas ele segurou seu corpo com os braços e se aproximou mais, o cheiro dele era maravilhoso, a voz dele também. Os rostos começaram a se aproximar, os lábios quase se tocarem, a excitação aumentando, a batida da música ficando mais forte. Aline deu uma empurrada leve no rapaz e olhou diretamente para ele. “Olha, você é lindo. Mas pra você hoje é não. Sinto muito”, ela disse, sorrindo para ele que não entendera muito bem a situação, porém, se afastara.
Ela chegou mais perto de seu grupo e tentou esquecer aquela situação toda, dançando junto com os amigos. Giuliana ainda não aparecera desde que estivera com Mariana. William ainda dançava sem se importar com os outros enquanto Tati dançava abraçada em Luiz. João estava encostando em uma parede, olhando para o além, distraído, um pouco perdido. “Cansou?”, Aline perguntou colocando os braços ao redor dos ombros do amigo. “Na verdade não. Tô caçando”, João respondeu, olhando para ela. “E o que achou de bom?”, ela tentou olhar na mesma direção que ele estivera olhando, contudo, eram tantas pessoas que não viu. João apontou com o dedo e Aline viu um garoto loiro, de olhos claros, usando óculos, baixinho, de camiseta amarela.
“É gato. Vai lá, Jão”, ela animou o garoto. “Na verdade eu tava de olho em outro guri, de camiseta branca, mas ele meio que me esnobou, então foda-se”, disse, gargalhando. “Quer que eu vá chamar o loirinho?”, Aline fitou seu amigo, sorrindo. João corou e assentiu com a cabeça, esperando que ela nem fosse tentar, mas, prontamente, Aline andou pelo salão esbarrando em algumas pessoas e conversando com o menino de camiseta amarela. João gargalhou e encostou-se mais na parede, esperando que aquilo não fosse dar certo.
Quando Aline voltou, estava acompanhada do menino, que olhou para João e piscou para ele. O amigo sorriu para Aline e disse um obrigado inaudível, apenas movendo os lábios. Olhou o menino mais baixo que ele e puxou-o pela camiseta, aproximando seus rostos e apreciando aqueles olhos azuis por baixo de óculos de armação dourada que combinavam com os cabelos loiros. João puxou mais ele e ambos se beijaram, encostando-se à parede. O beijo era tão bom e tão libertador que o garoto sentiu-se preso àquela aura de sexualidade enquanto apertava o corpo do outro mais forte a cada vez que suas línguas encostavam-se ao calor de suas bocas. João escorregava suas mãos pelo corpo do menino, acariciando suas costas, e apertando sua bunda com sutileza à medida que o rapaz de olhos azuis passava suas mãos pelo peitoral do outro.
Por ser mais baixo que João, o garoto puxou ele e subiu em um degrau de uma escada, ficando exatamente da altura que queria e beijando ainda mais. Quando pararam de beijar por um momento, João conversou um pouco com ele e pediu seu número de celular. Quando ele tirava o objeto do bolso, João viu o menino de camiseta branca surgir na sua visão, lindo e interessante. Ele sorriu e o garoto sorriu de volta, e eles ficaram em uma troca sagaz de olhares. Quando o rapaz de olhos azuis começou a falar, o menino de camiseta branca apareceu e prensou João contra a parede, dando-lhe um intenso beijo, deixando totalmente sem reação o outro que olhou seu relógio e saiu de perto envergonhado. João estava ainda mais imerso naquele segundo beijo, perdido entre os lábios do garoto que fora seu alvo desde o começo da festa, passando fortemente as mãos pelo corpo dele.
Quando Giuliana apareceu novamente e entrou no grupo de amigos, todos bateram palmas pra ela. “Cadê o Joni?”, ela perguntou. “João está putando pelos cantos, ficou com dois garotos já, e uma garota também. Ninguém segura ele”, William respondeu. “Como se alguém algum dia conseguiu segurar, né? Deixa ele lá aproveitando. Tá até usando camiseta vermelha”, ela respondeu, dançando ao ritmo da música.
William falou que ia ao banheiro e desceu as escadas, sendo segurado pelo braço por um homem que olhou diretamente em seus olhos. “Pensei que não ia aparecer hoje. Tá gato, heim”, a voz dele era forte. “Me larga! Tô com meus amigos aqui”, Will respondeu. “Para com isso! Vamos num canto ali”, o homem segurou o braço dele mais forte. “Vai se fuder, outra hora a gente se fala”, o garoto desvencilhou-se dele e saiu correndo escada abaixo até chegar na primeira pista. Encontrou tanta gente desconhecida que quis sair dali no mesmo instante.
Foi até o banheiro e depois encostou-se numa parede perto do bar, respirando fundo. Estava assustado, perdido, querendo chorar, vomitar, qualquer coisa menos permanecer ali. Viu as pessoas passando, casais de todos os tipos se beijando. Desejou ter alguém para abraçar ali naquele instante. Abaixou a cabeça e respirou fundo, alguns meninos vieram perguntar se podiam beijá-lo, sendo todos recusados enquanto William ficava cada vez mais desesperado. Nesse momento, João apareceu no seu campo de visão, vindo em sua direção. Will correu até onde os fumantes ficavam, escapando do amigo que vinha atrás dele rapidamente.
Ele deu um jeito e entrou na pista de novo, sendo sempre seguido. Os dois estavam como em um jogo de gato e rato, uma perseguição sombria por segredos. William ia empurrando as pessoas, pisando em pés, dando cotoveladas para abrir espaço e avançar mais rapidamente e acabou indo em direção à saída, querendo correr daquele lugar, mas não sairia antes que João o alcançasse. Ele decidiu ir ao primeiro bar, que ficava perto da entrada, e tentar se esconder lá.
João o encontrou e William saiu pela porta de entrada, sendo segurado por um segurança. Ele desvencilhou-se dos braços musculosos e saiu para a rua, sendo seguido por João que tinha uma expressão raivosa no rosto.
– Tudo bem. Meu amigo tá meio mal, vou só ajudar ele. Logo voltamos e pagamos tudo, prometo! – João disse ao segurança.
– Não vou voltar pra dentro daquela porra!
– Para com esse joguinho de corrida e me fala o que tá acontecendo. Eu e Line estamos te achando estranho há tempos já.
– Caralho, vocês falam mal de mim pelas costas? Bom saber, amigo!
– Não falamos mal de você pelas costas. Nos preocupamos com você – João cruzou os braços.
– Mesma coisa.
– Cala boca, Will. O que tá acontecendo? Você pode contar, sabe disso.
– Não tenho nada pra contar. Essa é a questão!
– Até parece! Te conheço há bastante tempo pra saber que tem algo pra contar sim.
– Vai se fuder! Não tenho nada, é sério.
– Então vou te deixar sozinho aqui na rua de madrugada e voltar pra lá. Tchau! – João virou-se.
– Pera... Talvez tenha algo... – William abaixou a cabeça.
– O que foi? – O amigo olhou para ele.
– Acho que você vai me odiar.
– Não eu, Will.
– Sério que vocês não perceberam ainda?
– Nadinha... Quer dizer, alguns assim, outros não.
– Imaginei... – Ele deixou a frase no ar – Não é fácil.
– Fala, Will.
– Não quero...
– Fala.
– Tá bom... É que eu... eu... Puta que pariu... Eu sou gay! Tá, é isso. Eu sou gay!
João olhou para o amigo e colocou as mãos na cintura. Will devia explicações. Muitas explicações.
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