Os Dias de Enishi

8 O sopro de energia


A força para continuar

A energia para viver

Para a solidão exterminar

De dentro do meu ser

Já passava do meio dia quando terminou de ajeitar suas coisas. Hora de preparar o almoço: arroz, feijão, ovos recém-coletados, batatas e salada variada, com couve, alface, tomates, rúcula e almeirão.

“Itadakimasu!”

Satisfeito, lavou os pratos e talheres. Armou sua rede, no fundo da casa, e ali se aconchegou. Não demorou muito e Gin sentou-se a seu lado. Miyu, que estava cochilando na jabuticabeira, preferiu cochilar no colo do dono.

Tirado o chochilo, Enishi foi para a mata em frente a casa, para colher frutas silvestres, palmito e algumas ervas medicinais.

Estava atravessando a estradinha de terra batida quando ouve um grito:

- NI-NII-CHAAAN!!! – e uma garota salta em sua direção, derrubando-o.

- Ai ai... — Enishi levanta-se, apertando sua nuca. – Já pedi pra você parar com isso, Karin!

- Nha... gomen! É que faz tempo que não vejo você... – respondeu a garota, fazendo biquinho.

Embaraçado, o garoto apenas respondeu um “tudo bem” e perguntou:

- O que está fazendo andando sozinha por aí?

- Vim dar oi pra você! – os olhos escuros da garota brilhavam.

- Por que não veio com seus irmãos, então? – Karin era a irmã caçula de Koji e Kenji. — Eles já foram pra cidade.

- Nha... mamãe pediu pra ajudar nas coisinhas de casa... – respondeu tristonha, de cabeça baixa.

O garoto sorriu. Disse que estava indo ao bosque, coletar vegetais e perguntou se ela queria ir também.

- Haaai!! – gritou, novamente os olhinhos brilhando.

Karin era mais parecida com Kenji: pequena, para seus 13 anos, magra, cabelos levemente ondulados, porém era extremamente hiperativa, principalmente quando estava com Enishi. Era notável a admiração da pequena pelo garoto.

- Ni-nii-chan, que flor é essa? – perguntou, apontando para um grande arbusto com flores brancas.

- É uma camélia.

- E essa com folhas gigantes?

- Bananeira, essa você conhece!

- Ah é... hihihi... mas ela tá diferente aqui! – justificou-se a garota.

Realmente, tudo nesse bosque parecia ficar diferente. A atmosfera úmida, ao mesmo tempo quente e refrescante, criava um ambiente especial.

Karin continuava com suas incessantes perguntas. Às vezes, esquecendo que já havia perguntado, fazia a mesma pergunta duas ou três vezes.

Contudo, Enishi não se aborrecia. Andava de mãos dadas com a menininha, pois havia muitas raízes, não era fácil andar na mata fechada.

A sensação, já especial pelo ambiente criado pela floresta, era ainda mais penetrante com Karin ao seu lado. Ele conhece a pequena desde quando esta era um bebê. Era sua irmã mais nova que nunca teve.

Parecia que a energia (quase infinita) daquela pentelhinha invadia-lhe a alma. Ele sentia-se útil, sentia-se reconhecido, mesmo que fosse apenas por sua pequena grande fã. Sentia-se alguém, um ser humano inserido num contexto de convivência familiar.

Enishi fora adotado por um casal, nunca soube sobre seus verdadeiros pais. Aos 19 anos decidira morar só, posto que seus pais trabalhavam numa grande empresa em Daiten, a metrópole vizinha da cidadezinha em que ele morava, Anzu.

Ele não via futuro que queria para si próprio vivendo numa cidade daquelas. Apoiado por seus pais, mudou-se para seu pedacinho de terra em Anzu, que, oportunamente, era herança do pai de sua mãe, já falecido.

Há dois anos que morava ali, mas não morava só. Tinha Gin e Miyu. Tinha amigos, como Kenji, Koji e em especial, Karin, sua irmãzinha de consideração, na teoria; sua fonte de risos diários, na prática.

- Acho que já é o suficiente por hoje, hora de voltar, Karin.

- Jááá?? Quero andar mais com o Ni-nii-chan! – suplicou a pequena.

- Quando chegarmos em casa eu faço um chá de jasmim pra você. – ofereceu.

- Yeee! Estamos esperando o quê então? – comemorou, pulando.

Enishi caiu na gargalhada. Pegou na mão da irmã e tomou o caminho de volta.