Amigo de verdade é primazia

Meus problemas ele acalma

É como o sábio proferia

São dois corpos, uma alma

Estavam entrando no quintal da casa quando Enishi ouviu o cavalgar macio de Amidamaru.

- Ei, amigo, quer me vender essa guria? – ofertou Kenji, enquanto Koji apenas sorriu com o canto da boca.

- Sabe, eu gostei mesmo dela... ofereço... vejamos... 30 ryous por ela. – brincou o comediante, chacoalhando um saquinho com moedas. – Aproveite que estou generoso hoje! – completou, jogando o pequeno saco com as moedas para Enishi

- Generoso estou eu, ela vale bem mais que isso. – retrucou Enishi, sorrindo para a “mercadoria”.

Esse singelo comentário embaraçou Kenji, que conseguiu apenas oferecer a mão para auxiliar a irmãzinha a subir, enquanto se desculpava:

- Ok, ok... sobe aqui.

- Nem vem! – protestou Karin, percebendo que teria de voltar com eles. – Vou tomar chá de... de...

- Jasmim. – completou Enishi.

- É! Chá de jasmim com o Ni-nii-chan! – finalizou Karin.

- Já está escurecendo. Vamos, Karin. – ordenou Koji.

- Nha... – resmungou a pequena, fechando a cara.

Ela deu um abraço apertado no amigo, apesar de seus pequenos braços. Conteve duas ou três lágrimas e subiu na charrete

- Fica pra próxima, eu prometo! – amenizou o anfitrião, que pôde ver os grandes olhos negros da menina voltando a brilhar. – Koji, Kenji, obrigado por vender as minhas coisas hoje.

- Não foi nada. – repetiram os rapazes, em uníssono.

- Até mais! – Kenji emendou.

Assim, o trio foi se distanciando, acenando, Koji lentamente, contrastando com os movimentos enérgicos de Karin.

Enishi estava quase entrando na sua casa quando ouviu um ronco grave. O ruído era já há muito conhecido, o motor boxer de 1,5 litro. Observou o Subaru Impreza verde escuro, quase negro, estacionar à frente da sua casa.

Um rapaz da mesma estatura de Enishi, apenas alguns centímetros mais alto, abriu a porta do carro e pôs-se de pé. Cabelos elegantemente desgrenhados, num tom chocolate ligeiramente mais escuro que os de Enishi. Olhos cor de mel, pele bem cuidada, sorriso firme e cativante ao mesmo tempo.

- Bem-vindo, Satoshi!

- Yo, Eni! – respondeu o garoto do Subaru.

Satoshi Saitou era o melhor amigo de Enishi. Desde seu primeiro dia em Anzu, ele sempre ajudou Enshi em tudo que este precisou. Sua família era abastada, a marca Saitou era conhecida pelas lojas de produtos orgânicos e pela grande floricultura que possuíam na cidade (dois mercados altamente beneficiados pelas constantes visitas das pessoas da metrópole).

Contudo, Satoshi não deixava o status subir à cabeça. Sua simplicidade impressionou Enishi desde o começo. As idéias e princípios de ambos eram surpreendentemente semelhantes. Deveras, em dois anos tornaram-se melhores amigos. Mais que isso, tornaram-se irmãos.

A maior parte do que era produzido por Enishi era vendida nas lojas Saitou. Amigos na vida e nos negócios.

Satoshi não era rico a ponto de ser milionário, mas já sentia o fardo do dinheiro: estava cercado de pessoas com interesses secundários; a falsidade pairava, a inveja corroia, a solidão se fazia presente.

Viu, então, em Enishi, a verdadeira amizade. Enishi não ligava para dinheiro. Inteligente como é, caso continuasse em Daiten certamente seria alguém de muito sucesso profissional. Mas não, ele renegou essa vida e veio para Anzu.

Enishi se isolou procurando conhecer a si próprio. Ironicamente, seu isolamento trouxe a ele aquilo que não tinha antes: amigos. O garoto dos olhos verdes ainda não encontrou a pergunta sobre si mesmo, mas encontrou a amizade, encontrou amigos, encontrou um irmão. O mesmo raciocínio aplica-se a Satoshi.

- Voltei de Daiten hoje, tivemos umas reuniões lá... – disse Satoshi, num tom desanimado. – Tá tudo bem com você? Tá com uma cara meio... diferente... – estranhou o amigo, erguendo a sobrancelha direita.

- Realmente... que bom que você veio, aconteceram umas coisas...

- Esqueceu a toalha de novo?

- Há... há... há... – Enishi não sabia se xingava ou se ria.

Satoshi pôs o braço nos ombros do amigo e entraram na casa. Ao rever o interior da casinha rústica, comentou:

- Faz tempo que não venho aqui... mas não mudou nada.

- E isso é bom ou ruim?

- Pelo que conheço você... é bom!

- Ainda bem, né?! – riram

Enishi dirigiu-se ao armário de cedro, à direita da entrada e guardou o saquinho com as moedas recebidas de Kenji. Gin veio correndo para rever o segundo dono.

- Gin! Engordou hein, garoto?! Calma, é brincadeira... ahh você continua um babão! Ok, ok, chega né?

Como se tivesse entendido, o cão sossegou e sentou-e ao lado do sofá que os dois amigos costumavam sentar-se.

Aconchegados no sofá, é a vez de Miyu dar as caras. Roçou a cabeça no peito de Satoshi, ronronando. Depois, elegantemente, aconchegou-se no colo do outro.

Enishi olhava fixamente ao teto, como se quisesse curtir ao máximo os momentos com os três seres mais próximos a ele. Voltou à realidade com a pergunta do amigo:

- Então... sobre o que você queria falar?