Os Dias de Enishi
6 O retorno à rotina
Notas iniciais
O sonho foi apenas ilusão?
Ou pode ter sido verdade?
A resposta me foge à razão
Pois nem sei o que é a realidade
Dessa vez tentou demorar menos tempo em seu banho. Já estava começando a se perguntar aquela velha questão “o que é ilusão e o que é realidade?”, quando automaticamente desligou o chuveiro.
Estendeu seu braço para pegar a toalha e... onde está?
- Aff! De novo não...
Esquecera novamente sua toalha.
- Gin! Gin! – chamou pelo Weimaraner.
Em alguns segundos, o cão coloca seu focinho para dentro do banheiro. Só faltava perguntar ao esquecido garoto “o que é?!”.
- Toalha Gin, por favor!
O focinho já não estava mais lá. Mais alguns segundos e Gin volta trazendo a toalha.
- Grande garoto! – agradeceu o dono, acariciando atrás das orelhas do cão prateado.
Agora devidamente vestido, Enishi foi à cozinha para o café da manhã. Hoje estava despreparado, não comprara leite no dia anterior, mas frutas não faltavam à sua mesa. Deveras: em sua chácara, que mais parecia um pequeno sítio, ele cultivava as mais diversas plantas, frutíferas, hortaliças e medicinais. Era daí que tirava seu sustento, tanto nutricional quanto financeiro.
Tinha um pouco de tudo, e de tudo um pouco vendia na pequena cidade em que vivia. A cidade era realmente pequena, cerca de 30 mil habitantes, porém tinha como vizinha uma metrópole. Resultado: o pessoal da cidade grande, nas férias, passava alguns dias na pacata e bela cidadezinha ao lado.
Por sorte, Enishi morava numa área distante daquela cheia de hotéis e turistas arrogantes. Paradoxalmente, eram esses turistas abastados que compravam grande parte dos seus produtos, já que estavam dispostos a pagar mais pelo que consideram “mais naturais”. Pudera: o garoto não usava qualquer tipo de veneno em suas plantas.
Praticamente todo dia ele ia à cidade, vender o que colhia para o dia. E hoje era um desses dias. Apressou-se com seu desjejum, intercalando suas mordidas com cafuné nas orelhas flácidas de Gin.
Repentinamente percebe um vulto vindo em sua direção. Antes mesmo que pudesse mirar seus olhos na direção do vulto, este dá um salto, aconchegando-se em seu colo.
- Ah! Bom dia, Miyu! – cumprimentou o garoto, meio que se desculpando.
Miyu era a gata da casa, uma Sagrado da Birmâmia, pêlos longos de cor pérola, luvinhas brancas, típicas da raça, com uma máscara cinza-azulada em seu rosto e orelhas, cor esta que se repetia na cauda e nas canelas. Olhos extraordinariamente brilhantes, de um azul-celeste incomum.
Gin ergueu o máximo que pôde as orelhas, mas estas, pesadas, custavam a levantar, o que conferia uma expressão um tanto quanto engraçada ao cão. Enishi riu da demonstração de ciúme de seu amigo.
Miyu por sua vez, nem ligou para a fuzilada do Weimaraner. Sabia que era sua vez de receber carinho.
Formavam uma bela dupla, o cão e a gata. O cinza azulado da gata parecia complementar o cinza-prateado do cão, cujos olhos, verdes como os do dono, porém tendendo levemente ao amarelo, contrastava com os tão azuis olhos de Miyu.
Um cacarejo tirou o garoto de seu devaneio.
- Essa não! As galinhas! – devido aos estranhos fatos ocorridos no dia anterior, Enishi havia se esquecido de prender as galinhas no galinheiro.
Correu para o quintal, seguido de perto por Gin, já curioso, e de longe por Miyu. Começou a cercar as galinhas e os pintinhos, enxotando-os ao seu devido lugar, enquanto Gin começava a correr atrás do galo, protagonizando mais uma cena cômica.
Enishi solta as galinhas, de dia, para ciscar no quintal, ao lado da horta, mas como não as prendeu ontem, estavam agora ciscando na horta, arrancando as mudinhas recém-transplantadas.
O galo, fugindo de Gin, foi o primeiro a entrar, seguido das galinhas, com suas respectivas crias, empurradas pelo dono, que agora corria para o jardim da frente da casa. Entre o jardim frontal da casa e o quintal havia um corredor, dessa forma, algumas delas certamente passaram à frente da casa. Encontrou as duas fujonas, pegou uma em cada mão e colocou-as no galinheiro.
Estava fechando a porta do cercado, quando tem uma surpresa: Miyu chega, com um pintinho na boca.
- Onde que você o encon... ah, deixa pra lá! – o dono, surpreso, não conseguiu terminar a pergunta. Recebeu o pintinho em suas mãos e colocou-o ao lado da mãe. – Obrigado, Miyu!
Num latido sonoro, o cão protestou.
- Pra você também, Gin! – divertiu-se o garoto. – Agora, vamos voltar ao trabalho!
“Não importa o que é sonho ou não, essa é a minha realidade, é assim que eu vivo” – pensou, satisfeito.
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