Os Dias de Enishi

7 A solidariedade


A ajuda incondicional

Caracteriza a solidariedade

É um recurso essencial

É um pilar da humanidade

Por sorte os estragos não foram tão grandes. Não chegaram a comer as hortaliças, mas várias foram arrancadas.

Enishi replantava com todo cuidado, sendo observado de perto pelos dois amigos peludos. Ele se sentia como um cirurgião de plantas, manuseando cautelosamente seus verdes pacientes, abrindo covinhas na terra escura dos canteiros com os dedos, acondicionando-as de volta ao seu leito vertical.

Terminados os transplantes, regou-as, como de costume. Estava regando as plantas medicinais, no jardim frontal, quando ouve uma saudação num uníssono de duas vozes:

- Ohayo!!

Reconheceu na hora os autores do cumprimento.

- Ohayo, Kenji e Koji!

Os dois irmãos eram um tanto quanto diferentes entre si. Koji, o mais velho, era alto e forte, queixo mais quadrado e cabelo mais ondulado que o do irmão. Kenji era uns cinco centímetros mais baixo que Enishi, porém tão esbelto quanto, com um cabelo levemente ondulado. Ambos tinham cor de pele mais escura que a de Enishi, o que não é nada difícil. Seus olhos eram escuros quase pretos, assim como os cabelos.

Também eram diferentes no temperamento. Koji falava pouco, enquanto Kenji era vivo, às vezes até demais. Vinham de uma família humilde, os Sagara, porém muito honestos e trabalhadores.

- Estamos indo pra cidade, vender as hortaliças do dia. – avisou Kenji.

Os Sagara tinham tradição em cultivar hortaliças de raízes, como beterraba, batata, gengibre, nabo e rabanete, apesar de cultivarem outros tipos.

- Mas já?! – Enishi assustou-se.

- Já são 9h! Estamos até atrasados! – respondeu o mais novo.

- Nossa, eu não colhi ainda, as galinhas escaparam e ciscaram nos canteiros, estava até agora replantando...

- A gente te ajuda. – ofereceu-se Koji.

- Mas vamos nos atrasar mais ainda! – interveio Kenji.

- Obrigado, mas não precisa, eu posso levar amanhã e não quero atrapalhar vocês. – agradeceu Enishi.

- Eu insisto. – Koji olhou firme para o amigo.

- Obrigado, então! – aceitou, constrangido.

- Ok, ok! – convenceu-se o mais novo. – Vão indo que vou prender o Amidamaru.

Amidamaru era o cavalo dos Sagara. Apesar da aparência frágil, era um belo cavalo. Pêlos brilhantes, num tom de acaju, tendendo ao alaranjado, crina bege clara. Puxava lentamente a carroça dos donos, de madeira já envelhecida.

Os três amigos colheram rapidamente as plantas, que foram encaixotadas, no caso das hortaliças e frutas, ou acondicionadas em saquinhos, para as medicinais.

- Vai pra cidade com a gente? – Koji perguntou.

- Acho que não vai dar, tenho que terminar umas coisas aqui ainda. – Desculpou-se.

- Beleza, a gente vende pra você e na volta deixamos o dinheiro, como de costume. – resumiu Kenji.

- Obrigado, gente! – Enishi agradeceu novamente.

- Sem problema! Posso pegar meus 10%? – brincou o mais novo, provocando gargalhadas nos outros dois.

- Vamos carregar as coisas então. – lembrou Koji, que pegou quatro caixas empilhadas com a maior facilidade, enquanto Enishi pegou duas e Kenji se encarregou dos saquinhos.

- Olá, Amidamaru! – cumprimentou Enishi.

O cavalo respondeu com um abano de cabeça.

- Até mais tarde então! – despediu-se Kenji.

Koji, por sua vez, apenas deu um aceno, gesto característico dele.

- Até! – acenou Enishi. — E obrigado!

Retornou, então, às suas tarefas: alimentar os animais, cuidar dos outros canteiros, arrumar a cama (algo que já havia se esquecido)...

“Não devo ficar perdendo tempo com meus sofrimentos egoístas. Tenho muito a fazer, amigos a agradecer, amigos a ajudar!”