Os Dias de Enishi
1 O Jequitibá
Notas iniciais
Ver, sentir
Caminhar, cair
Amar, sofrer
Aprender a viver?
Sentado, de costas para aquele centenário jequitibá, lá estava ele.
Seus pés descalços, que sentiam o orvalho remanescente daquela noite gelada, deviam estar agradecidos por aquele raro momento de liberdade, livre das meias e tênis cotidianos.
Os dedos estavam acariciando a grama esparsa que insistira em crescer aos pés daquele gigante.
Seus olhos... Ah! Seus olhos... Estes estavam distantes, apesar de me parecer que estavam deslumbrando as manchas luminosas dos raios solares que conseguiam atravessar a densa copa do jequitibá.
Os verdes olhos estáticos... O que miravam tão fixamente?
Mais uma vez ele estava em transe, divagando sobre a vida.
O tronco rígido, áspero e sulcado da imensa árvore doía-lhe as costas. Mas ele não ligava.
À sombra do gigante, seus pensamentos, seus sentimentos, escapam da solidão obscura, etéreos... Seriam eles verdadeiros?
“Quantas gerações nossas este jequitibá presenciou? Quantas pessoas já se sentaram a sua sombra? Quantas vidas por aqui passaram?”
Notou que, no meio do tapete de grama, havia uma pequena flor, de aspecto frágil, branca, nascendo próximo da sua mão direita. Fitou aquelas cinco singelas pétalas por um bom tempo, como se só existissem ele e a flor.
“Quantas flores já nasceram ao redor deste jequitibá? Quantas flores aqui já morreram? Quantas foram colhidas? Quantas foram dadas a alguém especial...?”
É engraçado como nossa vida torna-se tão passageira, tão instantânea, se comparada a essa árvore centenária.
“Queria ser como o jequitibá. Quem sabe assim eu consiga entender, ou, pelo menos, conseguir conviver com essa experiência pela qual passamos, que nem mesmo os cientistas sabem definir: a vida”
Quer chova, quer esquente, esfrie ou seque, seja o que for o jequitibá continua onde está. Não importam as adversidades, ele florescerá todo ano
Todo ano, por sinal, o ambiente ao redor dele muda. Flores nascem, flores morrem. Mas, da mesma forma, o ele florescerá, ano após ano.
“Queria ser como o jequitibá, queria ignorar tudo ao meu redor, queria viver feliz, alegre, não importando tudo aquilo que passei, nem tudo aquilo pelo que passarei.”
“O jequitibá floresce, esperando que o vento lhe traga o pólen de outro jequitibá. Que irônico: uma árvore tão grande, à espera de algo tão pequeno...”
“E eu? O que devo esperar? Tenho que ter a persistência e a esperança do jequitibá? Devo acreditar que a felicidade virá? Devo acreditar que você realmente me encontrará... minha flor?”
E voltou a encarar o infinito...
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