Os Dias de Enishi

2 A dúvida existencial


Por que estou aqui?

A que devo minha existência?

Nestes anos que vivi,

Compreendi a minha essência?

Hoje Enishi encontrou mais flores debaixo da ampla sombra projetada pelo jequitibá. As cores e formatos eram variados, mas todas tinham um aspecto um tanto quanto frágil, como se um simples vento pudesse danificá-las.

“Parece que nem aguentarão o peso da abelha que pousará nela”

A partir disso, concluiu o óbvio: essas flores só nascem debaixo da copa das árvores porque a grama e os capins não se desenvolvem na sombra.

“Essas flores só existem aqui por causa do jequitibá, se não fosse pela sombra do gigante, elas não teriam condições de competir com as agressivas gramíneas.”

De repente seu olhar perdeu-se novamente. Os olhos miravam o solo ainda úmido de orvalho, mas era claro que ele estava, na verdade, olhando para o seu interior. Decorreram poucos segundos, mas neste tempo, uma série de pensamentos veio a sua mente, que se turvou pelas dúvidas novamente. Por fim indagou-se:

“E eu, por que eu existo aqui? Certamente há uma razão, mas qual seria ela? À sombra de quem eu estou? Estou à espera de uma abelha? Ou seria uma borboleta?”

Seu bom senso cortou a enxurrada de dúvidas: sentiu-se um idiota ao flagrar-se em tais pensamentos. Que estupidez, comparando-se a uma flor?! Seres humanos são totalmente diferentes disso! Ou será que não?

Afinal, humanos ou plantas, todos sobrevivem e vivem. Retornaram, então, as dúvidas: existir é viver ou sobreviver?

“Penso, logo existo”, poderiam dizer. Mas isso não era suficiente a ele. Ele queria mais. Queria crer que sua existência não seria em vão. Para isso, não bastava sobreviver, precisava viver.

Ele, então, pensou que, sendo especial a alguém, sua existência seria percebida. Não... seria mais que percebida, seria necessária!

“Uma pessoa existe pelas outras”, ouviu uma vez em um filme.

Neste momento, pensou nas pessoas queridas, familiares e amigos. Foi tomado por um sentimento indescritível, como se tivesse tomado um elixir reconfortante. Pôde sentir um calor tomando conta de seu coração, que bombeava esse anestésico pelo seu corpo, como se sua própria essência fosse uma mistura de todos aqueles que marcaram sua vida.

Assim como as pessoas marcam nossas vidas, reciprocamente nós também marcamos as delas. Isso é existir?

Porém, apesar de tudo, sentiu ainda falta de algo, como se uma parte de seu coração não tivesse sido atingida por esse sentimento.

Juntou as peças do quebra-cabeça. Percebera que existira, pois tinha pessoas que pensavam nele. Devia estar feliz! Mas ainda faltava algo, o que seria mais importante que isso? O que seria isso, que faz tanta falta? O que seria isso que o impede de viver, de ser completamente feliz?

“Será que só viverei plenamente quando preencher esse incômodo vazio? Só viverei realmente quando achar meu grande e verdadeiro amor?”

Voltou a si e deu-se conta que anoitecera. Não seria uma noite fria, mas uma sensação gélida tomou conta de seus ossos e atingiu o coração, cujo vazio aumentava a cada batida...