Os Contos de A Promessa
1 Camila
Notas iniciais
Eu não sabia como seria essa mudança de vida. Não fazia a mínima ideia do que iria encontrar e para ser sincera, estava com medo. Passei praticamente metade da vida pulando de cidade em cidade, vagando com minha mãe e sua grande habilidade nômade. Ela dizia que era mais fácil não permanecer a lugar nenhum, que era mais fácil não se apegar as pessoas, não criar vínculos para que quando fôssemos embora não sofrermos. Mas eu tinha certeza que ela dizia a si mesma e não para mim, embora olhasse nos meus olhos, embora apertasse meu braço a cada palavra para dá mais ênfase. Eu concordava, tinha cinco anos e não fazia a menor ideia de tudo aquilo, mas concordava. Fazia tudo por um abraço mesmo sendo rápido demais, frio demais. Fazia tudo por um sorriso orgulhoso, um sorriso que ela quase nunca dava. Não para mim.
Cresci em quartos de hotéis, entre homens estranhos e desconhecidos que passavam a noite para vê-la. Havia três deles que iriam com mais frequência, três que me ofereceram uma mão enquanto a outra segurava um pirulito e sorriam para mim. Nunca soube como era ter um homem em casa, nunca tive amigos, nunca fui a escola. Conhecer as meninas foi o começo de uma nova vida, como se meus sonhos estivessem ali, na minha frente e eu tonta, com medo de arriscar. Elas moravam na mesma rua que meus avós maternos, era uma rua simples de São Francisco, casas estilo vitoriano, parques abertos e cheios de árvores e grama e vida. E foram elas meu maior motivo para escolher ficar. Ficar com meus avós, ficar com elas, ter uma vida normal de uma pessoa normal. Escolhi ir para escola, ter amigos, abraços carinhoso e risadas gostosas. Escolhi ter uma vida minha e não importava se minha mãe estava ali ou não, eu não sentia sua falta.
Cheguei a pensar que morar sozinha seria a melhor opção a fazer, mas era impossível deixá-las para trás, era impossível não ir com minhas amigas. E foi então que escolhemos uma faculdade perfeita para todas, em uma cidade – perfeita – longe de casa, com pessoas – perfeitas – que não conhecíamos. Seria um mundo novo, algo que iríamos descobrir juntas, como sempre tinha sido desde minha chegada, como sempre tem de ser. As quatro mosqueteiras, as quatro amigas, irmãs, cúmplices e ninguém mais. E não importava as amizades que tínhamos com outras pessoas, não importava os namoros falsos, os namoros sérios. No final do dia, éramos apenas nós.
Lembro-me dos olhos arregalados e curiosos da Karlla enquanto me analisava na primeira vez que me viu. Tínhamos sete anos, seus pais conheciam meus avós e a levaram para casa naquele dia, para me fazer companhia ou apenas ser educada. Lembro-me quando ficamos em silêncio na pequena sala de entrada que tínhamos, lembro-me de encará-la com o queixo para cima, intimidando como minha mãe havia ensinado. “Se você se sente ameaçada, revide. Confronte. Ameace.” Era o que ela dizia e mesmo Karlla mostrando-se tão curiosa sobre mim, tão ingênua, eu me sentia ameaçada. De repente ela sorriu, seus dentes tortos dizendo olá, enquanto ela levantava sua boneca para mim. E eu a encarava, encarava a boneca e a encarava outra vez sem saber o que fazer, então eu sorri e ela pegou minha mão ainda sorrindo e me puxou até o primeiro degrau da escada onde sentamos e ficamos observando a boneca.
Suspirei encarando a parede ao lado da minha cama e lembrei da Manu, com ela foi diferente. Eu já conhecia Karlla e brincava em seu quarto quando meus avós precisavam sair e Manu chegou tão íntima que achei que fosse sua casa também, achei que fosse irmãs ou primas ou da mesma família. Ela sentou no chão ao nosso lado, pegou uma Barbie e entrou na brincadeira, logo já conversava comigo e brigava porque eu não fazia o papel direito e brigamos por querer o mesmo boneco como namorado. Eu tinha um argumento bobo que a fez desistir e desde então dizia que eu era boa com meninos. Como assim boa? Foi o que perguntei, ela deu de ombros e riu. Éramos pequenas demais para entender dessas coisas, mas agora eu entendo. Fui praticamente criada por homens, alguns grossos demais, outros sensíveis demais, frios demais, românticos demais e de alguma maneira, peguei um pouco de cada.
Larissa era nossa mascote, que segurava nossas mãos enquanto passávamos a rua no caminho para escola. Foi a única que falou quando me viu, a única que me abraçou forte e me deixou nervosa, porque contato físico com crianças da minha idade não era algo natural para mim. Não ainda. Desde então, éramos carne e unha. Se não estivéssemos na casa de uma, estávamos na casa da outra ou da outra e só nos separávamos para ir jantar e dormir em casa. Os pais delas eram como pais para mim, eram íntimos a ponto de me abraçarem ou beijarem minhas bochechas ou me repreenderem. A mãe da Karlla era a que mais me repreendia, era sempre “não acho que deva falar essas palavras a mesa, Camila” ou “seja mais complacente, Camila”. Ela se importava com meu bem-estar, se importava com minha educação, ela me amava antes de ficar doente e esquecer de mim, da filha e desistir da vida. Lembro-me que fiquei um dia inteiro trancada no quarto, chorando e ignorando quando Manu me ligava pedindo para irmos a Karlla dá apoio, dá forças, mas eu não tinha forças, estava sofrendo como uma filha.
Uma lágrima caiu em minha bochecha e pisquei para a parede, limpando o rosto com o cobertor, jogando os pensamentos para o lado, para o lixo. Eu estava – assim sei lá – triste pelo o que havia acontecido com Dylan na noite passada, estava com medo de que pudesse acontecer algo com elas, estava com medo de sofrer como sofri. Como venho sofrendo durante minha vida toda.
Respirei fundo com as mãos no rosto e lembrei do que Aaron havia dito, “sempre há problemas, sempre há essas drogas de acidentes que reviram nossa vida, mas nada é motivo para mudar. E é por isso que vamos agir naturalmente na faculdade, porque além de sabermos que Dylan irá passar por isso, sabemos que ficar triste só piora as coisas.”
E será isso que irei fazer.
Agir naturalmente.
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