Os Contos de A Promessa
2 Aaron
Notas iniciais
Me vi sentado entre um dos vários bancos que estavam no pátio do prédio onde morava, me vi olhando as árvores balançando ao vento, me vi observando as pessoas que passavam sorridentes, com seus filhos nos braços, carregando cachorros e tão – desesperadamente – felizes, que eu os invejava. Me vi completamente perdido, sem ação e sem foco. Me vi despedaçado. Já havia passado uma semana depois da notícia, depois de ir ao hospital dá adeus ao meu amigo. Fazia uma semana do enterro, dos choros desesperados dos pais, dos amigos próximos, das meninas e do silêncio. Eram sete dias de silêncio em casa, entre Maxon e eu. Entre eu e qualquer outra pessoa. Nós sabíamos o que havia acontecido, sabíamos que – provavelmente – era um acidente comum, mas nada me fazia acreditar que Dylan havia realmente ido embora. Não uma viagem de verão, não um final de semana na fazenda dos pais, não um intercâmbio para outro país, realmente ido embora. Era doloroso demais saber que ele não estaria deitado no sofá com ressaca depois de uma festa, era irritante saber que ele não iria me repreender quando eu estiver errado, era triste demais saber que ele não estará conosco em nossa formatura, nas aulas, no refeitório tirando sarro dos jogadores de futebol, fazendo piadas sobre as meninas Gama ou flertando as Alfa. Era triste demais saber que não ia vê-lo outra vez.
Olhei para o céu cinza e respirei fundo sentindo o vento frio em meu rosto, eu precisava de uma força divina, precisava de um milagre para que essa dor pare, se dissolva. Me vi pela primeira vez rezando, eu não sabia como, não entendia se pedia algo e Deus me daria como o mágico da lâmpada, mas eu precisava tentar. Tentar por mim. Tentar por Maxon. Eu sabia que meu irmão estava se esforçando para não cair, sabia que ele estava tentando ser forte para mim, sabia que ele chorava trancado no quarto, mas eu não sabia o que fazer, não sabia se ele me deixaria abraçá-lo, me deixaria aconselhá-lo. Por isso eu precisava pedir força a Maxon, pedir que ele consiga superar dessa vez, consiga deixar o luto e voltar a vida normal porque antes, quando nossa mãe morreu, Maxon mudou assim como todos da família. Meu pai se tornou agressivo, meus irmãos mais velhos nos repreendiam com socos, chutes e nossa única forma de se defender, era aprender como eles. Era ser como eles. Mal-humorados, ágeis, com bom reflexo e sem baixar a guarda. Sebastian poderia ter sido carinhoso, amável se não estivesse sofrendo tanto quanto nós, Travis poderia ser mais calmo, menos possessivo se estivesse sentindo a falta dela tanto quanto nós. E lá estávamos novamente, sempre Maxon e eu. Sempre culpa dos mais novos. Sempre castigando os mais novos. “Eles estão aprontando alguma” era o que nosso pai dizia e mesmo eu tendo de proteger Maxon, ele me protegia quando eu menos esperava. “Aaron não fez nada, a culpa é minha.” Ele disse quando chegamos da escola com olhos roxos e um comunicado da professora. Tínhamos dez anos, tão novos, mas também tão cientes sobre a amizade, a nossa irmandade. E eu desejava tudo de melhor para ele, porque eu sabia que ele não era tão idiota quanto aparentava, que não era tão insensível quanto mostrava ser. Eu sabia que ele era um cara legal, Dylan também sabia disso, e era Dylan quem incentivava a fixar em uma garota, arriscar ter um relacionamento sério e ele sabia que nós tínhamos medo disso, Dylan sabia que éramos dois manés com medo de se magoar e mesmo conhecendo Karlla, mesmo com a ridícula aposta que fiz a Maxon, eu desejava que ela fosse certa para ele. Eu tinha – lá no fundo – esperanças de que ela fosse.
— Só pode está brincando comigo. – Maxon disse deitado no sofá encarando a televisão enquanto mudava de canal.
— É claro que não! – foi o que respondi. – Aposto que você não consegue. Ela pode ser considerada da lista Superiores a nós, irmão.
— Com certeza não. – Maxon respondeu.
— Ela só precisa de carinho. – Dylan falou sentado na poltrona. – Ela é muito bonita, mas não como uma Gama.
— É isso que eu quero dizer. Maxon já pegou alguém, além da Celeste que não seja Gama?
— É claro que sim. – Maxon respondeu revirando os olhos. – Ela é gostosa, mas só.
— Isso é medo, Maddox? – perguntei de implicância, sabia muito bem que Maxon odiava ser subestimado, que odiava ser confrontado principalmente por alguém mais velho. – Eu aposto que você não consegue.
— O que eu ganho com isso? – ele perguntou entediado.
— Meu respeito. – respondi ofendido e Dylan riu.
— Odeio essas apostas, mas você deveria conhecer a garota. – ele disse a Maxon.
— Então é o seguinte, se eu ganhar levo o x-box para meu quarto. – eu ri, concordando com a cabeça.
Estava com medo de ele querer que eu o reconheça como melhor, ou o Maddox mais bonito. Estava com medo dele pedir dinheiro ou qualquer outra coisa do que o x-box no quarto e eu estava certo de que iria ganhar até conhecê-la, até saber que ela era difícil e apesar do sorriso, era forte demais para um Maddox. “Ele precisa de alguém igual a ele” foi o que Dylan me disse quando Maxon saiu para ir ao Morgan e eu concordei, sem entender sobre essas coisas de sentimento. “E você precisa de alguém boa o bastante” ele disse a mim. “Precisa parar de brigar e lutar por uma garota. A que valha a pena” mas quem? Foi o que perguntei, em meio a tantas Gamas, tão fáceis e tão rápidas, quem valia a pena? Mas de um certo modo Dylan devia pressentir algo, saber que eu encontraria a – meiga – Larissa e eu não tive chance de dizer a ele que havia encontrado a garota, que ele estava – como sempre – certo.
Precisava ser forte por mim e por Maxon. Precisava deixar o luto depois dessa semana e iria, agir naturalmente na festa da família Maddox. Iria convidar os amigos mais próximos, iria me divertir e tentar esquecer essa semana infernal, tentar se feliz e tentar ser alguém melhor – não só por mim – por Dylan, porque eu tinha certeza que era isso que ele queria.
E era isso que eu iria fazer de agora em diante.
Fale com o autor