Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
135 A Flecha de Atena
Seiya de Pégaso havia se materializado no Corredor das Águas. Todos chamaram por seu nome, exatamente como ele havia sonhado em sua quase-morte. Seus amigos perceberam que ainda viviam e que o Cosmo de Poseidon havia se acalmado, quase como em respeito à Seiya, como se isso fizesse qualquer sentido. De qualquer forma, já não sentiam a pressão do Deus dos Mares sobre eles e assim puderam se mover. E correram até ele. Alice, que estava de costas para o garoto ainda de joelhos e triste, finalmente sentiu renovada a quentura do seu sangue. O rosto do menino era confiante.
Viu no corpo dos amigos as marcas de uma batalha imensa; as Armaduras de Bronze de Shun e Ikki estavam muito trincadas, enquanto as próprias Armaduras de Ouro que vestiam Shiryu, Hyoga e Alice tinham marcas em seu brilho que nunca havia visto. Seiya inclusive surpreendeu-se com aquela visão especial que era seus amigos trajados com as Armaduras de Ouro; lembrou-se dos planos da Mestre Mayura para eles e sentiu imenso orgulho dos dois. E também de Alice.
Mas nos olhos de todos havia um desânimo terrível, que era muito maior do que as marcas da batalha sugeriam em seus corpos; Seiya desmanchou o breve sorriso e finalmente se atentou ao imenso Pilar Fundamental que cobria toda sua visão adiante.
— Porquê o pilar continua de pé? — perguntou Seiya a pergunta mais óbvia. — O que os impede de derrubá-los, amigos?
— Nem mesmo as Armas de Libra foram capazes de fazer qualquer arranhão. — falou Shiryu mostrando para ele a metade quebrada de seu tridente.
— Não importa o que tentamos, simplesmente nada funciona. — lamentou Shun, muito triste.
Ikki não falou nada e seu olhar estava colado às costas de todos eles: para o Corredor das Águas. Seiya olhou por sobre os ombros, junto dos demais Cavaleiros e perceberam que Poseidon olhava para o grupo de garotos sem esboçar qualquer reação.
— Fico me perguntando o que o fez parar seu ataque. — perguntou Hyoga, com um calafrio no coração.
— Senti que morreria naquele instante. — concordou Shiryu.
— Aquele é o Deus dos Mares? — perguntou Seiya, sério, olhando para trás.
— Sim. — respondeu Alice, ao seu lado.
— Veja, ele está nos dando as costas. — anunciou Shun, muito surpreso. — Um segundo atrás ele estava prestes a nos pulverizar da existência.
Poseidon virou-se para a Câmara do Trono e simplesmente marchou em silêncio para aquela direção. Os Cavaleiros de Atena não compreenderam o que aquilo significava.
— O que está acontecendo? Tétis, diga-nos, por favor! — ordenou Alice para ela.
— Eu… Eu não sei. — respondeu a garota com sinceridade, que estava apoiada em uma das pilastras.
— Não importa. — interrompeu Seiya, que não olhava mais para Poseidon, e sim para o pátio destruído à frente dele, com pedaços de Armaduras de Ouro e as Armas de Libra espalhadas aos pedaços. Em poucos segundos, compreendeu que seus amigos haviam tentado absolutamente de tudo para salvar Saori que continuava presa naquele pilar intocável. — Se a Saori ainda está lá dentro, nós precisamos tirar ela de lá.
Falou com confiança, mas não inspirou tanta esperança em seus amigos. E ele sentiu isso ao seu lado, pois todos continuaram imóveis onde estavam.
— O que estão pensando? Um Pilar desse não pode nos parar!
— É inútil. — soou uma voz grave por todos os lados.
Poseidon lhes falava.
Olharam todos na direção daquela divindade. Ele havia parado sua marcha, mas continuou de costas, uma vez que somente sua voz bastava. Escutavam ela ecoando por todo o Reino.
— Atena já está morta.
Alice cambaleou sem ar.
— O Oceano está salvo. E vocês serão varridos do Reino Submarino por essa Tempestade que ruge sobre suas cabeças.
E voltou a marchar.
Falou pouco mas deixou que o silêncio daquela fala soterrasse à todos em suas próprias angústias particulares. Por isso havia paralizado seu ataque. Não havia mais ameaça alguma de que Atena surgisse daquele Pilar, ainda que os Cavaleiros pudessem operar um milagre. Atena estava morta.
Tétis estremeceu e deixou-se cair em prantos em uma das colunas, pois não havia qualquer resquício de seu amado Julian naquela figura que caminhava. Allice sentiu uma dor no peito e precisou se apoiar em uma pilastra incapaz de olhar para o Pilar Fundamental, Shiryu caiu de joelhos, socando o chão de raiva, enquanto Ikki destruiu dois pilares em sequência. Shun era o único que chorava a morte de Saori olhando diretamente para o Pilar, tentando sentir uma parte da dor que feria sua amiga.
— Não, é preciso ter um jeito. — falou Seiya, incrédulo.
— Tentamos de tudo, Seiya. — falou Hyoga, talvez o único mais ou menos contido. — As Armas de Libra, a Flecha de Sagitário, a Tríade Dourada. Nada é capaz de sequer arranhar esse Pilar.
— Não, não é possível.
— Ela está morta! — protestou Ikki, de longe.
— Eu não aceito! Nós somos Cavaleiros de Atena, nós nunca desistimos quando…
— Encare a realidade, Seiya! — falou Ikki partindo para cima dele. — Ela se foi.
Seiya ficou olhando para o ódio nos olhos de Ikki, uma fúria contra ela mesma por ter falhado, contra o garoto que sempre negava a realidade e até mesmo com Saori, que havia tomado uma decisão estúpida. Seiya desvencilhou-se dela e queimou seu Cosmo diante daquele Pilar.
— Não. Não. Não vou aceitar. Eu fiquei esse tempo todo entre a vida e a morte enquanto vocês arriscavam tudo pela Saori. Não pode ser verdade isso.
— Seiya… — lamentou Shun, compreendendo a dor que pulsava no coração do amigo.
— Vamos, Shun! Precisa existir alguma coisa. Algum milagre!
— Não há milagres. — falou Ikki, novamente.
Ele olhou para ela, e então para seus amigos; para Shiryu, para Hyoga e para Alice. Todos eles vestiam as Sagradas Armaduras Dourada. Libra, Aquário e Sagitário. Lembrou-se do brilho de ouro que sua Armadura de Pégaso ganhou quando alcançou o Sétimo Sentido. Lembrou-se também do breve momento em que seu corpo era feito de estrelas. Poucos segundos antes de se materializar ali em um piscar de olhos. Não se perguntou que milagre havia sido aquele, mas sentiu-se capaz de romper qualquer coisa.
Seiya olhou para o Pilar Fundamental.
Então de volta para o chão, onde antes Alice chorava estavam ainda as duas partes da Flecha de Sagitário quebrada. Ele se agachou e pegou as duas partes para si, refletindo sobre elas, e então sorriu devolvendo-as para Alice. Ele sabia como salvar Atena. Como salvar Saori, a amiga de todos eles.
— Vamos tentar mais uma vez. Eu sei o que fazer. — anunciou Seiya para todos. — Preciso que tente novamente, Mii.
— A Flecha está… partida.
— Não. — sorriu Seiya para ela.
E então olhou para todos.
— Quando despertei nesse Reino, eu pude ver no horizonte o brilho do Cosmo de todos vocês. Juntos. — e fez tilintar o guizo de ouro que ainda tinha no pulso. — Vamos tentar de novo. Juntos por Atena. Juntos por Saori.
Alice olhava com surpresa para o garoto. Não sabia se era ele que estava louco ou se ela que havia sucumbido à tristeza.
— Não está entendendo, Seiya. Eles já tentaram!
— Ikki. — interrompeu Seiya segurando-a pelos ombros largos, ela era maior que ele, mas respeitou aquele olhar penetrante do garoto. — Por favor, nos ajude. Queime seu Cosmo ao meu lado, Ikki. Vamos Shun, nós vamos conseguir. Eu sei que é possível.
— O que está fazendo, Seiya? — perguntou Hyoga vendo o garoto soltar Ikki e começar a tirar a Armadura de Pégaso.
— Quero que usem aquele imenso poder que eu vi quando despertei. Que eu senti em meus sonhos. Quero que usem ele no meu corpo. Me atirem contra o Pilar Fundamental. Eu irei destruir ele e salvarei a Saori!
Por um segundo, ninguém falou, até que Shun protestou imediatamente contra aquela loucura.
— Vai se matar. — concluiu Ikki.
— Seiya, nem mesmo as Armas de Libra ou a Flecha de Sagitário puderam fazer alguma coisa. — alertou Shiryu vendo o garoto tirar as últimas partes de sua Armadura Sagrada.
— Será possível que você enlouqueceu, Seiya?
— Não, Hyoga. O Pilar Fundamental é feito da mesma força de tudo que existe no universo. Tudo que existe pode ser destruído. Essa é a fonte da nossa força. É o nosso Cosmo!
— Mas Seiya…
— Shun. — interrompeu ele. — Quando cheguei no Pilar em que você batalhava, você estava prestes a se jogar nele para realizar um milagre. E agora eu tenho certeza de que esse milagre é possível. — seu punho brilhava em ouro e galáxias, translúcido por um instante. — Eu vou salvá-la, Shun! Vamos, amigos. — pediu ele olhando para todos finalmente sem um pedaço de sua Armadura no corpo. — Eu posso ver a profundidade dos ferimentos que vocês carregam e não consigo imaginar as batalhas que tiveram enquanto eu estive entre a vida e a morte. Mas eu escutei a voz de cada um de vocês me chamando. E ouvi também a voz de Saori. Vamos tirá-la lá de dentro, Mii. Confiem em mim.
E então Seiya queimou seu Cosmo com tal magnitude, que mesmo sem sua Armadura de Pégaso, o brilho encantado da aura que o cobriu era intensamente dourada como o sol. Havia estrelas e galáxias cobrindo-o também, transformando seu Cosmo em algo que seus amigos nunca haviam visto. Sorrindo, ele anunciou para eles com um sorriso.
— Arme seu Arco, Mii. Eu serei a Flecha.
Hyoga e Shiryu entreolharam-se surpresos, Shun parecia incrédulo, mas Ikki o puxou para trás do grupo finalmente confiando naquele idiota, inspirando confiança em todos. Alice sentiu uma esperança renovada que parecia impossível e abraçou Seiya longamente, reconhecendo nele um garoto imenso, bem como os traços de sua antiga amiga Seika. Aquário e Libra colocaram-se lado-a-lado com seus Cosmos brilhantes, compreendendo que o brilho que Seiya havia visto era seus Cosmos de Cavaleiros de Ouro unidos. A Tríade Dourada, como Hyoga chamou. Sagitário logo se posicionou no meio deles e os três olharam com confiança para Seiya mais a frente.
— Queimem seus Cosmos ao máximo, meus amigos. Concentrem em um único ponto. Eu voarei para salvar Atena.
— A Flecha de Atena. — falou Alice e Seiya assentiu.
Ela havia compreendido.
Tétis observava o brilho quente daqueles Cosmos flamejantes unidos ao redor de um objetivo em comum. Seiya olhou adiante para o alvo, o Pilar Fundamental. Em seu coração lembrou-se das palavras de Marin há tantos anos e as falou como uma oração apenas para si.
— Eles abrem fendas na terra e esmagam as estrelas. Tente explodir o universo dentro de você. Transforme seu punho em uma estrela cadente.
Sorriu confiante e gritou para os amigos.
— Vamos!
Seiya correu na direção do Pilar Fundamental, os Cosmos dourados dos Cavaleiros de Atena concentraram-se na ponta do Arco de Sagitário de Alice que estava ajoelhada à frente de ambos; a Cólera do Dragão uniu-se à Execução Aurora e acumulou-se na ponta do Arco de Ouro de Sagitário que Alice queimou seu Sétimo Sentido para disparar um feixe de luz poderoso. Seiya saltou no ar e foi carregado pela luz conjurada pela união de todos na direção do Pilar Fundamental.
Poseidon parou de marchar de volta ao Trono e se virou para enxergar o céu-de-mar se apagar das luzes oceânicas e ser salpicado de estrelas em um instante que somente ele foi capaz de perceber. O corpo de Seiya foi envolvo por uma luz tênue naquela escuridão de estrelas-no-mar e deixou atrás de si um rastro de poeira cósmica, como se ele houvesse, de fato, se transformado em uma estrela cadente que desapareceu assim que tocou o pilar.
— O corpo de Pégaso transformou-se em uma flecha de luz capaz de atravessar o Pilar Fundamental.
As palavras de Poseidon soaram apenas para ele.
— É impossível que o Pilar Fundamental seja destruído por um reles mortal. Existe apenas uma coisa capaz de fazer isso. Algo que dá aos homens uma chance de fazer algo que somente os Deuses são capazes. Um milagre.
Os Cavaleiros de Ouro nada podiam ouvir, mas pelos olhos do misterioso observador, tiveram a nítida impressão de que o Deus dos Mares havia hesitado por um instante. E perto dele, Kanon escutou as palavras de Poseidon.
— Um mortal como Pégaso será capaz de produzir um milagre diante de um Deus?
Kanon não pôde deixar de resistir à um breve sorriso no rosto. Poseidon não conhecia aquele Pégaso.
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Diante do Pilar Fundamental, Alice levantou-se assim que o brilho se apagou, mas não enxergou qualquer sinal de Seiya ou de seu corpo. Os amigos todos juntaram-se procurando no horizonte o que havia se passado, mas era como se absolutamente nada houvesse acontecido. Tétis olhou por sobre os ombros e percebeu que Poseidon olhava para o Pilar, havia tensão em seus olhos. No momento seguinte sentiu se espalhar pelo Reino Submarino um tremor intenso.
Os Cavaleiros de Atena colocaram-se todos em guarda virando-se para o Deus dos Mares, mas surpreenderam-se ao vê-lo igualmente surpreso. Não era o treme-terras o causador daquele tremor.
Alice logo olhou para trás e seu coração quase parou, ela segurou a respiração chamando a atenção de seus amigos. O Pilar chacoalhou por vários instantes e então uma enorme rachadura serpenteou pela face do concreto claro partindo ele ao meio. O céu-de-mar, que agora estava muito mais próximo deles, iluminou-se colorido a partir do Pilar que rasgava o oceano no meio, um espetáculo como se o Pilar houvesse se transformado em uma enorme fonte jorrando água pelo oceano. Mas era uma água brilhante, dourada, que se espalhava feito uma aurora no céu-de-mar.
Os enormes blocos de concreto partiram-se de cima a baixo e choveram ao redor do Reino Submarino, de modo que os Cavaleiros de Atena precisaram retornar alguns passos para não serem atingidos por eles. O espetáculo todo durou muito pouco e logo havia sobrado diante deles apenas os destroços do que antes parecia absolutamente intocável. Quando tudo se acalmou, o céu-de-mar desceu ainda mais, ao ponto que se Shiryu estendesse o Tridente de Libra acima de sua cabeça, tocaria a água do oceano. A precipitação das gotas do mar que se quebravam acima deles, agora pareciam mesmo uma chuva intermitente e não mais uma garoa simples.
Entre os muitos pedaços rachados daquele pilar adiante, os Cavaleiros de Atena viram Seiya surgir carregando o corpo encharcado e desacordado de Saori nos braços. Alice correu até os dois. Todos foram juntos e logo viram, de perto, que o garoto chorava. Caiu de joelhos ainda com o corpo da amiga no colo.
— Ela não responde. — gaguejou ele.
Ikki olhou para Poseidon na outra ponta do Corredor dos Mares, imaginando que tipo de conexão divina poderia haver entre os Deuses para que eles fossem capazes de sentir a Morte um do outro. Pois aquilo que ele havia sentido, parecia realmente se confirmar.
Shun ajudou Seiya a colocar o corpo de Saori delicadamente no chão; ela ainda guardava uma expressão tranquila nos olhos, tinha o corpo demarcado pelo tecido molhado, os cabelos púrpuras e manchados espalhando-se pela pedra. Alice observou que ela ainda usava o mesmo vestido cerimonial de quando haviam partido da Grécia para o Cabo Súnion. Estava exatamente como da última vez que tinham se visto.
Os Cavaleiros de Bronze ajoelharam-se ao lado de Saori em profunda tristeza. Cada um revivendo sua própria história com ela. Shun estava inconsolável e Hyoga o abraçava também com lágrimas misturando-se à chuva oceânica que caía sobre eles; Seiya parecia não acreditar e Shiryu também não. Ikki quebrava tudo que havia restado do Corredor das Águas, na mais absoluta revolta. Alice tinha uma dor imensa no peito segurando a mão da amiga, que ainda estava morna, mesmo com toda aquela chuva caindo sobre ela.
Não acreditavam. Lutaram tanto.
— Eu preciso de um momento com ela.
— Mii.
— Por favor, Seiya. — suplicou Alice, olhando para o garoto.
Ele não concordava, mas sentiu que era certo. Levantou-se, Hyoga ajudou Shun a se afastar e todos ficaram à uma certa distância vendo a garota velar por sua amiga. Ela lentamente tirou cada parte da Armadura de Sagitário que cobria seu corpo, deixando-a no chão, revelando seu vestido roto e maltratado que trazia por baixo. Ela acariciou o rosto de Saori e, chorando, falava à ela tudo que estava em seu coração de maneira cadenciada e muito triste.
Seiya, Shun, Shiryu e Hyoga choraram juntos e se abraçaram ao ver a dor nas palavras de Alice. Nada podiam ouvir de onde estavam, graças ao barulho da chuva estampindo na pedra, mas sabiam que calava profundamente no coração de Alice. Ela encostou a fronte de seu rosto sobre o dela e deixou uma lágrima sua escorrer misturando-se ao mar que caía como chuva no rosto de Saori.
E então Alice respirou fundo e levantou o tronco para se endireitar; juntou as mãos em reza e seu Cosmo de Coruja de Atena levantou-se com bastante força. Seiya olhou para os amigos, igualmente confusos, e eles adiantaram-se até ela apenas para perceberem que o corpo de Saori, bem como o de Alice, pareciam protegidos por uma redoma de energia impenetrável.
— O que está fazendo, Mii? — perguntou Seiya sem compreender o que se passava.
Passaram todos a socar o invisível, chamando, perguntando, implorando, mas não conseguiam penetrar naquele lugar incompreensível; uma angústia começou a invadir todos eles e até mesmo Ikki finalmente pareceu deixar-se levar pelo desânimo e escorregou por um dos pilares até o chão, com lágrimas de ódio no rosto, adivinhando o que se passava coração de Alice.
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— Eu sei o que significa ser uma Saintia.
Alice não podia mais ouvir as vozes de seus amigos chamando por ela do lado de fora daquela redoma, embora soubesse que estivessem todos desesperados sem compreender o que acontecia. Seus cabelos revoavam com seu cosmo. Seu vestido respondia à sua aura divina e o próprio corpo de Saori foi envolvido por aquela quentura. Alice segurava a mão de sua amiga e assim começou uma prece especial.
— Grandes Deuses do Além-Céu…
Ela começou, mas parou. Chorava e pareceu não conseguir seguir adiante, pois algo muito dolorido ainda calava em seu peito e trancava sua garganta. Soluçou e deixou-se cair novamente para mais perto da amiga, incapaz de manter a postura que acreditava ter que ter sempre. Sua voz saiu embargada, quase inaudível.
— Eu queria tanto dizer que te amo.
Alice queria tanto que ela ouvisse. E aquilo doía tanto em seu peito; o quanto afastou aquele sentimento puro para longe por seu dever, por sua amizade, por seu medo. O quanto calculou a lógica absurda de amar uma Deusa Virgem, em que o mínimo desvio já fora punido na história com rigores divinos. Uma pessoa que talvez sequer pudesse ser amada ou amar. Ou que sequer quisesse. Quanta dor.
De olhos fechados, tentava reprimir tanto o amor que sentia e que não poderia nunca mais viver, como a tristeza que lhe rasgava a garganta. Era preciso recuperar-se o mais rápido para cumprir seu dever. Assim, de olhos fechados, Alice não viu quando sua mão molhada de lágrimas foi tocada por outra, muito quente. Ela despertou imediatamente sem fôlego olhando para Saori, na esperança de que ela pudesse ter ouvido tudo que ela escondia no peito. Mas a amiga continuava inerte no chão sem respirar. Uma sombra cobriu a luz do céu-de-mar e ela olhou para cima, percebendo a dona da mão que a acudia e que sentou-se ao seu lado.
— Diga isso à ela quando ela acordar, meu bem.
— Mestre… O dever de uma Saintia.
— É o de cuidar do Coração de Atena.
— Precisamos…
— Não. — interrompeu Mayura.
— Você não poderá fazer sozinha. — lamentou Alice.
— Mas eu não estou sozinha. — sorriu Mayura de volta.
E por trás da Mestre Mayura, trajando vestidos e faixas, Alice viu descer feito anjos quatro mulheres que ela imediatamente reconheceu com alegria e tristeza. Eram mulheres de história, de causos espalhados por Rodório, de registros delicados nos diários escritos por Nicol. Lembrava-se de seus rostos pela memória de Aioros que flagrou seus corpos espalhados pelo chão da Triste Noite. Cada uma delas, Alice quis conhecer e nunca pôde. Em um segundo, lembrou-se como sua primeira tarefa como Coruja de Atena, logo que Mayura subiu as Doze Casas, enquanto Saori velava o coma dos Cavaleiros de Atena, foi o de limpar as alcovas em que viviam, pois o local havia sido abandonado desde a fatídica noite.
As cortinas que fechavam os nichos em que dormiam sempre alertas aos miados e gemidos de um bebê sagrado, foram mantidas intactas desde então. Manchadas de sangue e reviradas de fúria. Tudo por um desejo de Saga que alegava ser importante para o Santuário jamais se esquecer do sacrifício heróico delas em prol de Atena. Durante muito tempo, Alice refletiu se era um capricho de um maníaco doentio ou se era a boa índole de Gêmeos que o forçava a olhar para sempre as cicatrizes de seus pecados.
Mas agora elas desciam feito anjos atrás de Mayura. Um espetáculo que todos os Cavaleiros de Atena viram, mesmo sem poder adentrar aquela redoma protegida onde somente as Corujas tinham acesso. Alice olhou para Saori e percebeu algo que não havia visto antes: quatro pingentes de prata no chão, ao lado do torso da menina, dois de cada lado. As quatro figuras angelicais se ajoelharam ao lado de Atena e sorriram para Alice.
Eram Sofia, Teresa, Lara e Anastácia, as antigas Corujas de Atena.
Mayura pediu com delicadeza para que ela se levantasse e as deixasse a sós; Alice olhou para Mayura uma última vez e recebeu dela um abraço longo e quente, com a mais absoluta certeza de que não se veriam nunca mais.
— Leve com você. — pediu Mayura entregando à ela um pingente de prata, que ela reconheceu como o amuleto das Corujas. Era tarefa dela levar adiante o legado das Saintias.
Alice deu alguns passos para trás, abandonando as Corujas ao redor de Atena e finalmente atravessou a redoma para estar ao lado de Seiya e os demais.
— O que está acontecendo? Alice! O que a Mestre Mayura faz aqui? E Saori? Ela está viva!?
Todos eles gritavam, mas ela não escutava nada com os olhos pregados no Cosmo daquelas Corujas que rezavam ao redor de Atena; as palavras que oravam, ninguém podia escutar ali de fora, mas ela sabia exatamente cada sílaba daquela prece.
— Grandes Deuses do Além-céu. — repetiu ela apenas para si segurando o pingente.
Os Cavaleiros de Atena finalmente perceberam que algo importante se passava e calaram-se olhando para o círculo ao redor de Atena; Shun, mais atento, reconheceu também aqueles espectros de luz da memória de Aioros e o mesmo foi se passando com cada um deles. Alice repetiu os versos junto de suas irmãs.
— Por favor, escutem essa prece. Em troca de nossas vidas. Por favor acendam novamente a tocha da vida de Atena uma vez mais.
As Corujas na redoma ergueram os braços em exclamação.
— Ressurreição de Atena. — balbuciou Alice sem ouvir nada, sabendo que elas jogavam ao céu-de-mar sua súplica.
Um mar de luz cegou a todos invadindo o Reino Submarino da mais pura paz.
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