Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
136 Um Sonho Azul
O Tempo pareceu parar no Mundo todo; as nuvens carregadas pararam de trovejar, embora ainda se acumulassem no horizonte. Onde chovia, a água parou. Os rios que invadiam, recuaram. As ondas violentas, voltaram para o alto-mar. Havia um impasse espalhado por todo canto. Um respiro que trazia medo para muitos, mas esperança para outros.
Para todos aqueles que viveram um milagre na sua vida, aquele foi um momento de esperança, mas para todos aqueles que só conheciam a derrota e a tristeza, aquele foi um momento de confusão. E aqueles cujas esperanças já haviam sido machucadas, choraram com a certeza da destruição.
Em Rozan, o Mestre Ancião olhou para as nuvens carregadas que se acumulavam acima do rio que caía e efetivamente pediu por um milagre ao Deus Dragão, sem compreender o que poderia acontecer para evitar o pior. O litoral de Rodório estava revoltoso enquanto Ichi e Jabu caminhavam na areia de um lado ao outro com os piores pressentimentos de que a Terra seria atacada pelo Oceano; estavam preocupados com Seiya e os outros, mas muito mais com Nachi e Ban, bem como Geki que haviam deixado o Santuário para o exterior em busca de Armaduras perdidas.
— Eu não acredito que vamos morrer. Eu nem sequer venci um Cavaleiro de Prata!
— Fique quieto, Ichi. — pediu Jabu entrando na água de Armadura de Bronze e tudo.
Olhou para o horizonte e viu as nuvens que avançavam com fúria, de repente interromper sua marcha como se aguardassem por algo a acontecer. O Oceano tornou-se mais calmo e as ondas que quebravam-se nos paredões de rocha também se aquietaram. Uma brisa curiosa soprou do alto-mar varrendo o rosto de Jabu e ele fechou os olhos instintivamente. No momento seguinte, abriu um sorriso.
No Templo de Atena, Aioria, Miro e Aldebarã vibraram como festa a queda do Pilar Fundamental adivinhando que os garotos haviam produzido outro milagre por sua Deusa; mas de longe como estavam, pois dependiam dos olhos do observador distante, não podiam ver a comoção ao redor do corpo de Atena. Antes que pudessem adivinhar, no entanto, toda a projeção que viam iluminou-se de uma luz profunda e, entre eles, materializou-se feito mágica o lindo Báculo de Atena. A Deusa da Vitória pulsava sua luz iluminando totalmente o Templo em que estavam. Misturava a visão do Reino Submarino que era projetada em seus Cosmos com a visão do Templo que nunca haviam abandonado. Era como se o Báculo unisse os dois momentos.
Algo que o General Dragão-do-Mar sentiu dentro de seu peito.
Quando a mesma luz daquele milagre se apagou no Reino Submarino, Alice percebeu que a redoma de luz havia desaparecido. Ao redor do corpo ainda desacordado de Saori haviam cinco estátuas com os braços erguidos para o céu; as Corujas haviam usado o legado das Saintias para trazer novamente de volta à chama da luz a vida de Atena. Saori reagiu, primeiro seus dedos, seu peito respirou e seus olhos abriram-se lentamente.
Alice imediatamente adiantou-se e se ajoelhou ao seu lado. O rosto de Alice foi a primeira coisa que Saori notou.
— Mii. — balbuciou ela.
Ouvir seu nome naquela voz outra vez depois de todo aquele tempo foi como um raio de sol no fundo-do-mar. Os Cavaleiros de Bronze vieram após e também se ajoelharam ao seu lado com lágrimas de alegria no rosto, Shun não podia acreditar. A Coruja mostrou o guizo de ouro no punho, que tilintou trazendo um breve sorriso no rosto de Saori e dos demais. Alice a abraçou, Seiya segurou seu braço, Shiryu sua mão e todos a ajudaram a se colocar de pé novamente.
Saori olhou para suas costas e percebeu as cinco estátuas femininas, reconhecendo o rosto de Mayura em uma delas; olhou para Alice, cuja tristeza no rosto lhe confirmou o que aquilo significava. Voltou então a olhar para o rosto de Mayura petrificado em sua última súplica; o rosto em profunda alegria. E então reconheceu também os outros rostos ao redor daquela clareira entre os escombros. Eram suas mães. Reconheceu não somente por conta da Triste Noite que pôde reviver em suas Doze Horas de Penitência, mas quase como uma lembrança cósmica de ter sido cuidada por elas por tantos anos.
— Elas fizeram isso por mim.
Alice reconheceu tristeza na amiga e deixou escapar lágrimas novamente.
— Desculpe-me, Saori. — começou ela. — Não fui capaz…
— Nenhum de nós foi. — falou Shiryu com sabedoria, para evitar que Alice carregasse para si toda a responsabilidade.
— Se Seiya… — começou Alice a falar olhando para o garoto. — A Armadura de Sagitário deveria ser sua, Seiya. Eu não sou capaz, não sou digna de…
— Não fale isso, Mii. — corrigiu ele.
Saori fechou a mão de Alice ao redor do pingente de prata da Coruja. Saori tinha lágrimas que se confundiam com a chuva; seu Cosmo espalhou-se quente para ela e para todos os Cavaleiros ao seu redor. Por um instante, todos puderam sentir o inconfundível Cosmo de Mayura, como se os resquícios de seu universo particular se espalhasse e juntasse ao todo finalmente.
— Posso sentí-las na chuva. Vou sentí-las no mar. E também nas estrelas.
Despediram-se das Corujas daquela Era.
-/-
O minuto de silêncio foi interrompido pelo estampido do oceano no céu-de-mar que tornou-se revoltoso outra vez, quebrando-se às costas de Poseidon como uma hoste de batalha pronta para atacar ao seu comando. Ele que havia desistido da batalha, parecia refeito ao combate.
— Como conseguem ser tão desprezíveis? — começou ele a falar ecoando por todos os cantos. — Vocês interferiram nos planos de um Deus.
— Muita gente inocente está morrendo por causa dos seus planos! — discutiu Seiya colocando-se adiante de todos.
— E quem você pensa que é para nos desafiar? É graças aos Deuses que os humanos podem falar, enxergar, é graças à nós que vocês tem um coração para amar. Impediram a Vontade de Atena. Quebraram a dádiva de Hades. Destruiram o Pilar Fundamental dos Mares. O que fizeram é uma heresia. É imperdoável. Eu irei espalhar o corpo de todos vocês pelo universo.
Poseidon ergueu o Tridente para dar cabo dos Cavaleiros de Atena, mas Saori bradou feito uma Deusa.
— Não vai!
Poseidon viu-se paralizado por um momento, surpreso de que sua força divina havia sido apartada por uma garota. Uma garota não, pensou Seiya olhando para trás. Havia sido Atena e não Saori que havia falado com aquela força. Eles nunca havia sentido tanta força em Saori e, sem que ela ordenasse qualquer coisa, os Cavaleiros afastaram-se deixando-a caminhar entre eles.
— Vocês me salvaram. — falou ela olhando para cada um deles e também para as estátuas. — Não somente agora, mas foi o Cosmo de cada um de vocês que permitiu que eu resistisse até o último segundo trancada naquele Pilar. E agora é a minha vez de lutar.
— Está errada, Saori. — arriscou Seiya por todos. — Você nunca deixou de lutar.
Saori sentiu as palavras de Seiya.
— Nós também sentimos seu Cosmo nos salvar incontáveis vezes. — adicionou Shun por todos.
— Foi graças à você que conseguimos forças e coragem para seguir em frente. — falou Hyoga e Shiryu sorriu para Saori partilhando do mesmo sentimento.
— Você não é tão fraca assim. — limitou-se Ikki a dizer e Saori buscou o sorriso de Alice no fundo.
— Você não precisa lutar sozinha. — falou ela finalmente adiantando-se com o grupo e se colocando ao lado de Seiya.
Atena sorriu para eles e virou-se para Poseidon com seus Cavaleiros ao seu lado. O Deus dos Mares aprofundou ainda mais sua força cobrindo o Reino Submarino com seu Cosmo magnânimo, provocando as ondas que quebravam às suas costas para também invadir o lado dos Cavaleiros de Atena, cobrindo até os pés todos eles. Causava uma impressão terrível que lutariam rodeados pelo mar. Debaixo e acima deles, as ondas quebravam com força hipnótica.
— Veja Atena. O fim.
Com a força dos Sete Mares, Poseidon finalmente foi capaz de se desvencilhar daquele breve lampejo de força de Atena e então arremessou seu Tridente na direção do grupo. O Tridente rasgou a distância repartindo a água ao meio.
No Santuário, os Cavaleiros de Ouro viram a projeção se adiantar em uma corrida desesperada e então jogar-se na frente daquele ataque fulminante antes que ele acontecesse, como se adivinhasse os pensamentos de Poseidon. O Tridente parecia voar em lentidão na direção do Templo de Atena onde estavam; a sensação de Mu e os demais era que aquele ataque não somente varreria os Cavaleiros no Reino Submarino, bem como seria capaz de cortar ao meio a montanha do Santuário.
Um Triângulo Negro e Dourado desenhou-se no meio do caminho e engoliu metade do Tridente de Poseidon fazendo-o desaparecer em outras dimensões; Saori viu surgir à sua frente a enorme figura do General Dragão-do-Mar ainda trajando sua Escama Marinha emoldurado pelo fogo de ouro do Cosmo dos Cavaleiros de Atena.
— Triângulo de Ouro! — bradou ele contra o ronco da tempestade atrás de Poseidon.
Os Cavaleiros de Atena todos viram com assombro o esforço que Kanon fazia, pois o triângulo desenhado no ar tremia com violência enquanto a segunda metade do Tridente de Poseidon parecia fazer força para romper aquela magia antiga.
— Não é possível, isso não pode ser verdade. O Tridente de Poseidon está rasgando as Dimensões e o Tempo, negando-se a se deixar engolir por minha técnica. Eu nunca vi isso acontecer.
No Santuário, Shaka teve calafrios com o tecido cósmico daquela técnica, enquanto no Reino Submarino, os Cavaleiros de Atena viram fendas pelo céu revelando tecidos cósmicos por todo o lado.
— Tétis! Me escute, Sereia Tétis! — começou Kanon com sua voz forte olhando para ela que estava encolhida contra um dos pilares da lateral. — A Ânfora… O Pilar… Atena, me perd…
Não conseguiu terminar, pois à sua frente, com assombro, Kanon viu surgir os três dentes daquela arma divina finalmente atravessando todo o espaço e tempo para retornar até ele. O esforço cósmico que Kanon fazia parecia apenas ser capaz de limitar os movimentos daquela arma sem que ela parasse nem por um segundo. Ele não podia sair da frente, ou toda a Força Divina contida mataria todos; viu com terror como centímetro à centímetro, o Tridente chegava perto de seu peito, enquanto seu Cosmo ardia para diminuir o inevitável. A própria realidade em que estavam parecia tremer enquanto o Tridente obliterava estrelas e dimensões para chegar daquele outro lado.
E quando o Tridente de Poseidon apenas tocou a Escama de Dragão-do-Mar, ele finalmente parou, o Triângulo de Ouro dissolveu-se no ar revelando o Tridente completo cravado na proteção peitoral de Kanon; ela inteira se pulverizou e o General Marina, ou Cavaleiro de Ouro de Gêmeos, foi coberto por uma luz intensa sendo arremessado para o céu sendo engolido pelo maesltrom colorido que revolucionava o oceano. No seu lugar ficou o Tridente parado no ar, que retornou para a mão de seu Dono em um passe de mágica.
— Atena!
O grupo olhou para trás e viu Tétis com sua Escama carmesim toda destruída, esbaforida e cansada, com uma lindíssima Ânfora antiga nas mãos.
— Sele Poseidon nesta Ânfora. Sem seus Pilares, ele está indefeso…
Alice aproximou-se da garota e tomou a Ânfora com delicadeza, antes dela mesmo cair sem forças no chão.
— Por favor, Alice. Salve Julian. — pediu ela em segredo.
A Coruja de Atena deu a Ânfora Sagrada para Saori e ela pediu que os Cavaleiros se afastassem. Agora era entre ela e o Deus dos Mares.
— Acabou, Poseidon. — ameaçou ela com a mão sobre a tampa. — É momento de admitir a sua derrota.
— Não sabe o que está fazendo Atena. Sua humanidade está espalhando a morte pela Terrra.
— Você despertou nesta época fora de seu Tempo, Poseidon. Volte ao seu Sono em paz, Deus dos Mares.
— Pare, Atena! — pediu Poseidon já sentindo os efeitos daquela magia divina, que o distorcia feito uma onda no mar; sem a proteção de seu Reino Submarino, seu imenso poder era usado contra ele próprio por aquele Artefato Antigo. Uma Armadilha da qual odiava.
Saori queimou seu Cosmo divino e finalmente abriu a Ânfora Sagrada. Espalhou-se um redemoinho que parecia engolir tudo que existia ao redor.
— Pare, Atena! Como se atreve! Você ainda vai se arrepender por ficar ao lado dos humanos! — praguejou Poseidon como se fosse aos poucos exorcizado daquele corpo, tentando brandir seu poderoso Tridente, mas ao fazê-lo tornava ainda mais forte o Cosmo que o envolvia e o parava. — Até mesmo você pode ser castigada pelo Olimpo. Lembre-se disso. Lembre-se de minhas palavras, Atena!
Do corpo de Julian, os Cavaleiros de Bronze viram como uma aura translúcida foi expulsa pela força de Atena e finalmente puxada como um redemoinho para dentro da Ânfora aberta por Saori. Ela fechou a tampa e se ajoelhou jurando ao mar.
— Poseidon, se proteger os humanos causará a fúria dos Deuses. Eu lutarei. Mesmo que isso me faça uma inimiga de todo o Olimpo. Pois essa é a missão de Atena renascida na Terra.
O Reino Submarino todo colapsava agora. Se antes ele era mantido pelos Sete Pilares e o Pilar Fundamental, com a queda de todos eles, restava apenas o Cosmo de Poseidon para mantê-lo inteiro. E com o desaparecimento da presença divina do Deus dos Mares, o oceano que se mantinha no céu e aquele que invadia pelas ruas se encontraram, derrubando pilastras, rompendo os pátios, soterrando construções e engolindo todos eles em um profundo desespero final.
— A Ponte Bifrost! — gritou Hyoga para todos e, olhando para Ikki mais distante, acenou para que ela liderasse o caminho.
Shun acompanhou sua irmã, enquanto Hyoga pedia que Alice e Seiya ajudassem Saori a correr dali o mais rápido possível, antes que o oceano finalmente tomasse aquela redoma mágica de ar que ainda resistia no Reino Submarino. Saori hesitou por um instante olhando por sobre os ombros, na direção da Câmara do Trono, onde o corpo de Julian estava estendido no começo do Corredor dos Mares.
— Não podemos deixá-lo aqui, Mii. — falou ela, preocupada.
Alice olhou para ele, enquanto ajudava Saori a caminhar, e viu Tétis cambalear até ele.
— Vão! — ordenou ela, de longe. — Eu cuido dele.
Ela confiou naquelas palavras, reconhecendo que Tétis faria tudo por aquele homem, como ela fez tudo por Saori. Assentiu e virou-se para seguir junto de Saori a trilha dos Cavaleiros que abriam os destroços à frente deles na direção do Pilar Ártico. E assim os Cavaleiros de Atena escoltaram sua amiga para longe dali, atravessando as vielas acidentadas e cada vez mais colapsadas do Reino que se desfazia minuto a minuto.
-/-
Tétis aproximou-se do corpo de Julian, ele já não usava aquela misteriosa Escama acobreada e tinha a enorme capa cobrindo-lhe o corpo todo, feito um manto fúnebre. Olhou por sobre os ombros e viu os Cavaleiros de Atena desaparecerem por detrás dos destroços do Pilar Fundamental. Ela ajoelhou-se e usou toda sua força para levantar o corpo de Julian passando um de seus braços ao redor de seu pescoço; ele era maior e muito mais pesado do que ela. Conseguiu dar dois passos, mas então caiu no chão sem forças. Ali ficou vendo o céu-de-mar finalmente descer de uma vez para afogá-los ali.
Ela abandonou sua Escama Carmesim e deixou que o toque do mar transformasse seus pés abençoados pela linda cauda vermelha que tinha como sereia. O corpo de Julian flutuava no fundo do oceano; ela o tomou pelos braços e finalmente nadou com destreza desviando dos escombros que ainda caíam de todos os lados naquele maremoto.
Tétis usou toda sua última força para levar o amigo para a superfície. Deixando para trás seus sonhos, suas paixões, as histórias de um povo registradas em um reino abandonado no fundo-do-mar. E agora tudo estava perdido, mas o futuro e passado daquela história, Tétis pouco se importava naquele momento, pois a vida de Julian era muito mais importante para ela. E em desespero foi que ela nadou com tudo que tinha, ardendo até mesmo um Cosmo que até então parecia não ter despertado, que a fez chegar enfim em um lugar familiar.
A mesma praia em que viram-se pela primeira vez.
O sol se punha no horizonte de um céu que havia recentemente sido limpo de todas suas nuvens. O Cabo Súnion com o Templo de Poseidon assomava à sua direita no alto de um rochedo, enquanto o casarão da família Solo estava abandonado mais adiante. Ela puxou o corpo desacordado de Julian para a areia e então deixou-se colapsar ao seu lado.
Olhou uma última vez para o rosto do amigo. E disse suas últimas palavras.
— Eu te amo, Julian.
O oceano estava calmo. Suas poucas ondas batiam contra alguns rochedos e levavam uma vaga leve e espumante que invadia a areia da praia onde estavam e então retrocedia deixando que o fim de tarde secasse aquele beijo entre o mar e a terra. E assim ficaram eles o fim de tarde inteiro.
A noite chegou pouco tempo depois e Julian acordou de um sonho terrível, cuspindo água e finalmente dando por si. Ao seu lado viu o corpo estendido de Tétis, sem saber exatamente o que havia acontecido. Ele não se lembrava de absolutamente nada. Calculou rapidamente que Tétis deveria tê-lo salvo de alguma aventura desastrada em alto-mar.
— Tétis, Tétis. Acorde! — tentou ele chacoalhando a amiga.
Massageou seu peito tentando trazê-la de volta, soprou seus pulmões em desespero, mas, chorando muito, percebeu depois de certo tempo que parecia ter acordado tarde demais. Não compreendia como ele havia sobrevivido e ela se afogado. Olhava para todos os lados buscando alguma ajuda. Uma ajuda do mar. Chorou sem entender e a abraçou. E naquele abraço, ele percebeu a quantidade de ferimentos que ela tinha pelo corpo. Não sabia o que havia acontecido, mas certamente não havia sido um afogamento. Nunca poderia ser. Algo aconteceu que ele não sabia.
Chorou abraçado com ela, concentrando-se em milagres que pudesssem fazê-la despertar. Pedindo à lua que iluminava o mar para que alguma coisa fosse feita. Mas o que viu iluminados pela lua e as estrelas do Mar Mediterrâneo, foram as pérolas dos olhos de faces tristes que surgiram na superfície da água.
Julian olhou para o rosto de Tétis uma última vez e deu-lhe um beijo na testa de despedida.
— Me perdoe. — desculpou-se ele sem saber exatamente à que se destinava aquele imenso sentimento de culpa que tinha no peito.
Abraçou-a de novo.
Levantou-se e a tomou nos braços. Caminhou para dentro da água onde os demais romanis-dos-mares esperavam por sua filha em um tristonho funeral. Nenhum deles se adiantou e Julian compreendeu que deveria deixar que o corpo de Tétis fosse levado pelo mar que ela tanto amava. Ele abaixou o corpo da amiga para dentro da água e deixou que ele flutuasse, como se fosse leve. O toque do oceano transformou as pernas de Tétis em uma linda cauda vermelha, que encantou Julian naquela noite. E lentamente a maré levou aquele corpo para o alto-mar.
Um a um, as sereias e tritões que vieram cortejar aquele corpo afundaram revelando suas caudas na superfície. E Julian ficou ali olhando até o momento que o corpo de Tétis simplesmente começou a afundar para o fim do oceano em um terrível final de história para os dois.
A Terra estava salva de Poseidon.
Vencido em batalha e no coração.
Fale com o autor