Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
119 Viagem Ao Fundo Do Mar
Outra tarde ensolarada no Cabo Súnion iluminava as ruínas do Templo de Poseidon, jogando sombras no chão de pedras antigas totalmente destruído pelo tempo. Julian notou os detalhes das pilastras com os dedos, passando-os por cada reentrância deixada nas pedras, como se buscasse compreender as forças antigas que haviam talhado seus defeitos.

— Eu ainda não consigo acreditar que tudo isso seja verdade. — falou ele olhando para trás, onde estava sua amiga Tétis. — Como isso é possível?
— Desde quando você precisa saber como tudo funciona? — perguntou ela de maneira graciosa. — Onde está o menino que achou que podia voar se jogando do monte de areia?
— Mas isso é diferente. — respondeu Julian balançando a cabeça, mas sem conseguir evitar deixar escapar um sorriso. — Não sou mais um garoto cheio de história na cabeça.
— Agora você é a própria história. — falou Tétis, séria, aproximando-se dele. — Desculpe, Julian, eu não posso imaginar o quanto deve estar confuso com tudo que está acontecendo.
— Deuses? Poseidon? Eu achei que tudo isso fossem lendas antigas.
— E são. O tempo passa para todas as lendas e as pessoas acabam se esquecendo de todas elas. Outras figuras surgem e a humanidade passa a contar outras lendas. — Tétis tinha certa comiseração na voz jovem. — O povo-do-mar sempre manteve suas histórias vivas e firmes na memória de todos os filhos. E sempre soubemos da missão do Deus dos Mares, Poseidon. Desde criança eu fui ensinada que um dia ajudaria no Reino Profundo quando fosse chegada a hora. Para nós, aquilo que você chama de mágica e fantasia é na verdade nossa própria vida. As histórias que sempre lhe contei sobre o mar não eram lendas, mas nosso dia-a-dia. Mistérios para vocês, que vivem na terra, mas para nós tudo é tão comum quanto os dias de trabalho de seus pais e seus amigos.
Julian deixou-se desanimar um pouco, mas Tétis levantou seu rosto com delicadeza.
— E mesmo assim, para mim também foi uma grande surpresa descobrir que você seria a pessoa destinada a ser a Mão do Tridente.
O rapaz a olhava como quem descobre cores novas e impossíveis, afinal de contas, ela também era fruto de uma fantasia que aos poucos ele precisava se acostumar se tratar da mais pura realidade.
— Quando ficou sabendo, Tétis? Por que não me contou antes?
— Eu não sabia. Descobri no mesmo dia que você. — falou ela, muito doce, tocando o pingente bonito que carregava no colo. — Um de nossos mentores me deu esse pingente de coral. E me disse que quando chegasse a hora eu o levaria ao encontro do seu destino. Eu achei que se tratasse de outra coisa. — disse ela, escondendo um pouco os olhos, com vergonha do que sentia. — E naquela noite de seu aniversário, quando vimos juntos o brilho do Tridente nesse templo, foi quando eu percebi do que se tratava.
— Seu povo já devia saber. Antes mesmo de você aparecer, eles já cuidavam de mim.
— Agora que tudo se revelou, o Velho Kostas me contou que havia mesmo uma grande suspeita sobre sua família entre os mais velhos. Mas que nem mesmo eles tinham certeza. E por isso mesmo nunca me contaram, ou a qualquer um que trabalhasse na mansão. Para o resto de todos nós, parecia apenas uma maneira conveniente e fácil de manter a comunidade em pé nesse mundo moderno; uma maneira de ocupar os mais jovens, bem como ter acesso às coisas de hoje em dia. Enquanto esperávamos nossa verdadeira missão. — Tétis também olhou distante para o horizonte. — Tudo que eu mais queria era servir ao Deus dos Mares em seu Reino Profundo, jamais poderia imaginar que eu iria passar toda minha infância ao lado dele.
— Deve ter sido uma grande honra. — brincou o jovem.
— Não abusa, Julian. — reagiu Tétis, de forma carinhosa.
— O Velho Kostas e os demais acreditavam que minha mãe seria o Corpo de Poseidon nesta Era.
— Ele lhe disse isso? — perguntou Tétis, muito curiosa.
— Sim. Parece que a última vez que Poseidon surgiu, seu corpo era de uma mulher.
— Uma mulher?
— Pois é.
Tétis estava surpresa e contente; Julian olhava para o mar, ainda com o semblante confuso por ter de viver sua própria fantasia, onde ele não era apenas um protagonista jovem e aventuroso, mas o próprio Deus do Mar. Respirou fundo com tanta informação confusa.
— Por que eu, Tétis?
Ela deu de ombros.
— Eu não sei. E também não importa. Os romanis-dos-mares estarão ao seu lado para te proteger e guiar, Julian.
— Já se passaram três meses desde aquele dia. Eu não consigo me acostumar com essa ideia. O que significa ser um Deus? Eu não sinto nada de diferente em mim.
— Este ainda não é o Tempo de Poseidon. Quando for o momento de proteger os Mares, você sentirá o chamado e compreenderá tudo.
— O Tempo de Poseidon?
— Sim. A época em que o Deus dos Mares ressurgirá.
— E quando será isso?
— Somente Poseidon sabe.
— Pois eu não faço ideia.
Ela experimentou sorrir ao ver o amigo tão perdido caminhando na direção do precipício e sentando-se para encarar o horizonte. Ela caminhou para ficar ao seu lado. Os dois sentaram-se na ponta do pontilhão esperando o sol se pôr.
— Agora que sei de toda verdade, eu sinto que devo recompensar todo o cuidado e atenção que seu povo me deu, Tétis.
— Ora, Julian. Nós não esperamos nada em troca. Nossa vida é cuidar dos Mares. E isso significa cuidar de Poseidon.
— E os Mares estão cada vez mais abandonados. Poluídos e envenenados. Os peixes cada vez mais raros e as águas cada vez menos frias. E agora eu entendo o quanto o seu povo depende dessas águas. Ora, como todos nós dependemos, na verdade. Tudo que me contaram por todos esses dias na comunidade, eu pude comprovar também pelos relatórios da empresa de meu pai. — falou ele de maneira apaixonada antes de olhar com certa tristeza para a amiga. — Eu sinto muito, Tétis.
— Como assim, Julian?
— O Velho Kostas me contou. — começou ele, com a voz séria. — Me contou sobre como seus pais vieram a falecer por conta de um vazamento de óleo não muito longe daqui. Eu sinto muito, muito mesmo, Tétis.
A sereia emudeceu por um instante, escondendo os olhos.
— Isso foi muito antes da gente se conhecer. Você era só um bebê. Eu também. Não há nada pelo que se perdoar.
— Mas meu pai poderia ter feito mais. Minha família podia ter feito mais. E eu me sinto péssimo por isso. — falou ele, com certa culpa nos olhos. — E agora que estou à frente do Conglomerado, eu gostaria de fazer algo diferente. E… mais do que isso. Se eu sou mesmo o Deus dos Mares, então… deve ter algo a mais que eu possa fazer por todos vocês.
Ela o olhava com um imenso orgulho nos olhos, mas então seus olhos foram atraídos pela linha do horizonte, onde o sol aos poucos ia sendo engolido pelo imenso Mar Mediterrâneo. Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo, apenas olhando a forma como o sol lentamente desaparecia no horizonte trazendo atrás de si a pintura da noite junto da brisa fria que descia dos montes distantes e das ondas lá de baixo.
Tétis olhou para Julian ao seu lado, e seus olhos correram do rosto moreno do amigo para a bonita construção que ficava na distância, perto da faixa de areia.
— É tão estranho a mansão toda vazia. — disse ela, e Julian também olhou de longe para a casa de sua infância.
— É o tempo deles. Agora que eu vou cuidar de tudo, eles podem se dedicar exclusivamente às recepções que eles tanto gostam. E a gastar todo o dinheiro que acumularam.
— Seus pais fizeram tudo por você, Julian.
— Não fizeram. — retrucou ele, com certa amargura. — Eles nunca estiveram realmente por perto.
Ela se calou ao escutar aquilo com tanta força, pois sabia a dor que fazia ao garoto a distância que havia se criado entre ele e seus pais. De quem recebia apenas presentes caros e raramente algum abraço.
— Vai visitá-los?
— Sim. — disse ele, com calma. — Quero levá-los até o Norte, de onde eles vieram quando eram novos. Eu gostaria de conhecer. E você vai comigo.
— Não acredito que vai me levar pra um lugar congelado. Me chama quando for pra ir nas praias paradisíacas que eles compraram pra morar.
Julian deu risada.
— Aquelas ilhas são lindas. — completou a menina, com o olhar distante, pois conhecia algumas das ilhas do Índico para onde a família Solo havia escolhido ir ao se aposentar.
— Aqui também é. — tornou ele, olhando para a mansão ao longe. — Mas agora que meus pais e o resto da família se foram, eu já não vejo sentido em mantê-la com todos os funcionários. Na verdade, eu até estava pensando em perguntar ao Velho Kostas se não há um lugarzinho para uma recém divindade em seus barcos.
— Julian! — ralhou Tétis, enquanto ele abria o seu lindo sorriso.
— Ora, Tétis, eu não sei o que significa ser um Deus. — começou ele, ganhando um contorno de tristeza no rosto e na voz. — Mas também já estou cansado de viver nessa casa enorme. Sozinho. Meus pais foram amáveis ao seu modo, mas assim como parece se dar entre pais e filhos, somos tão distantes quanto de outro mundo. Eu nada tenho que reclamar, mas… bom, eu acho que você me entende, não é? E vocês, por outro lado, parecem tão… unidos.
— Ai, Julian.
— Estou cansado de ser tão sozinho, Tétis.
— Não seja. — respondeu ela, algo que parecia óbvio. — Você nunca esteve sozinho.
— Você sabe o que eu estou falando. — tornou ele, muito sério.
— Você nunca esteve sozinho. — repetiu ela com a voz dura.
Julian olhava para o horizonte onde a luz do sol ainda se apagava quando, talvez pela primeira vez, olhou de volta para Tétis e seus olhos pareciam tão brilhantes quanto a lua que aos poucos iria iluminar aquele lugar.
Ali, naquele instante, Tétis sentiu-se enxergada pela primeira vez por Julian. Da maneira que ela sempre quis, feito mulher e não a tão boa amiga que ela era e não queria ser. Os olhos de Julian, à princípio, eram confusos quando, feito uma brincadeira, um sorriso muito sutil se desenhou no canto de sua boca e ele desviou o olhar, envergonhado. Ela tomou sua mão direita e o que parecia absurdo na mente de Julian revelou-se realidade.
— Julian, eu… eu sinto algo enorme por você.
Tétis confessou em poucas palavras o que podia daquilo que sentia e, pela primeira vez, sentiu que alcançou o coração de Julian, pois seu rosto desanuviou-se por completo, como se o sol o banhasse e aliviasse toda sua feição tensa e confusa. Como se o mundo clareasse à sua frente. Tétis então olhou para os olhos de Julian e o viu se aproximar lentamente ao seu rosto; ela fechou os olhos para realizar um sonho. Mas o sonho não se realizou.
Ela ficou um segundo parada e, quando abriu os olhos, percebeu que Julian já não mais se movia; às costas dos dois uma lufada de vento mexeu seus cabelos e a fez olhar rápido para onde não havia nada. Mas quando voltou a procurar os olhos de Julian, já não mais o encontrou lá dentro.
Pois Poseidon havia sido despertado assim que a Espada Balmung desceu sobre o Anel dos Nibelungos há muitos quilômetros dali.
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Afundando eternamente nas águas do mar, os Cavaleiros de Atena ainda podiam ver o brilho do céu do Norte que iluminava Asgard ficando cada vez mais distante; as geleiras e montanhas de onde haviam partido se perdiam cada vez mais nas profundezas. Aquele pequeno barco era lentamente tragado para o fundo do mar, esticado e puxado até um ponto em que não parecia não haver mais volta.
Os jovens estavam na proa do navio, onde o Cristal de Oricalco iluminava o oceano com seu brilho esmeralda e também desenhava uma redoma de ar para que eles estivessem em segurança enquanto afundavam para o abismo de Poseidon. Seiya fixou o leme e juntou-se aos seus amigos ao lado de Alice, respirando fundo, pois depois de toda aquela correria bastaria a eles aguardar e torcer.
— Tem certeza de que isso vai dar certo, Seiya? — perguntou Alice aquilo que lhe comia a mente desde que saíram do casebre da Princesa Freia, mas quem lhe respondeu foi Shiryu.
— Se os Marinas puderam chegar até Asgard por uma Ponte no coração da montanha, então talvez isso signifique que a cidadela do Reino de Poseidon realmente fique por perto.
— Se bem me lembro, Nicol comentou que a cidadela era um lugar mágico e enorme no Fundo do Mar.
— Exatamente. — concordou Alice com Shun, pesada por lembrar-se da morte do amigo da Mestre Mayura.
— Nesse caso, devemos enxergá-la aqui de cima. — falou Seiya, procurando na escuridão.
Cada qual olhou um palmo do oceano, mas naquela profundidade podiam ver apenas os cardumes que fugiam deles, bem como criaturas ao longe. Tudo que percebiam era o profundo azul cada vez mais escuro do oceano, engolindo aquela pequena embarcação e jogando-os todos em uma certa melancolia desanimadora.
— O que foi que aconteceu aqui em Asgard, afinal de contas? — perguntou Alice, quebrando o momento distante de todos.
Assim, os quatro amigos se sentaram na amurada da proa e Seiya contou como havia se dado tudo que havia se passado em Asgard; Shun e Shiryu detalharam as partes que eles melhor conheciam e juntos descreveram toda a tragédia de Hyoga, que o levou àquele desespero assim que soube sobre as destruições e a partida de Atena.
— Ele já estava se sentindo muito culpado por ter destruído a Relíquia. — falou Seiya, triste.
— Agora ele deve estar se sentindo culpado pela morte de milhões de pessoas.
— E pela Saori. — complementou Shun a fala de Shiryu, triste.
— A Saori ainda está viva. — corrigiu Alice.
— E nós vamos buscá-la. — retornou Seiya.
— Ainda assim. Eu não acho que posso compreender os sentimentos de Hyoga.
Os amigos olharam para Shiryu que, cega como era, olhava fixamente para o chão. E assim ficaram um tempo em silêncio pensando no amigo que ficou para trás, na esperança de que Ikki não lhe desse tanto trabalho. Seiya levantou-se para alinhar o leme. Alice tomou a mão de Shiryu ao seu lado.
— E como estava Saori, Mii? — perguntou Shun, preocupado com ela.
— Arrasada. — disse a garota. — Ela já andava muito preocupada com todos vocês longe. Nessas missões do Santuário. O Seiya no oceano e vocês em Asgard. A falta de notícias nos deixava muito nervosas. Mas, por incrível que pareça, alguns dias antes de tudo acontecer, tivemos uma noite como há muito tempo não tínhamos. Ela estava feliz. Nicol havia deixado um presente para ela.
— Que tipo de presente?
— Uma espécie de Diário. Onde ele recontava como eram algumas das Atenas que haviam reencarnado no Santuário pelos anos, desde a antiguidade.
Shun e Shiryu ficaram surpresos e curiosos, pois sabiam também o quanto Saori sofria por não saber que tipo de Deusa ela deveria ser.
— Aliás… — interrompeu Alice, pegando no braço de Shiryu. — Eu inventei pra Saori que você havia me dito que só ficou cega porque a viu sem roupa sem querer.
Shun não compreendeu de onde veio aquilo, mas Shiryu foi atacada por uma vontade de rir repentina e absurda.
— Não acredito que você fez isso, Alice! — falou ela, muito surpresa, para a amiga que estava ao lado.
— Ela ficou possessa. Disse que eu estava mentindo. — lembrou-se Alice, com gosto de rememorar aquelas cenas felizes. — Mas quando a gente se encontrar de novo, você tem que confirmar a história, só pra gente ver a cara dela.
Shun viu no rosto de Shiryu a leveza da graça, como também viu em Alice o rosto cansado de quem havia cruzado a Europa inteira, mas ainda assim tinha nos olhos a alegria daquela memória. Ele queria tanto que estivessem indo para um fim de semana inteiro de chocolates e doces assistindo televisão nas montanhas; mas diante deles não havia nada, um imenso vazio silencioso. Enquanto no futuro, ele bem sabia o que os esperava.
Alice levantou-se para falar com Seiya por um momento, deixando Shiryu e Shun sentados na amurada do barco. Ambos em silêncio, embora Shiryu não precisasse de muito para perceber o sentimento de qualquer um de seus amigos.
— Talvez tenhamos de lutar novamente. — falou ela, ao mesmo tempo adivinhando o coração de Shun, bem como lhe fazendo um alerta.
— Eu sei. — respondeu ele, que só parecia pensar naquilo. — E você pretende lutar mesmo sem o seu escudo, não é mesmo?
— É claro que sim.
Era claro que sim. Não deveria haver dúvidas entre os Cavaleiros de Atena, mas a tristeza no peito de Shun era profunda. A queda de Mime, a tragédia dos irmãos Sid e Bud e finalmente de Siegfried e Sigmund naquela terra o tinham deixado realmente sentido por seu destino. E lá estava ele embarcando para mais uma batalha, carregando ainda dentro de si a esperança de que tudo se resolveria sem derramamento de sangue.
Mas nunca havia sido assim. E ele sabia que não seria novamente. E dessa vez era a vida de alguém muito importante para ele que estava em risco.
— Você também parece preocupada. — comentou Shun para a amiga, ao vê-la desanuviar do estado alegre que Alice havia deixado para uma melancolia repentina.
— Eu estava apenas pensando em Shunrei. Sempre que partimos para alguma missão ou batalha, eu penso no quanto ela sofre com meu destino.
— Nosso destino… — refletiu Shun as palavras de sua irmã, que agora pareciam ter sido ditas anos atrás.
Ele já não tinha tanta certeza de que podia mudá-lo.
Atrás do leme, Seiya pensava em Meko Kaire, seu capitão. E na honra que sentia ao ser alçado ao posto que era daquele enorme homem para guiar seus irmãos de batalha ao encontro de Atena. Mas a lembrança do Capitão não lhe trazia apenas os deveres com aquela capitania ou os votos de lealdade para com Atena; naquele imenso oceano gélido e deserto, Seiya lembrou-se também das palavras de seu capitão antes de partir e um nome que ele usava todas suas forças para deixar de lado por seus deveres. Mas naquela imensidão oceânica, seu peito bateu descompassado de saudade.
— Devo te chamar de Capitão agora? — a voz de Alice o trouxe de volta ao oceano.
— Nem de longe. — respondeu o garoto, bem humorado, notando o olhar de Alice em cima dele. — Você tem certeza de que está bem?
— Não se preocupe comigo.
Ela estava ainda em farrapos e muito fraca, mas Seiya sabia que nada a convenceria de ficar para trás. Não com a Saori em perigo. Mas havia algo em seu rosto que Alice compreendeu imediatamente, pois a fazia se lembrar de outra pessoa.
— O que foi, Seiya?
— Estou preocupado com as crianças. Vocês… por acaso, vocês tiveram notícias?
— Sim, Seiya. — falou Alice, colocando a mão em seu braço, carinhosamente. — Estão todos a salvo. A Fundação conseguiu evacuar todos para uma cidade nas montanhas. Eles ficaram bem. Miho e as crianças estão bem.
Seiya sentiu certo alívio, mas sabia no semblante da amiga que muitas outras não tiveram a mesma sorte. Ficaram um tempo em silêncio até que Seiya notasse que Alice o encarava de modo um pouco curioso.
— Eu odeio quando me olha assim. Toda vez que me olha assim, eu sei que é porque você acha que eu te lembro a minha irmã.
— Mas é verdade.
Seiya não respondeu e tentou afastar aquele pensamento como quem afasta um besouro com a mão. Alice seguiu falando.
— Estive com Marin nos últimos dias. Você teve muita sorte de ter passado sete anos com ela.
— Eu sei. — sorriu ele.
— Ela sabe de tudo.
— Não é? — concordou ele, pois finalmente parecia ter alguém que entendia pelo menos um pouco o que era estar ao lado de Marin. — E não conta nada pra gente.
— Nada! — reclamou Alice.
Seiya deixou escapar um sorriso, pois era realmente reconfortante ter alguém para compartilhar suas experiências com aquela mentora, de quem ele tanto sentia saudade.
— Mas eu não teria trocado um dia sequer com ela por qualquer outro momento. Eu devo muito à Marin.
— Eu posso entender. Aliás, ela me pediu para te falar que entende melhor seus motivos para ter participado daquele torneio estúpido. Palavras dela.
— Ela disse isso mesmo?
— Sim. Me contou que foi bastante severa com você quando se encontraram na cidade. Mas ela não imaginava que você decidiu participar por conta da Seika.
O garoto deixou o pensamento ir longe.
— Eu acho que não tive a oportunidade de contar para ela. — começou Seiya, rememorando seus poucos encontros depois de ter ganhado a Armadura de Pégaso. — De qualquer modo, eu sou um Cavaleiro de Atena.
Seu dever precisava estar acima daquilo.
— Eu sei. Ela sabe. — concordou Alice, olhando para o mesmo horizonte escuro que Seiya.
— E não é como se isso fosse reduzir o número de flexões que ela vai me obrigar a fazer quando nos vermos novamente.
Alice olhou para o amigo e sorriu.
— Foi ela que me trouxe do Cabo Súnion até Asgard. Passando por lugares incríveis, Seiya. Que eu não fazia ideia que existiam.
— Que lugares? — perguntou o garoto, curioso, e Alice sorriu misteriosa.
— Segredo.
Ele quis morrer, pois aquilo o fazia lembrar de Marin.
— Eu odeio isso. — falou ele, comiserado. — Então ela te trouxe até Asgard?
— Quase. Até o Caminho do Norte.
— Mas não veio até nós.
— Não. — respondeu ela, apenas, e Seiya não se surpreendia, pois conhecia Marin ao seu jeito. Não havia se surpreendido quando ela abandonou o Santuário após a batalha das Doze Casas, bem como também não lhe surpreendeu que não houvesse seguido adiante com Alice.
— Essa é a Marin. — lembrou ele com ternura.
— Eu apenas lhe pedi um favor antes que fosse embora. — completou Alice, atraindo para si os olhos do menino. — Pedi para que ela contasse tudo à Mestre Mayura. De que não importava o que o Santuário fosse fazer. Que nós iríamos ao Reino de Poseidon resgatar Atena.
Seiya gostou e deixou seu sorriso para a amiga.
— Bom, se tudo der errado, vamos ter que lutar contra os Marinas e depois contra os Cavaleiros de Ouro.
— De novo. — completou Alice.
Nenhum deles realmente acreditava naquilo. E assim como sorriu, Alice deixou o garoto no leme para se apoiar ao lado do Cristal de Oricalco, fascinada com aquela magia. Reinou novamente o silêncio entre os amigos, pois ainda que buscassem conversar, animar-se uns aos outros, aquela imensidão oceânica era profunda demais e parecia fazer toda força que havia para afundá-los em suas próprias melancolias. Alice brincava com seu guizo de ouro enquanto pensava em Saori.
Saori não era para ela uma Deusa que precisavam defender, mas sim muito mais a garota com quem dividiu a vida inteira, que adorava fazer aqueles guizos e que agora havia se separado dela. Por sua própria escolha, sem considerar a dor que isso causaria. Partiu feito uma garota rebelde que busca resolver os problemas do mundo esperneando à beira-mar. Alice culpava-se por deixá-la sozinha, mas também sentia-se abandonada. E, abandonada, ela não poderia ser a Coruja que Atena precisava; ela olhou para sua mão direita e lembrou-se do segredo que Mayura havia lhe compartilhado. Fechou os olhos e o punho, levando-o ao coração.
Naquele momento, todos no barco foram despertados de seus pensamentos por uma melodia belíssima que ecoava nas águas do mar.
Alice abriu os olhos, muito surpresa, e todos os demais juntaram-se à ela na frente do barco; às costas deles, Seiya gritou a plenos pulmões.
— Não deem atenção! Podem ser as sereias que nos deixarão loucos! Preparem-se para o pior!
— Não, não é isso! — respondeu Alice imediatamente, com um sorriso que lhe cortou o rosto. — É a Saori. A Saori está cantando.
Olharam todos para ela e ela apontou para o guizo de ouro que tinha no punho, pois ele ressoava às ondas sonoras que atravessavam aquele oceano. Ela olhou de volta para Seiya com um sorriso no rosto, emocionada.
— Ela está nos chamando, Seiya.
Seiya sentiu a emoção de Alice naquelas palavras; viu nos olhos dela a felicidade de sentir o farol de esperança que era a Deusa Atena, bem como ela viu nos olhos de Seiya, como sempre via, a obstinação de sua irmã perdida. O guizo parecia pulsar no ritmo daquela bonita melodia; os olhos de Alice encheram-se de lágrimas e ela lembrou-se de algo importante. Ajoelhou-se no chão e chamou a todos.
— Vejam.
Ela tirou um pequeno saco de tecido escuro e colocou na mão de cada um deles um guizo de ouro como aquele que Saori tinha deixado para trás. Eles lembravam-se daquilo.
— Como na luta contra os Cavaleiros Negros. — lembrou-se Shun, amarrando o guizo ao seu punho.
— Saori adorava passar o tempo fazendo esses guizos e sempre nos dava antes de irmos para a escola. — lembrou Alice com felicidade, lembrando-se dos momentos em que passavam juntas; ela, Saori, Kyoko e até mesmo Seika. — Ela estava com eles no dia em que partiu e deixou esse comigo antes de desaparecer. Essa é uma forma de todos nós termos um pouco dela. Um pouco do amor de Atena.
Alice encontrou rostos renovados ao redor e Seiya colocou a mão no centro do círculo, para que pudessem fazer um juramento. E juntos juraram em voz alta:
— Vamos por Atena.
— E pela Saori. — completou Seiya, olhando para Alice.
Confiantes, quebraram a corrente e imediatamente Shun anunciou para os amigos algo que via à distância: um brilho claro no fundo-do-mar se aproximando. Pareciam estar na direção certa.
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À frente da entrada do Santuário de Poseidon, andando de um lado para o outro entre duas harpias de pedra, estava o General Dragão-do-Mar; no pé das escadarias, ele viu aparecer finalmente a Sereia Tétis, trajando sua Escama carmesim. Ela subiu velozmente os lances até ele e falou logo de uma vez.
— Trago notícias, Dragão-do-Mar. — começou ela, tirando o elmo que lhe cobria os cabelos úmidos. — Os Generais Marinas estão todos de volta ao Reino de Poseidon, cada um deles está em seu Pilar cuidando de seus afazeres.
— Excelente.
— No entanto, não foi possível contactar todos os Tenentes na superfície e os sentinelas do Reino são poucos. O chamado-ao-mar foi feito, mas poucos responderam.
Dragão-do-Mar parou por um instante pensando naquela informação, mas a afastou da mente, pois não poderia fazer nada sobre aquilo.
— Os Generais terão de saber o que fazer com o baixo contingente, é exatamente por isso que são os maiores defensores de Poseidon.
— Você fala como se estivéssemos à beira de uma invasão sem precedentes, Dragão-do-Mar.
— Você é ingênua demais, Tétis. — falou ele com força. — Não conhece o Santuário. E agora eles sabem como chegar até aqui.
— Poseidon ordenou que levássemos o Báculo de Atena de volta ao Santuário como sinal de boa fé.
— Um erro.
— Está duvidando de Vossa Profundidade, o Senhor Deus dos Mares?
O Dragão-do-Mar gesticulou com as mãos de forma impaciente para que aquele assunto se encerrasse o quanto antes.
— Isso já não interessa mais. Poseidon está desperto e Atena está em nossos domínios, devemos nos preparar.
— É cedo demais para ele ter acordado, Dragão-do-Mar. — preocupou-se novamente Tétis, arrancando uma face profunda de desagrado do General, que já se cansava daquele falatório.
— Deixe que eu cuido dos Conselhos do Senhor Poseidon. Agora com seus Generais Marinas na Cidadela não haverá qualquer preocupação.
Ela se calou, finalmente, e o General percebeu seu olhar se dirigir ao pilar principal daquele reino. Ela perguntou sem sequer tirar os olhos daquela construção colossal:
— E como ele está?
— Poseidon continua em seu trono. — tornou ele, buscando lembrá-la de que se tratava do Deus dos Mares e não de seu amigo de infância.
— Velando por ela.
— Velando por Atena. — corrigiu ele, novamente.
Tétis finalmente olhou de volta para Dragão-do-Mar, e então apoiou-se em uma das harpias, olhando para o firmamento do mar.
— Passaram-se apenas alguns dias e já é possível ver o efeito do Cosmo de Atena nesta região. Os peixes estão aos poucos retornando para cá e a água já está bem menos turva do que antes.
Dragão-do-Mar olhou para o firmamento, pensativo.
— É verdade, mas tudo isso pode ter um custo.
— O que quer dizer?
— Sacrificar a Deusa Atena não é algo trivial. — falou ele, muito sério. — Poseidon pode atrair para si a fúria do Olimpo e de seu pai.
— O pai de Atena?
— Sim. — respondeu ele, simplesmente, quase incapaz de pronunciar seu nome. — E isso seria catastrófico.
Tétis engoliu em seco, mas notou com curiosidade como, pela primeira vez, aquele General parecia realmente incomodado quando, até então, desde a fatídica noite que o havia conhecido na roda dos romanis, ele sempre tinha sido uma pessoa absolutamente controlada. Em que nada parecia surpreendê-lo e ele estivesse sempre um passo adiante dos acontecimentos. Mas ali ele estava diferente.
— Me perdoe, Dragão-do-Mar, mas essa parece a primeira vez que você parece tão perdido quanto o resto de nós.
O General olhou para ela com dureza antes de responder.
— É o que resta aos homens fazer quando os Deuses tomam suas decisões.
Tétis refletiu brevemente sobre aquela resposta enquanto olhava para o céu de Atlântida, a cidadela de Poseidon onde ficava o seu Templo Submarino; e um brilho tênue dourado cintilou entre os cardumes do céu. O General Dragão-do-Mar desviou sua atenção imediatamente para a mesma direção, com certo espanto. Ambos viram algo extraordinário acontecer no firmamento oceânico: um navio voando pelas nuvens-do-mar lentamente se aproximando daquele Templo.
A embarcação fez uma curva aguda para a esquerda e então lentamente desintegrou-se em milhares de pedaços até espatifar-se contra as montanhas ao norte da cidadela, desaparecendo por trás de um vale. O lampejo dourado que Tétis havia notado antes separou-se em quatro, e tanto ela como o General viram com clareza quando eles brilharam por alguns instantes antes de se apagarem junto da embarcação destruída.
— Pelos Sete Mares, o que era aquilo? — assombrou-se Tétis, ainda escutando os sons da destruição no céu.
— Os Cavaleiros de Ouro. — balbuciou o General às suas costas.
Tétis olhou para ele e percebeu que o General preparava-se para adentrar o Santuário de Poseidon. Sua voz foi forte para ela.
— Vá, Sereia Tétis! — ordenou ela. — Encontre-os no Vale.
— Mas Dragão-do-Mar, o que eu poderei fazer contra quatro Cavaleiros de Ouro do Santuário de Atena?! — retrucou ela, e Dragão-do-Mar lhe gritou já quase dentro do Templo.
— Reze para que tenham mesmo vindo em paz. — falou o General de maneira ameaçadora, sem olhar de volta.
E desapareceu dentro do Santuário, certamente para reportar a Poseidon os incríveis desdobramentos daquela tarde.
— Droga!
A Sereia desceu as escadarias e disparou para o local do acidente com o coração acelerado.
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Atlântida era uma cidadela bonita cercada pelo relevo do fundo-do-mar: montanhas, cavernas e vales povoados de algas-marinhas, muitos corais, posidonias e um bonito prado de capim-tartaruga. A embarcação de Seiya chocou-se contra um espigão de coral, jogando seus tripulantes para todos os lados dentro do barco até que o madeirame partiu-se em dois. Os Cavaleiros de Bronze caíram de uma altura já muito menor e viram-se esparramados no chão de pedra com os escombros de madeira por sobre seus ombros.
Fez-se silêncio naquela parte do reino por um tempo até que os gemidos de dores daqueles tripulantes puderam ser ouvidos debaixo dos escombros. Seiya jogou para o lado uma placa enorme que o cobria e chamou por seus amigos que responderam um a um, todos a salvo. Ele ajudou Alice, que estava mais próxima, a se levantar. Shun colocou-se também de pé e estendeu a mão para Shiryu poder se levantar; ela a tomou com tranquilidade, colocando-se de pé, para grande espanto de Shun.
— O que foi? — perguntou Shiryu ao ver a face surpresa de Shun.
— Shiryu, você…
Ela não havia notado imediatamente, talvez distraída pelo desesperador naufrágio no céu, mas Shiryu podia ver o rosto de Shun claramente. Shiryu podia ver. Ela imediatamente olhou para suas próprias mãos e seus amigos todos a rodearam.
— Shiryu, você voltou a enxergar? — surpreendeu-se Seiya.
Sim, Shiryu podia enxergar novamente.
Um sorriso atravessou o rosto da garota, sempre muito séria, e ela parecia maravilhada ao ver seus dedos das mãos, como se fosse a primeira vez. Assim como o rosto sofrido de seus amigos ao seu redor, as novas cicatrizes que cada um carregava desde a última vez que haviam se visto, agora já há tantos meses. A surpresa daquela revelação trouxe certo ânimo para todos, como se a sorte aos poucos virasse para eles.
— Eu já entendi. — disse ela, olhando ao redor. — É como na Fronteira dos Mortos, para onde Máscara da Morte me enviou na batalha das Doze Casas. Lá eu também pude voltar a enxergar e aqui no Reino de Poseidon meus olhos voltaram a ver.
— Então é como se estivéssemos mesmo em um outro Mundo. — falou Shun, também se maravilhando com aquele lugar impossível em que estavam. Shiryu concordou com ele.
— Um outro Mundo. — comentou Alice, olhando ao redor deles, enquanto Seiya e Shun cumprimentavam Shiryu por aquele milagre, ainda que fosse momentâneo, como da outra vez.
Os amigos juntaram-se à Alice e, sem trocarem uma palavra, olharam-se surpresos com aquele lugar mágico enquanto caminhavam a esmo, investigando cada detalhe dos arrecifes ao redor, a rocha pontiaguda e ora gasta onde crescia uma vegetação curiosa. Todos eles olharam para o horizonte ao mesmo tempo quando uma voz maravilhosa começou a cantar uma melodia distante, mas muito bonita. Era a mesma voz feminina belíssima e soprano, ecoando contra os paredões oceânicos daquele reino, que havia lhes trazido esperança enquanto ainda navegavam.
— É ela, é a Saori. — comentou Alice para os amigos, com a expressão tranquilizada, e os guizos de ouro ressoando aquela melodia no punho de cada um deles.
Todos seguiram a garota que usava apenas vestes surradas, uma bolsa nas costas, a mão direita no peito e um guizo de ouro na mão esquerda. Ela pulou da escarpa em que haviam naufragado para um vale mais adiante, onde correu pelo veio de um rio raso até novamente saltar para o que, sem dúvidas, era uma estrada pavimentada. Ali, fizeram uma curva para a esquerda e o cenário finalmente abriu-se para eles. Um cenário mágico: as construções baixas de uma linda cidadela debaixo do mar.
Era a cidadela de Atlântida, com suas construções espalhadas ao redor de uma praça central, de onde surgia, feito um farol colossal no horizonte, um pilar que rasgava o firmamento, confundindo-se com o que sem dúvidas, para todos, se tratava da água do mar flutuando no céu.
— Mas que incrível. — maravilhou-se Seiya ao perceber que o céu daquele Mundo era formado pelo oceano. — Eu jamais poderia imaginar que existia um lugar como esse debaixo do mar.
— Não estamos debaixo do nosso mar. É como se estivéssemos em outro Mundo em que o céu é formado pelo oceano. — falou Shiryu, com fascinação na voz.
— Como no Mundo de Atena, o céu é formado pelas nuvens e pelo ar que respiramos, aquilo que nos permite viver. O Mundo de Poseidon, o céu é feito daquilo que o povo de Poseidon precisa para sobreviver. A água. — completou Shun, também maravilhado.
— Mas parece que estamos na superfície. Aqui podemos respirar normalmente. — comentou Seiya. — Então este é o Reino do Fundo do Mar. Onde o Deus dos Mares, Poseidon, ergueu seu Santuário.
— Essa melodia vem de lá. — apontou Shun para o enorme lugar central.
— É a Saori. — falou Alice, com um sorriso no rosto. — Ela está nos chamando.
— É a mesma melodia que escutamos na travessia pelo fundo-do-mar. — falou Shiryu, pensativa.
— Sim. — confirmou Alice, olhando para ela. — Essa é a música que ela adorava cantar quando estava em casa. Quando estava feliz. É ela. Ela está nos chamando.
E por alguns minutos, tudo que os Cavaleiros de Bronze fizeram foi ficar naquela encosta ao lado da estrada olhando para aquele enorme pilar que rasgava o horizonte e de onde parecia que a voz de Saori lhes cantava debaixo-do-mar. A melodia repetiu-se ao menos duas vezes, um melisma mágico e reconfortante, até que finalmente se calou. Alice deu um passo adiante, mas foi Seiya quem os tirou do transe.
— Não podemos perder mais tempo, se ela está nos chamando, ela pode estar precisando de nós.
— Então vamos. — chamou Shun, colocando-se à frente de todos.
— Sim. — responderam todos em uníssono.
No entanto, quando retornaram para a estrada pavimentada para segui-la até aquela cidadela mágica, notaram que não estavam mais sozinhos. Acima de um rochedo à margem da estrada, viram-se observados pelos olhos perolados de uma belíssima mulher trajando uma proteção carmesim. Pararam todos, sobressaltados.
— Quem é você? — perguntou Seiya, mas foi Alice quem se colocou adiante do grupo.
— É você, não é? — perguntou Alice por todos. — Você é a garota do Cabo Súnion. A que me trouxe o Báculo de Atena. Você é a Sereia Tétis, emissária de Poseidon, não estou certa?
Ela ficou calada.
— Eu estou aqui. Eu vim. Desci ao Fundo do Mar para ver Atena. Leve-nos até ela antes que seja tarde demais.
— Me parece que já sabem onde ela está. — falou Tétis, estoica e desconfiada. — E já é tarde demais.
— O que está dizendo? O que foi que aconteceu com a Deusa Atena? — perguntou Seiya, impaciente.
A Sereia Tétis olhou para aquele punhado de crianças e respirou fundo, com imenso cuidado, mas ao mesmo tempo respeitando aqueles devotos garotos e garotas para com seus deveres e corações.
— A Deusa Atena decidiu sacrificar-se para dar uma chance aos humanos da superfície.
Nada que não soubessem, mas Tétis seguiu seu relato, do qual nem mesmo Alice tinha conhecimento.
— O Deus dos Mares, Poseidon, decidiu punir a humanidade, que por séculos tem colocado a vida de seu Reino em perigo. E assim faria chover por quarenta dias e quarenta noites até varrer a superfície de toda população como punição. Mas a Deusa Atena solicitou uma audiência com o Deus dos Mares e Poseidon lhe concedeu a honra de se sacrificar em troca da vida na terra.
O relato tirou o fôlego de todos.
— Por isso que as chuvas pararam na superfície. — pontuou Alice.
— Elas pararam, pois toda a fúria das águas, que antes cairiam na Terra, Poseidon comandou para que jorrassem sobre o corpo da Deusa Atena.
— O quê!? — exclamaram Seiya e os outros.
— Atena escolheu receber a fúria das águas em seu próprio corpo e poupar da morte todos aqueles que vivem no mundo em troca de seu Cosmo restaurador, que alimentará com sua vida os oceanos.
— Saori…
— Mas ela ainda está viva! Posso sentir seu Cosmo, sua voz. — bradou Alice, esperançosa.
— Já faz quase uma semana. Seu Cosmo já está se apagando. — retornou Tétis, com certa tristeza na voz.
O choque na face dos Cavaleiros de Bronze denunciava que cada qual, dentro de si, refletia sobre aquela terrível escolha que a Deusa Atena havia feito por seus protegidos, mas muito mais do que isso, a escolha que Saori havia feito. A amiga deles. Alice não conseguia aceitar.
— Mas ainda está viva. Se ainda está viva, então podemos suplicar a Poseidon que a liberte.
— Não tem mais volta. — falou Tétis, seu rosto aos poucos tornando-se confuso.
— Então nós vamos resgatar Atena! — bradou Seiya. — Não vamos deixar a Saori se sacrificar desse jeito.
— Essa foi uma escolha da Deusa Atena, espero que compreendam. — falou Tétis, com seriedade, como uma reprimenda; como se a eles não fosse sequer permitido contrariar uma vontade divina. — Se forem ao Templo de Poseidon, talvez sua benevolência permita que vocês se despeçam uma última vez da Deusa Atena.
— Nós vamos tirar ela lá de dentro! — tornou Seiya.
Todos deram as costas para a Sereia Tétis e desataram a correr pela estrada na direção daquele enorme pilar de onde ouviram a voz de Saori cantar sua melodia favorita.
A Sereia Tétis sentiu-se desarmada por um instante ao ver aqueles jovens correndo, sem compreender exatamente o que significava aquele nível de insubordinação, uma vez que, de sua parte, jamais seria sequer imaginável colocar-se contra uma vontade de Poseidon. Fosse ela qual fosse. Na esperança de entregar uma mensagem de esperança, de segunda chance àqueles Cavaleiros, Tétis, de repente, encontrou-se acuada.
Mas antes que aqueles jovens insubordinados chegassem alguns metros adiante, seus corpos foram paralisados por um enorme poder que os jogou de volta contra as paredes oceânicas do vale em que Tétis havia ficado. A Sereia olhou para trás e adivinhou uma figura surgir, como se materializada de luz. Os Cavaleiros de Atena que se levantaram imediatamente sentiram uma cosmo-energia gigantesca invadindo aquele vale entre recifes e anunciando a chegada de uma pessoa enorme. Sua proteção maravilhosa brilhava com as cores refletidas do céu marítimo, sua capa esvoaçava pelas costas enquanto seus olhos ficavam escondidos debaixo de um elmo que lhe cobria toda a cabeça.
Um brilho acompanhava sua caminhada e, quando ele chegou ao lado de Tétis, esse brilho arrefeceu, deixando aparecer finalmente uma figura curiosamente conhecida para Seiya, cuja face derreteu-se em assombro.
— Essa Armadura? Você é…?! Eu não posso acreditar.
— O que foi, Seiya? Você já viu esse homem antes? — perguntou Shiryu, olhando para o amigo.
— Sim, Shiryu. Esse é… Esse é o irmão de Siegfried, que traiu Hilda e a terra de Asgard.
— Está dizendo que esse homem é Sigmund? — tornou a perguntar Shiryu, que conhecia os crimes do guerreiro de Asgard.
— O irmão de Siegfried que surgiu na batalha de Asgard, mas então… Siegfried morreu em vão? — perguntou-se Shun.
Aquele diante de todos não era outro senão o Dragão-do-Mar, que deixou escapar uma risada acalorada entre todos.
— Siegfried foi tolo em acreditar que venceria daquela maneira ridícula. Como também é ridícula a presença de vocês, meros Cavaleiros de Bronze, nesse lugar sagrado. O que acha que estão fazendo naufragando um simples navio como aquele que os trouxe aqui?
— Leve-nos até Atena, Sigmund! — ordenou Seiya.
— Cale a boca, moleque. — retornou ele. — Atena escolheu seu caminho e seu caminho é o da morte. Não há nada que insetos como vocês possam fazer agora.
— Vamos obrigar Poseidon a libertá-la e desistir de seu plano maligno. — tentou Alice, e o Dragão-do-Mar desatou a rir dela.
— Tente escutar o que está dizendo, garota. E, além do mais, nem mesmo Poseidon tem poder para reverter a fúria das águas que agora desaba sobre a Deusa da Terra. Peguem a vida de vocês e voltem para o Santuário. A Deusa Atena está presa ao pilar do Suporte Fundamental e jamais poderá sair de lá.
Tétis lançou ao seu General um olhar desconfiado, que nenhum dos Cavaleiros de Bronze percebeu, preocupados e assombrados com aquela aparição.
— Então ela está naquele enorme pilar que vimos na cidadela. Nesse caso, tudo que precisamos fazer é ir até lá e tirar a Saori de dentro dele. — concluiu Seiya, sempre muito objetivo.
— Isso é impossível. Nem mesmo com a força dos Doze Cavaleiros de Ouro vocês seriam capazes de um milagre como esse. O Suporte Fundamental é mantido em pé graças aos Sete Pilares Marinas, que sustentam o céu do fundo-do-mar, cada qual representando um dos sete oceanos da Terra e protegidos pelos Generais de Poseidon. Somente derrotando seus guardiões e derrubando todos os pilares seria possível ao menos tentar um milagre como esse.
— Dragão-do-Mar! — alertou Tétis, virando-se para o General que parecia dizer mais do que deveria.
— Ora, não se preocupe, Tétis, olhe abaixo de você. São quatro crianças da mais baixa patente dos Cavaleiros de Atena. São Cavaleiros de Bronze, que sequer poderiam fazer frente aos Tenentes Marinas, quanto mais aos Generais dos Mares. Se houvesse qualquer interesse do Santuário de Atena de realizar uma proeza como essa, eles teriam mandado os Cavaleiros de Ouro, os mais fortes do Santuário. Mas aqui diante de nós estão quatro insetos que nada poderão fazer a não ser aproveitar a bonita tarde que faz em nosso Reino, esperar a morte da Deusa que deveriam proteger e voltar para a Terra para aproveitar a segunda chance que nosso misericordioso Deus Poseidon lhes concedeu.
— Isso não pode ser verdade! — protestou Alice, mas o Dragão-do-Mar simplesmente deu as costas àquele grupo desgarrado.
— Leve esses pobres-coitados de volta à superfície, Sereia. Eu estarei ao lado do Senhor Poseidon.
— Você não vai a lugar nenhum! Vai nos dizer como derrubar os Pilares de Poseidon!
Seiya saltou para enfrentar o General Marina, mas seu corpo foi paralisado no ar novamente e o Dragão-do-Mar, mesmo de costas, fez ressoar seu Cosmo profundo, e o Cavaleiro de Pégaso foi arremessado contra o paredão de um rochedo atrás dos Cavaleiros de Bronze. Chamaram todos o seu nome, juntando-se ao redor de Seiya que, aos poucos, se levantava, enquanto viam desaparecer a figura ameaçadora do General Marina.
— Que impressionante… — falou Seiya. — Ele é tão forte quanto um Cavaleiro de Ouro.
— Será que essa é a força dos Generais dos Mares? — perguntou-se Shun.
— Estão acima dos Tenentes, talvez a sua força seja mesmo comparada à dos Cavaleiros de Ouro. Por isso Dragão-do-Mar comentou que não teríamos qualquer chance.
— Ora, Shiryu. Nós fomos capazes de vencer os Cavaleiros de Ouro e salvar Atena.
— Mas Seiya... — tornou a amiga, ajudando-o a se levantar. — Não devemos nos esquecer que muitas circunstâncias estiveram ao nosso favor naquela batalha. Não creio que dessa vez teremos tanta sorte.
Olharam todos para ela, que tinha o rosto muito sério. Ela tinha razão. Do alto da pedra, Tétis ainda inspecionava os Cavaleiros de Bronze, desconfiada.
— Bom, de todo modo, o que precisamos fazer é derrubar esses Sete Pilares. — falou Alice, e Tétis imediatamente percebeu que eles não aceitariam sua escolta de volta para onde pudessem atravessar para a superfície.
— E então resgatar Atena do Suporte Fundamental. — acrescentou Seiya, também empolgado, recuperando suas forças.
— Muito bem. Vamos nos separar aqui e nos encontramos no Templo de Poseidon. Lutaremos contra os Generais Marinas e mostraremos a eles que somos capazes de vencê-los se for possível.
— Shiryu tem razão. — concordou Shun. — Estamos em quatro, de modo que cada um de nós deverá derrubar ao menos um dos Pilares.
— Faltarão três. — lembrou Alice, antes que Seiya se perdesse na conta.
— Ikki logo estará entre nós. — confirmou Shun.
— Hyoga também. Eu tenho certeza. — falou Seiya.
— Nesse caso, aquele que chegar primeiro ao último pilar cuidará dele, enquanto o resto de nós irá direto ao Templo de Poseidon resgatar Atena. — falou Shiryu, selando plano entre todos e deixando um alerta final. — Não subestimem os Marinas.
Eles uniram as mãos no centro, prometendo entre eles o resgate da amiga e da Deusa Atena. Os guizos ressoaram entre si.
Mas, quando viraram-se, perceberam que a Sereia Tétis agora estava diante deles, bloqueando a passagem pela estrada que seguia para a cidadela.
— Isso é ridículo. — começou ela, incrédula. — Vocês deveriam aceitar a graça de Poseidon e voltar para seu Santuário. Os Sete Pilares dos Mares são protegidos pelos Generais Marinas, guerreiros de Poseidon, cuja proteção supera aquela dos Cavaleiros de Atena desde a antiguidade, as Escamas dos Mares. A Deusa Atena jamais sairá com vida do Suporte Fundamental. Essa foi a escolha dela: a de curar o oceano com a sua vida e poupar a humanidade na superfície. Respeitem essa decisão e voltem para poderem viver a vida que ela se sacrifica para proteger.
— Eu não vou aceitar! — falou Alice, colocando diante deles. — Diga-nos onde ficam esses Sete Pilares ou saia de nossa frente!
Tétis encarou aquela garota decidida a continuar e não respondeu, mas Shiryu, que agora finalmente podia enxergar novamente, chamou a atenção de todos:
— Olhem! No horizonte.
E todos olharam.
Contra o céu marinho daquele lugar, os Cavaleiros de Bronze adivinharam sete formas altas rasgando o firmamento de várias direções. Eram os Pilares dos Mares.
Brilhava nos olhos daqueles garotos e garotas uma luz especial ao ver aquelas sete formas colossais no horizonte. Tétis não era uma guerreira, mas compreendeu imediatamente o que aquele brilho nos olhos deles significava: esperança. E a esperança dos Cavaleiros de Atena talvez fosse a perdição para o Reino do Fundo do Mar, para o qual Tétis dedicou a vida inteira para ter a honra de fazer parte de sua população. Como agora fazia. E como agora parecia ser seu dever protegê-la.
Ela não era uma exímia guerreira, mas tinha seus truques.
Um deles era aquela belíssima escultura de corais que seu Cosmo oceânico fazia brotar das profundezas da terra para tomar lentamente os Cavaleiros de Bronze, paralisando-os dos pés à cabeça, enquanto seus corpos eram cobertos por uma escultura de coral que os mantinha presos ao chão.
— Cilada de Coral! — gritou ela suas palavras mágicas.
Confusos à princípio por não compreender a natureza daquela formação que se espalhava por seus corpos, foram todos eles envolvidos por aquela armadilha, mas o braço livre de Shiryu logo retalhou os corais que a prendiam, enquanto Alice fez surgir ao redor de si um turbilhão de vento que a libertou daquela prisão, jogando-a para o ar, para surpresa de Tétis.
A Marina olhou para aquela Saintia no meio de seu pulo fantástico e, por um instante, lhe pareceu que ela tivesse mesmo asas contra o céu de oceano; sua voz reverberou por Atlântida enquanto gotas do mar reuniam-se ao redor dela:
— Respingo Angelical!
As gotas ao redor de Alice projetaram-se sobre Tétis feito uma saraivada de lascas poderosas, fazendo com que a garota recolhesse os braços e conjurasse uma carapaça de coral para se defender. Mas o Cosmo de Alice era enorme e, lentamente, os corais se quebraram e Tétis foi arremessada contra a parede.
— Vá, Shiryu! — ordenou Alice, enquanto a garota retalhava o coral que mantinha os demais Cavaleiros de Bronze presos. — Vão para os Pilares! Eu cuidarei dela e logo estarei junto de vocês.
— Tome cuidado, Mii! — alertou Shun, preocupado. — Você não está usando sua Armadura, não faça nenhuma loucura.
— Vão de uma vez! — ordenou ela.
E assim os três Cavaleiros de Bronze dispararam com suas Urnas nas costas, cada qual para uma direção, enquanto Alice caminhou a passos duros para encarar Tétis, que agora estava deitada olhando-a com medo no rosto.
— Não fazem ideia do que estão fazendo. — tentou ela, com a expressão profunda de confusão. — Poseidon deu a vocês uma segunda chance, honrando a memória de Atena. Deveriam ter aceitado sair daqui em paz, esses garotos não terão qualquer chance contra os Generais Marinas.
— Não duvide deles. — alertou Alice, colocando-se novamente em guarda. — Não duvide nunca do que os Cavaleiros de Atena podem fazer.

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