Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya

120 Ventos de Furacão no Pacífico


No extremo-norte da América, há uma península de terra vulcânica e picos nevados. Os humores de Poseidon não alcançavam essa terra afastada com suas chuvas torrenciais, mas castigou sua pouca população com um frio intenso, capaz de congelar a copa das poucas árvores e carregar de neve as poucas trilhas que serpenteavam entre vales acima de montanhas.

Cobertos dos pés à cabeça com grossos casacos e calças de pele, duas jovens figuras atravessavam uma trilha deserta da planície para o alto de um dos muitos picos nevados, passando por vales e travessias estreitas.

— Já é a terceira trilha que tomamos para algum lugar perigoso e abandonado. Acha que vai ser diferente dessa vez?

— Sinto que sim. — respondeu Shinato, misteriosa, mais à frente.

— Gosto do seu otimismo. Já estamos peregrinando nessas terras geladas há semanas, meses, eu já perdi as contas. Pelo menos o povo da vila aceitou nos ajudar.

— Guarde seu fôlego para a subida.

— Se quer que eu cale a boca, deveria me falar, Shinato.

— Cale a boca, Mirai.

Ele deixou escapar um sorriso e acompanhou a amiga em silêncio o restante da subida até onde o terreno tornou-se mais desafiador; mas como eram Cavaleiros de Bronze treinados, os dois não tiveram tantas dificuldades de alcançar as maiores alturas da face daquele monte. Após atravessarem outra estreita e perigosa passagem pela lateral da montanha, eles decidiram descansar alguns minutos em uma reentrância para beber de um cantil e comer a carne seca que Mirai havia trazido.

— O frio está bem menos rigoroso esses dias, talvez a missão do Esperança de Atena tenha se completado com sucesso.

— Acha que eles selaram todas as Relíquias? — perguntou Mirai, olhando para o Oceano Pacífico que se estendia distante deles.

— Eu espero que sim. — respondeu ela, tomando fôlego. — Isso significaria que a informação do Cavaleiro de Taça para os Sete Mares estava correta. Assim também deve estar correta para as Armaduras perdidas pelo Mundo.

— Eu nunca duvidei. — protegeu-se Mirai, tomando um gole. — Tenho certeza que ela está em algum lugar nessas montanhas. Eu fico apenas me perguntando qual delas será? Arrisca chutar alguma?

— Boieiro.

— Boieiro?

— Sim. — respondeu Shinato, muito segura de si.

— Hm. Pode ser. Vamos apostar? Boieiro é um bom palpite. Eu acho que é… Quantas armaduras são mesmo ao todo?

— Não é um palpite. — tornou Shinato, confiante. — É da Armadura de Boieiro que estamos atrás.

— Espera, como assim? Como pode ter tanta certeza? O Cavaleiro de Taça não nos falou nada disso.

— Não, mas nos deu todas as informações que precisávamos. — começou Shinato, calma, enquanto tomava outro gole do cantil. — Veja, não pode ser nenhuma das Armaduras do Século das Luzes.

— Essas são aquelas que foram roubadas, não é mesmo?

— Bem, não foram roubadas. Quem as construiu nunca entregou para o Santuário de Atena. E a Mestre Mayura foi bem clara que esse definitivamente não é o melhor momento para bater na porta do Santuário do Artífice.

— Ou Dela.

— Pior ainda. — tornou Shinato rapidamente, como quem afasta uma maldição o mais rápido possível. — Isso significa que a Armadura Perdida que estamos atrás precisa ser da Primeira ou da Segunda Era. São poucas Armaduras Perdidas da Primera Era e a maioria das Armaduras da Segunda Era correspondem a estrelas do Sul. Assim restam poucas opções.

— Pois então. — tornou Mirai, confiante. — Raposa é da Segunda Era e ainda não foi encontrada. Está cheio de raposa neste continente e inclusive existe uma Ilha Raposa perto desta península.

— Olha, até que você se preparou. Estou surpresa. Mas você esqueceu de verificar que esta região, inclusive, tem seu próprio nome para as estrelas do Boieiro. Taluyaq.

Os olhos de Mirai saltaram, como quem percebe algo pela primeira vez.

— Ei, foi isso que o ancião da vila ficou repetindo no idioma deles assim que chegamos.

— Exato.

— Então você já sabia e não me contou?

— Achei que tivesse adivinhado.

— Como você é chata. — reclamou Mirai ao ver Shinato levantando-se para continuarem a trilha. — Ainda assim, não dá pra ter certeza. Vamos fazer assim. Se for Raposa, você traz a Urna da Armadura de volta sozinha até o Santuário. E se for Boieiro, eu trago.

— E se nenhum de nós dois acertarmos?

— Bom, a quem estamos enganando, é mais provável que a gente não encontre armadura nenhuma no fim das contas.

De pé, Shinato arrumou o casaco de pele que usava por sobre sua própria Armadura de Bronze, enquanto Mirai olhava para longe no horizonte oceânico.

— Fico pensando se os outros Cavaleiros de Bronze encontraram a Armadura Perdida no Chile.

— Anda, levanta. Vamos antes que você fique cansado demais para carregar a Urna de volta.

— Ei!

E juntos partiram para a última parte daquela trilha que, surpreendentemente, deixou de subir em direção ao cume da montanha para descer por entre árvores e galhos antigos até enveredar-se por uma estreita passagem coberta de musgo e folhagem, que dava para uma espécie de clareira no meio da montanha. O chão era coberto por folhas mortas, lodo do gelo derretido, algumas árvores torcidas e pedra. O barulho do mar era ensurdecedor, pois havia uma abertura enorme que dava para uma queda vertiginosa ao Oceano Pacífico. E o som das ondas quebrando na rocha ecoava nos paredões de pedra daquela clareira, que assemelhava-se à uma concha acústica natural.

E, no meio dela, havia uma Urna de Armadura de Bronze.

— Olha, Shinato! Encontramos!

Bradou o garoto, correndo em direção da Urna.

— Você estava certa. — sorriu ele ao notar que se tratava mesmo da inscrição de Boieiro no alto-relevo da Urna de Bronze.

Mas quando olhou de volta para amiga, percebeu que havia mais alguém entre eles.

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Seiya pulava rápido de pedra em pedra pela encosta de um vale enrugado de corais no Reino do Mar. Ele desceu até o que sem dúvidas era uma rua pavimentada de blocos de concreto belíssimos que serpenteavam na direção de um grande pilar que se descortinava no horizonte. Em seu corpo já reluzia a belíssima Armadura de Pégaso, que havia ficado por tanto tempo entre os Tesouros da Caverna de Surtr, mas agora protegia o corpo daquele destinado a usá-la.

— Pare aí! — anunciaram vozes à frente e ao redor de Seiya que, nem por um segundo, deteve-se diante deles.

Por onde o garoto passava, ele distribuía seus poderosos socos e chutes feito um espetáculo de luzes que deixou para trás uma dúzia de corpos protegidos por escamas simples e âncoras acorrentadas nos braços. Não haveria nada que o deteria dali até o seu objetivo.

— Tenho que salvar Atena. Eu vou derrubar todos os Pilares se for preciso.

Seus passos logo fizeram uma curva à esquerda e, diante dele, abriu-se um enorme pátio belíssimo de mosaicos no chão em que se desenhavam diversas espécies marinhas. Nada disso Seiya notou, pois sua atenção era um objetivo certeiro à sua frente: as escadas que levavam até o pé de um enorme pilar claro, de diâmetro largo, que se perdia no céu oceânico à sua cabeça.

Seu cosmo inflamou enquanto Seiya corria sem interromper sua marcha até seu objetivo, seu punho brilhou com intensidade e sua voz ecoou pelos paredões do Oceano Pacífico Norte.

— Cometa de Pégaso!

O bólido de luz disparou de seu punho cortando o ar com violência e espatifou-se em um espetáculo brilhante contra o pilar que, aparentemente, nada sofreu. A luz amainou-se e Seiya percebeu que seu golpe não havia sequer chegado até o concreto mágico daquele pilar, pois havia sido interceptado pelas mãos de uma pessoa.

— Calma, pra que tanta violência, garoto? Não sabe o perigo que corre ao tentar vandalizar um dos Pilares de Poseidon?

Era um homem trajando uma maravilhosa armadura alaranjada e furta-cor, que confundia-se em dourado conforme a luz daquele lugar impossível refletia naquela proteção.

— Você deve ser o General Marina desse Pilar, não é verdade? — perguntou Seiya, já colocando-se pronto para a batalha.

— Exatamente. Sou o guardião deste Pilar, que sustenta o Oceano Pacífico-Norte. Um dos Sete Generais Marinas de Poseidon. Sou Bian, o Cavalo-do-Mar.

— Bian de Cavalo-do-Mar, eu sou Seiya de Pégaso, um Cavaleiro de Atena. Não tenho tempo para ficar perdendo com você. Para salvar Atena eu preciso destruir esse pilar. E todos os outros desse Reino.

Bian não se conteve e deixou escapar uma gargalhada.

— Mas que insanidade! Quantos anos você tem, garoto? — perguntou ele, olhando Seiya dos pés à cabeça.

— Não interessa. Não estou aqui para conversa. Saia da minha frente se não quiser se ferir!

— Mas isso é adorável. — sorriu Bian. — Muito bem, menino, deixa eu lhe contar uma coisa…

— Eu já sei. — interrompeu o garoto. — Se eu quiser derrubar o Pilar, primeiro eu preciso acabar com você, não é isso?

— E você acha que é capaz disso?

— Eu não estou aqui para testar minha capacidade, General. Eu vou te vencer e depois eu vou derrubar esse pilar. Então saia do meu caminho, se não quiser se ferir.

O General Marina estava realmente surpreso pela audácia do garoto. E ficou encarando-o por um momento, enquanto Seiya traçava no ar as estrelas de sua constelação ao ponto de seu cosmo arder ao redor de seu corpo.

— Você está falando sério. — finalmente deu por si do General Marina, com o rosto consternado. — Vai mesmo querer lutar comigo.

— Eu não vou perder um segundo a mais aqui.

— Você está louco, menino. Você é jovem demais. Pela sua Armadura, não deve passar de um Cavaleiro de Bronze do Santuário. Você nunca seria páreo para mim. E ainda que eu deixasse você tentar derrubar o pilar, a sua vida inteira passaria sem que você pudesse tirar uma única lasca dele. Você está completamente fora de si.

— É o que veremos!

Os Meteoros de Pégaso saltaram na direção de Bian e ele foi coberto pela luz dos punhos poderosos e rápidos de Seiya. Mas nada aconteceu.

— Isso é ridículo. — retornou Bian ao reaparecer intacto dos meteoros.

Seiya tentou novamente e tinha certeza de que todos os seus Meteoros eram certeiros, como sempre; mas Bian sequer movia-se do ponto em que estava, acima das escadarias que levavam ao pilar. Não parecia ter sido atingido uma única vez pelos milhares de Meteoros dos punhos de Seiya. E, ainda que estivesse surpreso, Seiya saltou no ar e atacou novamente, absolutamente sem paciência para compreender o que se passava, como se buscasse soterrar seu inimigo com seu cosmo e acabar com tudo aquilo o quanto antes.

E quando pousou de volta no pátio, Seiya percebeu que o General Marina havia desaparecido.

— Onde está ele? — perguntou-se Seiya após seu golpe se apagar.

Tudo que Seiya sentiu foi uma ventania terrível o arrastar com força de onde estava para espatifar-se contra o próprio Pilar que ele deveria destruir. Quando Seiya se levantou, notou que Bian estava no exato lugar em que ele se encontrava antes, nos pés da escadaria do pilar.

— Aí estão duas lições para você, garoto. A de que não é páreo para mim. E a de que esse pilar não sofrerá um mísero arranhão com seus golpes.

O Cavaleiro de Pégaso olhou para suas costas, mas antes que armasse seu melhor golpe para testar aquele concreto mágico ele foi novamente lançado para longe por uma ráfaga violenta que o levou ao chão outra vez, agora longe do pilar.

— Isso não significa que vou permitir que suje o pilar sagrado de Poseidon. Volte pra casa, garoto, você não tem nada para conseguir aqui.

— Cale a boca!

E os Meteoros novamente atacaram o General Marina, mas agora Seiya pôde perceber melhor já que estava mais próximo do inimigo; Bian não se movia e os meteoros simplesmente paravam em ondulações próximas ao General. Ele caminhou na direção de Seiya e o garoto colocou-se em guarda.

— Ainda não percebeu que seus ataques são inúteis contra mim? — perguntou o General, com o rosto muito sério. — Se está mesmo decidido a me enfrentar, eu vou lhe mostrar o que define perfeitamente a diferença de poder entre nós. Vou lhe derrubar com apenas um sopro.

O General Marina encheu os pulmões. Segurou a respiração e sorriu para Seiya, que não compreendia muito bem o que ele queria dizer, embora estivesse preparado para qualquer truque. Menos aquele. Bian deu um simples sopro no ar adiante de si e Seiya foi varrido de onde estava por um braço de vento que parecia absolutamente incompatível com aquele esforço mínimo do General Marina.

Ele voou sem controle e espatifou-se contra um dos pilares baixos que havia ao redor daquele pátio. Caiu incrédulo de que aquele simples sopro tivesse sido capaz de jogá-lo daquela maneira.

— Seu corpo é tão frágil que sou capaz de arremessá-lo para longe com apenas um sopro.

Mas Seiya levantou-se.

— Realmente, seu sopro parece ser muito poderoso, mas eu ainda posso me levantar. Seu golpe não parece ser capaz de me ferir gravemente. Enquanto você não me derrotar de verdade, continuarei a me levantar para te enfrentar, e no final vou acabar te vencendo. Prepare-se, General! Meteoros de Pégaso!

Nada. Seus meteoros pareciam realmente parar diante do General, que nada parecia fazer para se defender.

— Vou lhe dar uma última chance, garoto. Saia daqui. Volte para casa. Ou eu te expulsarei desse Reino à força.

— Eu já disse que irei te derrotar, derrubar esse pilar e todos os demais para resgatar Atena.

— Atena já caminha para sua Morte e desejou o melhor para seus Cavaleiros. O que está fazendo não está de acordo com suas vontades.

— Eu sei que não. Mas ela já está acostumada com isso.

Seiya ardeu seu Cosmo novamente, traçando suas estrelas.

— Muito bem. Nesse caso, farei com que nunca mais possa voltar para cá. Você vai sentir a fúria dos meus Ventos de Tempestade.

Bian abriu os braços, seu Cosmo oceânico e profundo fez o lugar preencher-se de uma lufada forte em redemoinho que lentamente subiu até o céu-de-mar, onde Seiya vislumbrou acima de sua cabeça um enorme maelstrom se formar.

— Aquilo é… Eu já vi isso antes.

— Ventos de Tempestade!

O brado de Bian fez aquele abismo no céu convulsionar e derrubar feito um relâmpago uma tromba d'água que tomou o corpo de Seiya e simplesmente o sugou com violência, engolindo-o no oceano sustentado por aquele pilar. Algumas gotas ainda caíram sobre a face do General Marina que olhava para cima com a certeza de que tudo havia terminado ali.

-/-

Shinato de Lince e Mirai de Lebre caminhavam lentamente em guarda ao redor de um homem forte trajando uma armadura oceânica em tons azulados escuros; ele estava parado entre os dois com um sorriso no rosto, observando cada um deles ao seu jeito.

— Vocês demoraram. Já estou esperando por vocês há muito tempo.

Sua voz era bastante grave e ele era bem mais velho que os dois.

— Como sabia de nossa chegada? — perguntou Shinato, atenta.

— Quando estiverem prestes a morrer, eu contarei. O que importa agora é que vocês irão morrer aqui.

— Vai nos impedir de levar a Armadura de Bronze? — perguntou Mirai, que estava mais próximo da Urna. — Você é o Guardião da Armadura?

O Tenente-Marina gargalhou.

— Não me interessa essa proteção ridícula. Estou aqui para tirar a vida de vocês.

Shinato e Mirai se aprontaram para a batalha. Se quisessem levar a Armadura de Boieiro dali, precisariam vencer aquele terrível inimigo. Um Tenente Marina. Mas eles não sabiam disso e o guerreiro-do-mar gritou para o ar sua técnica especial.

— Levante!

— Mirai!

Tudo muito rápido: o Tenente bradou sua técnica e, às suas costas, o garoto Mirai de Lebre foi arremessado para o Oceano Pacífico, apenas para ser puxado de volta por outra lufada misteriosa de vento, pousando a salvo ao lado de Shinato.

— Ora, mas que surpresa a minha. Você também pode manipular o ar então. — apontou o Tenente Marina, com surpresa nos olhos.

— Maldito seja. Se não fosse por você, Shinato, eu já teria sido vencido. Quem é você, afinal de contas?

— Eu sou um Tenente Marina. Rosa dos Ventos.

— Um Tenente Marina? — perguntou-se Shinato, confusa.

— O que faz um Tenente de Poseidon neste lugar? — perguntou Mirai por ela.

— Vim matar dois Cavaleiros de Bronze.

E o Tenente Marina partiu para cima dos dois, fazendo com que ambos saltassem em direções opostas para não serem atingidos. Mas o salto deixou ambos vulneráveis para o Tenente Marina, que novamente bradou sua técnica Levante, fazendo com que os ventos lançassem Shinato e Mirai contra o paredão de pedra. Shinato foi capaz de amortecer o impacto, mas não impediu que ambos caíssem no fundo daquela reentrância.

Quando se levantaram, perceberam o Cosmo Oceânico de Rosa dos Ventos queimar forte mais adiante e sua voz bradar violentamente:

— Vento-Sul!

Uma rajada de gelo atingiu os dois, jogando-os contra o rochedo, congelando seus corpos na pedra e deixando-os temporariamente incapazes de se defender. O Tenente Marina saltou no ar e Shinato viu como os ventos gélidos ao redor do guerreiro transformaram-se em um tufão de fogo maravilhoso, em um espetáculo de luzes jamais visto.

— Sopro do Sol!

O fogo derreteu o gelo que os prendia, mas então queimou os casacos de pele que vestiam, bem como suas sobrancelhas, e chamuscou seus cabelos e roupas de baixo. Os dois caíram indefesos finalmente. A força daquele Tenente Marina era impressionante; a primeira batalha daqueles Cavaleiros de Bronze parecia realmente fadada ao fracasso.

A risada do Tenente Marina ecoava nos paredões de pedra enquanto ele caminhava até os dois corpos indefesos. Shinato e Mirai levantaram-se com dificuldades e a respiração dolorida; o garoto saltou para tentar lutar contra o Tenente no corpo-a-corpo, mas ele simplesmente o jogou para um lado, deixando Shinato sozinha à sua mercê.

— Primeiro você. — falou o Tenente-Marina. — Eu sei bem o potencial de quem sabe controlar o ar. Não vou dar chance para que me surpreenda. Vento-Sul!

O vento gélido avançou na direção de Shinato, que usou seu Cosmo para impedir o avanço daquela rajada terrível que fora capaz de congelá-la na pedra anteriormente. Ela sabia que, se fosse novamente pregada contra a rocha pelo gelo do Tenente, ele usaria seu fogo para finalmente dar cabo de sua vida. Ela precisava resistir. Mas o Tenente gargalhou diante de seu esforço.

— Que fofo. Vamos ver se é capaz de sustentar minhas duas técnicas! Sopro-do-Sol!

Shinato então ardeu seu Cosmo como nunca, lembrando-se dos milagres contados por Mayura sobre como Seiya e os outros haviam feito frente aos Cavaleiros de Ouro. O Sétimo Sentido. Aquela era a primeira batalha dos dois Cavaleiros de Bronze, mas sabiam o segredo de pertencer ao todo. Naquele instante talvez ela não tenha sido capaz de tocar o Sétimo Sentido, mas Shinato sabia que precisava unir-se a tudo que havia. O verdadeiro significado do Cosmo. E fez com que o seu Cosmo se unisse exatamente àquelas técnicas terríveis do Tenente-Marina.

Ela abriu os braços, separando o Vento-Sul e o Sopro-do-Sol de Rosa dos Ventos, cada um ao seu lado. Seu Cosmo inflamou e a Lince-das-Montanhas surgiu como uma galáxia atrás dela.

— Furacão de Lince!

Shinato saltou e sua Armadura de Bronze reluziu contra o paredão de pedra; sua técnica de furacão uniu-se ao Vento-Sul e ao Sopro-do-Sol, manipulando suas potências e redirecionando-as contra o Tenente Marina.

— Mas que miserável! — reclamou ele, muito surpreso.

— Agora, Mirai!

O Tenente olhou às suas costas e percebeu que o céu havia se transformado; onde antes brilhava o céu azul do Alasca, o Cosmo de Mirai pareceu conjurar nuvens carregadas. O Cavaleiro de Lebre saltou na direção do Tenente com um relâmpago enorme preso nas mãos.

— Relâmpago das Montanhas!

O trovão reverberou contra as pedras; Shinato de um lado com seu Furacão terrível e Mirai do outro com seu relâmpago reluzente saltaram na direção do Tenente Marina, que encontrava-se no meio dos dois. E ele foi soterrado por todos os elementos de uma só vez, causando uma explosão terrível no meio do lugar.

O choque foi tão violento que Shinato e Mirai também foram jogados para o lado e precisaram se ajudar para levantarem-se uma vez mais. Mas quando a fumaça se dissipou, o Tenente-Marina estava no centro, absolutamente intacto e com um sorriso no rosto.

— Que adorável combinação. Mas enquanto eu estiver usando essa Escama de Poseidon, a Bênção do Oceano estará ao meu lado. Nada poderão fazer, garotos.

Quando Shinato e Mirai colocaram-se novamente em guarda para continuarem batalhando, os três notaram que o Oceano Pacífico, contrariando seu próprio nome, aos poucos tornou-se revoltoso, e um enorme maelstrom capaz de engolir embarcações inteiras formou-se em alto-mar. Um Cosmo enorme invadiu o Alasca e os dois Cavaleiros de Bronze confundiram-se por um instante, imaginando que aquele podia ser um truque terrível daquele Tenente Marina.

— O que pretende fazer, Rosa dos Ventos? — perguntou Shinato, à beira do desespero.

— Oh, não se engane, Cavaleira de Bronze. Esse é o grande General Bian cuidando de seus amigos, eu tenho certeza.

— O quê!? — perguntou-se Mirai, olhando para o maesltrom que mais e mais tomava a forma de um funil infinito no oceano.

— E agora chegou a vez de vocês também encontrarem seu destino final.

Ele sorriu e seu Cosmo oceânico ressoou com aquele maelstrom; sua voz ecoou, como sempre, forte e decidida:

— Tramontana!

Das paredes da montanha e do chão de pedra em que estavam, precipitou-se uma nuvem de terra e areia que confundiram os sentidos dos dois Cavaleiros de Bronze até que o próprio chão em que estavam rompeu feito um terremoto e os jogou para o alto, caindo à beira do precipício do Oceano Pacífico.

Com o elmo espatifado, os olhos feridos e o corpo dolorido, Mirai olhou para o horizonte, onde se formava aquele terrível maelstrom, e viu algo extraordinário: um corpo arremessado pelo olho do furacão oceânico através do coração daquele tufão. O corpo arremessado para o ar caiu de volta na água, já tranquilizada após a tormenta. O corpo ficou boiando inconsciente por alguns segundos. O suficiente para que Mirai reconhecesse aquela Armadura inconfundível.

— Seiya…

Sua voz mal saía de seu corpo ao reconhecer o amigo em apuros; e, para seu desespero, o corpo de Seiya aos poucos afundou naquele oceano tranquilo.

— Não, Seiya… — lamentou Mirai.

Mas o corpo de Seiya não desapareceu simplesmente no oceano; assim que ele afundou, pareceu se transformar em uma esfera de luz dourada, lentamente se dirigindo para o fundo do Oceano. E quando finalmente desapareceu nas águas, o Oceano Pacífico brilhou em ouro por alguns segundos por toda sua extensão até perder de vista.

E aquele espetáculo encheu de esperança o coração de Shinato e Mirai.

-/-

Diante do Pilar do Pacífico Norte, o General Bian olhava para o céu-de-mar com um sorriso no rosto. A batalha havia terminado, mas ele podia sentir no ar úmido daquele pátio como haviam outros Cavaleiros dispostos a lutar em outros pontos daquele Reino. Novamente ele olhou para cima e respirou aliviado.

— Deveria me agradecer por te dar a oportunidade de ver a superfície uma última vez, Pégaso. Não acho que tenha forças para nadar até a costa, mas ao menos alimentará os peixes da região, que tanto sofrem com a pesca dos homens. É um bom modo de retribuir. Não sobrará nada de você.

Ele estava enganado. Seus olhos se apertaram ao notar que havia algo curioso no oceano acima de sua cabeça: um tênue brilho que, aos poucos, parecia se aproximar no céu-de-mar. Até que finalmente aquela luz no horizonte caiu feito um raio dourado à sua frente, abrindo uma cratera enorme no pátio onde, no centro, o Cavaleiro de Pégaso estava novamente de pé.

— Mas isso é impossível! Como foi capaz de retornar da superfície?

— Bian. Eu sou um Cavaleiro de Atena. E não lutei todas as minhas batalhas em vão. Eu seria capaz de ir até mesmo aos confins do Inferno se for preciso para salvar a Deusa Atena.

— Isso não faz sentido. Seu corpo deveria ter sido estraçalhado ao descer tão profundamente.

— Eu já não tenho tempo pra você, Bian. Meteoros de Pégaso!

Mas outra vez os Meteoros de Seiya não pareciam atingir Bian.

— Até quando vai tentar essa estupidez até que aprenda sua lição, Pégaso?

Mas dessa vez foi Bian quem se surpreendeu ao notar que um dos Meteoros de Seiya o atingiu no ombro. Sua face tornou-se imediatamente consternada.

— Mas o que é isso?

— Está surpreso? Experimente mais um pouco. Quem sabe você aprende sua lição.

E novamente os golpes pareciam bater contra alguma barreira invisível, até que outra vez estilhaçaram um ponto daquela proteção e atingiram novamente o General Marina. A Escama resistia, mas a capa oceânica que vestia o General foi retalhada pela força de Pégaso, obrigando Bian a saltar de onde estava para se esquivar dos fortes golpes de Seiya.

— O que está acontecendo? Você não era capaz de me atingir antes e agora voltou da superfície com mais força?

— Não, Bian, General Marina. Voltei com uma lembrança.

— O que quer dizer com isso?

— Há um bom tempo eu lutei contra um inimigo que se defendia exatamente como você. Um Cavaleiro de Prata chamado Misty. Ele também gerava uma barreira de ar com as mãos, impedindo que meus punhos tocassem seu corpo. Mas quando você me arremessou para o Oceano, me lembrei de como fui capaz de vencê-lo. Na água, aquela barreira não era tão efetiva. Assim como acontece com você. A umidade desse lugar deixa alguns pontos de sua defesa vulneráveis. Basta que eu concentre meus Meteoros em pontos específicos que você vai ser atingido.

O rosto de Bian contorceu-se de surpresa.

— Impressionante. Não imaginei que um mero Cavaleiro de Bronze tivesse tanta experiência de batalha assim.

— Assim como eu estou surpreso que você seja um guerreiro tão inexperiente, General.

Bian gargalhou.

— Devagar com o andor, Pégaso. Você pode ser realmente diferente para um Cavaleiro de Bronze, mas não deveria ter me contado a estratégia que pretende usar para me vencer.

— Não vou te vencer assim, Bian.

— Não irá me vencer de jeito algum, Pégaso. — falou o General, muito confiante. — Embora você seja capaz de furar minha barreira de ar por alguns instantes, seu golpe não é capaz de atingir o meu corpo enquanto eu estiver usando essa Escama de Poseidon.

O Cosmo de Bian ressoava de maneira belíssima com aquela Armadura que usava; ela o protegia completamente sem deixar brechas, como a simples Armadura de Bronze que Seiya usava. Tinha detalhes bonitos, motivos oceânicos e a interposição de duas ou três camadas de metal, como se fossem mesmo escamas de um animal marinho. Seu rosto era protegido por um elmo na forma de um cavalo, o Cavalo-do-Mar.

— As Escamas dos Generais Marinas de Poseidon podem ser comparadas às Sagradas Armaduras de Ouro do Santuário de Atena. De modo que é inútil que você e seus amigos estejam aqui, pois para conseguir qualquer milagre contra os Generais do Mar o Santuário deveria ter enviado seus Cavaleiros de Ouro.

— Você está enganado, Bian. — comentou Seiya, resoluto. — A sua Escama pode até mesmo estar no nível de uma Armadura de Ouro, mas o seu Cosmo é muito mais fraco.

— O quê!? — Bian tinha o rosto derretido de choque.

— É isso mesmo que eu disse. Eu posso sentir claramente como você ainda não está completamente preparado para essa batalha. Seu Cosmo não ressoa junto à sua Escama como deveria, e por esse motivo ela não é tão forte quanto você imagina.

— Está delirando, Cavaleiro de Bronze.

O Cavalo-do-Mar aprumou-se para a batalha e fez seu Cosmo oceânico brilhar debaixo do Pilar do Pacífico Norte, o pilar que ele deveria proteger como General Marina. Seiya respondeu àquela ameaça ardendo seu próprio Cosmo de Cavaleiro de Atena. Enquanto se encaravam, Bian pela primeira vez fechou a expressão, concentrando-se no seu próximo golpe.

— Sopro Divino!

A violenta ráfaga de vento avançou até Seiya para arremessá-lo por todas as pilastras daquele lugar, mas o garoto fincou os pés no chão e seu Cosmo fez com que os ventos de Bian convergissem em suas mãos. Seu corpo foi arrastado alguns metros para trás, deixando um rastro de pedra quebrado à sua frente, mas ele resistiu firme na sua postura.

— Como é possível? Ainda que seja capaz de ver através de minha estratégia, seu corpo deveria ter sido destruído junto com sua Armadura. Não somente agora, mas quando recebeu meus Ventos de Tempestade.

— Eu já disse que você não parece pronto para essa batalha, General Bian. Se fosse um guerreiro atento, teria percebido que a minha Armadura de Bronze não é uma Armadura de Bronze qualquer.

E quando Bian tentou procurar o que havia de diferente nela, um brilho dourado cobriu o Cosmo de esperança de Seiya e os dois punhos de sua Armadura de Pégaso reluziram em ouro diante dos olhos de Bian.

— O que está acontecendo? A Armadura de Seiya transformou-se em uma Armadura de Ouro?

— Esse é o Sangue de Ouro dos Cavaleiros do Santuário. — respondeu Seiya, orgulhoso daquele seu Cosmo. — Todas as Armaduras de Bronze destruídas na terrível batalha das Doze Casas foram revividas com a ajuda do sangue dos Cavaleiros de Ouro. De modo que cada um de nós carrega não só o sangue deles, como também sua missão, sua vontade e seu Cosmo. E quando tocamos o Sétimo Sentido, podemos também tocar na essência do que significa ser um Cavaleiro de Ouro.

— Mas isso é… Isso é… Eu sequer poderia imaginar, que…

— É exatamente isso, Bian de Cavalo-do-Mar. Você não é páreo para esses Cavaleiros de Bronze. E agora eu vou te mostrar!

Os Punhos de Pégaso de Seiya retornaram à coloração natural, mas seu Cosmo outrora azul como o oceano transformou-se em uma matriz calma mas poderosa de ouro, que tomou todo aquele pátio e o fez desaparecer atrás da luz. Bian desesperou-se sem compreender e apenas tarde demais percebeu que Seiya o havia tomado pelos ombros.

— Turbilhão de Pégaso!

— Seiya!

Os dois foram lançados em uma velocidade extrema daquele pátio até o paredão de água que se estendia por todo o céu-de-mar do Reino de Poseidon. A Escama de Cavalo-do-Mar de Bian se destruiu logo que os dois se chocaram contra a face do Oceano e, no fundo do mar, Seiya desvencilhou-se de seu oponente e finalmente o atingiu fatalmente com os Meteoros de Pégaso.

E pousou feito um herói de volta no pátio, enquanto o corpo de Bian espatifou-se em uma cratera. Derrotado.

-/-

No rochedo da península do Alasca, as risadas do Tenente Marina podiam ser ouvidas talvez por todo o continente, tamanha força que tinha sua voz e tal era sua alegria ao ter diante de seus pés dois corpos ensanguentados e vencidos: Shinato e Mirai já não tinham sequer suas Armaduras de Bronze para protegê-los.

— Dois Cavaleiros de Atena a menos. — comemorou Rosa dos Ventos, triunfante. — Matias deve estar no Chile. Para onde vamos agora?

Shinato tinha um dos olhos cobertos de sangue e o outro muito inchado, mas através daquela cortina vermelha que cobria sua vista notou que havia uma silhueta próxima dali. Alguém que havia ficado na escuridão.

— Há um destacamento na África. — falou uma voz que Shinato pôde reconhecer.

— Muito bem. Devemos partir o quanto antes.

— Esperem.

Ao lado de Shinato, ela percebeu que Mirai aos poucos lutava para se colocar novamente de pé; seu estado era absolutamente lamentável, seu braço estava coberto de sangue e havia um ferimento terrível em seu estômago.

— Nossa luta ainda não terminou. — falou ele, trôpego, tentando levantar também a amiga.

— Ora só, mas esses Cavaleiros de Bronze têm muito mais fibra do que eu imaginava. E muito mais do que você, não é mesmo?

A silhueta ficou calada.

— Está com vergonha, Cavaleiro de Atena? — debochou o Tenente. — Pois deixe que eu lhe apresente. Vejam, Cavaleiros de Bronze, este é o traidor que nos contou tudo sobre o destino de sua missão. Aqui, no Chile e agora na África. E todos vocês morrerão.

Shinato limpou os olhos e finalmente adivinhou quem estava ali: Sírio, o Cavaleiro de Prata de Cão Maior. Não usava sua armadura, mas a vergonha nos olhos era inconfundível. O Tenente Marina gargalhou daquela sorte e ascendeu seu Cosmo oceânico.

— Eu vou acabar com você. — jurou Mirai, seu cosmo estalando ao redor de seu corpo.

— Vamos, Mirai. Vamos juntos. Se for pra morrer, que seja do seu lado. — falou Shinato, também ardendo seu Cosmo ao redor do corpo.

— Como são fofos. Venham. Será o último sopro de suas vidas.

Imbuídos de uma força descomunal em seus últimos suspiros, Mirai e Shinato juntaram-se lado a lado e correram na direção do Tenente-Marina feito um relâmpago; Rosa dos Ventos protegeu-se do impacto e, como tantas vezes antes, surgiu incólume debaixo do espetáculo de luzes. Atrás dele, tanto Mirai como Shinato estavam ainda ofegantes, com o punho adiante como se houvessem atingido algo e houvessem sido paralisados.

E os dois jovens estavam agora face a face com Sírio, o Cavaleiro de Prata que havia traído o Santuário e entregado suas vidas àquele Tenente Marina. Bem como também a localidade de Nachi e Ban no Chile e Geki na África. Naquele instante, tudo parecia nebuloso e misterioso, pois haviam deixado o Santuário em um período de fé no futuro, mas agora a realidade aos poucos se estilhaçava em uma trama de traição e caos.

Às suas costas novamente o Tenente Rosa dos Ventos desatou a rir da impossibilidade de ser acertado e os dois Cavaleiros de Bronze caíram vencidos no chão.

— Vamos embora daqui de uma vez, Cavaleiro de Atena. — falou o Tenente, muito alegre, para o traidor do Santuário.

Sírio ainda recolheu a Urna de Armadura de Boieiro para levar consigo e juntou-se ao Tenente na trilha adiante.

À beira da morte, os amigos Shinato e Mirai rastejaram pela pedra até que pudessem estar juntos; até que suas mãos pudessem estar unidas. E como sempre viveram, decidiram morrer. Pois ali morreram os Cavaleiros de Lince e de Lebre, discípulos de Mayura.

Notas finais
SOBRE O CAPÍTULO: Gosto de usar o começo do capítulo pra mostrar os Cavaleiros de Bronze em suas missões de recuperar Armaduras pelo Mundo. Shinato e Mirai retornam aqui, para que não nos esqueçamos deles; sua luta contra esse novo personagem, um Tenente Marina é impressionante. Eu gosto da ideia dos Tenentes Marinas e colocá-los em ação aqui, sugere que algo a mais está se passando com o exército de Poseidon. A luta entre Seiya e Bian não difere muito do que conhecemos, pois ela realmente é perfeita do jeito que é. Próximo Capítulo: O Dragão Shiryu Shiryu de Dragão chega ao Pilar Índico para lutar contra uma oponente impressionante.