Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
134 O Despertar de um Deus
Por debaixo da máscara, ela sorriu. Levantou-se do banco e estendeu a mão para Seiya.
— Eu sou a Marin. E eu vou te ajudar a conseguir a Armadura de Pégaso.
O garoto devolveu o cumprimento àquela mulher misteriosa e a seguiu em silêncio pela rua pavimentada da praça; passaram por olhos curiosos que escondiam-se nos becos e janelas e tomaram caminho para as montanhas, para onde uma estrada de pedra seguia margeada por postes de luzeiros espaçados. Longe da cidadela, a trilha se desviava do caminho principal para subir uma escarpa sinuosa até um casebre isolado em um pequeno planalto que dava vista para todo o vilarejo lá embaixo e o imenso Mar Egeu à esquerda.
À todos esses detalhes, o garoto apavorado notou enquanto caminhavam em silêncio. Chegando no pequeno casebre em que Marin morava, ela pediu no idioma comum dos dois para que ele guardasse suas coisas num pequeno armário de madeira, comesse um pedaço curtido de cordeiro e fosse dormir.
— O treinamento começará amanhã na primeira luz do dia. Descanse. — pediu ela, muito séria.
O menino obedeceu em silêncio e, embora tivesse mil coisas na cabeça, o cansaço da viagem havia sido tão extenuante para ele, que não demorou tanto para realmente cair no sono naquela cama dura.
Marin ficou acordada. Olhou para o menino dormindo de costas para ela e pensou em tantas coisas. Buscou em um baú oculto por livros algo de que sentia falta e segurou na palma da mão algo de seu passado. Levantou e sentou-se na janela aberta da choupana, que dava para o lado do mar, trazendo uma brisa que atravessava o casebre. Marin tirou a Máscara de Prata que tanto havia assustado o garoto e deixou ao seu lado, sentindo o toque do ar no rosto e olhando para o céu, onde a mancha da Via Láctea cruzava as constelações.
Talvez tenha até cochilado alguns momentos, não saberia dizer, mas quando voltou a si, Marin percebeu que o garoto se remexia na cama; instintivamente recolocou a Máscara de Prata e olhou para ele. Estava inquieto e balbuciava algo, com certeza sonhava de maneira profunda, mas então seus espasmos começaram a serem mais fortes até que de sobressalto ele acordou levantando o tronco num susto. Arfava buscando o ar depois de ter corrido de qualquer pesadelo que o perseguia durante o sono, olhou para os lados sem saber onde estava ou se ainda sonhava.
— Seika!? — admirou-se ele olhando para ela, contornada pela luz da lua e das estrelas.
E então fez menção de se levantar, quando finalmente pareceu se dar conta do engano. Parou antes de descer da cama. Não era Seika.
— Venha até aqui. — chamou ela, séria, no idioma que somente eles entendiam naquele país.
Seiya sentiu que não podia desobedecer e levantou-se cambaleante indo até a janela, apoiando-se no parapeito sentindo a brisa tocar suas bochechas.
— Olhe para o céu, Seiya. — ordenou ela e o garoto levantou os olhos deixando-se encantar pelo maravilhoso céu estrelado da Grécia. — Disse que veio para cá conquistar a Armadura. Se quiser a Armadura de Pégaso, você terá de se tornar uma entre todas essas que estão no céu.
Ele ficou admirado com a visão, pois era a primeira vez que via tantas estrelas juntas, tantas cores no céu, tanta luz durante a noite; ele era um garoto energético e arteiro, mas aquela estranha viagem forçosa para longe de sua irmã haviam drenado toda sua energia, ao ponto que desde que descera no porto grego, ele caminhou olhando somente para o chão e seus pés. Marin logo percebeu isso no garoto enquanto caminhavam e sabia que aquele céu seria capaz de hipnotizar os olhos de um garoto corajoso como aquele.
Desceu da janela deixando-o hipnotizado pelas estrelas e buscou uma caneca de barro para trazer água fresca para o menino. E enquanto esvaziava uma garrafa na caneca, escutou um tilintar familiar, que a fez imediatamente olhar para Seiya. Ele levantou no ar um bonito sino de pedra iluminado pela lua e mostrou para ela.
— Acho que você deixou cair. — falou com inocência.
Marin retornou com a água e trocou a caneca pelo sino de pedra, que guardou dentro de suas vestes.
— Parece uma estrela. — comentou ele, bebendo um primeiro gole da água.
— Se eu te contar que caiu do céu, você acreditaria?
— Sério? Como uma estrela cadente?
— Talvez. — respondeu Marin, misteriosa olhando para o céu, convidando Seiya a fazer o mesmo.
Ele tomou outro gole e então terminou toda a água. Ficaram um tempo em silêncio, como se aquele céu os convidasse a somente olhar. Ela recolheu a caneca e pediu que Seiya dormisse.
— Seu treinamento começa amanhã. Não há ninguém aqui ou perto daqui. Não tem nada a temer.
— Não tenho medo. — falou Seiya voltando para a cama. — Tenho saudade da minha irmã.
Marin ficou calada cuidando da organização e deixou que o menino dormisse, embora ele tenha se virado para o lado das sombras da choupana e deixado escorrer algumas lágrimas de saudade por Seika. Que ele logo limpou, para que ela não o visse chorando.
Corajoso, pensou Marin na escuridão, olhando de volta para o sino de pedra que tinha na palma da mão.
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Ao despedir-se de Shun, Seiya tomou seu caminho até o Templo Principal; faltavam ainda alguns Pilares de pé, mas ele sabia que o amigo tinha um Cosmo imenso e cumpriria com sua palavra. Era preciso se apressar para salvar Saori. Mas o caminho que levava do Templo do Pacífico Sul até o Pilar Fundamental pareceu se enveredar em ruelas e trilhas confusas, que pareceram confundir os sentidos de Seiya e atrasá-lo em sua marcha. Tinha certeza absoluta que alguém agia em seu Cosmo.
Até que finalmente chegou em algum lugar. Olhou para trás e então para o enorme Pilar à frente dele.
— Alguém me trouxe até aqui. Mas que droga, preciso chegar até Poseidon.
E assim que se arrumou para voltar pelo caminho de onde havia vindo, Seiya percebeu um corpo estirado no chão e uma sensação familiar em seu peito, como a centelha do Cosmo de um amigo. O garoto se aproximou do corpo inerte e percebeu que era Hyoga. Muito ferido.
— Acorde, Hyoga! — tentou ele, virando o corpo do amigo e notando a poça de sangue abaixo dele.
Percebeu o ferimento no pescoço ainda vertendo sangue e improvisou uma bandagem com pedaço de sua roupa para estancar a ferida. Tentou notar os arredores enquanto cuidava do amigo e percebeu que se tratava de um pátio curiosamente gélido com alguns pontos congelados no chão e nos pilares mais próximos. Antes que desse o último nó na bandagem, Seiya teve certeza de que ouviu vozes ao longe. Vinha da direção do pilar, embora ele não pudesse ver ninguém. Ele se colocou em guarda. Ficou em silêncio, buscando escutar, pois era como se as vozes discutissem entre si. E ficavam cada vez mais próximas, até que finalmente ele pôde discernir algumas palavras femininas.
— Me deixa em paz! — falou uma das vozes se aproximando, mas sem se mostrar.
Uma mulher. Ela seguiu correndo, ele podia ouvir, até que foi interceptada e deixou escapar um grito lancinante de desespero e dor.
Seiya olhou para Hyoga, lembrou-se do caminho sinuoso e calculou que poderia ser uma armadilha. Talvez a mesma que havia derrubado Hyoga. Não se moveu e buscou qualquer coisa suspeita naquele pátio. Não havia nada. Nada além daquela voz que parecia ecoar, gemia de dor, respirava com alguma dificuldade e sofria de alguma maneira.
— Apareça, General Marina! Eu sei que está se escondendo! — anunciou Seiya chamando por alguém que se escondia.
— Quem está aí? — respondeu a voz ao longe da mulher, com sotaque curioso da língua-comum, mas imediatamente congelando o coração de Seiya. — Me ajude, por favor! Ela deve voltar a qualquer instante. Por favor, me ajude.
Seu fôlego faltou e a guarda que Seiya havia corajosamente levantado estava completamente substituída por um choque profundo em seu peito. Aquela voz.
O corpo de Hyoga o alertou de volta para o dever, mas aquela voz suplicante o levou para longe dentro de suas memórias. Ele subiu as escadas com cuidado e atenção, enquanto a garota que parecia sofrer também parecia se aproximar. Quando Seiya chegou na base do Pilar, um mezanino de parapeito baixo, logo viu a silhueta de uma menina surgir da esquina do pilar mancando com uma das pernas ferida de sangue. Seus olhos colaram-se imediatamente. O tempo parou para o Cavaleiro de Pégaso. Sua cor desapareceu.
— Seiya?
A voz da menina era a de sua irmã, os olhos eram também, assim como o cabelo cheio e a maneira como ela o chamava. Seu corpo parecia leve, sua audição pareceu deixar de funcionar, as cores do oceano ao redor pareciam ter ganho tons quentes; o objetivo de sua vida estava ali na frente dele, a irmã de quem havia se despedido para a Grécia e que nunca mais voltou a ver. A memória que todos os dias o machucavam de saudade, e que ele precisava empurrar para longe para seguir com coragem com seu dever de Cavaleiro.
Seiya gaguejou seu nome de volta.
— Seika?
Vê-la naquele momento não fazia qualquer sentido, mas do primeiro momento que escutou as vozes ao longe se aproximando daquele lugar, ele percebeu que o calafrio que havia sentido era uma angústia, uma ansiedade, talvez um medo e sem dúvidas uma enorme esperança de que fosse realmente o reencontro que ele tanto queria.
"Eu tenho certeza absoluta de que encontrará sua irmã novamente. Mais cedo do que imagina."
Não tinha um dia que Seiya não procurasse nas suas noites mal-dormidas o significado daquela frase final de seu Capitão Meko Kaire. E agora ela estava ali, cumprindo a profecia daquele homem imenso. Tudo isso passou por alguns segundos na mente de Seiya, como se o tempo realmente houvesse parado. O tempo seguiu e Seika tentou caminhar na direção do irmão, mas o ferimento a fez tombar para o lado e procurar apoio na base do Pilar. Seiya adiantou-se até ela e a ajudou a ficar de pé.
Ela era mais alta do que ele, exatamente como ele se lembrava; olhou para cima e encontrou os olhos chorosos de sua irmã também. Ela o puxou para um abraço e, de início, o menino mal sabia o que fazer com os braços. Seiya chorou imediatamente sentindo o perfume dos cabelos que caíam nos seus olhos.
— Eu tentei te procurar em todo lugar. — chorou ele para ela.
— Eu sei. — respondeu Seika ao pé de seu ouvido.
O garoto finalmente deixou-se levar e abraçou de volta sua irmã amada.
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As nuvens carregadas que haviam sido pacificadas pelo alerta de Atena voltaram a cobrir as cidades litorâneas do mundo todo; deixando amedrontadas as crianças do Orfanato das Estrelas, que haviam finalmente retornado ao local depois da limpeza e reforma desde a última terrível tempestade. A pacata cidadela no alto da montanha ainda desmontava os abrigos temporários que foram levantados para receber a gente do litoral e cidades ribeirinhas do entorno; Shoko olhou para o céu preocupada enquanto ajudava sua irmã à dobrar lonas com a incerteza de que talvez fosse necessário estendê-las novamente.
Uma sirene grave de alerta soou alta em outro toque de recolher em Palaestra quando as nuvens carregadas se anunciaram no horizonte, pois eles sabiam melhor do que muitos a natureza divina daquela punição. Helena apertava contra o peito a Pena da Fênix que Ikki havia lhe dado, velando os últimos dias de seu avô, vitimado pelo cansaço da grande tempestade que havia abatido aquela ilha. Jacó, na Sibéria, percebeu que o branco do céu estava entre os piores brancos, aquele que seu povo sabia trazer o prenúncio de uma grande tempestade de neve. De pé na Ilha Lamu, Geki olhava para o oceano revoltoso à sua frente, ainda muito longe de seu objetivo de recuperar a Armadura de Bronze perdida.
Shunrei e Dohko imploraram que o velho Mestre Ancião entrasse para dentro do casebre, mas ele teimava que era necessário estar vigiando aquela maldita cachoeira, ainda que o volume daquela chuva que se anunciava pudesse transformar aquela plataforma de pedra em que ele meditava em mais um obstáculo derrubado pela água que cairia daquela cascata. Nem uma gota sequer de chuva caiu naquele momento, mas o terror da memória do que havia acontecido naqueles poucos dias de tempestade ainda eram recentes demais na cabeça das pessoas. O medo era real.
E nas colinas do pavor, uma mulher terrível observava a fileira de almas que marchava numerosa para o abismo dos mortos. Ela tinha um sorriso de canto no rosto, quando falou apenas para si, baixo e sussurrado.
— Sempre di più.
— O que foi que você disse? — perguntou uma menina atrás dela.
Máscara da Morte olhou por sobre os ombros e respondeu com desdém.
— Que morre-se cada vez mais naquele inferno.
— Em todas as colinas. Alguma coisa deve ter acontecido.
— Alguma outra guerra. A única constante da humanidade é que em algum ponto vão todos se matar. — observou a mulher com cinismo.
Xiaoling ficou séria, ainda tinha no corpo a Armadura de Ursa Menor, mas usava por sobre ela os rasgos de um manto escuro que lhe tirava completamente a feição de alguém contente. As filas e filas dos que haviam morrido realmente nunca estiveram tão cheias como naquele último semestre, ou ano, ou semana, ou dias, o tempo se passava tão confuso naquele lugar, que ela já não sabia mais.
Uma risada entretida cortou o silêncio daquela colina pavorosa e Xiaoling olhou para a odienta Máscara da Morte.
— Acha engraçado tanta morte assim? Você é ridícula.
— Não é disso que estou rindo, criança. Olhe ali na frente, acho que vem alguém que você conhece.
Xiaoling correu na direção que Máscara da Morte apontava e viu no meio da multidão, uma garota caminhar de olhos cabisbaixos usando um vestido rasgado e franjas inconfundíveis.
— Saori. — lamentou Xiaoling disparando uma gargalhada de Máscara da Morte.
A mulher pegou-a pelo braço e saiu correndo com ela na direção contrária em que aquela fila caminhava.
— O que está fazendo, me largue!
— Vamos, criança, se aquela garota está marchando para o inferno, isso só pode significar que, se tivermos sorte, aqueles seus adoráveis amigos devem estar vindo logo atrás.
E riu gostosamente. Assim que reconheceu outra face curiosa, ela jogou Xiaoling no chão.
— Olhe para isso. Não está feliz, pulga? Logo, logo, vocês estarão todos juntos!
— Seiya! — reconheceu Xiaoling ao ver o garoto também marchar com sua Armadura de Pégaso morta entre os cadáveres da colina.
Ela o sacudiu de todas as maneiras, sem que ele reagisse a nada, como ela bem sabia. Mas ainda assim ela tentava.
— Ele não te escuta. — pontuou pausadamente Máscara da Morte com escárnio na voz.
— Acorde Seiya, você precisa salvar Atena. Você precisa! — brilhou ela o Cosmo de menina que a deixava triste. — Faça alguma coisa, Máscara da Morte!
— Fazer alguma coisa? O meu maior sonho está se realizando. — falou ela com um riso colérico no rosto. — A Terra estará muito melhor sem ela e essas crianças. — e então gritou pelo céu sem cor da colina do pavor. — Um brinde à morte de Atena!
E gargalhou para desespero de Xiaoling, que ainda buscava impedir que Seiya seguisse em frente. Ela sabia. Todos sabiam. Enquanto Pégaso vivesse, Atena estaria salva. Mas Seiya agora marchava para sua morte.
E como se respondesse ao chamado de Máscara da Morte, um tremor leve se espalhou pelo Yomotsu Hirasaka, fazendo com que ela se detivesse por um instante. Ela sorria, contente, e Xiaoling morria de tristeza.
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Dentro da ilusão, os Cavaleiros de Ouro não perceberam a mudança no céu, nem receberam tremores na terra; mas para eles não era necessário o anúncio das nuvens para perceber um terrível mau agouro se aproximando. A imagem ao nível do chão que se projetava aos seus Cosmos também permitia à todos que vissem a figura imponente que se levantava do trono.
— Aquele é Poseidon. — concluiu Aldebarã entre eles.
E logo que Julian colocou-se de pé na visão, todos sentiram uma enorme presença, uma pressão sufocante que os fez buscar o ar por um instante; não era algo palpável, mas simplesmente a ideia e que Poseidon havia desperto os trazia um temor primordial escondido em cada um deles, pronto para despertar diante de uma entidade divina. Também adicionava ao terror o fato de que a visão daquele misterioso observador pareceu vacilar transformando as cores e as formas ligeiramente naquela projeção, como se tremidas de pavor.
— O Deus dos Mares se levanta para colocar todos de joelhos. Como esse pobre coitado que está diante dele. — falou Shaka, cheia de tom na voz.
Não sabiam ainda sua identidade, se aliado ou inimigo. Viram como a visão foi interrompida pela imagem dos dedos de quem quer que se comunicava com eles, como se olhasse sem compreender para suas próprias mãos.
— É uma Armadura. — percebeu Mu. — É de um metal diferente das Armaduras dos Cavaleiros de Atena. Brilhante, mas diferente. Dizem que as proteções dos Marinas de Poseidon foram forjadas no Oricalco, o metal sagrado de Atlântida.
— Então esse é um Marina. — concluiu Miro, surpreso.
— Mas porquê um Marina se comunicaria com todos nós? — perguntou Aioria para Miro que estava ao seu lado.
— Essa é a pergunta errada a se fazer, Cavaleiro de Leão. — adicionou Shaka, muito atenta. — O que todos nós devemos nos perguntar é como um Marina de Poseidon foi capaz de se comunicar com o Cosmo dos Cavaleiros de Ouro do Santuário.
Olharam-se todos absolutamente confusos, menos Miro, que não tirava os olhos daquela projeção.
— Vejam! — alertou Miro.
A Armadura de Oricalco que protegia aquele misterioso observador pareceu sublimar de suas mãos, evaporando um brilhante pó estelar que parecia abandonar sua composição sem, no entanto, quebrar seu encanto. O trilho de poeira estelar ou de oricalco, jamais saberiam, flutuava com graciosidade na direção daquele homem que havia se levantado do trono. O Deus dos Mares.
Os corpos mortos de Ío, Krishna e Bian também tinham suas Escamas sublimadas por uma força misteriosa, enquanto na Passagem da Bifrost, já longe do Reino Submarino, Sorento e Isaac marchavam para Asgard ajudando-se um ao outro, quando perceberam que suas Escamas desprendiam luz e poeira em pontos distintos. Tanto Kraken como Sirene pareciam atender ao chamado de Poseidon como as demais Criaturas do Mar. Os dois olharam por sobre os ombros, sentindo que o Deus dos Mares finalmente parecia ter desperto.
No Pátio do Pilar Ártico, o corpo de Cassandra ainda era revestido pela Escama de Limnádis, que começou a sublimar igual seus pares; doando à Poseidon um pouco daquela magia que ele próprio havia dividido entre seus Generais. O trilho de poeira uniu-se aos dois que surgiram da Ponte Bifrost e, juntos, rumaram para o Templo de Poseidon como um cardume que converge para a nascente de suas vidas.
Na Câmara do Trono, Poseidon ergueu seu Tridente e os sete trilhos de poeira cósmica uniram-se ao seu corpo, materializando uma Escama maravilhosa que o cobria totalmente, com exceção do rosto. Quando ele fincou o Tridente outra vez no chão, a onda de energia viajou por todos os Sete Mares e as Relíquias que estavam seladas explodiram em um clarão de luz rompendo o selo de Atena que as mantinha fechadas.
No Cabo Súnion, o pedestal vazio do Tridente iluminou-se de todas as suas gemas enquanto as ondas do oceano quebravam forte no litoral da Grécia. Mas aquele estrondo de Cosmo e Luz não chacoalhou apenas a terra e o mar, mas também abriu os olhos do Cavaleiro de Pégaso.
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"Seiya!"
Escutou tantas vozes chamando seu nome enquanto morria.
Hyoga chamou por ele, e talvez tenha sido o primeiro, mas lembrava-se de Hyoga chamando-o também quando ele o acompanhou para a Sibéria, agora já há tantos meses. Naquele fatídico momento em que o Cavaleiro de Cisne buscou seu Mestre por sabedoria e acabou em tragédia. Será que aquela voz vinha de longe? Daquele dia em que Hyoga precisou enfrentar e matar seu próprio Mestre? E depois fazer tudo de novo nas Doze Casas do Santuário?
Então ouviu a voz de Shun lhe chamar. Esse sim, de longe, o que mais chamou por seu nome naquela curta vida que tinha. Fosse no orfanato quando eram crianças enquanto Seiya fugia com alguma coisa que não era dele, fosse depois contra os Cavaleiros Negros, na busca de sua irmã, ou finalmente nas batalhas mortais contra os Cavaleiros de Ouro. Mas parecia que o chamava de novo ali, no éter de seu desaparecimento. Assim como Shiryu e até mesmo Ikki. Porque chamavam por ele? Chamavam agora ou chamavam antes? Shiryu perdeu a visão para salvá-lo, mas Ikki jamais chamaria por ele, será que sonhou ou sonhava?
De outro lado de sua mente veio a voz de June gritando por ele, com quem viajou por muitos meses em alto-mar. Ela também o chamava incontáveis vezes naquele navio, sempre a lembrá-lo de alguma coisa, acordando-o para o expediente, ou alertando-o de algum perigo. E agora ouvia sua voz outra vez, mas sem saber se acontecia antes ou agora, ou depois.
"Seiya!"
Repetidas vezes imaginava ouvir Saori lhe chamar.
E talvez ela nunca tenha realmente lhe chamado, mas ele sempre imaginava que ela gritava por seu nome, como ele gritava o seu, desesperado que ele a deixasse partir.
— Seiya.
Aquela voz sim era a voz que ele mais queria ouvir novamente. Quando abriu os olhos e viu a garota de cabelos fortes olhando para o horizonte, pareceu transportado para o mesmíssimo sentimento de quando havia sido ferido mortalmente.
— Seika?
A visão ainda era um pouco turva, mas quem falou-lhe de volta não era sua irmã.
— Está me confundindo de novo, Seiya. — alertou Marin, muito séria. — Levante-se daí. Atena precisa de você.
— Ah, Marin. — reconheceu ele novamente seu engano. — Me perdoe. — começou ele finalmente levantando o tronco.
— Eu sei exatamente porque está aí, Seiya. — interrompeu ela, antes que ele perdesse tempo tentando se explicar. — Não se culpe. Eu não o culpo.
O garoto respirou fundo e tocou o ferimento no baço, reconhecendo ao seu lado o tecido da roupa de Shun e amarrado na sua cintura uma echarpe nortenha que June usou nos dias de Asgard. Ao seu redor, um campo de batalha com corpos estirados e vencidos; sua cabeça estalou uma sonora ressonância que lhe apagou a audição por um instante, como se sua mente se acostumasse à luz daquele dia-do-fundo-de-mar. Olhou novamente para Marin, reconhecendo suas formas e notando que escondia seu rosto ao não encará-lo. Estava sem a Máscara de Prata.
— Fico feliz que esteja aqui, Marin. Mii nos contou que você a ajudou a chegar em Asgard.
— O que ela lhe contou? — perguntou Marin, curiosa como Seiya talvez nunca tenha notado.
— Não se preocupe. O que você pediu para não contar, ela não contou. Embora eu tenha insistido muito. — disse ele esfregando os olhos ainda de garoto.
Marin ficou em silêncio enquanto ele se recompunha e, ao olhar melhor para o semblante de Marin, Seiya percebeu algo curioso e estranho.
— Onde você está? — perguntou ele, já adivinhando.
— Não estou aqui realmente. Falo com você de longe, Seiya.
— Não está… — morta?, pensou ele sem coragem de falar.
— Não. — falou ela. — Mas também não estou aqui. Estou na superfície e as chuvas de Poseidon novamente ameaçam toda a humanidade. O Deus dos Mares deve ter finalmente despertado de seu Sono Profundo. Se eu fosse adivinhar, eu diria que os Cavaleiros estão lutando com ele pela vida de Atena.
Seiya olhou ao redor e viu apenas um Pilar de pé; aquele que era o mais colossal e importante do Reino Submarino, o conhecido Pilar Fundamental onde Saori era afogada segundo a segundo por toda a chuva que deveria cair na Terra. E se a chuva agora ameaçava a superfície, significava que sua câmara já devia estar cheia demais para até mesmo o Pilar Fundamental suportar a ira das águas.
— Seiya. — chamou Marin outra vez e ele olhou para sua projeção, ainda escondendo-lhe a face atrás de seus cabelos fortes e sua vestimenta curiosa. — Olhe para o céu. O que você vê?
Ele obedeceu.
— A água do mar.
— Olhe mais fundo. — pediu ela.
Ele tentou, mas não compreendeu imediatamente.
— Não consigo enxergar nada além da água do oceano, Marin.
— Então feche os olhos.
Seiya olhou para Marin primeiro e então para o céu-de-mar que estava muito perto dele; fechou os olhos e à princípio viu apenas a escuridão de sua visão manchada pelas luzes ao redor. Mas pouco a pouco salpicou em seus olhos pontos brilhantes muito distantes.
— As estrelas.
— As estrelas que viu naquela primeira noite estarão sempre brilhando no céu, Seiya. Não importa se as nuvens a cobrirem, se o ar sujo as esconderem, se um teto velho se colocar no caminho ou até mesmo se o oceano inteiro afogar sua visão. As estrelas vão estar sempre lá.
— Porque nós somos feito de estrelas. As estrelas estão sempre em nós, é isso que quer me mostrar, Marin?
De onde Marin estava, fosse onde fosse, ela queimou seu Cosmo maravilhoso e Seiya viu ao redor daquele corpo adorado o brilho, a luz, o fogo de muitas cores brilhantes cobrindo seu corpo, movendo seus cabelos como se tomada por ventania mágica.
— Queime seu Cosmo, Seiya.
Ele obedeceu cerrando os punhos e sentiu que seu Cosmo ressoava com aquele oceano, com sua ferida, com os tecidos de seus amigos e finalmente com as estrelas. Não somente uma aura o cobria de luz, bem como viu que sua própria pele e a Armadura de Pégaso pareciam reluzir em dourado com uma curiosa translucidez em que parecia que seu corpo inteiro fosse preenchido por galáxias. Ele ficou maravilhado com a visão. Fechou então os olhos e viu as treze luzes da Constelação de Pégaso pulsar em ouro.
Era parte de tudo. Era o Sétimo Sentido.
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A Escama Profunda de Poseidon cobria o corpo do Senhor dos Mares, enquanto a túnica que ele usava antes reduziu-se à uma bonita capa branca que esvoaçava atrás dele enquanto marchava a passos lentos da Câmara de seu Trono para o Corredor das Águas. E cada passo que dava, o Oceano e a Terra inteira tremiam sob seus pés.
Os Cavaleiros de Atena perceberam a intromissão daquele Cosmo magnânimo e dos tremores que ele trazia; olharam todos por sobre os ombros e viram aquela figura caminhando calmamente na direção deles. Era de uma espécie completamente diferente do homem que haviam enfrentado, pois agora realmente parecia uma figura divina. O céu-de-mar acima da cabeça de todos pareceu se mover feito um torvelinho convergindo atrás de Poseidon em um espetáculo terrível.
Shun e os demais apressaram-se com seus socos inúteis, como se fossem ainda capazes de libertar Saori de sua prisão. Tétis ao lado de Alice deu alguns passos para trás sentindo algo por Julian que ela jamais imaginou que seria capaz: medo e devoção. Era muito diferente da ansiedade e da paixão que sentia pelo homem. Mas a Coruja de Atena seguia com sua tristeza imovível, segurando a flecha partida e o coração derramado.
Poseidon fez arder seu Cosmo Profundo e, quando o fez, o céu-de-mar finalmente revolucionou em uma tempestade marinha hipnótica que alternava matizes púrpuras, anis, esmeraldas, rosas e brancos. A Profundidade levantou seu poderoso Tridente e o Corredor das Águas foi invadido por uma explosão de água-salgada que parecia tomar o Reino Submarino de assalto, quebrando-se em ondas gigantescas atrás de Poseidon, sem que elas avançassem, como se houvesse um muro invisível em suas costas.
No céu-de-mar, Tétis percebeu que o oceano parecia se abrir revelando paredões de água espalhados por todo o horizonte. A dimensão daquela força era incomensurável e Shiryu sentiu como se aquele fosse mesmo o seu fim. Aquela força mataria a todos; iria obliterar Alice de Sagitário, chorando por Saori com a Flecha em mãos, Tétis, sua fiel Sereia, bem como todos os Cavaleiros que ainda lutavam contra o Pilar.
Mas a morte não veio.
As ondas se acalmaram. O céu-de-mar voltou à sua hipnótica maré calma. O Cosmo de Poseidon havia se abrandado. Alice, sem compreender por qual motivo ainda vivia olhou por sobre os ombros e viu alguém.
O Cavaleiro de Pégaso.
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