Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
116 Atena e Poseidon
Dias atrás.
Afundando eternamente nas águas do mar, ela ainda podia ver o brilho do céu que iluminava a sua Terra ficando cada vez mais distante; o cabo rochoso de onde seu corpo havia sido varrido por uma forte onda e a faixa daquele céu alaranjado se perdiam cada vez mais. Seu corpo era lentamente tragado para as profundezas, esticado e puxado até o ponto em que não haveria mais retorno.
O vestido tremeluzia com os humores do mar profundo, como num vôo de fantasia por um campo aberto e cada vez mais escuro. Sozinha, seus sentidos aos poucos vacilavam enquanto uma fatal atração parecia controlar seu corpo, de forma que ela não parecia capaz de escapar daquela força irresistível.
Já não podia mais enxergar o céu, o seu céu, na distância, incapaz de dizer qualquer coisa, enquanto ela começava a se sentir menos divina e mais humana, apenas uma garota. Uma garota rebelde que buscou resolver os problemas do mundo esperneando à beira-mar. Seus ouvidos já começavam a doer pela pressão das profundezas e, quanto mais se aprofundava, refletiu que talvez não tivesse pensado muito bem naquele plano. Sem alguém para ajudá-la a encontrar o caminho de seu destino, vazia e caindo como se transformada em pedra.
Ela tentava olhar ao seu redor, mas estava inteiramente cercada por outra força, fora de seu domínio, como uma alma tensa aprendendo a voar. Feita para ser raiz na terra, mas determinada a tentar voar pelo fundo do oceano.
Abaixo do planeta, seu vestido branco dançava e ela fez uma oração aos seus deuses; seu Cosmo divino ao redor do corpo, enquanto um rastro de luz a acompanhava no oceano. Já não enxergava muito mais que um palmo à sua frente; sua consciência lentamente se apagando em uma sensação incomparável, como se em um estado letárgico de animação suspensa, um estado de graça.
Um corpo que caía eternamente nas profundezas do mar.
Seu báculo de ouro refletia nas vagas densas do fundo do mar, e em cada reflexão da luz ela parecia ver uma desgraça diferente: o rosto de crianças chorando pelos seus pais levados por uma enxurrada, cachorros farejando corpos em monturos de terras causados por deslizamentos que engoliam casas e bairros inteiros, o trânsito de carros sendo chacoalhados em uma ponte pênsil por ondas colossais, famílias inteiras em cima de casas alagadas em bairros periféricos.
A Terra que Atena deveria proteger sendo destruída pelas águas que agora a tomavam por completo. E rodeada pela profundeza dos mares, Saori sentia a tristeza e a dor de todos que sofriam na superfície.
Mas ela continuava caindo eternamente sem poder fazer nada.
Seus olhos fecharam-se, mas seus ouvidos ouviram um lamento bonito cantado no fundo do oceano; uma voz doce e mesmerizante que a jogou para dentro de si como já havia feito outra vez. Entre a canção, escutou palavras antigas novamente em seus ouvidos.
— Você é a Deusa Atena. A Deusa da Terra. A protetora do Mundo.
Era a voz sábia de Mestre Mayura em um desses muitos dias que Saori a procurava em seu retiro, cheia de dúvidas sobre a vida e sobre os seus deveres.
A Deusa da Terra.
Aquelas palavras ecoaram em sua mente até que ela se apagasse.
-/-
Saori despertou em um local fantástico.
Seus olhos se abriram e a primeira coisa que viu brilhar estirado no chão foi o báculo de ouro que ainda estava na sua mão direita; e com ele, lentamente Saori se colocou de pé e percebeu que estava em algum lugar impossível.
Um lugar em que o céu era formado pelo oceano se quebrando a muitos metros acima de sua cabeça. Ao seu redor espalhavam-se formações oceânicas rochosas, arrecifes e corais multicolores margeando uma rua pavimentada por pedras lindamente cortadas e claras. Mas não tinha dúvidas que o firmamento era mesmo formado pelo mar; pois se em sua Terra o céu era um tecido que, muito lentamente, tingia-se de outra cor com o passar das horas, ali não; ali o céu era de outra natureza.
O céu era vivo como uma pintura surrealista, pois as águas moviam-se lentamente sempre mantendo os tons oceânicos à vista, uma miríade de azuis-claros e escuros, verdes-águas e outros tons que só existiam ali; um tecido que movia-se como se um artista invisível usasse um pincel miraculoso movendo a tinta de lá para cá, em um movimento hipnótico e maravilhoso. Um céu oceânico que era tão distante quanto as estrelas do seu céu na noite grega. Saori apertou os olhos e adivinhou muito ao longe nesse firmamento cardumes e até mesmo animais maiores por vezes nadando acima de suas cabeças.
Por um segundo, se perguntou se não vivia um sonho, mas quanto mais tempo passava observando cada detalhe daquele mágico lugar, mais ela se convencia de que não se tratava de uma miragem ou sonho. De que ela havia mesmo se jogado no mar e acordado naquele lugar impossível.
Impossível, pois era plenamente capaz de respirar nas profundezas do oceano, enquanto alguma força imensurável parecia impedir que aquele impressionante mar do firmamento engolisse aquela região inteira. A força imensurável de alguém que ela se lembrava bem de quem se tratava.
Perdida e maravilhada com o que via, Saori demorou um certo tempo até perceber um vulto às suas costas. Virou-se e encarou exatamente a curiosa garota que lhe havia aparecido no pontilhão de pedras do Cabo Súnion.
— Quem é você? — perguntou Saori ao vê-la ajoelhada à sua frente.
— Sou a Sereia Tétis, emissária do Deus dos Mares, Poseidon.
Saori então pareceu se lembrar do que fazia ali, afinal. Levantou-se corajosa e chamou o nome de Poseidon pelos quatro ventos do seu Mundo, exigindo que ele a escutasse. E ali estava ela, finalmente.
— Esse é o Santuário de Poseidon. — concluiu Saori, olhando ao redor.
— Atlântida. A Terra de Poseidon. O Reino do Fundo do Mar. — lhe respondeu a garota às suas costas.
Saori caminhou alguns passos para além daquelas formações rochosas e não demorou para que sua vista se perdesse adiante em uma cidadela maravilhosa. De construções baixas, mas todas intocadas e novas, como se houvessem sido construídas e finalizadas no dia anterior à sua chegada.
Com Sereia Tétis em silêncio às suas costas, Saori caminhou para dentro daquela cidadela e, talvez ela não tivesse a exata magnitude do que aquilo significava, mas aquele era um dos raros momentos em que a Deusa Atena caminhou por Atlântida. E caminhou em paz, pois não havia uma alma sequer para recebê-la, bem ou mal, de modo que a cidadela estava absolutamente vazia, embora não estivesse em ruínas ou aparentemente abandonada. Apenas vazia.
Caminhou pela rua principal até uma fonte de cavalos no centro de uma praça, onde foi finalmente chamada pela voz da garota que a escoltava.
— Deusa Atena, o Senhor dos Mares lhe aguarda.
Saori olhou para a menina que, mais uma vez, lhe parecia desviar o olhar, e aceitou que fosse guiada pelo caminho que fosse necessário para tentar impedir que Poseidon continuasse a destruir a Terra que ela deveria defender. Seguiu-a de perto e, pela primeira vez, percebeu como, ao longe no horizonte e em todas as direções, levantavam-se enormes pilares contra aquele firmamento oceânico. Sete ao todo.
Quando tomaram a maior avenida daquela cidade, ao longe Saori pôde ver a imponente construção de um grande Templo, atrás do qual erguia-se um colossal Pilar que perdia-se de vista no firmamento oceânico que figurava acima de sua cabeça. Adivinhou imediatamente que se tratava do Templo de Poseidon.
Subiu as largas escadarias do templo guardadas por duas estátuas imponentes de pedra, uma de cada lado da entrada: duas grandes harpias de rostos humanos e penas de aves de rapina, ditas filhas do Deus Poseidon. Saori entrou pelo templo frio e seus passos, como os de Tétis, ecoavam por aquela construção enorme que, assim como a cidadela, também parecia absolutamente vazia.
Ao aproximarem-se de um salão central, em que subiam outros degraus mais largos para a câmara interna do templo, Tétis deixou que Saori passasse por ela e ajoelhou-se às suas costas. Adiante nos degraus largos duas pessoas pareciam confidenciar, uma sentada em um trono enquanto a outra arqueada para falar-lhe ao ouvido. Imediatamente cessaram assim que deram pela presença de Saori e de Tétis.
Ela não podia adivinhar-lhes a face, pois havia uma fina cortina branca entre eles; o homem sentado no trono levantou-se, pedindo silêncio ao seu conselheiro. Uma ráfaga de vento afastou brevemente a cortina revelando a face de quem sentava no trono por um segundo apenas.
— O que significa isso? — perguntou a voz por detrás da cortina.
Fez-se um silêncio tenso no local.
— Explique-se, Sereia Tétis. — pediu o Dragão-do-Mar, que estava ao lado de seu senhor, adiantando-se alguns degraus. — O que essa garota está fazendo aqui? Você por acaso perdeu a cabeça?
— Senhor Poseidon. — começou ela, ajoelhada. — Mestre Dragão-do-Mar, essa é a Deusa Atena.
Próximo à figura divina, Dragão-do-Mar percebeu na face de seu senhor desenhar-se as linhas da consternação em seu jovem rosto, quando Tétis retomou seu relato.
— Era ela que chamava pelo Senhor em seu Templo no Cabo Súnion.
O conselheiro, que antes falava ao ouvido de seu mestre, atravessou a cortina; era um guerreiro de Armadura furta-cor maravilhosa, uma capa nas costas e um elmo que cobria sua face e escondia seu rosto. A imponência da figura fazia Saori lembrar-se de seus Cavaleiros de Ouro, embora a cor e o material de sua Armadura fossem completamente diferentes. Sua voz, no entanto, a fez tremer.
— Deve estar enganada, essa menina não pode ser…
— Dragão-do-Mar! — bradou a figura sentada no trono detrás das cortinas.
Ele imediatamente virou-se e ajoelhou perante aquela figura que, agora, via-se por seu vulto na cortina, estava de pé. Sua voz foi um pedido claro.
— Deixem-nos a sós.
Novamente instaurou-se um profundo silêncio entre todos.
Nem mesmo aquele imponente conselheiro poderia desobedecer àquela ordem. Fez uma mesura e, sem dizer qualquer palavra a mais, abandonou o local acompanhado da Sereia Tétis, sem ter a coragem de olhar nos olhos de Saori, embora fosse muito mais alto do que ela. Um claro sinal de respeito.
O local era deserto e os passos de Tétis e Dragão-do-Mar se afastando ainda podiam ser ouvidos, tamanho abandono daquele bonito templo; era um templo também muito bem iluminado naquele ponto, de mármore claro e algumas escadarias que subiam para um átrio mais adiante. Ao desaparecerem os passos do templo, Saori finalmente notou que o homem do trono havia descido os degraus e atravessado a cortina, de modo que ela pôde reconhecer o rosto familiar que a deixou extremamente confusa, embora o rapaz a recebesse com um sorriso terno no rosto.
— Há quanto tempo, querida Saori.
-/-
Na saída do Templo de Poseidon, Tétis desceu os degraus até o pátio externo com Dragão-do-Mar às suas costas. Em silêncio, embora houvesse um clima terrivelmente hostil entre ambos; senão por suas próprias rivalidades, ao menos pela novidade que era aquela enorme visita no Fundo do Mar.
— Sereia Tétis.
A garota estacou e respirou fundo ao ser chamada pela voz profunda de Dragão-do-Mar.
— O que está escondendo de mim? — perguntou ele.
Ela virou-se para encará-lo e encontrou-o sem o elmo, seus olhos torcidos e a expressão sempre dura e preocupada no bonito rosto de homem. Ela desviou os olhos por um instante, que foi o suficiente para Dragão-do-Mar bradar com ela.
— Vamos, responda! Quem é aquela garota que agora fala ao Deus Poseidon?
— Aquela garota é a Deusa Atena. — respondeu Tétis, com certo receio por Dragão-do-Mar falar sem o devido respeito daquela presença magnânima. — Ela chamou pelo nome de Poseidon à beira de seu Templo no Cabo Súnion e eu cumpri com meu dever de emissária de trazê-la diante de nosso Deus.
Tétis então olhou por sobre os ombros daquele homem e para dentro do Templo onde deuses conversavam.
— Eu jamais seria capaz de negar seu pedido. — continuou ela. — Eu nunca senti tanto terror em toda a minha vida diante de uma pessoa.
Dragão-do-Mar sopesou aquela resposta por um longo tempo, mas não deu-se por satisfeito.
— Não respondeu a minha pergunta, Sereia. — começou ele, estóico. — A Deusa Atena está no Templo de Poseidon. O que eu quero saber é: quem é a garota?
Tétis engoliu em seco, como quem é descoberta em uma mentira e tentou esconder uma parte de sua vergonha, desviando-se novamente da mirada do conselheiro. Até que finalmente criou coragem para responder.
— Aquela é Saori Kido. — respondeu um nome que não trouxe qualquer reação ao Dragão-do-Mar, como se ele não compreendesse o que aquele nome poderia ter de qualquer importância quando dois Deuses enormes se dispunham a falar. — Uma garota do passado de Julian.
Dragão-do-Mar deixou escapar um ligeiro desagrado, mas manteve-se onde estava, ainda calculando aquela nova informação; deu as costas para Tétis e olhou para o fundo do Templo de onde haviam saído, onde aqueles enormes Deuses conversavam sobre a punição divina sobre os homens. E ali, do lado de fora, a garota-sereia lhe falava de sentimentos pueris.
— Isso por acaso a incomoda, Sereia? — perguntou Dragão-do-Mar, sentindo que sua própria posição se rebaixava ao considerar conflitos tão comuns e distantes de sua autoridade.
Tétis não respondeu.
— Isso é ridículo. — concluiu ele, finalmente. — Dentro daquele templo não há uma garota e um rapaz. Mas Atena e Poseidon. Lembre-se disso, Sereia Tétis…
— Eu sei muito bem. — respondeu ela, corajosa.
— Pois então guarde seus sentimentos para você.
— Talvez seja melhor que diga isso também ao Senhor Poseidon.
— Como se atreve?! — aproximou-se Dragão-do-Mar diante de Tétis.
Ela engoliu em seco, pois Dragão-do-Mar era o mais antigo dos servos de Poseidon e sua imponência, em verdade, não devia em nada ao próprio Deus dos Mares; ela própria já presenciara por diversas vezes o terror que aquele general causava nos poucos enviados romanis que desciam àquela profundidade por qualquer tarefa designada. Ainda assim, Tétis era tão corajosa quanto ele era terrível.
— Aonde pensa que vai? — ao vê-la dar as costas.
— Cuidar de meus deveres.
— Pois não irá a lugar algum. — ordenou o homem, com sua voz de trovão. — Você acaba de trazer a Deusa Atena aos nossos domínios.
— Aos domínios de Poseidon. — corrigiu ela, olhando para ele.
— Não compreende o que isso significa?
Ela não compreendia, e sua face demonstrou claramente a confusão, quando o enorme homem lhe respondeu.
— Guerra.
Tétis olhou para adiante no Templo, quando Dragão-do-Mar ordenou finalmente:
— Venha comigo.
E tomou o caminho por uma rua lateral sinuosa pela qual Tétis, a contragosto, seguiu-o um pouco ao longe, sem desviar de seu dever, pois aquele homem era seu superior imediato naquele Reino.
Caminharam por pouco tempo até chegarem em uma pequena construção bonita, de pilares menores, mas não menos imponentes do que os outros lugares daquele Reino. Sua entrada era guardada por um único homem, trajando uma Armadura cuja cor era idêntica à do Dragão-do-Mar. Um tom alaranjado, acobreado e furta-cor; tinha o elmo na cabeça, que não passava de um diadema, mas seu traço mais marcante era uma terrível cicatriz no olho esquerdo, que era tapado por um olho de vidro.
— General Kraken. — cumprimentou Dragão-do-Mar. — Leve-nos ao Salão das Criaturas.
Tétis já o conhecia, embora aquele fosse um rapaz de poucas palavras; ele deu passagem aos dois para dentro do Salão e os três finalmente adentraram o lugar, que era uma câmara larga e belíssima onde levantavam-se oito pedestais. Sete dos quais tinham uma belíssima estátua de mármore na figura de um animal fantástico. Eram eles: o Dragão-do-Mar, o Cavalo-do-Mar, Kraken, Cíla, Crisaor, Limnádis e Sirene.
— Sereia Tétis. Chegou a hora de convocarmos os Sete Generais Marinas de Poseidon ao ao Reino do Fundo do Mar. — começou o General maior, enquanto recolhia junto às estátuas místicas as Relíquias que ainda não haviam sido usadas. — Como eu, Dragão-do-Mar, e Kraken já estamos no Reino, falta convocar Cíla, Crisaor, Sirene, Cavalo-do-Mar e Limnádis.
Ele entregou os cinco pingentes para Tétis e ordenou.
— Vá e faça com que venham o mais rápido possível.
— Mas Dragão-do-Mar, este não é o Tempo de Poseidon, talvez eles não estejam prontos.
— Eles têm que estar prontos. — respondeu o Dragão-do-Mar. — Não há tempo para qualquer dúvida. A Deusa Atena está diante de Poseidon. E os Generais Marinas precisam estar ao lado do Deus dos Mares.
— E não é só isso… — interrompeu Kraken, pela primeira vez. — Há uma lenda entre os homens que diz que por onde caminha a Deusa Atena, ao lado dela estará o Cavaleiro de Ouro.
— Um Cavaleiro de Ouro? — perguntou Tétis, enquanto Dragão-do-Mar também olhou de forma inquisitiva para Kraken.
— Os mais fortes protetores de Atena. — respondeu o Dragão-do-Mar, que também conhecia a lenda.
— Mas ela veio em paz, nada parece indicar que haverá uma guerra.
— Não subestime os humores dos Deuses. Você é apenas uma sereia. — tornou Dragão-do-Mar.
Tétis olhou de um para outro; dois Generais imponentes com suas Armaduras oceânicas, a postura altiva e o olhar de quem realmente se prepara para a guerra. Só restava à ela obedecer às ordens e retirar-se o quanto antes; e foi exatamente o que fez, desaparecendo dali correndo em disparada, ainda que contrariada, para poder encontrar pelos quatro cantos do Mundo aqueles destinados a proteger Poseidon.
Deixados à sós, Dragão-do-Mar recolocou seu elmo, respirou fundo e sairia daquele Salão, não fosse a insistência de Kraken.
— Espere, Dragão-do-Mar.
O General parou e olhou de volta para ele um pouco surpreso. Kraken tinha a expressão sempre muito séria e, de certa forma, sua cicatriz no olho esquerdo dava-lhe uma eterna face de desconfiança.
— Diga o que te aflige, Kraken. Mas fale de uma vez, pois esse não é o momento para vacilar.
Kraken calculou suas palavras.
— Muito bem. — começou ele. — Diga-me então, Dragão-do-Mar. Quem é você, afinal?
O General caminhou ao redor de Kraken e deixou abrir um leve sorriso em seu rosto.
— Ora, Kraken, mas que pergunta estúpida. — começou ele, com um dedo de deboche em sua voz grave. — Atena está em nossos domínios, os Generais Marinas foram convocados e a rigor estamos nos preparando para a guerra. Eu achei que tivesse angústias mais importantes.
Caminhou um passo na direção de Kraken, sem que o General recuasse, no entanto.
— Eu sou o General do Oceano Atlântico Norte, Conselheiro de Poseidon e líder do exército do Reino Submarino. Esse é quem eu sou. O Dragão-do-Mar.
Kraken não sentiu-se incomodado pela voz profunda daquele homem, pois afinal de contas ele também era um General Marina.
— Certamente essa é a Escama que protege seu corpo. A do Dragão-do-Mar.
— O que quer dizer com isso, Kraken? — perguntou ele, ameaçadoramente.
— Apenas que… Eu não consigo afastar a impressão, Dragão-do-Mar, de que o Cavaleiro de Ouro que contam as lendas de Atena realmente está mais perto do que Poseidon imagina.
Dragão-do-Mar ficou calado, como se aguardasse qualquer acusação.
— Você fede a santo, Dragão-do-Mar. — falou Kraken entre os dentes. — Fede a um Cavaleiro sagrado de Atena.
Do outro lado, não houve qualquer reação; Kraken seguiu falando.
— Sabe melhor do que ninguém que eu fui criado e treinado por um Cavaleiro de Ouro do Santuário. E por esse mesmo motivo, o Cosmo que sinto dentro de você é terrivelmente parecido com aquele de meu mestre. De modo que eu vou lhe perguntar mais uma vez, Dragão-do-Mar. Quem... É você?
-/-
Deixados à sós, Poseidon e Atena encararam-se.
A figura que desceu os degraus daquele Templo para recebê-la vestia uma túnica branca belíssima, adornada de alguns detalhes em ouro e tecidos azuis-claros; sua pele bronzeada e o cabelo cheio eram ainda mais destacados pelo bonito traje e o bonito sorriso.
Era Julian Solo.
Em um primeiro instante, Saori sentiu-se muito confusa ao ver aquele rosto conhecido em um lugar tão mágico e impossível; pois Julian era exatamente parte de sua vida mundana, de seu disfarce civil, um dos muitos oligarcas que ela se esforçava por manter em contato pelo bem de sua Fundação. Uma Fundação. Seu antigo trabalho de herdeira e gerente de fortuna. Uma vida que agora parecia ter acontecido em outra vida.
Pois agora o Planeta inteiro esmorecia e ela, Deusa Atena, Protetora da Terra, havia descido ao mágico Reino do Fundo do Mar, onde o oceano servia de céu, para pedir a Poseidon, o Deus dos Mares, que poupasse os homens.
E, em seu lugar, encontrou um jovem oligarca, dono de impérios marítimos e a personalidade de quem viveu a vida toda com o rei na barriga.

— O que faz aqui, Julian?
Quem fez a pergunta foi Saori, e não a Deusa Atena, como se Saori estivesse, por um instante, irritada que o rapaz tivesse se atrevido a se colocar diante de seus deveres divinos. Do outro lado, a pergunta foi respondida por um sorriso do qual ela se lembrava muito bem, assim como desprezava.
— Julian. — repetiu ele. — Julian Solo.
E olhou para Saori, enquanto caminhava ao seu redor.
— Sim. E você é Saori Kido. — concluiu ele.
Ela o olhou um pouco confusa, enquanto recalculava o que aquele sorriso poderia significar, embora não tenha feito com que vacilasse.
— Eu sou a Deusa Atena. — retrucou ela.
— E eu sou Poseidon, o Deus dos Mares. — tornou ele.
Sua postura era mesmo altiva e o oceano acima de suas cabeças pareceu tremer diante daquela fala.
— Não deveria se surpreender, Atena. — continuou ele. — Você nasce neste belíssimo Mundo como uma garota, Éris toma o corpo de uma criança amaldiçoada, Hades escolhe a alma mais pura da Terra.
Julian olhou para Saori profundamente antes de finalizar.
— E Poseidon escolhe aquele que mais profundamente experimenta a solidão do oceano.
Saori olhava para Julian ainda sem poder acreditar naquela terrível coincidência, mas afinal de contas poucas coincidências realmente existiam naquele Mundo do qual ela fazia parte. Suspeitava que aquele encontro entre os dois não passava de um joguete doentio dos Deuses ou de quem trançava os fios de seus destinos.
— Não importa. — falou Saori, duramente. — Talvez o fato de que Julian seja seu hospedeiro faça de nossa conversa um pouco mais fácil, Poseidon.
Ela pisou adiante dele, apertou o báculo e falou com toda seriedade e altivez do mundo.
— Quero que pare com as chuvas que estão destruindo todo o Mundo.
Julian era maior do que Saori, de modo que Poseidon olhava para Atena de cima para baixo; o sorriso do garoto seguiu por um movimento de mãos, para que ela o seguisse.
— Ande comigo, Atena.
— Eu não irei a lugar algum, Poseidon. — protestou ela. — Pare com as chuvas.
Poseidon estava de costas, mas então parou sua caminhada e virou-se novamente, muito desapontado com Saori.
— Outra vez. — disse ele. — Eu aqui lhe fazendo um pedido. Você me recusando.
Saori achou estranho o comentário.
— Julian acreditava existir algo profundo unindo vocês dois. Algo que ele confundiu com o amor, sem sequer imaginar que se tratava da mais nobre divindade.
— É Julian ou Poseidon que está falando comigo?
— Faz alguma diferença? — perguntou ele de volta, com certo galanteio.
Poseidon sorriu. Ou talvez Julian, Saori realmente tinha suas dúvidas.
— Chega de conversa, Poseidon. Você ressurgiu fora de seu tempo e está causando destruições para além de seus domínios.
— Fora de meu tempo? — perguntou ele, com os olhos transtornados. — Pois me parece que talvez eu tenha despertado tarde demais.
Ao redor de Julian manifestou-se uma aura branca que apagou as cores daquele templo jogando-os ambos em uma câmara escura em que os sentidos de Saori pareciam mais aguçados; ao longe ela podia ouvir o canto de baleias e o ronco profundo do oceano. No lugar daquele profundo breu, aos poucos materializou-se o fundo de um oceano, iluminado pelo cosmo de Poseidon; eles agora estavam rodeados pelo mar, embora não o tocassem e a voz de Poseidon fosse clara e cristalina.
— Espécies extintas por todos os cantos da vida marítima, pesca desenfreada desequilibrando a fauna do mar e dos rios, a exploração gananciosa de vales profundos e fossas antigas tirando o equilíbrio do relevo e destruindo a morada de muitas criaturas. De muitos filhos. A poluição indiscriminada e assassina impedindo a vida em cantos do oceano por centenas de anos.
Enquanto falava, Atena via naquela projeção oceânica os animais que morriam, os deslizamentos oceânicos, as manchas de óleo que devoravam peixes e pequenos animais, como se Poseidon mostrasse à ela todos os pecados em sua face.
— Nunca antes na história se agrediu tanto meus domínios. Não, Atena. Eu não desperto antes de meu tempo. Eu desperto tarde demais. Pois talvez não haverá uma vez mais se as coisas seguirem assim. Não haverá oceano para retornar se isso continuar.
Saori estava boquiaberta e silenciosa, pois Poseidon parecia sentir as dores por seu Reino como ela sentia pelo seu, que agora era arrasado pelas águas.
— Eu posso compreender sua dor, mas não posso aceitar essa punição, Poseidon.
— Para isso sim é tarde demais, Atena.
Poseidon falou e eles retornaram novamente ao Templo em que estavam, enquanto sua voz enumerava seu terrível plano.
— Choverá na superfície por quarenta dias e quarenta noites em um grande dilúvio que limpará a face da Terra de toda a raça podre que desrespeitou os Sete Mares e causou um enorme desequilíbrio na sagrada vida que ganharam dos Deuses.
— Não! — pediu apenas Saori, que não pôde suportar as tragédias de dois a três dias seguidos e não podia imaginar o tamanho da destruição se aquilo seguisse por mais de um mês.
— Após cem dias a água irá baixar por todo o planeta e aqueles que tiverem sobrado terão uma segunda chance de fazer diferente. Mas não posso mais aceitar que a vida na superfície seja sustentada pelo genocídio dos mares.
Saori tremia.
— Não é justo que morram tantos pelos pecados de poucos.
— A chuva não fará distinção e morrerá o suficiente para que isso nunca mais aconteça.
— Morrerão os mais miseráveis! — acusou Saori. — Não morrerão os reais responsáveis por tudo isso.
— O equilíbrio de sua gente não me diz respeito. A mim interessa apenas a sobrevivência dos Sete Mares.
Ele estava irredutível e não sem razão, pensou Saori, ao se ver em uma situação impossível de solucionar. Ao fechar os olhos, viu imediatamente o sofrimento das pessoas. Ela era a protetora da Terra. E precisava ser. Era isso que esperavam dela. Ela precisava ser a Deusa Atena. E a Deusa Atena não deixaria aquilo daquela maneira. Ela não teria se jogado no oceano para aceitar aquela punição. Poseidon não poderia mexer em seus domínios.
Mais do que isso, ela sabia e sentia no mais profundo do seu ser que os sofrimentos seriam muito mais nas pessoas ribeirinhas, pobres, aquelas que viviam em regiões inóspitas, sem estrutura. Sabia disso, pois Saori era exatamente o oposto daquilo e, justamente por isso, sabia como eram muito poucos os que tinham muito como ela havia tido em toda sua vida. Não podia deixar aquilo acontecer.
Julian falou novamente.
— Me escute, Deusa Atena. Eu posso sentir dentro desse corpo jovem o sentimento enorme que existe sobre você. E eu gostaria de reiterar o pedido que lhe fiz anteriormente. Se aceitar governar esse Mundo ao meu lado, eu deixarei que cuide daqueles que sobreviverem depois do dilúvio, de forma que você possa guiá-los à virtude e à prosperidade.
Saori estava um tanto incrédula e respondeu sem titubear um instante.
— Eu acho que fui bem clara em minha resposta, Julian. E vou lhe dizer mais…
A Deusa Atena pisou firme naquele templo, apertou com força o báculo de ouro manifestando seu maravilhoso Cosmo solar.
— Não deixarei que isso continue, Poseidon. Você não está plenamente desperto e seu Templo está vazio. Não vai querer uma batalha contra o Santuário agora.
Julian, do outro lado, inclinou a cabeça, pesando muito bem aquelas palavras.
— Isso é uma ameaça?
— Encerre a chuva sobre os homens. — tornou Saori, corajosa.
Houve um momento de impasse entre ambos, até que Poseidon abriu os braços com certa calma.
— Não há mais retorno. O que está feito, está feito. Nem mesmo eu posso parar o que está em curso. Você, Deusa Atena, é quem chegou tarde demais.
— Não aceito, Poseidon. — disse ela, em profunda negação. — Tem que haver algum jeito.
Julian silenciou, sua face tornou-se séria e sua respiração mais pausada.
— Há um jeito, não é verdade? Vamos, diga-me, Poseidon.
Mas ele permaneceu calado e ela precisou pressioná-lo, pela primeira vez.
— Diga de uma vez!
O rapaz à sua frente parecia hesitante pela primeira vez desde que ela havia chegado, o que era desconcertante, pois Poseidon até então era o dono da situação e verdadeiro senhor de seu Templo. O próprio oceano respondia à sua voz, mas naquele momento realmente parecia que Julian estava no local e não mais o Deus dos Mares. Ele engoliu em seco.
— Sim, há um jeito. — começou ele. — Mas poderá custar a sua vida, Saori.
Havia mesmo tristeza nos olhos de Julian, pois a verdade era mesmo que dormia no coração do rapaz uma profunda paixão por ela, apesar do sentimento ser completamente incompatível com os Deuses que eram ou representavam. Saori viu o desconcerto de Julian à sua frente e, ainda que desprezasse seu cortejo e seus pedidos amorosos, não se fez alheia àquele sentimento.
Sua vida, no entanto, era a vida da Deusa Atena.
A Deusa Atena que deveria proteger a Terra, impedir que sofressem como sofriam na superfície a destruição causada pela fúria das águas. Tantas mortes em suas costas, tanto sofrimento em suas mãos.
Sua vida também era a de Saori Kido.
Uma vida cercada de sofrimento. O sofrimento de muitas crianças que nunca voltaram, de um garoto que chorou no seu colo a saudade da menina que perdeu a memória por sua causa; ou da mais jovem que morreu em batalha em seu nome. Dos cinco garotos e garotas que subiram a montanha para lhe dar uma segunda chance para viver e passaram dias e noites em coma, enquanto ela pedia por sua saúde ao lado deles. Quantos mais haviam passado por sua vida e sofrido?
— Não faça isso, Saori. — pediu Julian.
— Fale como posso impedir que isso aconteça, Poseidon. — respondeu ela.
Ele fechou os olhos resignados e, quando os reabriu, Saori notou como Julian parecia ter sido calado dentro do peito daquele rapaz para dar lugar ao Deus Poseidon. Ele abriu os braços e indicou as escadas para dentro do Templo.
— Ande comigo, Atena.
E dessa vez Atena caminhou junto a Poseidon através das cortinas daquela câmara e subiu as escadas para a parte interna de seu Templo. Uma seção daquele templo que era mais escura, caminhando por um corredor margeado de colunas gregas até onde um único trono estava esculpido na pedra; e bem adiante do trono de pedra, estava suspenso o Tridente dos Mares, que outrora estivera selado no Cabo Súnion.
Atena ficou diante do trono enquanto Poseidon caminhou até ele e tomou o Tridente para si, fazendo ranger as ondas do mar que quebravam no céu. Ao comando de seu Cosmo ativado por aquele tridente, o enorme mural esculpido na parede atrás do trono ergueu-se feito magia deixando entrar a luz do lado de fora, onde se alongava uma rua pavimentada até um colossal pilar da mesma cor e material do que pareciam ser feitos as construções daquele lugar.
Novamente Poseidon convidou Atena a acompanhá-lo e, enquanto cruzavam a distância entre o trono e o pilar, o Deus dos Mares falou à ela.
— Os Oceanos da Terra são sustentados por Sete Pilares de meu reino. — começou ele, enigmático, enquanto convidava Atena a se atentar à distância para os sete pináculos que havia no horizonte. — Sete Pilares para os Sete Mares da Terra. São eles que dão a sustentação para o céu de Atlântida, sem os quais os mares invadiriam e destruiriam este Reino. Porém, a pedra-mãe deste Reino ao redor do qual tudo o mais foi construído é este pilar, o Suporte Fundamental.
E dizendo isso apresentou o colossal pilar que ficava diante deles: um pilar cujo final Saori sequer podia ver, pois ele parecia rasgar as águas do oceano e perder-se de vista. Talvez tão largo quanto o próprio Templo do qual haviam acabado de sair. Era uma construção realmente fabulosa.
— Não é possível conter a fúria das águas que caem sobre a Terra, pois a punição já está em curso, a água já fez sua escolha. — voltou ele a falar, enquanto Saori se deslumbrava com aquele pilar. — No entanto, conta-se que o Suporte Fundamental pode conter toda a água que existe neste planeta. Nem mesmo toda a chuva que cairá na superfície nos próximos quarenta dias e quarenta noites poderiam enchê-lo até seu topo.
— Aonde quer chegar, Poseidon?
Ele virou-se para Atena com o semblante muito sério.
— A chuva que cairia nos próximos meses e que destruiria grande parte da vida humana. Não tenho poder para que as águas parem de derramar sua punição, mas posso fazer com que deixem de cair sobre os homens na superfície para encher esse pilar central.
— Pois então faça isso. — ordenou Atena às suas costas.
E somente então Poseidon virou-se para ela, de forma até um pouco ameaçadora.
— Isso certamente resolveria seus problemas, não é mesmo? No entanto, nada faria para ajudar o povo do Mar, que depende de mim.
Saori olhava-o com dureza nos olhos enquanto segurava seu báculo de ouro. Poseidon mostrou a entrada do Suporte com seu tridente e sua voz bradou com clareza.
— Você é a Deusa Atena. Se deseja tanto se sacrificar por sua humanidade, entre no Suporte Fundamental e sustente a chuva que cairia sobre a Terra em seu corpo. Essa não é uma chuva comum e a água que a afogará dentro do pilar se alimentará do seu Cosmo Divino, da sua essência provedora, e então poderá reverter o veneno que agora se espalha pelos Oceanos graças à ganância da sua gente.
— Um sacrifício para seu Reino. Esse é o seu plano, não é?
— É o que faziam seus homens na antiguidade ao trancar jovens na fundação de novas estruturas em um sacrifício aos Deuses, para que tivessem longevidade e prosperidade. Não vejo sacrifício melhor para o Reino de Poseidon do que o corpo da Deusa Atena.
Saori compreendeu perfeitamente.
E viu-se sem escolhas, mas também não titubeou nem por um segundo, pois já estava decidida a dar sua vida e sacrificá-la; sem responder a Poseidon, simplesmente caminhou na direção do pilar, que tinha ainda uma larga escadaria até uma entrada imponente. Ali, diante da porta, ela virou-se e aguardou o Deus dos Mares se aproximar.
Passo a passo ele caminhou com seu Tridente em mãos até a entrada do Suporte Fundamental e o abriu-o com a magia de seu Tridente. Ela estendeu seu Báculo de Ouro para o rapaz e ordenou:
— Leve-o de volta para a Grécia.
Poseidon tinha em mãos o Tridente dos Mares e o Báculo de Ouro da Vitória; a invencibilidade nas mãos, mas a confiança de que Saori tinha nele também o fez vacilar, por um instante. Era algo tão primordial e absurdo um Deus tomar aquilo que era do outro, que tanto ela como ele, sabiam perfeitamente que aquele Báculo voltaria ao Santuário.
Saori deu-lhe as costas e entrou em uma câmara larga, onde no seu centro havia uma escada espiralada ao redor de um pináculo; a iluminação ali não era feita por tochas, mas por luzeiros instalados ao redor da câmara que tinham gemas luminescentes das fossas abissais dos mares. A construção inteira pareceu tremer sua fundação quando Saori percebeu quatro enormes cabeças de peixe esculpidas em pedra, uma em cada parede da câmara, cuspirem jatos de água que encheriam aquela câmara com toda a chuva que deveria cair na Terra.
Saori deixou que a água molhasse seu vestido quando decidiu subir lentamente as escadas; enquanto rodava ao redor da câmara, notava com fascínio os detalhes daquela linda construção. Não demorou tanto para chegar ao topo do pináculo, distante do fundo da câmara, mas muito mais longe do teto daquele pilar que perdia-se de vista na escuridão. Ali, Saori ajoelhou-se e rezou com seu Cosmo de Sol brilhante ao seu redor.
Julian desceu os degraus com o coração pesado, quando o Oceano inteiro sentiu o Cosmo de Atena se espalhar por aquelas águas milagrosas. No Salão das Criaturas, Kraken e o Dragão-do-Mar interromperam sua contenda e se dirigiram para fora do salão tentando compreender o que era aquela sensação poderosa, amedrontadora e, ao mesmo tempo, familiar que sentiam. Tétis em alto-mar nunca sentiu tanta paz em suas aventuras nadando pelo oceano e olhou uma vez mais para o brilho dourado que era Atlântida no fundo-do-mar, pensando no rapaz que ela sempre deixava para trás.
Na Terra, as chuvas pararam de cair.
Fale com o autor