Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
128 A Prece de Atena
Os corpos de Shun e de Ikki foram envolvidos por um terrível vórtex de luz e vento que os puxou com violência, feito força magnética, para o céu-de-mar do Reino Submarino, em direção do buraco-negro em forma de triângulo que revolucionava o oceano. A risada terrível daquele homem reverberou no Santuário de Poseidon e pareceu ecoar até mesmo na cela fria de Asgard, onde sua memória translúcida se apagou feito a chama de uma vela, assustando a todos e fazendo com que June deixasse cair no chão o Olho de Munin.
— Não é possível, não pode ser verdade. — falou, dando alguns passos para trás.
June não havia participado da terrível batalha contra os Cavaleiros de Ouro nas Doze Casas, mas encontrou com aquela face durante sua viagem aos Sete Mares junto da tripulação do Esperança de Atena. E aquele homem os havia lançado para um lugar impossível diante de um Deus esquecido. O terror que havia sentido naquela noite lhe sobreveio por completo naquele momento.
— Você conhece esse homem? — perguntou Freia, e tudo que June pôde fazer, a princípio, foi assentir com a cabeça, apavorada.
— É um homem terrível. — completou ela, rememorando as histórias que Seiya compartilhou de sua batalha final, ou mesmo os poucos encontros que o Capitão Meko Kaire havia tido com aquele homem nefasto.
— Quem é ele? — perguntou Hilda, com calma, recolhendo o Olho de Munin que estava no chão. — Vamos, diga-nos.
June olhou fundo nos olhos de Hilda e respondeu com medo de suas próprias palavras.
— Este é Saga. — anunciou ela, com a voz pesada. Engoliu em seco e seguiu falando, como quem fala de uma assombração. — Saga foi um Cavaleiro de Ouro do Santuário. Talvez o mais forte dentre todos eles.
— Um Cavaleiro de Ouro. — refletiu Hilda, por um instante, como se fosse a primeira vez que escutava algo semelhante.
— Um enganador terrível. — continuou June, juntando forças. — Mas isso não faz sentido algum. Ele está morto!
— Essa é uma memória. — lembrou Freia.
— Uma memória do dia em que Sigmund caiu. Quando surgiu debaixo do Colosso de Odin usando essa estranha armadura no corpo. — completou Hilda ao lado da irmã. — O dia da batalha final no pátio de Valhalla.
— Saga foi vencido há muito mais tempo, como poderia estar aqui?
— Talvez ainda esteja vivo. — tentou Hilda, mas June estava incrédula.
— Não, não é possível. — reagiu ela imediatamente, mas então perguntou-se sozinha, tentando encontrar sentido naquela aparição. — Como é possível?
Hilda aproximou-se de June para acalmá-la, pois a garota realmente parecia movida por aquela figura. Tomou seus braços e pediu que respirasse.
— Agora diga-me. Fale-me deste homem. Ele parece ter tido o domínio da mente de um de nossos mais valorosos guerreiros. Sigmund jamais se deixaria levar por palavras. Do que este homem é realmente capaz?
— De tudo. — respondeu June, amedrontada. — Suas palavras eram capazes de dobrar a vontade do mais forte dos Cavaleiros de Ouro. Saga foi capaz de tudo.
— Até mesmo de desafiar a morte. — observou Hilda.
— Não, isso ninguém deveria ser capaz. — confundiu-se June, pois de fato nunca havia se falado sobre alguém ser capaz de voltar da morte. — Nem mesmo ele.
— E no entanto ele esteve aqui. — falou Freia.
— Tem certeza absoluta de que ele está morto? — perguntou Hilda para June.
Ela olhou para a Voz de Odin e percebeu que não podia responder aquela pergunta da maneira que gostaria; afinal de contas, ela não tinha realmente certeza de nada. E titubeou ao responder, o que fez as irmãs se entreolharem.
— O que está escondendo de nós?
June sentiu-se acuada naquela cela, mas exausta; deixou-se cair sentada em uma cadeira de canto olhando para o horizonte vazio. Colocou o rosto entre as mãos, procurando as melhores palavras.
— Eu não lutei nesta batalha contra Saga. Shun e os outros Cavaleiros de Bronze foram os que lutaram contra ele durante a Batalha das Doze Casas. Eu não estava no Santuário. Tudo que sei é o que me contaram.
Freia e Hilda entreolharam-se e perguntaram, cada qual ao seu modo:
— Quem foi este homem? Quem foi Saga?
June levantou os olhos para ela e então narrou um pouco da história do Santuário.
— Um homem terrivelmente dividido entre o bem e o mal. Dizem que em seu tempo era venerado por todos no Santuário por sua bondade. Mas por dentro, ele tinha uma ambição terrível de ser o próximo Pontífice, aquele a quem todos os Cavaleiros deveriam responder, respeitar e obedecer. Governaria o Santuário e a Terra.
— Uma história que parece se repetir em todo país. — falou Hilda, lembrando-se das tragédias em sua própria terra.
— Sim, mas essa história que hoje conhecemos os Cavaleiros do Santuário somente puderam ouvir depois de sua morte. Somente depois que seu corpo foi enterrado foi que soubemos de toda a verdade.
— E o que de fato aconteceu?
— É dito que o antigo Papa, aquele que cuida de Atena e governa o Santuário, deveria decidir quem seria o seu sucessor, uma vez que já estava muito velho. Este homem, Saga, acreditava e queria ser o escolhido, uma vez que era um dos mais velhos de sua geração e adorado por todos. Mas o antigo Papa acabou escolhendo outra pessoa para seu lugar. Um jovem chamado Aioros.
June calou-se por um momento, como em respeito pelo herói.
— Saga não aceitou ter sido preterido, mas escondeu sua raiva fingindo bondade. Ele era inteligente e terrivelmente traiçoeiro. Dizem que ele escolheu o momento certo e a pessoa certa para fazer acontecer o seu plano. Nos últimos anos, por estar já muito velho, o Antigo Papa Sião já não tinha mais o vigor de seguir com as tarefas de seu cargo, de modo que era ajudado sempre por seu irmão mais novo, um homem chamado Arles. O Antigo Papa faleceu por sua idade avançada em um dia contado como um dos mais tristes no Santuário. E num lugar proibido a todos, senão apenas ao Papa e seu Conselheiro, Saga assassinou Arles enquanto ele preparava o corpo do seu irmão para o velório. E assim tomou seu lugar.
— Que história terrível. — observou Freia ao escutar aquele relato.
— Nada disso sabíamos até poucos meses atrás. Ninguém sabia. Tudo isso aconteceu há mais de quinze anos. O Santuário inteiro lamentou a morte do Papa Sião e ofereceu suas condolências ao Mestre Arles sem imaginar que era Saga que escondia-se debaixo de sua túnica. Debaixo de sua máscara.
— Uma máscara?
— Sim, foi assim que ele se escondeu de todo mundo. E ninguém jamais poderia imaginar ou duvidar de alguém como Arles, o irmão do próprio Papa.
— Mas alguém descobriu. — continuou Hilda.
— Hoje sabemos que, no dia seguinte à morte do Papa Sião, disfarçado como o Mestre Arles, Saga entrou no quarto da Deusa Atena, que então era apenas um bebê de alguns meses. E tentou matá-la com uma adaga de ouro.
— Por Odin! — assombrou-se Freia.
— E teria conseguido, não fosse por Aioros. O rapaz que havia sido apontado para ser o próximo Pontífice. Ninguém sabe exatamente como ele sabia, como ele pressentia, mas pelos céus, ainda bem que ele estava lá. E impediu que Saga matasse Atena, colocando seu próprio corpo para protegê-la. Aioros viu o rosto de Arles e percebeu que aquele atrás da máscara não era outro senão Saga, o Cavaleiro de Gêmeos que ele conhecia muito bem. E isso foi sua sentença de morte. Saga o feriu terrivelmente e ainda convocou o Santuário inteiro para caçá-lo por todas as montanhas da Grécia, ordenando sua morte por ter atentado contra a vida de Atena.
Hilda e Freia agora escutavam em silêncio aquele relato.
— E assim morreu Aioros.
— Aquele que deveria ser o próximo Papa. — observou Freia.
— Exatamente. Sem o antigo Papa Sião e com a morte daquele que deveria tomar seu lugar, Saga decidiu nomear-se Camerlengo, um regente interino e governar o Santuário e a Terra até que um novo Pontífice surgisse entre os Cavaleiros de Ouro. Como todos achavam que ele era o irmão do Antigo Papa Sião, Arles, ninguém o desafiou. E nessa época, os Cavaleiros de Ouro eram meninos e meninas mais novos do que Shun e os outros.
A história pairou sobre todas até que Freia tomasse a voz novamente.
— Disse que Aioros morreu, mas… e quanto à Atena, o que aconteceu com ela?
— Saga, ou melhor, Arles, contou ao Santuário que ela havia sido salva e trazida de volta para seu Templo. Mas ninguém nunca havia estado em sua presença. E ela somente aparecia em cerimônias para poucas pessoas que somente a viam à distância.
— Uma farsa?
— Uma ilusão. — corrigiu June à pergunta de Freia. — Certo de que a verdadeira Atena havia morrido com Aioros, ele criou uma simples ilusão para dizer a todos que tudo que ele fazia era em nome de Atena.
— Quando ela sequer existia. — observou Hilda.
— Não ali ao lado dele. Por uma daquelas coisas que parecem mentira, a verdadeira Atena foi salva por um turista bisbilhoteiro que fazia escavações perto das ruínas do Santuário. Procurando tesouros para enriquecer, acabou por encontrar o maior de todos. Encontrou o bebê chorando e Aioros à beira da morte, que deu a ele a missão de proteger Atena. Um turista. — observou June a loucura daquele destino. — E aquele turista levou a criança para viver entre as pessoas comuns e a criou como se fosse uma criança qualquer na cidade grande. Talvez essa tenha sido sua grande sorte. Com o passar dos anos, a história que o Santuário contava para seu povo começou a parecer estranha para alguns. E esses foram caçados impiedosamente pelos seguidores do Mestre Arles. Por Saga. Até mesmo aqueles que se atrevessem a lembrar de Aioros como o herói que era eram procurados e silenciados. Hoje sabemos que muitos foram presos e mortos por isso dentro do Santuário. Mas fora dele nós já sabíamos o quão perigoso era suspeitar de Arles. Meu próprio Mestre foi uma dessas vítimas.
— Eu sinto muito, June.
— E quanto à Atena? — perguntou Hilda.
— Viveu quinze anos entre as pessoas comuns. E então voltou ao seu Templo para expor toda a mentira que o Camerlengo contava. Uma terrível batalha aconteceu no Santuário entre os Cavaleiros de Bronze, que a seguiam, e os Cavaleiros de Ouro que protegiam o Santuário. Shun e os outros foram capazes de produzir milagres na batalha e finalmente chegaram ao Mestre Camerlengo. Até Saga. E o venceram junto de Atena.
— Mas isso é incrível!
— Shun me contou que, como último ato, Saga escolheu tirar sua própria vida para se arrepender de seus pecados, uma vez que era mesmo dividido entre o bem e o mal. Usou o Báculo da Vitória de Atena contra seu próprio peito, fazendo seu coração parar na frente de todos.
June fechou os olhos e lembrou-se dos relatos do amigo.
— É por isso que digo que não é possível que esteja vivo. Não é possível que seja uma ilusão. Ele não usou seu punho ou seu próprio Cosmo para tirar sua vida e então nos enganar como ele era capaz de fazer. Ele usou o Báculo da Vitória de Atena. Não há outro resultado que não a morte.
Freia estava surpresa.
— Nós não imaginávamos que o Santuário havia passado por tudo isso por todos esses anos. Camus nunca nos falou nada sobre nada disso, nem Alberich parecia informado sobre qualquer um desses eventos.
June olhou de volta para ela.
— O que conhecem do Santuário é só aquilo que o Santuário permite que conheçam.
— Compreendo. — comentou Hilda com doçura. — Não é diferente de Asgard. Melhor sermos lembrados como uma lenda do que pela realidade frágil da qual fazemos parte.
— O Santuário não era frágil. — corrigiu June. — Era uma fortaleza de fé e coragem. E Saga foi capaz de subjugar tudo isso. Assim como Asgard também não tem nada de frágil, Hilda, me perdoe. Pode parecer agora que tudo está perdido, mas eu vejo a imensa coragem que existe no olhar dos mais simples anciões deste país.
E então sua voz tornou-se mais séria.
— E também é verdade que Saga está trabalhando para destruir isso também. Um Cavaleiro que deveria lutar por Atena.
— Não culpamos o Santuário por isso, June.
— Isso não muda o fato de que Asgard também foi arrasada pelo poder de Saga. Aquele que acreditávamos ter vencido. Os Guerreiros Deuses caíram em uma batalha que não deveria ter acontecido, mas aconteceu por culpa dele. Por culpa nossa.
E então levantou-se abruptamente.
— Preciso avisar o Santuário. Se Saga ainda está vivo, ele com certeza está planejando alguma coisa terrível. E agora que o Santuário está sem seus Cavaleiros, estaremos todos vulneráveis. E se o Santuário cair…
— O Mundo inteiro poderá cair nas mãos desse homem. — adivinhou Hilda, o que parecia ser uma profecia.
— Espere, June… — pediu Freia, segurando-a pelo braço. — Lembre-se do que sua amiga de longe disse.
Estavam banidos do Santuário. Mas nem por um segundo ela vacilou.
— Não, não. Eles estão banidos. Shun e os demais eram órfãos recrutados pelo antigo benfeitor de Atena, aquele que salvou sua vida há mais de quinze anos. Eu sei o que ela está fazendo. Ela quer impedir que eles continuem a sofrer por algo que nenhum deles escolheu, mas eu fui treinada na Ilha de Andrômeda, eu nada tenho a ver com isso. Sou uma Cavaleira de Atena e foi pra isso que eu treinei toda minha vida.
— Espere. — pediu Hilda, adivinhando os sentimentos da irmã. — Se este homem foi o responsável por manipular Sigmund e até mesmo obrigá-lo a colocar aquela estranha armadura de Poseidon, isso significa que ele tem algum trato com o Deus dos Mares.
Era verdade e June pareceu, outra vez, confusa.
— A Relíquia. A pessoa por trás de Alberich. — lembrou-se Freia, chegando a algum lugar.
— Se ele era capaz de comandar alguém como Sigmund, sem dúvidas ele seria capaz de manipular Alberich.
— Então Saga pode estar no Reino de Poseidon. — concluiu June, olhando para elas.
Finalmente manifestou em sua mente a ideia de que os Cavaleiros de Bronze haviam ido novamente ao encontro daquele terrível homem. Sem ter a menor ideia do que os esperava, assim como da primeira vez. Só que dessa vez, Saga sabia exatamente contra quem estava lutando. Eles estavam perdidos.
— Deixe que nós avisamos o Santuário. — falou Hilda, adivinhando a preocupação nos olhos de June.
— Como assim?
— Recebi algumas cartas antes de vocês chegarem aqui, e acredito que poderei reportar à Mestra atual do Santuário sobre essa nova ameaça. Como um sinal de virtude e boa convivência. Está no melhor dos nossos interesses.
— Não vão acreditar em cartas. — protestou June, mas Hilda seguiu falando, decidida.
— É o melhor que podemos fazer. Quantas semanas irão demorar até que você chegue à Grécia? O que pode acontecer até lá?
— De acordo com os relatos de sua amiga, Atena também está desaparecida. Uma carta de Asgard contando tudo que se passou em nossa Terra deve alertá-los de alguma forma. E poderão descobrir sozinhos se o que dissemos é verdade ou não. — Freia adicionou à sua irmã.
June não estava convencida, mas ao mesmo tempo não sabia o que fazer.
— Vá até os seus amigos. Avise-os deste homem. Vá ao Reino dos Mares. — Freia falou firme para ela.
A Cavaleira de Camaleão levantou-se confiante e percebeu que não poderia hesitar, teria de confiar naquelas irmãs, pois era mesmo importante que Seiya e seus amigos soubessem quem realmente eles estavam enfrentando. Quem realmente estava por trás daqueles eventos insólitos. Ela assentiu com a cabeça, sem saber que Ikki e Shun já haviam encarado aquela face terrível em batalha.
— Freia, leve-a até a Bifrost. Eu irei ao Palácio e cuidarei da mensagem imediatamente.
— Certo. Vamos! — chamou Freia, puxando June pela mão, saindo daquela cela insólita à caminho das cavernas de Valhalla.
Hilda escutou os passos se distanciarem até ficar sozinha com o silêncio naquela antiga cela. Ela caminhou até a cama e ajoelhou-se ao seu lado, deixando o Olho de Munin no chão. Seu seidr iluminou a cela e trouxe de volta outra vez a memória de Sigmund sofrendo na cama. Os olhos de Hilda encheram-se de lágrimas e ela deixou-se levar pelas emoções.
— Me desculpe, Sigmund. Me desculpe.
Levantou os olhos e viu o rosto ferido de Sigmund olhando para ela em desespero. Hilda soprou a chama do Olho de Munin apagando seu brilho, as memórias ao redor e finalmente saiu dali.
-/-
No Reino do Fundo do Mar, Alice havia deixado Seiya no Pilar do Atlântico Norte e se dirigido ao Pilar que estava exatamente ao sul daquele pátio. Embora os dois pilares estivessem exatamente alinhados um ao outro, divididos apenas por léguas e léguas de distância, o caminho de um para o outro era sinuoso e cortado por montes de corais. Outra vez a Coruja de Atena sentiu uma estranha presença desviando seus passos, de modo que ela tinha certeza absoluta de que havia chegado muito depois do que deveria.
— O que será que está acontecendo? — perguntou-se ela ao perceber que à sua frente finalmente o pátio do Pilar havia se aberto.
Não havia ninguém por perto, nem sinal de sentinelas, Marinas menores ou mesmo o Guardião do pilar. E assim ela ficou por um certo tempo, impaciente, pois sabia que com suas mãos nuas ela nada poderia fazer contra aquela fundação antiga. No horizonte, o quarto Pilar ruiu e foi ao chão, o que animou o peito de Alice, pois então faltavam apenas três pilares para conseguirem realizar um milagre.
E ainda assim a Armadura de Libra não chegava até ela. A Coruja de Atena caminhava de um lado ao outro, impaciente. Sabia que não poderia simplesmente marchar Templo de Poseidon adentro, pois a vida de Atena dependia de todos aqueles pilares caírem.
— Droga, Seiya, onde está você?!
Alice chegou a retornar para a entrada do pátio, subiu em um monte coral e tentou ver ao longe o que se passava nos pilares que ainda estavam de pé. Muito ao longe, ela percebeu certos lampejos de luzes em uma região que rodeava um enorme pilar quase desaparecido contra o céu-de-mar.
— Alguém está lutando.
E então olhou para cima e notou que o céu-oceânico estava muito mais próximo do que quando haviam chegado naquele Reino. Mais do que isso, notou como todo o céu-de-mar começou a mover-se lentamente ao redor de um único eixo em um espetáculo hipnótico e terrível. Um brilho dourado criou uma espécie de buraco no horizonte do céu-de-mar, onde o oceano passou a girar feito um turbilhão terrível, deixando a água acima de suas cabeças completamente fora de controle.
— Por Atena, o que está acontecendo?!
Atônita com o que acontecia no horizonte, ela foi surpreendida por uma bonita melodia de flauta, que ecoou nas pedras do pátio daquele Pilar enquanto o redemoinho rugia à distância. Alice olhou de volta no templo e notou uma figura que caminhava na rua pavimentada em direção ao pilar; caminhava com tranquilidade, enquanto tocava uma maravilhosa flauta de ouro.
Alice saltou do monte em que estava e colocou-se em guarda entre o Marina e o Pilar.
— Aí está você.
Era um rapaz de face delicada usando uma Armadura similar à dos demais Generais, uma espécie de escama acobreada e laranja com detalhes sobrepostos que aludiam à uma espécie de criatura alada, a se considerar o par de asas que ele tinha nas costas. Ele também olhava para o horizonte onde o redemoinho intermitente seguia rugindo. Voltou a olhar para a garota e mediu Alice dos pés à cabeça, deixando escapar uma expressão surpresa.
— Sou Sorento de Sirene, o General Marina que protege este templo. O Pilar do Oceano Atlântico Sul.
— Sorento de Sirene. — repetiu Alice para si mesma. — Veio me matar?
— Não. — respondeu ele, imediatamente, para surpresa de Alice. — Mas receio que seus amigos que chegaram ao Pilar do Atlântico Norte não tiveram a mesma sorte.
Alice olhou novamente para o redemoinho, mas então precisou voltar sua atenção para aquele que estava à sua frente.
— Na verdade, eu estou abismado com a sua presença. Você veio ao longo de todo o caminho até aqui usando apenas esse velho vestido rasgado.
— Não me subestime, General.
— Também parece que não dorme ou come há dias. Coloca-se em guarda para uma batalha que sequer tem forças para combater. É admirável.
— Minha missão ainda não terminou.
Sorento olhou outra vez para o horizonte, onde a tempestade seguia, mas também calculou que haviam muitas ausências no horizonte: os Pilares de Poseidon que já haviam caído.
— Eu reconheço que os invasores do Santuário de Atena operaram milagres nunca imaginados ao derrubar os Pilares de Poseidon, mas receio que nenhum de vocês sabe exatamente o que está fazendo.
— Vamos salvar Atena. — repetiu Alice o mantra de todos, enquanto chacoalhava o guizo de ouro que os conectava.
— Atena não quer ser salva. O que ela quer é a salvação dos mares e da terra. O que estão fazendo não é apenas se colocar contra Poseidon, mas também se colocar contra Atena.
— Não sabe do que está falando.
— Não. Na verdade, me parece que é você que não sabe o que está falando.
Alice ficou sem resposta, enquanto Sorento caminhou em sua direção com calma.
— Escute, menina, enquanto eu estive na superfície, eu ajudei pessoalmente a tripulação do Barco de Atena a selar a Relíquia dos Mares.
— A tripulação? Então conheceu Seiya e os outros?
— Não me recordo de seus nomes, mas me lembro da relação cordial com o tal Capitão Kaire.
— Moisés… — lembrou-se Alice.
— Ajudei-os a selar a Relíquia, uma vez que não estamos no Tempo de Poseidon. Assim como fizemos em todos os Sete Mares. — observou ele, com calma. — Com exceção… de Asgard.
— Não estive em Asgard. Tudo que sei é que um homem tentou usurpar o poder manipulando a Senhora de Asgard.
— Um homem de Asgard conspira para ter poder e então Poseidon e Atena passam a guerrear entre si. Me parece um tanto quanto conveniente.
— Poseidon estava destruindo a Terra. Atena precisava fazer algo.
— E está fazendo.
— Não vamos deixá-la morrer!
Sorento surpreendeu-se por um instante ao ver o Cosmo ao redor do corpo da garota.
— Não haverá batalha aqui.
— Ótimo. Então não irá se opor quando chegar o momento de derrubar este Pilar que protege.
— E por que ele continua de pé? — perguntou Sorento, apontando para o Pilar às costas de Alice. — Não é capaz de produzir o milagre que derrubou os demais?
Ela ficou calada, pois notou que o Marina não sabia o que se passava nos demais Pilares. Encontrou nos olhos de Sorento uma certa consternação contida, de modo que não falou mais nada, acreditando proteger um segredo importante.
— O que exatamente achavam que iriam conseguir destruindo os Pilares de Poseidon?
Novamente ela não respondeu. Sorento olhou dela para os pilares e então sua expressão mudou, como quem chega à uma conclusão lógica.
— Querem derrubar o Pilar Fundamental de Poseidon e resgatar Atena, não é mesmo? Mas para isso, os Sete Pilares dos Mares precisam ser destruídos primeiro. Seu silêncio pode esconder, mas sua face me conta tudo, garota. É impressionante que tenham chegado a essa conclusão sozinhos.
— É onde se engana, General. — começou ela, calculando que colocá-los uns contra os outros talvez lhe ajudasse de alguma forma. — Um de seus companheiros de batalha. Um tal General Dragão-do-Mar achou que não havia problema algum em nos contar toda a verdade, uma vez que somos apenas meros Cavaleiros de Bronze. Disse que jamais seríamos capazes sequer de chegar até o primeiro dos pilares. Muito bem, agora faltam apenas dois deles para podermos resgatar Atena.
O General Marina ficou pensativo por um instante. Então apontou para Alice com sua flauta dourada e fez uma pergunta.
— Ainda que Dragão-do-Mar tenha sido descuidado, ele não estava de todo errado. Os Pilares de Poseidon foram levantados pela Vontade Divina e somente poderiam ser destruídos por ela. Então, me diga, como é possível que foram capazes de realizar este milagre?
Ele foi direto, deixando transparecer que Alice tinha algo que ele precisava saber.
— Logo você verá. — ameaçou ela.
Sorento refletiu sobre aquela resposta, mas não se deu por satisfeito.
— Eu acho que ninguém mais virá. O General Dragão-do-Mar é aquele que protege o pilar do Oceano Atlântico Norte, aquele no qual podemos ver agora uma enorme tempestade engolindo tudo que existe ao redor.
Alice olhou para o horizonte e ficou apreensiva.
— De modo que nada ou ninguém chegará até você. — concluiu ele, com calma, mas demonstrando certa ansiedade. — E para que isso jamais volte a acontecer, eu preciso saber. Encare isso como uma cordialidade entre nossos Reinos.
— Desista, eu não irei te contar absolutamente nada.
O General Marina fechou os olhos em comiseração e então virou-se para encarar a corajosa Coruja de Atena com seu vestido rasgado e suas proteções improvisadas doadas por Freia.
— Muito bem. Já que faz tanta questão de guardar este segredo, eu vou lhe mostrar uma Música que irá tomar a sua alma. Não será capaz de esconder nada de mim enquanto estiver sob os efeitos de minha melodia. A Sinfonia Final da Morte.
Sorento levou a flauta transversal dourada próxima à boca e começou a soprar uma bonita melodia lenta, que Alice escutou sem sentir absolutamente nada em seu corpo. Ela chegou a olhar para os lados, tentando adivinhar alguma ilusão, algum ataque escondido por trás das pilastras, algum senso de ameaça, mas não havia nada. Apenas uma quietude maravilhosa e uma paz imensa invadindo seu corpo. Seu corpo tornava-se cada vez mais nauseabundo, como se aos poucos ela estivesse abandonando seus sentidos e vivendo apenas por aquela bonita melodia.
— Não, não posso ouvir a música. A música é o ataque!
Alice instintivamente tentou tampar os ouvidos para evitar que sua mente fosse separada de seu corpo, mas ainda que estivesse de ouvidos tampados a música parecia ressoar dentro de sua cabeça. A flauta parou por um instante e Alice escutou dentro de sua cabeça a voz grave e bonita de Sorento cantar de maneira delicada e sussurrante, seguindo o mesmo melisma e andamento da sua melodia:
Algema os ouvidos, mas a voz te encontra
No labirinto mental, a melodia te assombra
Nem que tampasse os ouvidos Alice parecia se livrar daquela voz aveludada. Ao terminar o verso, as notas da flauta voltaram para deixá-la de joelhos, até que novamente o General voltou a cantar em sua mente de maneira hipnótica:
Qual o segredo, mistério ou tesouro?
Alice já não tinha controle de si e escutou sua própria voz respondendo àquele verso hipnótico, enquanto ela fazia força para não dizer nada.
Uma relíquia distante…
Sorento abriu os olhos e continuou soprando sua flauta de maneira maravilhosa para forçá-la a partilhar o segredo que tentava esconder; e tudo que Alice sentia era paz, mas em seu torpor catártico tanto Sorento como Alice escutaram outra voz se interpor a eles naquela música. Uma voz soprano bonita cantando melismas à distância, de tal maneira maravilhosa que a própria cor do oceano que se quebrava no céu se transformava, oscilando entre as sete cores de um arco-íris.
Alice caiu no chão, ofegante, e olhou para o céu sem acreditar naquele espetáculo de luzes, enquanto a voz ecoava por todo o local. E não só ali no Pilar do Oceano Atlântico Sul, mas por todo o Reino de Poseidon outra vez aquela bonita voz foi ouvida. O General Dragão-do-Mar, debaixo de sua enorme entrada para a Outra Dimensão, olhou para o Pilar Fundamental intrigado de que aquela melodia outra vez interferisse em sua técnica. Dentro do Templo, Julian Solo levantou-se de seu trono e olhou por sobre os ombros para o caminho que levava até a prisão de Atena.
Nas escadarias do Templo, Tétis deteve sua corrida e olhou para o céu que mudava de cor, lembrando-se daquela sensação que havia experimentado ainda no Cabo Súnion. Desabada no Templo do Pilar do Oceano Índico, Shiryu abriu lentamente os olhos e aos poucos se colocou outra vez de pé apoiando-se nos escombros do pilar, olhando com admiração e paz para as cores que tingiam o mar do céu. Hyoga, com a Armadura de Aquário no corpo e a de Libra nas costas, parou de correr admirando o céu-de-mar tingido de mil cores e o redemoinho na direção dos pilares em que seguia.
Ainda desacordado e sem sinal algum de vida, o Cavaleiro de Pégaso jazia inconsciente diante do Pilar destruído do Oceano Ártico. A música não foi capaz de acordá-lo, mas fez seu rosto reagir pela primeira vez desde que havia sido ferido.
— O que é isso? O que é essa música? — perguntou-se Sorento, admirado com os lampejos de luzes. — Atena? Atena está cantando?
Fechou os olhos e buscou as notas da voz de Atena, como um músico admirado.
— Não, é mais do que uma canção. É uma prece. — falou Sorento. — Devo estar sentindo o cosmo de Atena na forma de uma melodia. Mas eu não posso entender. Eu sinto também um grande temor, apesar de ser uma melodia calma e agradável. Seu cosmo me deixa aterrorizado. Por quê? O que é esse medo? Por que sinto todo esse medo?
— Saori. — balbuciou Alice, voltando a si aos poucos. — Saori está cantando.
E então a canção finalmente parou.
— Acabou. — anunciou ele, e então olhou para Alice novamente de pé. — Bem, me parece que a voz de Atena libertou você da minha técnica. No entanto, aquela parece ser a última melodia de sua canção. Ela não deve ser capaz de te salvar novamente, garota.
— Ela ainda vive. — falou Alice, queimando seu cosmo. — E nós vamos salvá-la.
— Essa canção é como uma despedida. Ela pode sentir que seus Cavaleiros caíram, um a um. E logo todos serão tragados pela tempestade que ruge no céu-de-mar.
— Está enganado, Sorento. — falou Alice, confiante, ardendo seu Cosmo. — Você não pode ouvir, mas eu posso escutar, mesmo que de muito longe.
E então chacoalhou seu guizo de ouro.
— Posso ouvir os Cavaleiros de Atena se levantando. — Sorento parecia confuso. — Os Cavaleiros de Atena ainda estão lutando, Sorento de Sirene.
Sorento olhou no horizonte como se buscasse sentir algo na umidade do Templo e teve um terrível pressentimento.
— Droga. Tem alguém no Templo de Poseidon. Alguém se atreverá a interrompê-lo nesse momento? Será que… — e então olhou para Alice novamente. — Vamos, fale, qual é essa relíquia distante? Que tesouro é esse que vem de longe?
Alice ficou calada.
— Eu já disse que irei arrancar esse segredo de sua mente e, depois que o fizer, irei acabar com você. Vamos, escute a minha Sinfonia Final da Morte!
A Coruja de Atena tentou conjurar as águas do céu para se proteger, mas não foi capaz; viu-se outra vez ajoelhada no chão tentando interromper aquele feitiço terrível. Mas era impossível não se deixar levar pela melodia, pela paz, a serenidade que aquilo tudo trazia à ela. Escutou outra vez a voz grave em seus ouvidos:
Qual o segredo, mistério ou tesouro?
Novamente Alice ouviu sua própria voz balbuciar o restante da música enquanto se debatia.
Uma relíquia distante…
Sorento repetiu com ela o pequeno verso, instigando-a a completar. Uma lágrima escorreu do rosto jovem da garota quando ela terminou de cantar:
A Armadura de Ouro.
A melodia da flauta pendurou-se em uma nota suspensa para então ser interrompida pela voz grave de Sorento, que tirou Alice do transe, mas ecoou sua voz no templo para derrotá-la de uma vez por todas com sua técnica final.
— Clímax Final da Morte!
Sorento então soprou um grave profundo, seguido de um arpejo sincopado dentro de uma escala cromática furiosa, que fez seu Cosmo expandir-se e então pulsar uma energia oceânica terrível que arremessou Alice para o céu-de-mar tingido de ouro, algo que Sorento somente no momento final deu por perceber, admirado.
Era um dia de milagres, pois aquele brilho dourado no mar revelou-se como um resquício dos lampejos da voz de Atena. Uma esfera de luz envolveu o corpo de Alice, revelando atrás dela a figura de um centauro alado em chamas.
— Mas o que é isso? — perguntou Sorento, sem compreender o que se passava.
A Armadura de Sagitário dividiu-se no ar e cobriu todo o corpo de Alice, enquanto o Cosmo de Ouro que pulsava dentro da Armadura trouxe espírito renovado para a Coruja de Atena, que pousou diante de Sorento com suas asas douradas recolhidas.
— Essa é a relíquia distante, Sorento de Sirene. O tesouro que vem de longe.
— A Armadura de Ouro. — repetiu o General Marina, adivinhando do que se tratava finalmente. — Não posso deixar que a use para derrubar o pilar.
Sorento tomou a flauta para tocá-la, mas percebeu que Alice saltou no ar usando suas asas douradas para voar até as águas oceânicas que agora estavam muito mais próximas do chão. O General percebeu como Alice voou rente ao oceano e voltou rodeada pelas águas do Atlântico Sul. Mesmo Sorento viu-se cercado por gotas grossas de água que se manifestaram ao redor dele, como uma redoma de chuva.
— Acha que isso irá parar a minha música?
O Cosmo de Alice ascendeu e os respingos de água salgada ganharam ainda mais velocidade ao redor dela, em rodopios belíssimos no ar. Sorento foi paralisado por alguns instantes.
— Este é o Sopro do Respingo Angelical, que se transformará em um Turbilhão Celestial e acabará com sua vida, General Sorento de Sirene.
— Está delirando. Há pouco tempo atrás mal podia se mexer e agora acredita que é capaz de me vencer?
— Você não é um guerreiro. Você é um artista. Não seria a primeira vez que encontramos Marinas neste lugar sem qualquer preparo para uma batalha. Embora sua flauta seja poderosa, agora que estou usando a Sagrada Armadura de Ouro você não é páreo para a destruição que posso criar. Renda-se, Sorento.
— Eu jamais me renderia. Nada será capaz de me fazer parar de tocar esta flauta de ouro.
— Por favor, Sorento! — suplicou Alice. — Você não é uma pessoa má. Nem você, ou até mesmo aquela Sereia Tétis. Eu sinto muito que estejamos em lugares opostos, mas daqui eu posso ver em seus olhos. Eu posso escutar em sua música. Nenhuma pessoa realmente má seria capaz de tocar uma flauta tão maravilhosamente como você. Você comove qualquer um que o escute. A música que você toca só pode vir de alguém que tem um coração enorme e bom. Por favor, pare com isso.
— Eu realmente não esperava que alguém julgasse o meu caráter em um momento como esse.
— Não faça isso, por favor, Sorento.
— A minha música é bela, mas pode ser terrível. É verdade que para aqueles de coração puro a minha música pode ser maravilhosa e pacífica, mas para aqueles com o coração tingido de maldade ela pode levar até mesmo à morte. E o que vocês estão fazendo no Reino de Poseidon é imperdoável. É um pecado divino. E é por isso que sofre tanto ao escutá-la, não importa a cor da vestimenta que use. Seja um vestido rasgado ou uma Armadura imponente de Ouro. Seu coração é o mesmo, garota.
— Não vai me deixar escolha.
— Escute agora o Clímax Final da Morte.
— Turbilhão Celestial!
Antes que Sorento pudesse levar à boca a sua flauta de ouro, os respingos angelicais que cercavam os dois transformaram-se em um gigantesco maelstrom dourado, que uniu-se ao oceano acima de suas cabeças e arrasou com a Escama de Sorento, arremessando-o contra o paredão de água e então deixando que ele caísse alguns metros adiante de Alice, com as asas de Sirene partidas ao meio, a proteção cobre completamente avariada e o olhar atônito de quem mal conseguia respirar.
Sua flauta de ouro havia sido arremessada para longe, rolando pelo pátio do templo até ser parada por alguém. Alice olhou para a entrada do Templo e viu que Hyoga estava ali. Quase não o reconheceu, pois ele também usava uma Armadura de Ouro. A Armadura de Aquário.
— Hyoga!
— Alice! — alertou ele para Sorento, que se levantava outra vez.
Ela virou-se para o General, que parecia mal ter forças para se colocar de pé, e novamente colocou-se em guarda. Mas, quando o fez, percebeu uma orbe de luz sair do seu peito e manifestar à sua frente uma pequena Flecha de Ouro. Ela segurou a respiração e a tomou com a mão direita.
— A Flecha de Sagitário. — a mesma flecha que estivera no peito de Saori.
A pequena seta alongou-se e transformou-se em uma bonita e comprida flecha de ouro; em sua mão esquerda, a Armadura manifestou o maravilhoso Arco de Sagitário e Alice juntou as duas partes com a mira na direção do General Marina.
— Pare, Sorento, não quero matá-lo. Por favor, pare.
Mas ele levantou-se mesmo assim.
O Cosmo de Alice elevou-se com a Armadura sem que ela houvesse comandado, e então ela sentiu algo impressionante acontecer: seu corpo inteiro parecia forçado a se virar, alterando a mira de seu arco do corpo do General Marina para outro lugar, como se a Armadura tomasse conta do corpo da Coruja de Atena. Ela ainda tentou esforçar-se para tomar comando sobre seus pés e braços, mas foi incapaz de impedir. À sua frente, sob a mira da Flecha de Sagitário, agora estava o Pilar do Oceano Atlântico-Sul.
— O que está acontecendo!? O Pilar? Então… — Sorento balbuciou, confuso.
— Atire, Alice! — gritou Hyoga de longe.
Ela queimou o Cosmo e deixou zunir a Flecha de Ouro do Arco, que partiu deixando rastros de estrelas para trás atingindo o Pilar em cheio, gerando feixes dourados de luz. Uma rachadura enorme serpenteou da base até o topo daquela construção e, lentamente, ele veio a ruir. Mais um Pilar se desintegrou no pátio de seu templo em grande estrondo. O Céu-de-Mar avançou ainda mais sobre o Reino de Poseidon, baixando o nível do oceano às suas cabeças.
Fale com o autor