Enquanto a batalha seguia entre os Cavaleiros e os Generais Marinas, a superfície do Planeta Terra experimentava semanas de paz em que a chuva havia dado uma trégua inesperada, enquanto a vida de Atena se esvaía no Santuário de Poseidon. Os mares que antes pareciam revoltos agora haviam se acalmado. Inclusive em Tortuga, a ilha de corsários, piratas e náufragos que, naquele dia, tinha apenas metade de seus marginais atracados, pois a grande maioria dos navegadores haviam retornado aos mares com a volta das rotas comerciais no Oceano Atlântico.

Mas toda aquela calmaria estava prestes a mudar.

Embora muitos navegadores estivessem no mar, o Porto de Tortuga era sempre vivo, com seus jovens estivadores cantando e carregando caixotes de um lado para o outro. A Taverna vivia aberta e o rum jamais faltava, tampouco as histórias mentirosas que todos contavam. Haviam poucas construções na ilha, pois eram poucos os que realmente viviam ali, já que a grande maioria da população era sempre de navegantes no meio de uma viagem ou outra; e mesmo entre aqueles mais velhos que nunca faltavam à Taverna, se um jovem perguntasse onde ficavam por ali, eles respondiam sempre a mesma coisa:

— Estou só de passagem.

Muitos estavam mesmo só de passagem e raramente era negada entrada a qualquer um que tivesse uma boa história para contar, mas haviam aqueles que retornavam com tanta frequência que seus rostos e histórias passaram a ser conhecidos pela grande maioria dos que só estavam de passagem. Para o bem ou para o mal.

Tortuga era um vilarejo portuário em uma bonita e pequena ilha selvagem, já completamente saqueada de seus tesouros, é claro, mas que ainda abrigava aquele recanto de corsários. Ficava bem no centro de um atol, circundado por uma formação de corais muito antiga, altíssima e dura o suficiente para que torres de vigia houvessem sido construídas sobre elas há centenas de anos. Sempre ocupadas pelos mais jovens ou por aqueles que deixavam de pagar pelo tanto de rum que tomavam na Taverna.

Em uma delas, exatamente acima do único portal de entrada da ilha, um jovem rapaz precisou olhar três vezes sua luneta de cobre para ter certeza do que via no oceano. E o que via era algo aterrador. Primeiro enxergou algo que parecia impossível: um feixe de luz dourada projetar-se da água para o céu e então a superfície do oceano borbulhar como se fervida, enquanto um triângulo de lava pura se desenhava na superfície ainda calma.

O aspirante a corsário ficou boquiaberto com a estranha visão. Foi somente quando o triângulo finalizou seu desenho na água que ele percebeu o buraco escuro que havia se formado em seu vão. Ao redor dele, o mar começou a revolucionar formando algo impressionante. Outra vez ele colocou os olhos na luneta e não teve mais dúvidas. Ao seu lado ele puxou a corda de um sino grande e o soou com a maior força que ele poderia emprestar. Seus pulmões gritavam desesperados.

— Tormenta! Maesltrom! Tormenta nos mares!

E repetia à exaustão, de modo que cada torre de sentinela naquele atol repetiu o badalar dos sinos até que o anúncio chegasse ao porto. Dali onde ele estava jamais seria ouvido, já que entre o portal de entrada do atol e o porto havia boas milhas marítimas em que alguns poucos navios estavam atracados.

— Calem a boca, energúmenos! — bradou Barba-Negra no porto, pedindo que os jovens parassem de cantar e dar risada. — É o dia inteiro essa música horrorosa. Escutem.

Caminhou alguns passos e finalmente percebeu o tilintar dos sinos soando e as vozes abafadas que gritavam ao longe da torre mais próxima. Ele empurrou um jovem rapaz derrubando o caixote que trazia e correu para a esquerda da Taverna gritando:

— Tormenta! — bradou ele, e fez um pedido. — Deixem esses caixotes e vão para o Templo de Kalinago. Avisem Kai! Peçam que aquele sacripanta tire o traseiro de cima de seus tesouros e venha até o porto. Vão de uma vez, cambada de girinos!

E então seguiu em disparada até onde a formação de corais encontrava-se com a ilha e por onde havia uma ponte para as torres espalhadas pelo anel externo daquele atol; o pirata subiu as escadarias e finalmente alcançou a primeira torre de vigia onde logo uma moça franzina o alertou.

— Tormenta dos Mares. Tormenta! — repetia ela enquanto badalava o sino com frenesi, olhando para o portal principal.

— Já entendi, já entendi. — disse ele, interrompendo os badalos do sino. — Avise todos os miseráveis que estão de vigia e peça para que voltem ao porto ou serão cuspidos pelos ventos. Vamos, anda, mulher-demônio!

Ela partiu correndo para uma direção, ele seguiu noutra; correu por toda a extensão do anel até chegar à torre principal nos corais. No céu, ele viu se formarem nuvens carregadas e escuras, relampejando trovões ameaçadores, enquanto os ventos já começavam a soprar de todos os lados com força descomunal. A torre principal foi erguida acima do Portal de Entrada de Tortuga, onde há alguns meses ele mesmo havia lançado seu navio contra o Esperança de Atena. Do outro lado do passadiço de coral, ele viu surgir Capellirossi assaltada pela mesma pressa que o acometia.

— Saiam daqui. Voltem para o porto! — ordenou ela, ao que todos os jovens sentinelas da torre pronto atenderam. — Olhe, Barba.

Os dois imediatamente debruçaram-se no parapeito e o que a mulher apontava no céu era um braço poderoso de vento que começou a descer das nuvens para se encontrar com o oceano; a formação de um tornado imenso e, assim que se tocaram mar e céu, um breve terremoto chacoalhou Tortuga por inteiro.

— Por mil escotilhas! Veja dentro do tornado, Capelli, o que é aquilo?! Eu nunca vi nada igual.

— Parece um… um triângulo? Um triângulo escuro, preto feito piche. Mas suas bordas parecem brilhar como ouro. — Capellirossi tirou sua luneta de prata de dentro do sobretudo e olhou mais atenta. — Nem mesmo a cortina de tempestade em cima do oceano consegue impedir o brilho do triângulo. É um brilho estranho. Como se sugasse toda cor para dentro, eu não consigo explicar. Diommio.

— Se for Deus, ele usa um três-pontas igual o meu! — provocou Barba-Negra, no espanhol que falavam no Caribe.

A transformação no mar ainda não havia se acabado, pois o triângulo escuro que brilhava no oceano por detrás das cortinas daquele tornado lentamente duplicou-se e, através da cortina de vento do tornado, eles viram como o segundo triângulo escuro flutuou em direção ao céu. E quando ele fixou-se no firmamento, outro terremoto chacoalhou a ilha brevemente.

— Raios e trovões! — exclamou Barba-Negra e, quase como se ele próprio houvesse ordenado, o céu estalou em raios e trovões dentro daquela tempestade. — O que diabos é aquilo? Veja, Capelli, nas nuvens!

Por quatro vezes viram o enorme maelstrom iluminar-se de relâmpagos ardidos que estalavam dentro dele; ao soar da quinta reboada, um outro ronco furioso invadiu Tortuga quando um enorme avião de quatro motores, dois em cada asa, surgiu das nuvens e fez uma curva aguda para a esquerda, na direção deles, e girou em seu próprio eixo antes de espatifar-se contra o braço esquerdo do anel de corais, derrubando uma das torres de vigilância.

— Pelas barbas do profeta! — exclamou Barba-Negra, aviltado com a visão. Tentou correr na direção da destruição, mas Capellirossi o segurou no último momento.

— A torre foi destruída, mas eles estão bem. Veja! — ela ofereceu sua luneta e o Barba-Negra viu os jovens sentinelas nadando para longe.

Uma escuna já partia do porto para resgatá-los, quando escutaram outro barulho em alto-mar que os trouxe de volta ao parapeito. Duas caravelas surgiram do oceano colidindo entre si, como em guerra; Barba-Negra foi quem levantou a luneta novamente para compreender quem surgia do meio da tempestade, mas não conseguiu ver qualquer tripulante nos dois navios.

— Estão vazios. — falou ele, confuso, entregando a luneta à sua dona.

— Vão bater!

E, ao colidirem-se tão violentamente assim que surgiram da tempestade, seus mastros se entrelaçaram e o madeirame de seus cascos envergou; e não demoraram a desmoronar entre si em uma visão desesperadora.

— São barcos antigos. Antigos demais. — observou Capellirossi, sem fôlego, quando sentiu seu ombro ser chacoalhado levemente. Muita coisa parecia acontecer ao mesmo tempo.

Ela olhou, percebeu Barba-Negra com os olhos vidrados e o chapéu de três-pontas nas mãos. Ela mirou na direção que o atormentava e o que viu lhe faltaram palavras para descrever. Por detrás das nuvens carregadas, havia uma silhueta iluminada pelos constantes relâmpagos que tomavam quase todo o horizonte, pois era uma criatura colossal. E, quando rompeu a parede de nuvens, toda a Ilha de Tortuga parou o que fazia, pois jamais houve uma aparição tão funesta e impressionante em toda sua história. Talvez fosse um animal aquilo que voava no céu. Tão largo e imenso que os jovens bucaneiros do porto tinham certeza de que se aquela aparição tivesse uma boca ela seria capaz de engolir a ilha inteira de um bote só.

Não tinha asas, mas tentáculos translúcidos que pareciam flutuar no céu como se estivesse na água; e embora tivesse tentáculos, nem de longe se parecia com um polvo ou uma lula, sua semelhança estava mais próxima a algumas espécies de anêmonas do fundo do mar, e ainda assim estariam distantes em comparação. Movia-se feito um órgão respirante, pulsando no horizonte suas formas e mudando de cor conforme sua necessidade. Fez malabarismos e deslocamentos impossíveis no céu até que uma de suas membranas foi rasgada pelo ataque de cinco aviões bombardeiros que surgiram por detrás das nuvens.

A criatura, pois foi assim que os piratas julgaram aquela aparição, pareceu reagir àquele ataque com um lamento lacrimoso que ecoou por todo o céu de Tortuga, quase como o canto de uma baleia oceânica. E os aviões fizeram uma curva aguda em formação e tomaram direção da ilha.

— Vão nos atacar.

— Não. Não há ninguém pilotando. Estão vazios também.

— Não é possível. — protestou ele, tomando a luneta e vendo por seus próprios olhos.

Pois estavam vazios.

— Ainda assim. Se esses aviões caírem em Tortuga como aquele outro, tudo estará destruído. Precisamos fazer alguma coisa. Vamos às armas! Às balestras! — gritou ele para a companheira.

Barba-Negra então tirou de sua cintura uma enorme concha-rainha de ébano que ele colocou na boca e soprou com força, fazendo soar por toda a ilha seu berrante de guerra, alertando os sentinelas e estivadores que a Ilha estava sob ataque. Seu brado substituiu o lamento daquela criatura colossal, mas assim que Barba-Negra parou de tocar sua concha-rainha a ilha inteira voltou a ouvir o monstro.

— Vá para a Balestra do Porto, Capelli. — pediu Barba-Negra. — Atire nesses miseráveis tudo o que puder. Vazios ou não, esses aviões vão causar um enorme estrago se caírem no porto. Vá, mulher! Eu cuidarei da muralha.

E ela foi. E ele também. Barba-Negra correu para o lado oposto buscando a balestra que ficava na muralha oeste do atol; olhando para o céu, o pirata viu como a criatura nos céus lentamente caía em direção ao mar. E quando efetivamente espatifou-se contra o oceano, levantou uma onda enorme que chegou até mesmo a quebrar-se contra os paredões de coral de Tortuga.

— Mas por mil mortos-vivos, será mesmo o Fim-do-Mundo?

Olhou novamente para o mar enquanto corria e viu a carcaça lentamente afundar até desaparecer. À essa altura, o ronco dos motores antigos dos aviões já podia ser ouvido; quando ele chegou na balestra, logo a manuseou com destreza, apontou a mira no primeiro dos aviões da formação e atirou. A enorme seta de ferro atingiu a cauda e o fez rodopiar até cair no oceano. O pirata urrou em comemoração e então direcionou a balestra procurando o próximo, quando escutou outra seta de ferro zunir naquela direção, derrubando o segundo. Olhou para trás e viu Capellirossi recarregando a Balestra do Porto.

— Faltam três! — berrou Barba-Negra da torre, como se Capellirossi não fosse capaz de contar.

E os três estavam já muito perto da ilha. Tenso, o pirata conseguiu ainda acertar um último avião antes de sua Balestra perder a mirada. A aeronave caiu no oceano e ele saltou para trás.

— Não vai dar. Não vai dar! — gritou ele para Capelli, pois já não podia atirar de onde estava.

Correu pela muralha e viu outra seta de ferro partir do porto para derrubar o penúltimo avião. Ele desceu pelas escadarias e pontes que conectavam a muralha de coral à ilha e correu na direção do porto. Viu de longe como Capellirossi urrou e uma última seta de ferro partiu voando contra o céu e atingiu uma das asas do avião em cheio, arrancando-a completamente, praticamente dividindo o avião em duas grandes partes. O corpo principal da aeronave espatifou-se contra três pequenos iates no porto, enquanto a asa com seus dois motores em chamas caiu exatamente atrás da Balestra do Porto, soterrando Capellirossi entre os escombros em uma grande explosão.

— Não! Capellirossi!!!

Ele correu, mas precisou se afastar por conta de uma segunda explosão, uma vez que os motores estavam carregados de combustível. Os bucaneiros mais jovens do porto afastaram-se horrorizados, enquanto ele caiu de joelhos em frente aos escombros em choque. Fechou os olhos e sentiu-se zonzo. Os barulhos do mar e do porto lentamente morrendo no ouvido, enquanto ele escutava somente sua própria respiração. Aquele era o pior jeito de morrer para um pirata; ele mesmo acreditava que Capellirossi morreria em uma batalha naval, afundada no oceano que ela tanto amava. E dizia pela Taverna, quando ela não estava, que ele próprio seria o causador de sua queda.

E quantas vezes quase não morreram. Quantas vezes quase se mataram nos mares.

— Idiota. Bandida maldita. — sua voz balbuciou entre o fogo.

Alguém colocou a mão em seu ombro e Barba-Negra olhou para a figura sem poder distinguir quem era, uma vez que sua vista estava embaçada pelo esforço e a tristeza que ele represava. A figura o forçou a se levantar e o empurrou adiante, ele tropeçou e caiu próximo aos escombros que haviam soterrado Capellirossi. Ali escutou claramente um tilintar característico.

Levantou-se e começou a retirar os escombros de cima da Balestra do Porto, quando escutou os gemidos de alguém que sofria. Ela ainda vivia! E aquilo lhe deu ânimo renovado e força em dobro. Queimando seu Cosmo, Barba-Negra levantou uma tampa de metal com imensa fortitude, uma placa que revestia uma das enormes asas daquele avião e encontrou debaixo dela, salva por milagre, Capellirossi, com um ferimento na testa e a luneta de prata quebrada nas mãos.

— Ah, alguém me ouviu. — balbuciou ela, somente com um sorriso torto no rosto machucado.

Barba-Negra puxou-a para longe dos escombros e ajoelhou-se ao seu lado; apertou-a forte em um abraço e deu-lhe um beijo apaixonado, como quem havia segurado aquela vontade por muitos anos debaixo do chapéu. Tal o absurdo da cena que, mesmo com a Tempestade roncando no céu, o porto inteiro irrompeu em palmas e aleluias pelo herói e sua donzela.

— Já terminaram? — perguntou uma voz envelhecida.

Ambos olharam para trás e viram o velho Kai fora de sua Taverna.

— Levantem que temos visita. — anunciou ele.

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Depois do momento inicial em que a Tempestade pareceu cuspir o próprio caos na direção da ilha, tudo pareceu se acalmar, com exceção do enorme tornado que seguia rugindo. As águas dentro do atol ainda estavam calmas, protegidas pela enorme muralha circular de corais que circundava toda a ilha. No meio caminho entre o Portal e o Porto, um enorme pedaço de madeira reto e quebrado flutuava tranquilamente com uma pessoa deitada sobre ele de maneira preguiçosa e cansada com os olhos fixos no céu. Uma escuna aproximou-se lentamente e Barba-Negra perguntou ao navegante perdido.

— Precisa de ajuda?

— Não. — respondeu Geist. — E vocês?

Capellirossi e Barba-Negra deixaram escapar uma risada e então ajudaram a navegante naufragada a subir na escuna que usavam para resgatá-la. Voltaram rápidos ao porto e então caminharam os quatro até a Torre Principal pela muralha, enquanto conversavam entre si.

— Por onde esteve a honrada Cavaleira de Atena? — perguntou Kai para Geist, com olhos ferinos.

— Asgard.

— Asgard!? — retrucou Kai, como quem ouve uma maldição. — Arre, o passado parece mesmo querer voltar de qualquer jeito para esse mundo.

— Ora, Kai, achei que gostasse do passado. — comentou Capellirossi, com certa graça.

— Você quase virou passado. Gosto do passado onde ele pertence: no passado! — ralhou o velho, cuspindo no chão.

Geist parou por um instante olhando confusa para Capellirossi e foi Barba-Negra quem lhe contou.

— Essa míope quase morreu.

— Sorte dela que o príncipe dos mares estava lá para salvá-la. — falou Kai, com certo desgosto.

— O tiro foi certeiro. — contou a pirata ruiva empurrando Barba-Negra para o lado, como quem conta vantagem.

— E o que trouxe a Tormenta dos Mares, afinal? — perguntou Geist a todos eles.

— O passado. — respondeu Barba-Negra.

Quando chegaram à Torre Principal, Geist apoiou-se no parapeito e viu do alto a imensa tempestade que rugia no horizonte do oceano.

— O que viu da Tempestade no mar, Caveira-Geist? — perguntou Kai com seriedade.

— Pouco depois de ver o atol, percebi que a correnteza mudou drasticamente. De onde eu estava, tudo que vi foi um brilho dourado na superfície da água.

Il Triangolo d'Oro. — falou Capellirossi com seu sotaque forte.

— Em espanhol, latina! — bradou Barba-Negra.

— É quase a mesma coisa, animal! — respondeu ela.

— Continue, Caveira. — pediu Kai, impaciente.

— O braço do tornado tocou o oceano e as águas tornaram-se terríveis, com ondas enormes; meu barco não foi capaz de vencê-las e eu tentei circundar a Tormenta para chegar aqui, mas fui surpreendida pela aparição de alguns galeões. Grandes e pequenos. Navegavam de forma errática.

— Estavam todos vazios. Navios e naves. — observou Barba-Negra.

— Eu percebi quando passei perto o suficiente de um deles para ver o leme rodando sem qualquer pessoa controlando ou armeiros nas muradas, ou sentinelas nas velas. Ninguém. De qualquer maneira, com esses navios chocando-se à esmo, um deles perdeu seu mastro, que caiu na escuna que eu navegava partindo-a no meio. Tive sorte de que já estava perto do atol e uma onda me carregou até a entrada.

— Nada do que já não tivéssemos visto. — desapontou-se Kai.

— E a criatura no céu? — perguntou Barba-negra, interessado.

— Vi que havia algo no céu, mas havia tanto acontecendo no mar que não tive tempo de olhar.

— Perdeu um espetáculo. — observou a ruiva.

— Chega de conversa. — pediu Kai, interrompendo com as mãos. — Precisamos compreender o que está acontecendo.

Geist tirou sua luneta quebrada do sobretudo vermelho, presente de Meko Kaire, e olhou os poucos navios que ainda rodavam ao redor do tornado. Achou curioso e logo montou-se uma ideia em sua mente.

— Olhe, Barba. Parece que você finalmente encontrou o Atalanta.

O pirata a encarou com confusão e aceitou a luneta que ela havia lhe emprestado; olhou e sua expressão mudou completamente ao ver navegar com tranquilidade e completamente vazio um dos objetos de sua obsessão nos mares: o Atalanta, que contava-se ter naufragado naquelas águas no final do século 19.

— E aquele ali é o Wasp. Ao lado dele o Pickering. Rá. Que piada. — comentou Kai, reconhecendo antigos navios cujas histórias diziam terem sido engolidos pelo estranho fenômeno que atormentava as águas daquela região.

— Aquele estranho triângulo de ouro no oceano e no céu parece ter cuspido todos aqueles que se perderam nessa região no passado.

— Não parece ser somente o passado. — observou Geist apontando ao longe, onde estranhas aeronaves brilhantes faziam movimentos absurdos no céu.

Todos entreolharam-se, mas Kai puxou novamente a discussão.

— Os céus não me preocupam. Nosso maior problema é o mar. — falou ele, pedindo que todos olhassem para a base da muralha de coral, onde ela encontrava-se com a água.

Se apoiaram todos no parapeito da torre e viram com clareza como a água lentamente parecia deixar o atol, em uma leve correnteza na direção da tempestade, agora invertida por qualquer magia dos mares. Se antes a correnteza havia levado Geist até eles, agora parecia sugar a água da ilha.

— Isso não está certo. — falou Geist.

— A Tormenta pouco a pouco vai engolir este atol. — profetizou Kai, preocupado.

Goccia a goccia si scava la roccia. — falou Capellirossi em sua língua materna.

— Mas que mania! — reclamou Barba-Negra.

— Ela tem razão. — falou Geist, que compreendia tantas línguas. — Se não havia correnteza antes e agora o mar parece estar sendo sugado para dentro daquele triângulo, podemos esperar que essa força aumente cada vez mais. O coral irá se desintegrar e então toda a ilha estará à mercê dessa força. Precisamos impedir que isso aconteça.

— Alguma sugestão, Cavaleira de Atena? — perguntou Kai, com certo deboche na voz.

— Você pergunta já sabendo da resposta, Kai de Diamante. Me testa mesmo em um momento como esse.

Ele deixou escapar uma risada.

— A Regra dos Três. — falou ela e Kai assentiu, como uma aluna que acerta a resposta.

— É a Regra da Vida. — concordou ele, com certa pompa na voz. — Tudo tende a acontecer três vezes. Uma é o acaso, duas é a coincidência, três é a vida.

— Eu não sei se acredito nisso. — falou Barba-Negra, sem medo algum da reprimenda daquele que não era mestre de ninguém. — Mas a verdade é que se quisermos acabar com essa tempestade, precisamos navegar ao redor de cada uma de suas pontas e forçá-lo a se fechar.

— Três pontas. — observou Kai, orgulhoso de si próprio.

— Não me teste, velho. — respondeu ele.

— Acha que isso tem chance de dar certo? — perguntou Geist para Kai.

— Tem que dar. — respondeu ele, com seriedade. — Veja, nós humildes piratas talvez não tenhamos o brilho e a honra dos maravilhosos Cavaleiros de Atena. Mas nós temos nossos truques, não é mesmo? Os bucaneiros de Tortuga sempre garantiram a paz de sua ilha.

Geist então olhou para Barba-Negra e Capellirossi, que estavam juntos ao seu lado, e então de volta para Kai; ele olhava para o oceano com um sorriso no rosto.

— Você vai navegar. — adivinhou ela.

— Mas é claro que vou. — respondeu ele, colocando a mão no ombro de Geist. — Vai dar certo, pois Tortuga precisa de uma Mestre Caveira sentada no Tempo de Kalinago.

— Não posso concordar com isso. Eu vim para lutar.

— E essa é a terceira vez que vem até Tortuga, Caveira-Geist. — sorriu ele com seus dentes horrorosos, embora um brilhasse de ouro.

— Eu cansei de vir até aqui, Kai. Não sei do que está falando. — mas o velho levantou o dedo e corrigiu.

— Não. Você já passou por aqui milhares de vezes, mas Tortuga foi seu destino por apenas três vezes! Quando foi banida do Santuário de Atena, você veio buscando os Corsários de Tortuga. E nós a aceitamos entre nós. — falou ele mostrando toda a ilha, inclusive os piratas ao lado dela. — E então veio uma segunda vez trazendo um imenso tesouro. O Sangue de uma Deusa! E finalmente retornou pela terceira vez, agora para liderar essa ilha para o futuro.

— Kai…

— Estar aqui agora não é o acaso, tampouco a coincidência. É a sua Vida, Geist. Caveira-Geist.

A Cavaleira de Prata olhou para os rostos corsários daqueles ao seu redor, sujos, maltrapilhos e extremamente orgulhosos.

— Estão se despedindo. — falou Geist para eles, endireitando-se.

— Ora, ora, já passou de minha hora. — disse Kai rimando, mas então tornou-se impaciente com os braços. — Mas não quero sentimentalismos de ninguém. Deixem-me ir sem qualquer poesia. Vejo vocês no mar. E quanto a você, cuide dos meus tesouros.

Deu as costas e seguiu caminho pela muralha cantando um verso grave.

— É um sacripanta. — falou Barba-Negra às suas costas. — Ninguém irá sentir sua falta de qualquer maneira, não haveria qualquer sentimentalismo ou música em seu nome, corsário cinzento. 'Meus tesouros'...

— Não fale assim. — pediu Capellirossi, antes de se aproximar de Geist. — Mas essa é mesmo uma despedida. Eu duvido que apenas navegando ao redor da tempestade, seremos capazes de apartá-la. Será preciso ir até seu coração. E não sabemos o que vamos encontrar naquela escuridão. Sempre foi meu destino navegar até o fim-do-mundo e talvez agora ele esteja aqui. E por isso eu me despeço, cara Geist. Caveira-Geist.

Geist assentiu e as duas se abraçaram brevemente; Capellirossi desceu pela esquerda, mas antes deixou um olhar de doçura para o Barba-Negra, que ficou à sós com a Cavaleira de Prata. Ela logo lhe perguntou.

— O que foi que aconteceu aqui?

— Uma longa história. — respondeu ele, envergonhado.

— Meus instintos me sugerem que vocês se beijaram, finalmente.

— Bandida, salafrária! — acusou Barba-Negra, urrando, e Geist experimentou sorrir por um breve instante.

— Vá logo, Barba. Essa não é a despedida em que você deve se demorar.

Ele a olhou fundo nos olhos.

— Sabe, Caveira. Eu achei que tinha perdido Capelli hoje. Vi tudo ao seu redor explodir e minha vida inteira pareceu desmoronar. — falou Barba-Negra pela primeira vez do fundo de seu coração. — E, naquele momento, alguém me levantou. E eu achei que tinha sido você.

Geist ouviu atentamente.

— Provavelmente foi algum garoto do porto, mas eu senti como se houvesse sido você. Talvez eu quisesse que tivesse sido você. Vou sentir falta de atirar meus canhões contra seu navio.

— O mar e eu também sentiremos.

E finalmente se despediram. Geist viu como Capellirossi o esperava e, juntos, desceram finalmente ao porto de onde Kai já partia com seu bonito pequeno galeão para fora do atol de Tortuga.

Geist permaneceu na Torre principal e, dali de cima, viu os três barcos romperem o oceano e se espalharem pelo mar em formação triangular; Kai de Diamante na dianteira e Capellirossi com Barba-Negra atrás. A Cavaleira de Prata apurou sua luneta e viu como os três brigavam com seus timões e velas para seguir o curso correto naquela odisseia de ventos. Mas eram os melhores piratas de Tortuga, de modo que logo estavam ao redor do enorme corpo principal da tempestade, esforçando-se para se manterem à margem e não serem engolidos pela tormenta.

— Boa sorte, Corsários. — balbuciou ela ao vento.

De sua luneta, ela viu quando os três deram duas voltas ao redor da tempestade com sucesso, e então três brilhos surgiram no oceano, que eram os Cosmos daqueles navegantes orgulhosos. Capellirossi de Rubi brilhou em profundo amarelo-chama e de suas vestes tirou um frasco de tinta preta e jogou-o no ar; encantando seu corpo com seu Cosmo, ela gritou no meio da tempestade:

Tempesta di Rubini!

Um lobo de fogo surgiu ao redor de seu navio e juntou-se à técnica obscura de Barba-Negra, que tirou um cachimbo de seu sobretudo e o soprou com força, fazendo com que os chumaços de seus cabelos e barba manifestassem uma espessa fumaça negra que o envolveu junto ao seu Cosmo azulado antes dele se fazer ouvir por toda Tortuga:

— Ventos de Ébano!

Gargalhando feito um lunático, Kai de Diamante estava agarrado às cordas de uma das velas de sua proa; ele pisou com altivez próximo à carranca de seu navio e tirou de suas vestes um pequeno saco de couro, do qual pegou um punhado de uma espécie de areia branquíssima e atirou ao seu redor. Seu Cosmo prateado elevou-se e, com orgulho, Kai gritou para os mares:

— Diamante! — a poeira cósmica uniu-se ao seu punho e ele o atirou contra a tempestade, evocando sua técnica. — Pó de Diamante!

O gelo rasgou a parede da tempestade e uniu-se ao fogo e aos ventos negros, criando um vórtice contrário à força da tormenta; os três barcos navegavam em círculos ao redor da tempestade, cada qual acompanhando os movimentos de uma das pontas do triângulo de ouro que ainda brilhava no mar.

— Estão conseguindo! Que milagre, eles estão mesmo conseguindo!

Geist podia ver, pela luneta, que a combinação daquelas técnicas, dispostas daquela maneira e defendidas com tanto afinco pelos Piratas no mar, gerava um espetáculo de luzes de energia dentro da tempestade e, aos poucos, era capaz de sufocar o corpo do tornado que gradualmente diminuía. Até o ponto que apenas um fino braço de tempestade ainda conectava céu e mar.

Mas aquele pequeno braço de tempestade parecia ser o mais difícil de romper; Geist percebeu que os três não conseguiam mais avançar, não importasse o esforço que fizessem. O triângulo aos poucos os repelia cada qual para seu lado e já começava a torcer o madeirame de suas embarcações; eles tentavam com muito esforço evitar que seus navios fossem sugados pelo maldito triângulo, enquanto o tornado voltava a se fortalecer.

Geist teve um calafrio e seu peito congelou, andando de lá pra cá na torre, torcendo por seus companheiros.

— Você sabe o que fazer. — falou uma voz às suas costas.

Ela nem precisou se virar para quase perder o equilíbrio de tanta emoção. Tudo pareceu se calar. Era a voz de seu pai. Ela o encarou e ele estava exatamente como se lembrava dele, mas então teve forças para deixar de encará-lo para voltar a olhar para o mar.

— Você não está realmente aqui. É uma ilusão. — tentou ela explicar aquele milagre. — O Triângulo de Ouro no oceano é capaz de trazer o passado de volta para essas águas, para esse céu. Você é somente uma projeção do meu passado. O Triângulo está resistindo e tentando nos fazer perder o senso.

Geist olhou para o lado e viu, um pouco longe, na próxima torre de vigia, como um dos rapazes de vigia estava ajoelhado chorando sem que ninguém estivesse por perto.

— Estamos todos experimentando essa força? Estamos todos sendo visitados por nossos entes queridos para nos enganar em nossa missão?

— Todos nesta Ilha. — respondeu o pai de Geist. — Dizem que essa região do mar é de muitos presentes. Muitos tesouros. Chegou o momento do Mar devolver alguns deles a todos vocês.

O peito de Geist enregelou e ela sentiu uma enorme vontade de chorar. Lembrou-se de Barba-Negra e Capellirossi, de como os dois haviam encontrado seus presentes antes mesmo daquela força se manifestar em Tortuga. Deixou aquele parapeito e olhou para o Porto da Ilha, muito longe dali, mas com sua luneta de prata, viu como os jovens bucaneiros e velhos alcóolatras do porto dividiram-se entre aqueles felizes da vida e os que choravam emocionados no chão. Havia uma catarse coletiva tomando conta de todos.

— Por quê?

— Porque todos nós que vivemos no mar temos alguém querido que está distante demais. Alguém de quem sentimos falta e por quem choramos escondido no oceano, na esperança de que nossas lágrimas se misturem ao mar.

Ela sentiu que seu pai sabia de cada segundo seu desde que ele havia partido, que a estivera observando durante todo esse tempo.

— A Tormenta dos Mares não é apenas um furacão do oceano que irá engolir toda a ilha; a Tormenta é muito mais a tempestade de memórias que ela traz consigo nos momentos finais de um navegante de Tortuga. — falou seu pai com sabedoria.

— Eles não vão conseguir fechar o Triângulo. — comentou ela, retornando ao parapeito para o mar.

— Eles não vão. Mas você pode. E já sabe como. — repetiu seu pai. — Faça o que sempre fez.

Geist olhou para ele com os olhos marejados.

— Vá ao mar, minha filha Geist.

Mas ela negou com a cabeça e voltou a andar de um lado para o outro enquanto sentia uma lágrima escorrer por seu rosto.

— Por que hesita? — perguntou ele.

Ela finalmente virou-se para seu pai, olhando-o nos olhos, e sua voz lhe disse tudo que estava em seu peito enquanto chorava.

— Porque eu preciso pedir perdão. Pedir desculpas por não ter te avisado que o barco estava quebrado naquela noite. Que era perigoso sair com ele. Que eu não tinha obedecido suas ordens, pai. — engasgou ela com as palavras. — E que eu não queria que tivesse morrido.

Ele se aproximou e abraçou sua filha com força, enquanto ela, desesperada, percebeu que aquilo não parecia uma ilusão.

— Eu é que tenho que me desculpar com você, Geist. De ter ido ao mar sem poder voltar e acalmar seu coração. Nada do que aconteceu comigo foi culpa sua. Ou do barco. Por vezes o mar é traiçoeiro até para o melhor galeão e o melhor marinheiro. E você passou sua vida inteira imaginando o que poderia ser diferente. Mas nada poderia.

— Pai?

— A Tormenta é também uma chance de nós, que estamos longe, podermos dizer aquilo que sempre quisemos, mas não tivemos chance. Acalma seu coração. E navega, filha. Cumpre teu caminho.

Geist viu seu pai sorrir do jeito que sempre sonhava e deixou-se cair uma última vez em seu abraço quente; e quando virou-se para o oceano, sentiu que ele não estava mais às suas costas, senão ardendo no Cosmo de seu peito. Ela limpou as lágrimas e pulou da torre ao mar, pousando em uma pequena embarcação à deriva que já tomava a correnteza em direção da tempestade. Ela o guiou com destreza e, rapidamente, ganhou as léguas até a tríade de pequenos galeões que atacavam o Triângulo de Ouro.

Ela circundou os barcos de Capellirossi e Barba-Negra gritando-lhes à estibordo:

— Afastem-se! Reagrupem-se para o ataque final!

— O que pensa que está fazendo, Caveira Geist? — urrou Barba-Negra de um lado. — Não vai roubar nossa glória!

Ela fez uma curva aguda à esquerda e emparelhou com o terceiro brilhante galeão e saltou de seu pequeno barco para pousar no convés vazio do barco de Kai, que navegava sozinho, como em um milagre.

— O que está fazendo aqui, criança?

— Vim lhe trazer o seu tesouro, Kai. — falou ela, tirando o pingente de prata do pescoço e mostrando a ele. — O Mar está entregando a todos os piratas de Tortuga os seus maiores presentes. Devolvendo a todos os seus tesouros distantes. Chegou a sua vez, Kai de Diamante.

Geist queimou seu Cosmo de Cavaleira de Prata e deixou que o pingente caísse no chão, onde ele imediatamente transformou-se de volta na Urna de Prata com as inscrições de um bonito barco nas laterais. A Capitã do Esperança de Atena pisou em cima da caixa e a empurrou com a força de sua perna para que se arrastasse pela madeira até chegar em Kai, que a parou com a perna também.

— Seu sonho sempre foi ser um Cavaleiro de Atena, não é verdade, Kai de Diamante? Pois aí está. A Armadura de Argo.

— Argo Navis. — falou Kai com emoção e brilho nos olhos.

— A Quilha, a Popa e o Velame. — adicionou Geist. — Três Armaduras de Atena em uma só.

— Para Três Cavaleiros de Atena. — falou Kai, admirado. — A Regra dos Três.

Geist assentiu.

— Agora use seu Cosmo e liberte essa Armadura.

Kai olhou para a urna à sua frente e tirou cada uma das partes de diamante que o protegiam; seu Cosmo prateado e gélido contornou seu corpo quando ele puxou a corrente revelando a maravilhosa embarcação de prata, que dividiu-se no ar em três: a quilha, a popa e as velas. A Quilha vestiu seu corpo envelhecido com as proteções de prata, enquanto a Popa voou até Barba-Negra e Capellirossi trajou-se de Velame.

— Ataquem o Triângulo uma última vez que eu irei fechá-lo por dentro. — anunciou Geist para todos.

Consentiram e suas vozes levantaram-se novamente com seus Cosmos de Prata.

Tempesta di Rubini!

— Ventos de Ébano!

— Pó de Diamante!

As técnicas encontraram-se no centro do Triângulo de Ouro, acima da superfície da água, novamente forçando-o a se fechar; Geist correu pelo convés de Kai e saltou dele para dentro do Triângulo.

Quando atravessou o limiar do oceano, sua audição calou-se completamente, fazendo desaparecer os estampidos da tempestade e substituindo-o por oscilações distantes que ela não compreendia muito bem.

Viu alguns planetas e estrelas ao seu redor, que apareciam e sumiam num piscar de olhos; galáxias giravam rápidas acima de sua cabeça e uma imensidão de objetos enormes e pequenos flutuavam no espaço sideral; alguns ela podia reconhecer, mas havia muitos que ela não conseguia sequer compreender o que eram ou com o que se pareciam. Sentia também uma imensa paz onde estava, sendo apenas mais uma entre tantas coisas perdidas.

Seu corpo começou a arder e, por detrás de um planeta, ela viu ao seu lado um triângulo branco, que era a entrada pela qual ela havia chegado até aquele lugar. E lembrou-se do que tinha de fazer ali. Ardeu seu Cosmo com ímpeto e, quando o fez próximo às estrelas e galáxias, sentiu que ele se encheu ainda mais de força e imensidão, alcançando o Sétimo Sentido, como parte de tudo. Abriu os braços e de seu peito uma luz se manifestou quando ela gritou para todos os planetas a escutarem:

Argonáutica!

-/-

Calmaria nas águas do mar. O canto distante de gaivotas acordou Geist, que viu-se debaixo de um céu em que o sol estava acima de sua cabeça, dando a tudo a cor mais brilhante que havia. Estava inteiramente molhada e suja de areia, pois havia sido carregada pela maré até a costa próxima. Vestia ainda o surrado sobretudo vermelho de Atena e percebeu no horizonte que a tempestade havia sido dissipada. Não sabia onde tinha ido parar e, quando olhou ao redor, viu um homem se banhando no raso da água. Suas tatuagens ela reconheceu imediatamente. Geist caminhou até ele dentro da água.

— Estou morta?

Ele olhou para trás, para ela.

— Não parece morta pra mim. — respondeu Meko Kaire.

Ela não respondeu e continuou olhando-o se banhar com a água cristalina daquela praia; ela também limpou o rosto e tirou o sobretudo vermelho, ofertando-o ao oceano.

— A morte é uma das viagens mais difíceis a se fazer. — falou Meko, novamente. — Eu mesmo não sei se posso te ajudar. Mas se tem alguém que encontrará o caminho, esse alguém é você, minha querida Geist.

— Capitão. — assentiu ela, com respeito, ao que ele tornou.

— Capitã.

— Eu senti sua falta.

— De certa maneira eu estive sempre com você. — tornou ele, aludindo ao sobretudo vermelho que agora flutuava em direção ao horizonte. — Vá.

Meko Kaire apontou às suas costas para um enorme rochedo que havia na praia, com uma entrada cavernosa para a qual Geist se encaminhou, deixando seu Capitão na praia. Entrou por um caminho estreito que ela reconheceu imediatamente; o caminho a levou até uma grota que se abria para uma bonita caverna. O frequente barulho de água corrente ecoava pelas paredes de pedra e algumas pequenas quedas d'água apareceram mais adiante. Tudo para desembocar em um lindo lago no interior da caverna que, magicamente, iluminava-se por quaisquer que fossem os fenômenos de luz ali.

Um gigante parecia esperá-la. Ela subiu em uma pedra para ficar mais próxima de seu rosto, como sempre fazia, e viu como sua face era triste e seu lamento grave muito lacrimoso. Ela o abraçou como pôde e viu, dos enormes olhos do gigante gentil, escorrerem gotas largas de um choro dolorido.

— Pedi para os outros cuidarem de você, mas a verdade é que é você irá cuidar daqueles três, não é, meu amigo?

O gigante assentiu chorando e, juntos, fecharam os olhos e tocaram a fronte da cabeça um do outro, despedindo-se finalmente. Geist saiu daquela caverna e desceu por um vale até a parte de fora, em que viu-se rodeada de monturos de entulho metálico, como em um ferro-velho abandonado. O calor era sufocante onde estava e aquele lugar ela não reconhecia, de modo que subiu em um dos montes para poder enxergar melhor onde estava.

Viu diversos outros monturos a perder de vista em um lugar desolado, onde chamas queimavam na distância e havia fumaça por toda a parte. Escutou um tilintar e pequenas risadas, que a fizeram caminhar naquela direção, até encontrar na base de um desses monturos uma criança correndo pra lá e pra cá. Era Lunara, ela reconheceu imediatamente. A pequena corria fazendo uma boneca de tampas e prego voar feito uma heroína; Geist encontrou algo apropriado ao seu lado e desceu até a criança.

— Oi! — disse ela, muito feliz, ao ver Geist se aproximando.

— Olá, qual seu nome?

— Não sei. — respondeu ela, ainda brincando.

— Veja, te trouxe um presente.

— Um presente! — reagiu a garota.

Era uma pequena peça abaulada e metálica com um vão no meio.

— Talvez seja o barco de sua heroína. Quem sabe ela não possa ser uma capitã dos mares?

— Capitã! — a pequena encaixou sua boneca improvisada dentro do barquinho e correu pro mar.

Geist a observou se distanciar antes de seguir sua viagem; subiu um monturo de lixo próximo, mas percebeu que alguém do alto de um monte a olhava. Alguém rodeado de estrelas e um brilho tênue, mas que não parecia notar que estava encantada por qualquer coisa.

— Quem é você? — perguntou Ikki, muito mais jovem, para ela.

— Estou apenas de passagem. — respondeu Geist com um leve sorriso ao rever aquela face tão dura em uma menina tão nova.

E deixou-a ali cuidando de Lunara; ao descer do monturo de lixo, percebeu retornar à praia, embora agora suas ondas estivessem mais violentas e agitadas. Havia um corpo estendido na areia e Geist foi ao seu socorro por instinto; virou-a e encontrou o rosto jovem de June, desacordada. Ela vestia uma camiseta de estampas roxas toda manchada de sangue e pólvora; suas pernas estavam machucadas, protegidas por um vestido bege rasgado e botas escuras nos pés. Na cabeça, trazia um véu amarelo-forte também bastante maltratado.

Havia uma história ali que Geist não podia imaginar, tampouco June jamais havia lhe contado. A Cavaleira de Prata cuidou de seus ferimentos naquele instante, sabendo que ela viveria para cuidar de todos ao seu redor. Geist limpou seu rosto muito jovem, talvez não tivesse mais do que sete anos, imaginou ela; chorou e deixou ao lado da garota um cantil de água que magicamente encontrou na sua cintura. Sabia que June acordaria e viveria uma vida incrível dali em diante.

Então seguiu seu caminho com o coração emocionado, pois havia compreendido seus encontros naquela jornada final. A faixa de areia pela qual caminhava revelou à esquerda prédios enormes, barulhos de carros e sirenes, embora a praia estivesse deserta e também não existisse carro algum nas ruas. Sua boca secou de emoção, pois sabia exatamente quem encontraria a seguir.

Ela atravessou a avenida vazia e viu um único lugar que parecia carregar cores fortes contra uma cidade cinza; era um bonito gramado com balanços e crianças jogando bola, felizes e sujas de terra. Ao fundo, uma construção de três andares muito simples. Às suas costas, o sol já se punha, tingindo o céu de laranja. Ela abriu o portão de madeira e leu na inscrição que ali havia: "Orfanato das Estrelas".

As pestes brincavam de bola, outras se jogavam no balanço ou nas gangorras; Geist parecia reconhecer alguns deles só pelas histórias que o garoto contava no navio. O sino soou e todas as crianças lamentaram o final do recreio; Geist procurou nos rostinhos e cabelos desgrenhados o sorriso conhecido, mas não encontrou. Ela mal respirava de emoção de reencontrar o Cavaleiro de Pégaso. Um velho bedel apareceu de dentro da construção chacoalhando um sino e, ao seu lado, veio uma garota mais velha, embora ainda jovem, batendo palma para que as crianças fizessem fila para entrar de volta, pois afinal era hora do jantar.

— Vamos, vamos! Em fila. Sem reclamar. Hoje tem cachorro-quente! — anunciou ela, para um grande viva de todas as crianças. — Vamos, Makoto, vamos! Deixe isso aí no chão que eu pego depois.

O coração de Geist quase parou, pois ela era mesmo a cara dele, como todos sempre lhe diziam. Geist sabia que aquela menina era Seika. E a garota percebeu a estranha visita no gramado e correu até ela.

— Oi! Desculpa, não vimos você chegar. Você veio visitar as crianças? — perguntou ela, muito entusiasmada. — Não, não me diga nada. Vou chamar o diretor e você fala com ele.

— Espere. — pediu Geist, antes que ela entrasse para o prédio. — Seu nome é Seika, não é?

— Sim. — respondeu ela, de longe, com um sorriso misturado com surpresa.

Geist caminhou até a garota com coragem e finalmente perguntou.

— Onde está o seu irmão?

Seika respondeu primeiro com uma careta e então com uma pergunta.

— Qual deles? — Geist calou-se de profunda confusão. — Desculpa, deixa eu colocar as crianças no refeitório, senão vira uma bagunça. Eu já volto!

Ela então sentiu-se confusa e viu que suas mãos começaram a brilhar de maneira impossível, como se o seu tempo naquela jornada aos poucos se esgotasse. Seu coração estava pesado por não ter visto o rostinho do jovem Cavaleiro de Pégaso, mas sabia que aquela memória era uma memória feliz se Seika estava ao seu lado. Ela, comiserada, deu as costas para ir embora, quando escutou alguém lhe falar:

— Ela é igual a avó dela. — comentou o velho bedel com as mãos cruzadas nas costas e um sorriso no rosto.

Geist achou estranho o comentário; o velho bedel usava um robe escuro e poderia ser confundido com um padre, mas uma insígnia em seu peito fez o coração da Cavaleira de Prata paralisar: era o círculo vazado da Vitória, símbolo de Atena. Geist voltou a olhar para o velho que sorria.

— Ela é minha neta. — falou ele finalmente. — Se chama Seika em homenagem à minha velha irmã. — disse ele, cheio de orgulho.

A Cavaleira de Prata finalmente se desmanchou de emoção, seus olhos marejaram e ela correu para abraçar, forte demais, o velho Seiya.

— Meus ossos já não são os mesmos, Capitã.

— Ah, Seiya.

— Velho Seiya. — corrigiu o velho. — Aqui me chamam assim.

— Não tenho muito tempo de luz. — respondeu ela ao perceber que o brilho de seu corpo parecia aos poucos espalhar-se. — Acho que fui jogada pelo espaço e tempo das memórias. Eu não sei bem ao certo o que está acontecendo.

— Se tem alguém que vai descobrir, esse alguém é você, Capitã.

Ela limpou suas lágrimas e olhou-o com coragem; era desconcertante não ser a pessoa mais velha naquela relação.

— Falta uma pessoa ainda. — anunciou ela.

O rosto do Velho Seiya parou um momento, refletindo, mas então sorriu ao perceber de quem se tratava; deixou escapar uma risada rouca de quem viveu muito e feliz.

— E o que tem a dizer para ela?

— É um segredo meu e dela. — respondeu Geist, para deleite de Seiya.

Uma criancinha de três ou quatro anos surgiu puxando seu robe escuro.

— Vô, vovô! Vem! — chamava ela.

Seiya sorriu de volta para Geist e finalmente se despediram; ele entrou no Orfanato e ela saiu para a rua de terra do lado de fora. O sol foi engolido pelo horizonte e a lua já se levantava nos montes da Grécia quando ela subiu uma pequena estrada vazia até um casebre isolado na montanha. Geist entrou por ele, notando que seu corpo começou a brilhar intensamente e seus pés deixaram de tocar o chão, como se sua existência aos poucos fosse sendo sugada pelas estrelas. Ela estava virando luz. Talvez justamente virando estrela.

Deitada em uma cama, Shaina despertou com aquela aparição, como sempre fazia desde que era uma criança; o anjo de luz que a visitava em sonhos de tempos em tempos havia retornado.

— Você! Sempre você! — acusou ela. — Quem é você? Vamos, me responda!

Geist ardeu seu Cosmo de Prata e conteve a luz que a consumia por um breve período, revelando-se finalmente para a amiga como o anjo de luz que sempre a visitou.

— Geist? — assombrou-se ela.

— Shaina.

— É… É você? Sempre foi você?

— Sempre.

— O que isso significa? Não me diga que…

— Morta. Viva. Não importa mais. Serei luz.

— Não… — reagiu ela, que já era mulher formada.

Geist olhou pela janela, para os ferimentos de Shaina, para o seu olhar duro. Teve a impressão de que parecia terem se encontrado há poucos dias atrás. Foi quando lhe ocorreu finalmente o momento exato em que a visitava naquela ocasião. Para Geist, aquela era a primeira e a única vez que encontravam-se em luz, mas para Shaina, aquele encontro espalhou-se por toda sua vida. Por muitos de seus sonhos. E agora acontecia no dia em que precisava acontecer.

— Me escute, Shaina, pois tenho pouco tempo. — começou Geist para ela, que a olhava atentamente. — Os Cavaleiros de Atena estão lutando contra Poseidon no Reino do Fundo-do-Mar.

Shaina levantou-se da cama em alerta.

— Veio me avisar. — adivinhou ela.

— Não. — corrigiu Geist, enquanto seu corpo cobria-se de uma névoa branca, como se a luz dentro de si se esforçasse por transbordar, enquanto ela se esforçava em manter-se visível. — Mais do que isso, vim lhe dizer algo muito mais importante, minha amiga.

A Mestre-de-Armas pareceu confusa, pois poucas coisas poderiam ser mais importantes do que aquilo, a eterna missão dos Defensores de Atena. Mas aquele anjo de luz era uma projeção de Geist, o que no coração de Shaina traduziu-se como uma despedida; talvez a amiga tivesse encontrado seu destino final, e isso também era importante. Importante para ela.

— Geist, eu… — não conseguiu terminar, pois não tinha jeito com aquelas palavras.

— Eu sei. — respondeu Geist, apenas. — É sobre isso que vim lhe falar. Vim para lhe dizer algo que você precisa saber. E nunca mais esquecer.

Havia um sorriso no rosto de Geist que Shaina não gostava, mas seu olhar desconfiado trouxe ainda mais graça para ela. Geist aproximou-se e tomou com delicadeza sua mão direita e a reação inicial da amiga foi se afastar, como se queimada, mas Geist a segurou forte e a abraçou finalmente. Lembrou-se de seu pai em Tortuga. Shaina ficou sem saber o que fazer. Ouviu a voz de Geist no seu ouvido lhe falar coisas absurdas.

E quando terminou, finalmente Shaina se apartou dela.

— Eu não posso acreditar que você morreu e veio me visitar pra falar esse monte de asneira. — falou ela já chorando, escondendo o que verdadeiramente sentia nas palavras, mas deixando que seus olhos dissessem absolutamente tudo que Geist sabia que estava dentro dela.

Geist sorriu.

A amiga odiou, mas então Shaina foi quem a puxou para um último abraço. E foi nos braços da amiga, que Geist finalmente se dissolveu em luz para virar estrela. Shaina chorou naquela noite em que aquelas palavras ecoariam para sempre em seu coração. E foi em lágrimas que ela subiu as Doze Casas naquela madrugada para alertar a Mestre Mayura das batalhas no Reino de Poseidon.

Enquanto corria com muita pressa, teve de se deter por um momento, pois percebeu tilintar no chão de pedra, algo que ela trazia nas roupas: uma lasca brilhante da Armadura de Pégaso que ela odiava guardar sempre por perto.

Notas finais
Loucura total. Assim que eu comecei a escrever o arco dos mares, e inventei a Ilha de Tortuga como o local de Geist, eu já imaginei que durante a batalha contra o Dragão-do-Mar, seria muito legal ter um capítulo em que veríamos as consequências do Triangulo Dourado na superfície. Mais do que isso, me aprofundei nas diferenças entre a Outra Dimensão e o Triângulo Dourado, e é muito curioso como a descrição que Kanon dá para o golpe é ligeiramente diferente da de Saga, pela inclusão do Tempo. E isso é extremamente poderoso! Mais do que isso, eu quis trazer de volta para a realidade todos aqueles elementos que aparecem no mangá quando ele usa a técnica. A Tormenta em Tortuga é diretamente um reflexo daquela imagem e foi divertidíssimo construir os personagens de Tortuga ao redor dessa grande batalha. Eu amo Capellirossi e Barbanegra e foi divertido escrevê-los tão próximos, ao mesmo tempo que desenvolver Kai um pouco além daquela muralha de diamante que ele finge ser para mostrar sua vulnerabilidade e seu sonho maior. Com isso, eu consegui partir da Armadura de Argo em três partes, exatamente como a conhecemos na série (Quilha, Proa e Vela). E o que falar do trecho final do capítulo em que Geist visita seus companheiros de viagem e vemos um pouquinho de cada um deles em momentos distintos de sua vida? Especialmente o encontro com Seiya, eu mesmo escrevi, mas ainda assim me emociono com ela. E, por fim, a despedida com Shaina, que não é para ser romântica, mas sim de duas amigas