Os Astros
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Após o acontecido — encontrar com a Ludmila — daquele dia eu nunca mais sai de casa, a não ser para ver o Juan. E afinal era isso que estou fazendo no momento, indo em direção ao hospital ver o Juan.
Germán já havia voltado de viagem. Ele e Angie estão mais estranhos que o normal. Tenho certeza que eles escondem algo e todos na casa sabem o que é, menos é claro eu. Germán já voltou ao normal, continua sendo o mesmo grosso que não está nem aí com nada, a não ser com ele mesmo. Mas havia algo ou melhor alguém que sempre estava em meus pensamentos: Ludmila. Eu havia pensado em dizer a Germán que a havia encontrado ela, mas acho que sua reação não seria uma das melhores.
— Violetta, chegamos. — Germán disse sem nem ao menos me olhar. Assenti, mesmo sabendo que ele não iria ver, pois o mesmo já estava fora do carro andando em direção a entrada do hospital.
— Ele gosta de você! — disse uma voz masculina, me virei e deu de cara com Ramalho que me lançou um sorriso. — Só não demonstra. Afinal muitas pessoas gostam de você, eu sou uma delas. — Ele disse abrindo os braços, esperando que eu lhe de um abraço.
— Mas e o seu "espaço pessoal"? — perguntei, mas não lhe dei chance de responder, pois ja havia me lançado em seus braços.
Se havia uma coisa que eu percebi é que desde que estou em Buenos Aires já deu mais abraços, do que morava em Madrid.
Me separei do abraço e me virei indo em direção a entrada do hospital, onde Germán estava me esperando — ele parecia irritado.
— Ah, Violetta — Chamou-me Ramalho, girei meus calcanhares ficando mais uma vez de frente com ele — Posso abrir uma exceção para você. — ele disse com um sorriso, arqueei as sobrancelhas indicando que estava confusa — Sobre o meu espaço pessoal, ele só existe para a Olga. Saiba que se precisar de algo, até mesmo de um abraço eu estou aqui. — ele disse sorrindo para mim.
— Obrigada Ramalho — disse e me lancei em seus braços novamente. Ramalho era como meu segundo pai.
Me soltei e fui em direção ao Germán que ainda estava parado na porta olhando para mim e Ramalho.
— Eu já ia entrar sem você ele disse assim que cheguei ao seu lado. Não me dei o trabalho de lhe responder. Só fiquei lá olhando para ele e para Ramalho e sem medir minhas palavras disse:
— Eu queria que ele fosse meu pai, não você! — assim que terminei de dizer levei minhas mãos a boca impedindo assim que eu dissesse mais algo idiota e arregalei os olhos, tanto pensei que eles saltariam de minha face, me arrependi amargamente de ter dito isso a ele. — Germán me... — tentei me desculpar, mas ele fez um gesto com a mão como se dispensasse meu pedido de desculpas e murmurou um "tanto faz" indo em direção a recepção do hospital, comigo o seguindo logo atrás.
Sua burra, você estragou tudo!- Julgava-me o meu subconsciente, qual eu havia denominado de Josh. Por mais que pareça estranho eu havia dado um nome ao meu subconsciente.
— Senhor Castillo. — saudou o Dr.Ramos, o médico que estava cuidando de Juan. — Senhorita Castillo — Dr. Ramos saudou-me com um aceno de cabeça.
Dr.Ramos devia ter uns 45 anos, tinha cabelos grisalhos, era alto, magro. Usava calça caqui, uma camiseta preta, o jaleco branco aberto por cima da camiseta e um sapato marrom.
— Dr.Ramos — disséssemos eu e Germán em uníssono.
— Creio que vieram ver o senhor Castillo! — disse Dr.Ramos com um sorriso no rosto.
— Ela veio, mas eu não vou poder ficar. — Germán olhando para o Médico.
— Não vai ficar? — Perguntei
— Não, com licença — disse e saiu.
— Venha comigo senhorita.
— Se estiver muito ocupado, eu posso ir sozinha. — Disse ao Dr.Ramos.
— Tudo bem, eu preciso esclarecer umas coisas sobre o paciente. Tudo bem para senhorita? — Perguntou e eu assenti com a cabeça. — Ótimo. Antes de tudo o paciente não teve nenhuma melhora, já tentamos de tudo, mas ele não reage. — disse e eu assenti novamente, eu já esperava por isso. Nunca fui uma pessoa de ter muita fé ou esperança. Dizem que a esperança é a última que morre. No meu caso ela é a primeira a morrer. Acho que por isso sou tão pessimista. Nós entramos no elevador e então ele continuou — O paciente levou uma grande pancada na cabeça, e é bem provável que fique alguma sequela.
— Que tipo de sequela? — Perguntei um pouco apreensiva com a resposta. Quando ele ia responder o elevador se abriu revelando assim o décimo andar — o hospital possuía 16 andares. Tudo ali era branco, desde as paredes até as portas. Saímos do elevador e fomos em direção ao quarto. Paramos em frente ao quarto 629 e entramos.
— Perda de visão, epilepsia, convulsões e até mesmo perda total da memória. — quando ele disse aquilo foi como se eu estivesse levado um soco no estômago. — E ele pode ficar com outras sequelas como alterações de comportamento, deficiência mental entre várias outras. E por último, bem ainda não faz nem dois meses, mas eu já quero deixar você ciente de algo. Bom, você sabe que seu irmão só está vivendo por causa dessas máquinas, ele estava vivendo uma vida artificial. E senhorita Castillo, se ele não der nenhum sinal e um ano, nos desligamos os aparelhos que o mantém vivo.
— M-mas nós estamos pagando o hospital vocês não podem desligar os aparelhos. — disse gaguejando.
— Ele ainda tem chance de acordar. Afinal temos quase dez meses para isso acontecer. — Dr.Ramos afirmou. — Bom, vou deixá-los à sós. — ele disse e se retirou do quarto.
Arrastei a poltrona bege até a beira da cama. E observei o local eles haviam mudado Juan de quarto. Esse era um pouco mais aconchegante. Três das paredes eram brancas e a que a cama ficava era azul bem claro. De frente a cama havia uma televisão de tela plana preta. As cortinas assim como a poltrona eram bege claro. A janela ocupava quase uma parede inteira e tinha uma bela vista da cidade.
— Oi — disse e peguei em sua mão — Como você está? Olha Juan eu não sei se você está me ouvindo, mas eu vou dizer mesmo assim. Eu estava conversando com seu médico , e ele me disse que se você não acordar logo eles iram desligar os aparelhos que lhe mantém vivo e disseram também que você pode ficar com sequelas. Eu não sei se estou sendo justa ou egoísta, mas eu preciso que você lute, preciso que você se lembre. Respire fundo, saiba que eu estou aqui esperando, então fique forte, permaneça. Você não tem que temer a vida Juan — disse e senti um líquido quente descendo por meu rosto. — Eu preciso tanto de você. Minha vida,quer dizer nossas vidas estão de ponta cabeça,tá tudo tão mudado. Sabe acho que nossa vida daria um ótimo romance — disse e acabei rindo entre as lágrimas. — Eu fiz uma lista gigante com todos os tópicos mais importantes. Primeiro de tudo acho que eu gosto de um garoto, mas ele tem namorada. Segundo Angie, nossa governanta e o Germán, nosso pai, esconde um segredo de mim eles são muito estranhos. Terceiro, eu entrei naquele quarto que Germán havia proibido. Lá tem tantas coisas do meu passado, coisas da mamãe, coisas do papai, coisas de minha irmã e coisas minhas. Quarto, eu estava andando por aí, semana passada e encontrei um studio de música e eu estou pensando seriamente em entrar lá, eu sei que Germán não vai deixar, mas eu vou dar um jeito. Quinto, a sua mãe, ela...hum, ela já não está mais entre a gente. Sexto, eu encontrei a Ludmila, lembra-se dela? Sétimo, eu estou falando, mas sei que não vou obter um resposta. Essas são as sete coisas que mais me enlouquecem. — disse e sequei as lágrimas que escorriam por meu rosto com a mão esquerda, já que a direita segurava firmemente a mão do Juan — Se você estiver me ouvindo, me dê um sinal,qualquer coisa. — disse, mas não consegui nada, nenhum aperto de mão, nenhum sinal. Me levantei frustrada e fui até a janela, onde pode observar boa parte da cidade. — Seu quarto está bem mais aconchegante agora — disse me debruçando no parapeito da janela, para ver melhor, permaneci assim por uns dez minutos. Sabia que nenhum médico viria me dizer que o horário de visita havia acabado, já que o hospital era particular, então não havia motivos para me preocupar com o tempo que estava demorando.
As pessoas lá em baixo pareciam bem pequenas olhando daqui.
Era tão extranho, se pararmos para pensar, somos só coisas insignificantes esperando o momento de nossa morte, o momento onde tudo vai terminar.
Você e o seu drama! — exclama Josh (meu subconsciente).
Revirei os olhos internamente, não estava disposta para ter uma discussão comigo mesma.
Rumei de volta para a poltrona e fiquei lá velando Juan "dormir" e segurando em sua mão estava perdida em pensamentos quando senti, o senti apertando minha mão bem fraco, mas ainda assim ele estava apertando.
— Eu tenho que ir embora agora, eu te amo. — disse, dei um beijo em sua testa e sai do quarto indo atrás do Dr.Ramos.
***
O elevador abriu no quinto andar revelando Dr.Ramos com uma expressão seria e um prancheta em mãos.
— Ah, senhorita Castillo — disse assim que me viu, ele parecia ter se assustado com a minha presença no elevador.
— Dr.Ramos, estava procurando o senhor! — disse quando as portas do elevador se fecharam.
— É sobre o senhor Castillo? — Perguntou e assenti. — Vamos lá diga-me o que é.
— Bem, eu não sei se é importante, mas ele apertou a minha mão e eu achei que deveria dizer isso ao senhor. — disse com um pouco de vergonha, pois poderia estar o fazendo perder tempo por nada.
— Isso é ótimo! Você fez muito bem senhorita Castillo, se acontecer mais vezes não hesite em me contar. Isso é sinal de que ele está reagindo. — ele disse e sorriu para mim.
As portas do elevador se abriram revelando o segundo andar.
— Bom, eu fico por aqui. — disse Dr.Ramos — Tchau senhorita Castillo.
— Tchau.
***
Cheguei em casa naquela noite, suada, ofegante e cansada. O hospital era muito longe de minha casa e eu havia vindo à pé.
Encontrei Angie, Olga, Ramalho e Germán na sala conversando, mas assim que me viram cessaram a conversa.
— Boa noite. — saudei os.
—Boa noite — responderam em uníssono.
— Germán? — Chamei-o.
— O que foi? — Perguntou sem nem me olhar.
— Eu queria te pedir uma coisa.
— Peça — ele disse curto e grosso.
— A gente já vai né? — Angie disse se referindo, a ela, Ramalho e Olga. E se levantando logo em seguida.
— Não! Eu quero ouvir o que a pequenina vai pedir — Olga disse para a Angie.
— Olga...- Angie começou a repreender a Olga, mas eu a interrompi.
— Não Angie, tudo bem, podem ficar. — disse e ouvi Angie soltar um suspiro e sentar-se novamente. — Então Germán, eu queria voltar a ter aulas de piano. Eu estava pesquisando e vi o professor Roberto Benvenuto, eu ouvi dizer que ele é um ótimo professor.
Quando ele ia responder Angie se intrometeu na conversa.
— Não — Ela gritou — quer dizer, tem professores melhores que o Be...Roberto Benvenuto. Eu poderia te ajudar a escolher um melhor. — Angie disse com um sorriso nervoso estampado em sua face.
— Obrigada Angie, mas eu quero o Roberto Benvenuto. — disse e lhe lancei um sorriso. — Então Germán, eu posso ter aulas de piano com ele?
— Peça ao Ramalho. Não queria que ele fosse seu pai? Então peça a ele. — Germán disse e virou o rosto.
Estava ciente dos olhares sobre nós, mas não me importava.
— Pai? — Chamei-o e ele me olhou confuso. — Me perdoa? Eu não quis dizer aquilo, eu estava brava, e disse, mas foi da boca pra fora. — Eu estava realmente dizendo a verdade, ele era o meu pai e eu o amava.
— Tudo bem. Então por que quer tanto estudar com esse tal de Roberto?
— Bom, ouvi dizer que ele é o melhor professor de piano da cidade, e eu realmente quero voltar a estudar piano. — disse, não era de tudo verdade, porque se eu a contasse Germán não deixaria.
A sala ficou em silêncio, Olga estava mais ansiosa com a resposta que eu, ri internamente com a cara de ansiedade de Olga. Angie parecia apreensiva, como se não quisesse que eu estudasse com o Benvenuto. E Ramalho estava com cara de paisagem.
Tudo que se ouvia era o Tic-Tac do relógio.
1...2...3...4...5...6...7
Os sete minutos mais longos da minha vida. Os sete minutos que decidiriam se eu estudaria piano com o Benvenuto ou não.
— Tudo bem Violetta. Pode estudar piano com esse tal Benvoneto. — ele disse.
— É Benvenuto. — Angie e eu dissemos em uníssono.
— Que seja! Ramalho vai ir conversar com esse tal Benvoneto e se ele aceitar, você terá aula de piano com ele. — Germán disse me olhando e depois sorriu com o meu entusiasmo.
— Ahh — Gritei dando pulos.
— Que bom minha pequenina. — Olga disse me abraçando ou melhor, me esmagando.
— Olga — gemi de dor.
— Obrigado Ger...pai. — disse sorrindo e fui em direção a escada. Angie ainda estava quieta sem dar nenhum sorriso, o que era muito estranho, pois ela era sempre sorridente. Quando estava no terceiro degrau me virei e sai correndo em direção ao Germán, me jogando em seus braços. O apertei o mais forte possível, acho que eu só tinha abraçada meu país umas das vezes depois que mamãe morreu.
Momentos assim com o meu pai eram raros, por isso eu não queria que o abraço não acabasse nunca.
Me separei do abraço e lhe dei um beijo na bochecha.
— Boa noite — desejei a todos e sai correndo escada acima.
Se Roberto Benvenuto aceitasse ser meu professor eu teria aulas no Studio 21! O que significa duas coisas: León e Ludmila.
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