Querido diário,

As vezes eu me pergunto, por que todos querem exigir algo de mim? Por que eles nunca estão satisfeitos com o que já tem? Por que eles sempre querem algo mais?

Tudo o que eu queria é desaparecer, ir para um lugar deserto, e viver sozinha, afinal antes só do quê mal acompanhada, diz um ditado, e ele tem toda a razão, é bem melhor estar só do quê com pessoas que não sabem valorizar o que tem, pessoas que sempre querem mais.

Eu tinha melhorado tanto, mas ultimamente, pensamentos ruins estão voltando a rondar minha cabeça, as vozes sussurrando coisas sem sentido, tudo isso está me deixando louca, eu não quero pedir ajuda, nem contar a ninguém, eu me sinto melhor tendo isso só para mim.

Eu sempre finjo não ligar para as coisas, mas vem se tornando cada vez mais difícil não desabar na frente das pessoas. A cada dia que se passa meu mundo vai perdendo a cor , eu já não posso mais viver nesse mundo preto e branco, eu já não posso respirar. Preciso que alguém me traga de volta a vida!

As vezes me pergunto: Se eu morresse alguém sentiria minha falta? Eles ao menos saberiam que eu já não existo mais?

– Acredite em si próprio e chegará um dia em que os outros não terão escolha senão acreditar com você.

– Cynthia Kersey.

Fui interrompida por uma batida na porta, logo depois a porta é entreaberta, dando lugar a cabeça de Esmeralda.

– Posso entrar querida? — perguntou ela carinhosamente, me lançando um sorriso.

– Claro, entre. — disse fechando meu diário e o deixando ao meu lado na cama.

Esmeralda caminhou graciosamente até a cama e sentou-se ao meu lado.

– Vejo que resolveu seguir o meu conselho Vilu. — diz pegando meu diário e passando a mão em cima de sua capa e sorrindo para mim.

Esse diário era da minha mãe, pelo menos é o que meu pai diz, ele me deu esse diário depois de eu implorar muito, quando eu o peguei todas as folhas estavam em branco, dentro dele se encontrava uma foto de uma mulher com um bebê em seu colo, a mulher era minha mãe, Maria, e o bebê, era eu.

Eu já tinha esse diário a uns três anos, então Esmeralda disse que seria bom desabafar com alguém, e como eu não tenho amigos (as) seria bom começar a escrever no diário, no começo eu hesitei um pouco, mas depois vi que Esmeralda tinha razão, seria bom desabafar com algo ou com alguém, então resolvi escrever no diário.

Fui desperta de meus pensamentos por alguém chamando o meu nome e passando a mão em frente ao meu rosto.

– Que foi mãe? — Ai meu Deus, eu fiz de novo, não era a primeira vez que chamava Esmeralda de mãe.

– Hã, bem o jantar, já está pronto. — disse Esmeralda com um sorriso bobo no rosto.

– Eu estou se fo...

– Nada de eu estou sem fome Esmeralda. – Ela disse me interrompendo e tentando imitar a minha voz. — Você tem que comer, vai ficar doente desse jeito.

– Mas...

Mas nada, vamos — disse me interrompendo novamente, odeio ser interrompida

Esmeralda saiu me puxando para fora do meu quarto, quando já estávamos no fim da escada ela olhou para mim com certo desgosto.

– Poxa, Vilu você disse que ia começar a se vestir direito.

Olhei para minhas roupas, estava com um blusa de frio preta, uma calça de moletom preta, e uma meia também preta.

Vocês devem estar se perguntando qual é o problema com minha roupa. O problema é que ela é preta. De uns dois anos para cá eu só uso roupas pretas, sapatos pretos, tudo preto e Esmeralda odeia isso, mas eu gosto, é uma maneira de me camuflar.

Eu lancei um meio sorriso para Esmeralda, que revirou os olhos e foi para a cozinha me puxando consigo.

Chegando lá Juan já estava sentado na mesa.

Típico.

Cheguei por trás e lhe dei um beijo na bochecha.

– Oi mano. — disse me soltando dele, dando a volta na mesa e me sentando em sua frente, enquanto ele me olhava atentamente, fazendo algumas carretas de vez em quando, por que quase cai duas vezes.

– Oi Vilu. — ele me respondeu.

Esmeralda se sentou ao meu lado, e começou a se servir, eu e Juan seguimos seu exemplo, até que eu ouço uma porta sendo aberta — e definitivamente era a porta de entrada — e então a voz de Germán soou atrás de mim

– Boa noite, família. — Meu pai disse.

Que cínico!

Família?

Ele por acaso sabe o significado dessa palavra?

– Boa noite, pai — Juan respondeu de uma maneira um pouco engraçada, pois ele estava com a boca cheia, meu pai olhou para ele e deu um grande sorriso. Um sorriso que demonstrava orgulho.

Por incrível que pareça meu pai tinha uma boa relação com o Juan, mesmo quase nunca estando presente ele dedicava seu tempo livre ao Juan.

Eu não entendo.

Por que ele tem que me tratar diferente?

Podem dizer que é inveja, mas não é eu só acho estranho.

Meu pai me lançou um olhar de desgosto. Eu suspirei. E me retirei da mesa, eu já havia perdido a fome de qualquer maneira.