Capítulo iii

O pedido da regente

Enquanto acordos eram feitos entre Renéh e o General, por toda a tarde Athos ficou pela taverna, tentando não se preocupar com os comentários de alguns homens que cochichavam sobre um tal “baderneiro” que arranjou problema com os Doutores da Academia. Decepcionado com todas as escolhas que havia tomado até o momento, o jovem mago por muito tempo ficou olhando para a única foto que trouxe de seu avô. Como era de se esperar, pediu diversas porções de petiscos, já que, quando estava nervoso, a primeira coisa que fazia era comer.

Eu não sou um fracassado, afirmava ele a si mesmo, quando finalmente aguentou tomar o primeiro gole de vinho. Eu sou neto de um mago. Eu posso muito mais do que isso…

E depois tomou o segundo, o terceiro e o quarto copo. E foi assim até quando anoiteceu. Na sexta hora, quando as muitas estrelas coloridas banharam a noite dos céus de Héreddah, ele já estava tão fora de si devido à bebida que mal reparou que estava conversando sobre filosofia com um mendigo. Na sétima, jogou dominó com ele. Na oitava, os dois brigaram feio por não aceitaram quem era o vencedor da partida. Na nona, cantaram juntos. Na décima, ele viu o mendigo ir embora. Na décima segunda, tentou pagar o que devia ao bar com os trocados que havia trazido, mas percebeu que uma de suas bolsas de ouro não estava bem mais leve do que quando ele chegou.

Só quando deu meia-noite e quinze ele acordou, com os cutuques do garçom. E então percebeu que estava com uma enorme dor de cabeça por conta da bebida.

— Cadê aquele maldito mendigo? — questionou Athos, desnorteado.

— Eu falei pra você não dar confiança pra ele! — disse o dono do Bar.

— Você falou? — perguntou com sinceridade Athos.

— Sabia que você não tinha ouvido. Anda, guri, nós vamos fechar!

Aterrorizado com a mesa à sua frente, onde jaziam quatro travessas enormes só com ossos das carnes que ele — ou o mendigo — havia pedido, bem como treze canecas de madeira vazias, ele pagou com muito esforço o que devia e saiu pela porta dos fundos.

Athos se apoiou sobre o muro mais próximo. A realidade então finalmente bateu, e algumas lágrimas desceram de seus olhos: por uma vida inteira, pensou em ingressar na Academia como um grande pesquisador de seu tempo; mas no fundo, sabia que não conseguiria viver dentro de um local com pessoas que pensassem tão diferente dele — ou pior, que não o permitissem pensar diferente! Estava decepcionado consigo mesmo, pois quase arriscou a própria vida por não ter escutado sua mãe, e porque possivelmente seu pai ficaria arrasado, já que seu grande orgulho era ter alguém “sabido das coisas” na família. Não era dessa vez que traria o orgulho que a família Quintillantum tanto sonhava.

De repente um movimento brusco à direita chamou sua atenção. E ele concluiu que só poderia ser o vulto de mais cedo! Se esforçando para deixar a dor de cabeça de lado, e se questionando se isso não era efeito da bebida, ele andou até a esquina da travessa do bar; mas o que viu foi a avenida principal, e duas vozes surgindo das sombras bem mais à frente.

— Ele não pegou viagem, senhor — disse uma voz muito alta na esquina mais próxima. — O carroceiro disse que não teve retorno. Maldito mago!

O coração de Athos gelou. Ele voltou aos tropeços para o beco, tentando desesperadamente adentrar o bar, mas notou que a porta do lugar já estava trancada. Viu alguns barris vazios à porta e lá não hesitou em se esconder. As vozes eram metálicas, e terrivelmente conhecidas pelo rapaz.

— A ocorrência foi por aqui, Mór — disse um Inquisidor, chegando próximo à taverna.

— E posso saber por que não fui requisitado? — respondeu o outro Inquisidor, também se aproximando.

— A ocorrência foi hoje, e o senhor havia dito que estava lidando com a soltura daquele ladrão que saiu nos correios matinais.

— E espero que eu e o general não nos arrependamos disso!

Athos estava preparado para as sombras passarem perto dele, mas percebeu que os dois Inquisidores viraram-se à esquerda. Talvez o ânimo da bebida mesclado à curiosidade o fez tomar coragem e, saindo pelas laterais dos barris, segui-los.

— Houveram boatos, senhor — continuou o soldado. — Chegou a ouvir?

— Tento evitar comentar, soldado. Sugiro que faça o mesmo.

— Mas esses parecem fortes! Eles vêm de dentro da Cidadela! O senhor sabe que todos os Inquisidores temem que seja verdade. Fala-se muito sobre o fim do País do Sul…

Houve breves segundos de silêncio.

— Acredita que possa ser verdade? — insistiu o soldado.

— Você duvida do poder da Deidade? — indagou o capitão.

—Jamais, senhor! Mas… Isso seria apocalíptico, não?

— Há muitos mistérios em nossas terras, rapaz. Poucos dos quais você conhece, e muito menos dos quais seria capaz de compreender. Aceitá-los sem questionar é a melhor forma de continuarmos vivos!

— Senhor! — gritou de repente uma terceira voz, ao sul, e o coração de Athos voltou a gelar. — Nenhum sinal. Mas os boatos da briga de bar se confirmam… É o mesmo do carroceiro e da Academia! O descendente de mago está aqui!

— Peçam para que investiguem as estalagens! — ordenou o Capitão. — Fechem os bares e montem uma guarita na floresta! Esse verme voltará pra fossa de onde saiu ainda hoje por nossas mãos!

Athos parou novamente, com o coração na boca. Eles descobriram sua descendência, e possivelmente, iriam atrás até mesmo de sua família.

— Eles estão seguros — sussurrou então uma quarta voz naquela noite, dessa vez atrás do rapaz; e antes que pudesse se virar, alguém lhe tapou a boca com uma mão e estendeu uma fina adaga com a outra.

Athos pode ver, em meio à sombra do muro, que quem o parou era uma figura encapuzada, com uma longa capa escura de detalhes vermelhos. Por trás do capuz, que caiu com o vento da noite, se revelou uma belíssima jovem de pele negra, olhos severos e castanhos claros, e cabelos cacheados. Ela manteve seus olhos fixos nos dele, e gesticulou com a boca “silêncio.” Poucos segundos depois, ela prosseguiu.

— Se eu quisesse lhe tirar a vida — começou ela —, teria feito enquanto você estava igual a uma criança passeando de charrete pela ponte mais cedo.

— Então era você! — cochichou ele, se lembrando novamente do vulto que viu duas vezes naquele mesmo dia. — Mas… Ei! Quem é você?

— Alguém que quer ajudar e que precisa de ajuda. — disse a jovem. Tinha a voz meio rouca, mas muito firme.

— Sem tempo, minha cara. Não sei se percebeu, mas estou sendo caçado no momento!

— Então eu terei que apelar — disse a misteriosa jovem, que então pegou do cinto um pergaminho enrolado e o jogou sobre o peito do rapaz.

— Reconhece essa letra? — questionou ela.

— É de minha mãe… — disse ele, abrindo o papel. — Uma mensagem! Ela diz que está tudo bem. Mas… Por que não estaria?

— Ela está a salvo e isso é que importa. No momento em que você decidiu, cheio de coragem e burrice, desafiar abertamente a autoridade da Deidade, eu corri para alertá-los de que todos estavam em grave perigo, e indiquei ao seu pai um lugar seguro.

— Mas que tipo de local seguro, mulher, do que você está falando!? Quem é você!?

— Seu idiota, é o que eu estou tentando explicar e você está me interrompendo!

— Ah… desculpa. — respondeu Athos rapidamente e sem graça.

— Eu sou como você. Alguém que perdeu muito por conta da Deidade, e quer a cabeça daquele deus imundo de enfeite.

— Eu não quero a cabeça dele não, isso é nojento! Só não quero um governo que ameace ideias!

— E espera fazer isso sozinho? — questionou ela, impaciente.

— Eu e meus livros. São boas companhias, aliás, melhor que muita gente.

— Podem ser melhor, mas até livros nos dizem que há hora de conversar, e também hora de lutar. E essa é a nossa hora. Tenho observado você há meses… A pedido de Mestre Állathor.

— Que! — Athos prendeu um suspiro tão forte que o vento que puxou pela boca fez o som de um assobio. — Mestre Állathor está vivo!?

— Cala a boca, imbecil! — pediu a jovem, se abaixando. — É isso mesmo! Mestre Állathor, o que lutou ao lado de seu avô nos últimos dias! Eu sei do poder e da honra que você carrega. E só estou aqui porque acho que você será bom o suficiente para não se omitir, nem ser preso ou morrer. Apesar da sua burrice inconsequente como a de hoje, você tem valor.

— Mas o que você esperava que eu fizesse, sua desequilibrada? — exclamou Athos. — Que caminho eu terei se todas as realezas estão corrompidas?

— Nem todas — disse ela. A jovem mostrou então um anel dourado muito vivo.

— Você é da realeza… — sussurrou Athos — É a princesa dos Ferreiros! Do reino das forjas!

— Bem observado, senhor óbvio. Princesa Kara.

—É, tem cara de nome de princesa. Mas calma, é muita coisa ao mesmo tempo… Onde estão meus familiares?

— Com Állathor. É por isso que ele me enviou. E é pra lá que vamos agora — comentou Kara, já observando à sua volta para ver se os Inquisidores estavam próximos. — Para as densas florestas do Sul. Mas temos que ser rápidos antes que eles nos escutem.

A jovem começou a caminhar para outra travessa. Athos esperou um pouco quieto, olhando para o bilhete de sua mãe. Sem confiar muito, mas ao mesmo tempo sem muita escolha, ele decidiu seguir a jovem.

— Vamos só devagar! — disse o rapaz, bufando e enjoado.

— Conhece a estratégia de guerra solo-céu e meio? — questionou Kara, sem lhe dar tanta atenção.

— A o que!? — disse ele, escondendo com esforço e um arroto.

— É, não conhece.

— E deveria?

— Sim! Ou vai dizer que a única coisa que faz é acender vela, mago?

— Mais respeito!

— E você seja mais esperto! A estratégia serve para quando somos dois contra um inimigo. Um de nós ataca o inimigo nos pés, enquanto o outro ataca na cabeça, e por último nós dois atacamos juntos no peito.

— “Solo-céu e meio”, bem autoexplicativo.

— Fique atento… A qualquer momento…

— Aqui! — gritou sem avisos uma das vozes metálicas, ao fim da rua. Apontando a lança de prata para os dois jovens, uma rajada avermelhada de energia desconhecida voou por toda a avenida e atingiu a esquina do bar, explodindo o concreto bem à frente. Athos, com reflexo, se jogou acima da menina para defendê-la.

— Com a estratégia agora, milady!?

— Sair de cima de mim e correr! — disse ela, tentando se erguer.

Atrapalhados, eles se levantaram e continuaram por dentro do beco, entrando em uma das ruas vazias, passando por debaixo de varais lotados de todos tipos de roupas. Houve muitos gritos dentro dos imóveis, já que o som do tiro do Inquisidor não passou despercebido pelos moradores. Para facilitar a corrida, Kara retirou o manto de seu corpo e o segurou em uma das mãos; estava vestida de preto, com botas de couro, luvas que deixavam seus dedos à mostra e uma armadura peitoral. No cinto dourado, Athos pôde perceber, estavam duas pequenas espadas.

— Que planinho mais ou menos, hein! — soltou o jovem mago, furioso, pois acabaram de entrar em uma rua sem saída.

— Meu plano era não ser encontrada, querido! Não sei se percebeu, mas tem muitas coisas não saindo como a gente previu!

Sob o céu estrelado, os jovens recuaram e seguiram a rua à esquerda, que era uma ladeira de tamanho mediano. Mas seus corações gelaram, pois nada mais do que sete Inquisidores apareceram no topo da rua, correndo em suas direções.

— Rendam-se! — gritaram eles com vozes metálicas. Os disparos incontáveis começaram, mas desta vez Athos, fazendo um movimento circular com as mãos, fez surgir um grande escudo azul que ricocheteou as rajadas para as janelas e portas das casas na ladeira.

— Corre, Princesa! — gritou o jovem mago. Mas Kara, com anos de estratégia e aprendendo a usar o território à favor em suas batalhas, correu os olhos por um empilhamento com mais de vinte barris de vinho no topo da ladeira.

— O que está fazendo? — questionou o mago, sem perceber de primeira. Mas a jovem princesa sacou uma outra arma, uma besta lotada de flechas, e ao apertar o gatilho da arma, atirou com uma pequena flecha nos barris do solo, que explodiram e fizeram com que todos os que estavam acima caíssem e rolassem pesadamente sobre os sete inimigos, descendo ladeira abaixo.

Ou seja, na direção dos dois!

— Não foi muito inteligente! — comentou Athos, recuando.

—Corre, mago! — berrou a jovem. O rapaz desfez o pequeno escudo que os protegia e viu que os Inquisidores também corriam para fugir dos barris que rolavam com grande estrondo em suas direções. Athos desceu a ladeira correndo, mesmo não sendo bom com as pernas.

Kara, esguia e bem treinada, seguiu bem mais rápido a sua frente, buscando uma rua para eles se refugiarem. Os dois heróis ouviram o estrondo dos muitos barris que rolaram sobre todos os Inquisidores às suas costas, mas o terror mesmo veio em seu coração quando outros dez Inquisidores viraram a esquina no fim da ladeira. Estavam agora cercados.

Athos, mais atrás e percebendo a falta de ação da jovem, se virou para os barris e os corpos inertes dos guardas atrás e se concentrou. O rapaz fez outro movimento, se ajoelhando e passando os braços sobre sua cabeça. Então sua mágica formou acima deles uma pequena ponte de energia, que desviou os barris — e inquisidores — de si e os fez continuar na direção dos dez soldados que estavam mais abaixo, e que agora atiravam tentando deter os barris em queda, antes que fossem atingidos como pinos de boliche.

— Acender velas, não é? — comentou Athos, satisfeito com o plano ter dado certo.

— Segure em mim! — gritou ela, ignorando sua ironia. Athos, sem graça, segurou com a ponta dos dedos a cintura da jovem.

— Nas minhas costas, seu idiota! — gritou ela.

— Desculpe! — Adiantou-se Athos. Tirando de seu cinto a besta, Kara mirou no prédio mais próximo e atirou, e uma corrente foi junto com a ponta da flecha. Sem aviso, Athos e Kara foram puxados pela corrente para cima em alta velocidade.

— Segura! — berrou ela, e eles voaram mais rápido que desejaram, sem controle. O puxão da corrente foi tão forte que os dois, juntos, caíram sobre as telhas de uma velha casa, quebrando-as e entrando na sala de estar de algum desconhecido.

Athos levantou tonto na escuridão, e viu Kara segurar a sua mão, arrastando-o pela casa. Eles tropeçaram em meio ao escuro nas cadeiras e brinquedos espalhados pelo cômodo, não fazendo questão de ser nem um pouco discretos. Kara o fez subir uma escada e levantar a porta que havia no teto. Subindo, perceberam que estavam em um pequeno terraço, e mais à frente estava a telha da casa quebrada.

— E agora? — disse Athos, apavorado.

Kara olhou para a sua luva, na qual estava uma pequena bússola.

— Eu não sei. Não estou localizando nossa direção.

— Eu sei me localizar à noite! Seria o Norte, Sul?

— Eu também! Mas não são essas coordenadas que procuro.

— Mas que diabos você procura!?

Ela não teve tempo de dizer. Inesperadamente, o teto da casa começou a tremer. Eles se olharam, sem entender muito. Então decidiram dar uma breve olhada para a rua abaixo, onde estavam as ladeiras e possivelmente os guardas que os seguiram.

Mas o que viram subindo foi algo monumental: cobrindo a luz do luar e das muitas estrelas à frente, como uma enorme sombra, nada mais do que um colossal dirigível surgiu, subindo lenta, mas estrondosamente. Os motores eram tão fortes faziam as roupas voarem dos varais, e os dois jovens fugitivos foram arrastados para trás pela força do vento. Kara segurou novamente o braço de Athos para fugir, mas uma luz forte e branca brilhou do veículo sobre eles.

— Não estou vendo nada! — berrou Athos, cheio de temor.

— Mas eu sim — disse uma voz cheia de paixão atrás deles. — E que decepção.

Athos sentiu uma pancada forte na cabeça e desmaiou. Kara sentiu uma outra pancada no joelho que a fez cair, e alguém a prendendo com uma algema. A luz desviou um pouco, revelando duas pessoas. A primeira era um jovem de cabelos pretos e olhos verdes, da idade da princesa, e que tinha a fama de ser um excelente ladrão.

— Até que não foi difícil, General! — disse o rapaz, se gabando enquanto verificava se Kara estava bem presa. Era Renéh Barbôssa.

— Não podemos subestimá-los, ladrão — disse a segunda voz. E para o horror de Kara, era um homem muito conhecido, de pele albina e cabelos ruivos trançados. — E vejam só… Quem diria que você, minha sobrinha, traria tanta desonra para a nossa família.