Capítulo Iv

Caso de família

Renéh Barbôssa e o general Sabáh embarcaram sem demora com os dois prisioneiros na poderosa frota de dirigíveis comandada por este último. Enquanto, com dificuldade, Renéh colocou Kara numa das celas, o rapaz pode reparar nas feições de revolta da princesa.

— Você não tem noção do que eu vou fazer com você quando sair daqui — rosnou ela para o ladrão, enquanto batia violentamente nas grades que a prendiam.

Renéh olhou para o rosto dela e pensou em dizer algo. Mas apenas riu, debochando, o que fez com que ela batesse com mais raiva (coitados de ambos).

E assim eles seguiram viagem com a frota de embarcações voadoras dos Inquisidores, que era formada por mais de quarenta dirigíveis de imenso poder de fogo. Para o rapaz que estava acostumado ao terreno firme, voar foi uma experiência sem igual: ver do alto as árvores e os rios que tanto conhecia e o horizonte interminável lhe davam uma sensação de pequenez que ele não sentia há tempos.

No fundo, para Renéh, servir aos Inquisidores era uma mescla de indiferença e curiosidade — sentimentos que refletiam bem sua personalidade. Afinal, toda a sua vida sempre o encaminhou para longe de qualquer um dos lados da iminente guerra que se formava. Mas ele ficou curioso sobre algo.

— Então, chefe — disse ele para Sabáh, ao reencontrá-lo dentro do veículo. — Tio da princesa? É isso mesmo?

— Deplorável — disse ele, com certa indiferença —, mas como vai perceber, nada do que faço é sem motivo.

— Se você tá dizendo — disse ele, bocejando, e admirou a frota do lado de fora. — Eu sempre me perguntei como essas coisas funcionam… Sustentar isso no ar não deve ser fácil.

— Cristais — comentou Sabáh, enquanto avaliava um mapa. — A montagem, obviamente, é de responsabilidade do meu povo, os Ferreiros; já os cristais em si são das Ilhas dos Cristais.

— Sempre ouvi falar dessas ilhas — respondeu ele, curioso —, paisagens belíssimas. Mas achei que era bobeira.

— Passam longe de ser qualquer coisa, Barbôssa. Os cristais são grandes fontes de energia, atualmente bem difíceis de serem extraídas graças aos conflitos de seus povos. Eles revolucionaram a forma de fazer guerra.

— Isso não há como negar. Quer dizer, aqueles canhões explosivos, as granadas e as bestas que disparam aqueles… Aqueles raios, sabe? É uma coisa de doido. Parece que foi feito pra guerra.

— Tudo foi feito pra guerra — disse Sabáh, firme. — À medida que nossos inimigos foram se sofisticando, precisamos trocar os escudos de madeira e pedra por armas mais sofisticadas.

—Mas o povo que produz esses cristais, eles… Eles aceitam que vocês o extraiam? Não tô julgando que vocês não devam fazer, porque honestamente, não ligo muito pra qualquer coisa, mas… Vocês dos Ferreiros têm uma fama de se intrometer onde não são chamados.

— Os recursos de Héreddah pertencem à Deidade. Ainda que Héreddah não esteja preparada para aceitar. É isso que difere uma grande potência de uma vila qualquer.

— E agora, vocês, ou melhor, nós, vamos atrás dessa galera que não aceita sua autoridade.

— Porque se revoltam sem motivos — disse Sabáh, tranquilamente. — Os povos que obedecem à Deidade não têm suas terras invadidas por baderneiros. Nossos Inquisidores fornecem proteção à todos. Embora tenha um ou outro, como o senhor, que consiga quebrar esse paradigma.

Renéh ficou satisfeito em ouvir isso.

— Bom, e para onde estamos indo agora?

— Ao lugar que eu menos gostaria de ir. À Távola Ministerial.

— Que é…

— Um conselho de notáveis de Héreddah, para discutir questões do nosso tempo.

— Que desnecessário. Um bando de homens velhos e corruptos sentados achando que conseguem pensar sobre um povo inteiro.

— Compartilho desse pensamento — Sabáh foi sincero —, mas como sou um dos únicos mediadores da Távola que ainda tem consciência, minha presença é necessária. Ainda mais no dia de hoje. E a presença dos demais é necessária para, vamos dizer… O esquema funcionar.

— Não entendi — questionou Barbôssa —, achei que a Deidade tinha colocado um ponto final nessa coisa toda de democracia.

— Se ela fizesse isso, teria de enfrentar uma revolta que englobaria todos os setores de Héreddah. Dos trabalhadores insatisfeitos aos maiores líderes.

— Ora, mas ela não é o “todo poderoso”?

— E é — afirmou Sabáh. — Mas não é mais fácil conseguir um povo pela confiança, pescando seus corações através da ganância, do que puramente pelo medo?

— É, vendo por esse lado…

— Por isso ela permitiu a presença desse conselho. Para evitar complicações por enquanto. Afaga um pouco o ego deles.

Ao dizer “afaga”, Sabáh bateu na bolsa de moedas que trazia no cinto e sorriu para o garoto.

— Justo — concordou o jovem. — Quer dizer, dentro da lógica dela.

— Além do mais, ter outros líderes significa que o povo, caso se revolte, poderá culpar os governantes de suas terras, e não a própria Deidade. Enfim… É como a velha política funciona.

— Senhor — disse um dos pilotos para o general, enquanto eles sobrevoavam as nuvens avermelhadas de um belíssimo pôr do sol. — Estamos próximos da Távola. Três minutos, no máximo.

— Finalmente! — comentou Renéh, com a voz fraca de fome. — Só me diz por favor que a gente vai parar agora pra comer alguma coisa.

— Teremos que nos contentar com os pães velhos da dispensa. E é aqui que nos despedimos.

— Só tem pães mesmo? — questionou Renéh, mas Sabáh fechou a porta na cara do jovem, impacientemente, deixando-o de fora da sua sala.

Sabáh retirou as peças de sua armadura negra com detalhes dourados, ficando apenas com as longas vestes negras de diplomata; vestes que só o mediador militar da Távola poderia usar. O dirigível então sacudiu, anunciando seu pouso, e segundos depois, quatro Inquisidores apareceram na porta da sala de Sabáh.

— Senhor, nossas tropas estão prontas— disse um deles por trás da máscara de metal.

— Amarre as mãos dos dois prisioneiros com a corrente Yriliana e amordacem eles antes de tirá-los da cela — ordenou Sabáh.

— Claro, senhor.

— E guarda… — chamou lentamente Sabáh, pensativo. — Peça a um dos seus para que fique de olho em Barbôssa.

Os guardas bateram as lanças ao mesmo tempo no chão e saíram. O dirigível então saiu das nuvens, e foi possível ver a Távola: era uma imensa torre dourada, com meio quilômetro de altura, que ficava no meio de uma enorme fenda entre montanhas. E o mais interessante: a Távola tinha quatro colossais viadutos que ligavam as montanhas até a própria torre, simbolizando o caminho dos quatro países.

A embarcação de Sabáh desceu sobre um dos viadutos com alto som; ao abrir a porta ele viu — com desprazer — que o veículo do seu irmão, pai de Kara, já estava ali.

Três Inquisidores então se aproximaram de Sabáh, carregando pelos braços Athos e Kara, que estavam visivelmente fracos.

— Não parecem mais tão ameaçadores assim — ironizou Sabáh, segurando o rosto da sobrinha, que tentou cuspir em sua mão. — Encapuzem eles.

Os guardas de Sabáh colocaram um pano velho sobre a cabeça dos dois, e apertaram desconfortavelmente sobre o pescoço de ambos. Caminhando pelo viaduto cercado por seus soldados de alta patente, o general chegou até o salão principal da torre da Távola e a abriu, com violência.

A cena era como todas as outras vezes: uma imensa mesa redonda, lotada de líderes de diversas raças que gritavam de forma desordenada querendo tomar a fala um do outro. A presença de Sabáh, porém, trouxe um silêncio espontâneo. Quase todos os presentes levantaram-se devagar, fazendo uma breve vênia em respeito ao general dos Inquisidores; com exceção de seu irmão, o Rei das Forjas, que era líder da assembleia.

— Como você sabe, não é necessária a presença de armas neste lugar — disse o Rei, olhando para a cintura de Sabáh. — Está entre aliados e diplomatas, meu irmão.

— Acatar ordens sempre foi mais o seu forte do que mandar… Irmão. E essa bagunça desordenada que você supõe mediar é prova disso.

Houve um silêncio constrangedor. O Rei poderia ser o líder moral entre os governantes ali na mesa, mas seu irmão era o líder militar; e dentro das leis da Deidade, suas autoridades eram equiparadas.

— Sentem-se — pediu o Rei educadamente, e todos obedeceram.

— Então — começou Sabáh, sem obedecer ao pedido do Rei, andando habitualmente de forma circular sobre a mesa. — Por que um chamado urgente? Só espero que tenham um motivo real, já que como podem ver, ando bem ocupado.

Sabáh apontou para os prisioneiros encapuzados, e todos os líderes olharam curiosos.

— Acredito que seja algo mais interessante do que prender jovens revoltados — respondeu Lorde Hog, um dos homens mais detestáveis por Sabáh, e responsável pela parte administrativa da Cidadela. Hog continuava a examinar as duas vítimas encapuzadas carregadas pelos Inquisidores. — E será que dá pra você parar de nos rodear feito um leão preso à corrente? Essa cena toda que você faz pra nos intimidar nunca funciona.

— Você abusa de sua imunidade ministerial, Lorde Hog — afirmou Sabáh. — Isso me faz desejar cada vez mais que o nosso voto de censura passe pela aprovação do alto clero.

— Compreensível — comentou sem se assustar Hog. — Você é bom com os músculos, eu sou com o cérebro. Cada um tem seu ponto forte, não?

Sabáh sorriu sadicamente.

— É fácil isso sair da sua boca enquanto a cabeça ainda está grudada sobre o pescoço.

Hog continuava a sorrir, impassível.

— Basta! — anunciou o Rei, irmão de Sabáh, que era careca, negro e usava vestes douradas e roxas. Sua paciência era pouca para essas discussões. Nesse sentido, lembrava muito sua filha, Kara. — Vocês devem aprender a lidar uns com os outros se quiserem manter este lugar pacífico.

— Paz é o tipo de coisa que seu irmão não deseja — comentou Lord Hog ao Rei.

— Pela primeira vez em muito tempo, disse algo certo, Lorde — ironizou Sabáh. — Não a desejo porque acho que pacificidade não resolve nada. Então, pode dizer o que descobriu?

Hog olhou para a cara do Rei, que falou:

— Irmão, o nosso pai… O Ferreiro Mór… Ele desapareceu.

Uma explosão de cochichos correu pela Távola. O pai do Rei dos Ferreiros, avô de Kara, desaparecer sem motivo algum era um sinal de alarde real. Agoniada, a princesa Kara, que ainda estava encapuzada e amordaçada, se mexeu ao saber do desaparecimento do avô.

— Deplorável — comentou Sabáh, indecifrável.

— É só isso que tem a dizer!? — indignou-se Mestre Hog.

— O que mais esperava? — disse Sabáh. Hog então se virou para o Rei.

— Uma atitude esperada de seu irmão — insistiu Mestre Hog. — Isso me leva a acreditar ainda mais no que disse a você, Rei dos Ferreiros.

— E o que sua mente brilhante desvendou dessa vez? — questionou Sabáh.

— Que, obviamente, os Inquisidores debaixo de seu comando estão por detrás do desaparecimento dele.

Então os cochichos cessaram. Houve um longo momento de silêncio, no qual nem mesmo a respiração dos outros líderes foi possível ouvir. Sabáh pensava friamente, sem perder sua expressão pacífica, e então encarou Hog, que sempre teria uma expressão de deboche guardada para o general.

— Até onde sei, quem está acostumado com traidores é gente da sua laia, Lorde. Ou vai se esquecer de que seu povo foi o primeiro a se aliar aos Magos contra a Deidade?

— Lá vem ele com histórias velhas — Hog revirou os olhos. Alguns dos homens da Távola riram. — Sempre puxando os erros do passado dos outros para justificar os seus erros atuais. É um verdadeiro político, de fato, este general!

— Eu costumo usar a simpatia antes da espada — Sabáh continuou encarando o adversário —, mas devo confessar que você faz eu querer mudar de ideia bem rapidamente.

— Eu já disse, chega! — pronunciou-se novamente o Rei dos Ferreiros, interrompendo a resposta afiada que Hog daria. — Essas brigas nunca levam a nada. Nossa situação está mais do que complicada, Sabáh. A Deidade exige de nós um número de armas que não estamos conseguindo oferecer. Sem nosso pai, a cobrança fica muito maior. Eu não consigo dar o suporte necessário para as atividades da forja, pois nosso pai possui maior conhecimento, e a diplomacia da Távola me toma tempo. Preciso que seja honesto e diga se sabe alguma coisa sobre…

— O que não leva a nada, meu irmão — ignorou-o Sabáh. — É sua visão emocional que, além de valorizar boa parte dos acéfalos aqui presentes, não percebe que o nosso próprio pai pode ter nos traído.

— Como ousa… — começou o Rei, furioso. — Ele é nosso pai! Com certeza foi vítima das ações desses extremistas que conspiram contra a Cidadela. Contra os magos e Reis! Ele jamais trairia a Cidadela, nem sua própria família…

— Depois você se pergunta o porquê de ter sido o filho menos amado — disse Sabáh. — Há anos ele demonstrou se arrepender de ter fornecido armas para os Inquisidores. Sua mente mudou. Ele ficou com o coração amolecido de um covarde. E devo dizer… Que não foi apenas o coração dele que amoleceu. Ele espalhou o remorso como uma doença em nossa família.

Inesperadamente Sabáh levantou o capuz dos dois prisioneiros, e todos os conselheiros soltaram uma exclamação: Kara e Athos foram expostos.

Ao ver a filha rendida, de imediato o Rei dos Ferreiros se levantou e colocou a mão sobre a bainha, mas os quatro Inquisidores às costas de Sabáh apontaram as lanças diretamente contra o líder da assembleia.

—Cuidado, irmão — ironizou Sabáh —, a democracia é um bem que todos nós aqui gostaríamos de preservar.

— Tire as mãos de minha filha! — ordenou o Rei, transtornado. — Ela é sua sobrinha!

Minha prisioneira — corrigiu-o Sabáh. — Acredito que ela está seguindo os passos de nosso pai. Ela deixou de ser minha sobrinha quando aceitou se unir a esse mago desgraçado.

Sabáh deu um chute nas costelas de Athos que, já fraco, deu um sonoro urro de dor entre a mordaça e caiu no chão deitado, inconsciente.

— Ministros desse conselho… — continuou Sabáh. — É triste saber que há uma revolta em minha família. Enquanto meu irmão usava de toda sua incompetência para olhar grandes conflitos pelo buraco de uma fechadura, eu mesmo me responsabilizei das investigações dos extremistas, pois suspeitava que o desaparecimento de nosso pai estivesse ligado a eles. Quando os meus espiões trouxeram a informação de que um descendente de mago havia desafiado os mestres da Universidade, rapidamente mandei minhas tropas investigarem, até que fui pessoalmente e encontrei o traidor em fuga, com minha sobrinha tentando ajudá-lo.

O conselho estava perplexo. A princesa e filha do Rei estar envolvida em traição era algo que mancharia completamente a credibilidade dos Ferreiros, e as afirmações sobre o avô de Kara se tornaram ainda mais críveis.

— Isso é verdade? — comentou Hog.

— Não estava ciente de nada — disse incrédulo o Rei, indo em direção a filha.

— Para trás! — ordenou Sabáh, mas seu irmão ignorou a ordem e se ajoelhou para encará-la. Kara estava com um olhar de fúria, cheio de lágrimas, e dirigiu seu olhar com decepção para o pai. Sabáh se sentiu tentado a atacá-lo, mas sabia o conflito político que aquilo geraria caso o fizesse.

— Minha filha… O que você fez?

— Acredito que ela tenha simplesmente acatado as ordens do avô — disse Sabáh. Agora não estava mais sorrindo, mas com os olhos passeando para encarar a face perplexa de cada um dos conselheiros sentados à mesa. — Caso não se lembrem, governantes, graças a meu pai estamos enfrentando a maior crise militar da história, tudo isso porque ele se arrependeu de fornecer armas ao nosso exército.

“E sabemos muito bem que meu irmão tentou segurar as pontas entre os interesses de nosso pai e os da Cidadela.”

— Ousa insinuar traição!? — gritou o Rei, olhando fixamente para seu irmão.

— Isso vai depender de como você agirá — continuou Sabáh. — Tudo leva a crer que sua filha estava tentando ajudar os exilados que são contra a Cidadela. Você, como pai, certamente não teria problemas em repreendê-la. Mas, como rei e como líder desta Távola, você sabe que deve entregá-la para as autoridades. E então… O que vai fazer? Decepcionar sua filha, ou ferir a estabilidade de Héreddah?

As exclamações se tornaram ainda mais altas. A resposta do Rei morreu em sua boca. De fato, segundo a lei, seu irmão estava com a razão.

— Minha filha — disse o pai de Kara —, como pode…

Kara desejava falar muitas coisas para o pai, mas a principal era que ela não queria que ele desistisse dela naquele momento, ainda que tivesse de enfrentar revoltas e mesmo uma guerra contra o irmão. Afinal, é isso que qualquer pai faria.

Mas era do rei dos ferreiros que estávamos falando, e Sabáh tinha essa noção. Sabia que ele era diferente da filha e do próprio Ferreiro Mór. E sabia o quão politicamente prejudicado estaria se compactuasse com o Rei.

Conflitante, mas engolido pela agitação dos governadores locais, ele desviou o olhar da filha ajoelhada e virou-se para Sabáh, dizendo:

— Lamento — disse ele, se levantando e dando as costas para a própria menina.

E Kara arregalou os olhos, em choque. Seu mundo havia caído com aquelas palavras. Sabáh, profundamente satisfeito, sorriu.

— Escolheu bem, meu irmão. E agora, começarei a busca por nosso querido pai.

— Se encostar um só dedo nela… — começou o Rei, transtornado.

— Somos uma família, se esqueceu? — respondeu o General, sorrindo falsamente. — Eu a usarei como isca para encontrar o nosso pai.

— Bom! — exclamou Hog, por fim. — Acredito que falo em nome de todo o conselho quando digo que, ainda que não concordemos com as práticas dos generais, somos todos favoráveis a essas investigações para encontrar o Ferreiro Mór.

— Um time dos meus melhores homens já está preparado para isso, Lorde — concluiu Sabáh, e olhou para o Rei. — Garanto a você que vou encontrar o meu pai… De uma forma ou de outra.