Da janela do avião, a nova cidade se estendia como um tabuleiro de luzes pálidas e sombras densas. As casas e prédios pareciam brinquedos esquecidos, e as pessoas lá embaixo eram apenas pontos insignificantes, como formigas ignorantes do que sobrevoava suas cabeças. O local parecia pequeno demais, limitado. Eu tinha a sensação de que, em um único olhar, já havia devorado tudo o que aquela cidade tinha a oferecer... Mal sabia eu que era a cidade que tentaria me devorar.


O aviso sonoro da aeromoça cortou meus pensamentos, solicitando que afivelássemos os cintos. Sorri amarga. O Sr. Rogers estaria me esperando lá embaixo. Ele sempre foi meu porto seguro, mas detestava aviões com uma paixão quase cômica. Dizia que eram latas de metal voadoras atraindo o azar. Por isso, nosso ritual era imutável: eu cruzava os céus, e ele guardava o chão.


Assim que os pneus tocaram a pista e o sinal de desembarque ecoou, levantei-me. Minha estatura sempre foi um problema — ou uma solução, dependendo de quem perguntasse. Parei de crescer aos doze anos. Para meu pai, foi um infortúnio; para minha carreira, uma mina de ouro. Esse corpo pequeno e frágil permitiu que eu esticasse papéis infantis por toda a adolescência, mantendo a farsa da "menina doce" enquanto, por dentro, eu me tornava algo muito mais sombrio.


Um aeromoço aproximou-se, oferecendo ajuda com a mala de mão que eu não alcançava. Ele foi gentil, quase doce, e me pediu um autógrafo com um brilho de admiração nos olhos. Assinei rapidamente, aliviada por ele ser discreto. Se a notícia da minha chegada vazasse, o aeroporto seria invadido por fãs e câmeras, e a última coisa que eu precisava agora era de flashes ofuscando minha visão sensível.


Puxei o capuz do meu moletom cor-de-rosa — o uniforme perfeito da inocência — e abaixei a aba do boné. Na ala de espera, avistei o Rogers. Ele era uma figura impossível de ignorar: terno preto impecável contrastando com uma gravata amarela de patinhos de borracha. Seus cabelos longos estavam presos e os óculos escuros escondiam o cansaço, mas o cartaz em suas mãos enluvadas dizia tudo: "Filhinha do Produtor".

Aquele homem era o mais próximo de um pai que eu já tive, desde que Michelle, minha empresária, ganhou minha guarda e me arrancou das garras cruéis do meu progenitor biológico. Michelle me salvou de um monstro apenas para me transformar em outro. Ela me deu uma carreira, mas roubou minha humanidade.

— Hey, Rogers... — murmurei, sendo esmagada por um de seus abraços desengonçados.

— Que fofinha! — ele exclamou, com aquele tom de pai emocionado. — Se preocupando com malas? Você nem parece a menina que deixava tudo para trás. Não se preocupe, querida, já despachei tudo para o carro enquanto você pousava.


Torci o nariz para o "fofinha", mas forcei um sorriso. Ele não sabia de nada. Não sabia que o motivo de eu ter trocado os filmes infantis pelo terror não era uma "busca por novos ares", mas sim uma necessidade de me esconder no escuro. Para ele, as visitas à psicóloga tinham me curado. Para mim, eram apenas sessões de como aprender a mentir melhor.

No entanto, o Rogers parecia apressado.

— Você vai de táxi na frente, pequena. Tenho um assunto urgente para resolver agora. Nos vemos no hotel, peça ajuda com as malas na recepção.

Ele depositou um beijo rápido na minha testa e me empurrou para dentro de um táxi. Novamente, a solidão me abraçou.


Cerca de trinta minutos depois, parei diante do hotel. O taxista, um homem rabugento, largou minhas malas na calçada como se fossem lixo. Entrei no lobby arrastando minha bagagem, tentando manter a postura de estrela, e logo fui escoltada para a suíte presidencial após ser reconhecida pelas recepcionistas.


Assim que a porta da suíte se fechou, o silêncio se tornou ensurdecedor. Joguei as malas de lado e corri para o frigobar. Meus dedos tremiam. Abri a porta com força, mas só encontrei garrafas de água mineral e refrigerantes. Nada do líquido carmesim, denso e metálico que meu corpo exigia.


O vazio no meu estômago não era fome comum; era um buraco negro que sugava minha sanidade. Minha garganta queimava como se eu tivesse engolido brasas. Sem as garrafas que Michelle costumava preparar, eu estava por minha conta. Michelle sumira há dias, deixando apenas uma lista de regras e uma sede que eu não sabia como controlar.

A besta interior arranhava minhas costelas, exigindo ser alimentada.

Liguei para a recepção, minha voz saindo mais rouca do que o normal. Pedi um táxi. Eu nunca havia caçado antes. Nunca precisei olhar nos olhos de uma presa enquanto tirava sua vida. Mas o instinto falava mais alto que a moralidade.

Ao entrar no carro, o taxista me encarou pelo retrovisor. Seus olhos eram cor de amêndoa, e a pulsação em seu pescoço era visível, rítmica, hipnotizante. Tum-tum. Tum-tum.

— Então, para onde vamos, senhorita? — ele perguntou com um sorriso gentil.

Minha boca se encheu de saliva. Eu não conhecia a cidade, mas meu faro buscava algo específico.

— Eu não conheço a cidade... — comecei, tentando controlar a respiração — mas gostaria de conhecer locais que me distraiam. Um lugar com música alta, muita gente... um lugar onde ninguém note uma garota perdida.

Ele riu baixinho, acelerando o carro.

— Acho que sei exatamente o local perfeito para você...