Os Amores de Luna Wolf : Livro Um - Reale
2 Botas e Sangue.
O carro cortava a noite, transformando as luzes da cidade em borrões frenéticos. Encarei meu reflexo no vidro: olhos de um verde amendoado, pele excessivamente pálida e cachos loiros escondidos sob o capuz rosa. Michelle dizia que minha transformação era perfeita, que os humanos eram cegos demais para notar que meu coração não batia mais. Como eles não percebiam? Como eu demorei tanto para notar que já estava morta?
Um pigarro me trouxe de volta. O taxista me observava pelo retrovisor. Suas feições eram simples, o tipo de homem que eu costumava estudar para minhas atuações.
— Posso lhe fazer uma pergunta, senhorita? — ele indagou.
Minhas mãos tremeram. Será que ele sentiu o frio que emanava da minha pele? — Claro... pode perguntar — respondi, tentando mascarar o medo que escapava em cada sílaba.
Ele sorriu com uma bondade genuína. — Você é a senhorita Bianca Rain?
O alívio me atingiu como uma onda. Eu ainda era a Bianca para o mundo. — Sim, sou eu.
O homem ficou radiante. Pediu um autógrafo para a filha, Bruna, e perguntou o que eu buscava naquela noite. Eu queria "espairecer", disse a ele. Quando me perguntou meu estilo de música, ignorei as respostas prontas que meu pai dava nas entrevistas sobre músicas da Disney.
— Rock — respondi com firmeza. — É o meu preferido.
Ele me levou até um lugar que parecia o epicentro do perigo. O letreiro em neon brilhava com o nome "Palácio do Inferno", adornado por presas de vampiro estilizadas. Ao descer, o taxista me entregou um cartão. "Cuide-se bem, querida", ele disse, com uma preocupação que quase me fez sentir humana novamente.
O som das motos rugia do lado fora. Uma Harley Davidson preta, imponente e solitária, se destacava entre as outras. Ao entrar, o contraste foi imediato: eu era um ponto rosa e frágil em um mar de couro preto e suor. O ar era espesso, carregado de música alta e uma energia pulsante.
Fui barrada na escadaria VIP. O segurança me encaminhou até o balcão, onde uma mulher de roupas de couro e sorriso afiado me aguardava. — O que quer aqui? — ela perguntou.
— A pulseira para o andar superior.
Ela não pediu dinheiro. Segurou meu braço e, com uma agulha rápida, furou meu dedo. Vi meu próprio sangue correr, e ela o provou com um brilho de excitação nos olhos antes de prender a pulseira no meu pulso. A permissão estava dada.
Subi. O primeiro andar era tomado por dançarinas de pole dance e olhares famintos. Mas eu continuei subindo. No nível seguinte, a atmosfera mudava de entretenimento para entrega total. A moralidade humana parecia não existir ali; corpos se entrelaçavam em exibições públicas de desejo e submissão. Havia um magnetismo naquele caos, algo que me deixava surpresa e, estranhamente, extasiada. A linha entre o prazer e a dor era tênue naquele lugar.
Tentei subir mais um lance, mas um segurança bloqueou meu caminho. — Acesso restrito — ele disse. — Só com permissão do dono ou acompanhada por alguém do círculo interno.
Eu estava prestes a desistir quando o vi.
Duas mulheres imponentes abriram caminho e, logo atrás delas, ele surgiu descendo os degraus. A aura de autoridade que ele exalava silenciou meus pensamentos. Meus olhos baixaram involuntariamente, parando no que mais me chamou a atenção: suas botas pretas, pesadas e manchadas com o vermelho vivo de sangue fresco.
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