Os últimos dragões
6 Capítulo VI
A luz das tochas tremeluzia nas paredes de pedra da Fortaleza Vermelha enquanto Robert Baratheon avançava pelos corredores, seus passos ressoando com peso e determinação. O coração batia rápido, não apenas pela caminhada apressada, mas pela sensação perturbadora que o assombrava há semanas. Os sonhos... sempre os mesmos malditos sonhos.
Ele empurrou as grandes portas da sala do trono com uma força que fazia jus à sua fama de guerreiro, as imensas folhas de carvalho se abrindo com um rangido lento. Lá estava o Trono de Ferro, aquele monstro forjado de mil espadas pelo desgraçado Aegon I Targaryen, sua sina e sua conquista. Mas, dessa vez, algo estava diferente. Muito diferente. Algo que Robert preferia arrancar os olhos ao ver de verdade.
Sentado no Trono, como se fosse seu por direito, estava o homem dos sonhos de Robert. O cabelo prateado caía em ondas até seus ombros, os olhos violeta-escuros cintilavam com um ar de diversão e desdém. Ele não era Rhaegar, nem Viserys, mas um estranho e, ao mesmo tempo, familiar em sua ameaça. A coroa de Maekar repousava soberba em sua cabeça, e em suas mãos, parada à sua frente como um muro, estava a Irmã Sombria, aquela espada lendária que pertencia a Visenya Targaryen.
O sangue de Robert ferveu. Como ousava aquele demônio sentar-se ali, no trono que ele havia conquistado com sangue e aço?
— Guardas! — sua voz retumbou pelo salão, carregada de raiva e terror disfarçado. — Matem-no! Agora!
Os soldados trocavam olhares incertos, e Jaime, que estava à porta, avançou com a usual confiança, mas com uma expressão de confusão nos olhos.
— Qual homem, Majestade? — Jaime perguntou, as sobrancelhas franzidas em uma mistura de preocupação e perplexidade. — Não há ninguém aqui além de vós, Ned, e nós.
Robert piscou, confuso. O homem prateado estava lá, vivo, sentado no trono, o sorriso malicioso não desaparecendo nem por um instante. Então Robert olhou novamente e viu apenas o vazio. O Trono de Ferro estava desocupado. O salão, silencioso, exceto pelo farfalhar dos mantos brancos dos guardas.
— Mas... ele estava aqui — Robert murmurou, sua voz mais baixa agora, carregada de uma dúvida que ele não ousava deixar transparecer. O olhar de Ned Stark, que permanecia em silêncio até então, era grave, preocupado, os olhos cansados observando seu amigo de longa data com uma preocupação que ele dificilmente escondia.
— Robert — Ned falou calmamente, sua voz cheia de preocupação. — Não há ninguém aqui. Você está cansado. Talvez precise de descanso — Robert balançou a cabeça, tentando afastar a visão, mas o desconforto permanecia.
— Eu sei o que vi, Stark. Ele estava aqui... aquele demônio valiriano. Ele... ele usava a coroa dos Targaryen.
O silêncio se estendeu pela sala do trono. Jaime trocou um olhar rápido com os guardas, que não sabiam como reagir, ninguém sabia. A sala, tão familiar e sempre sob seu controle, agora parecia estranhamente alheia, quase hostil.
— Voltem aos seus postos — Jaime ordenou aos guardas, sua voz firme, mas sem a usual leviandade. Ele então se aproximou de Robert, colocando uma mão no ombro do rei, em um gesto de apoio raro. — Vamos, Majestade. Vamos sair daqui. Pode ser o cansaço, ou talvez… — ele hesitou, antes de continuar — alguma memória que vos assombra.
Robert permitiu ser guiado para fora da sala, mas, ao olhar por cima do ombro uma última vez, ele quase esperava ver aquele homem novamente, sorrindo de volta para ele, zombando de sua sanidade. Mas a sala estava vazia, tão vazia quanto Robert se sentia por dentro, carregado com um terror que ele não podia nomear, mas que estava lentamente o consumindo.
♚♚♚
A sala do pequeno conselho estava impregnada com a opressiva atmosfera das notícias que chegavam a Porto Real. O calor do verão parecia ainda mais sufocante dentro das muralhas da Fortaleza Vermelha, e Robert Baratheon sentia cada gota de suor correr por suas têmporas enquanto uma ira fria se apossava de seu coração. Ele estava sentado em seu trono, uma expressão severa cravada em seu rosto barbudo, os dedos tamborilando com impaciência no braço do Trono de Ferro.
— Ela está grávida — ele murmurou, quase para si mesmo, enquanto o Varys, que trouxe a notícia, se curvava ainda mais profundamente, como se quisesse desaparecer nas sombras. — A última Targaryen... grávida de um selvagem.
O eco das palavras se espalhou pelo salão, e os olhos de Robert ficaram distantes, quase perdidos na miragem dos pesadelos que o atormentavam há semanas. Visões do homem valiriano, com a coroa de Jaehaerys e a Espada Irmã Sombria, dançavam na sua mente. E se...? E se o filho de Daenerys fosse aquele que ele tanto temia? O sangue do dragão correndo pelas veias de um khal, um guerreiro brutal, nascido para conquistar.
De repente, o temor que ele vinha tentando esconder atrás de copos de vinho e noites intermináveis de deboche emergiu com uma força implacável.
— Não posso permitir isso — ele rosnou, sua voz crescendo em intensidade. — Não vou esperar para descobrir o que esse bastardo pode se tornar. Ordeno que os matem. Agora. Acabem com ela, com o selvagem, e com o maldito que cresce em seu ventre!
A sala ficou em um silêncio tenso. Todos os olhos estavam fixos em Robert, mas nenhum homem ousava dizer algo, exceto Ned Stark, que, com sua habitual serenidade, deu um passo à frente.
— Robert — Ned começou, a voz baixa, mas firme. — Isso é loucura. Estás a temer uma sombra. Daenerys é apenas uma garota, e seu filho, se chegar a nascer, será um Dothraki, um selvagem como o pai. Um khal não é uma ameaça ao teu trono, eles não cruzam o mar, não se aventuram além das suas terras. O mar é uma barreira que eles temem.
— Você não entende, Stark! — Robert explodiu, levantando-se do trono com um movimento brusco, a ira estampada em cada linha de seu rosto. — Ela carrega o maldito sangue do maldito dragão. Eu vi o que pode acontecer. Esse garoto... ele pode ser o meu fim, o fim de todos nós. A sombra do dragão ainda paira sobre nós! — Ned manteve a calma, embora pudesse sentir o peso das palavras de Robert.
— E se estiveres errado? — ele disse suavemente. — Seja prudente, Robert. Matar uma garota grávida e seu marido apenas por medo de uma profecia, ou de… um sonho, pode ser a escolha de um tirano, não de um rei justo.
As palavras de Ned ecoaram pelo salão, mas Robert estava demasiado mergulhado em seus próprios medos para ouvir a razão. Ele virou-se, os olhos ferozes voltando-se para seu amigo mais antigo.
— Você não viu o que eu vi — Robert disse, mais baixo agora, mas com uma intensidade quase desesperada. — Você não sabe o que esses malditos Targaryen são capazes de fazer. Rhaegar destruiu minha vida, e não deixarei a irmã dele fazer o mesmo. Ela tem que morrer, Ned. E o filho dela também — Ned suspirou, vendo que as palavras de prudência caíam em ouvidos surdos.
— Majestade, você diz que não sei do que os Targaryen são capazes, mas lembre-se que enquanto perdeu sua prometida, eu perdi minha irmã — as palavras de Ned pareciam pesadas, densas como se pudessem ser cortadas pelas lâminas de espadas — Mas enfim, pense bem antes de dar essa ordem, Robert — ele advertiu, mas no fundo, ele sabia que seu amigo não recuaria.
Robert não respondeu, virando-se de volta para a janela, perdido em seus pensamentos sombrios, esperando que o mundo lá fora lhe trouxesse alguma clareza, sua mente dominada pela imagem do homem valiriano e o destino que ele temia estar selado.
♚♚♚
Tyrion Lannister chegou a Porto Real carregado de uma curiosidade que fervilhava em sua mente desde que deixara a Muralha. A longa viagem ao sul lhe dera tempo para refletir sobre tudo o que Meistre Aemon havia dito, e a ideia de uma linhagem esquecida dos Targaryen – uma que não estava registrada em nenhum dos livros – o intrigava profundamente. Ele sabia que, se havia alguém que poderia lançar alguma luz sobre o assunto, esse alguém era seu irmão Jaime. Encontrando Jaime no pátio da Fortaleza Vermelha, onde ele treinava com os guardas, Tyrion se aproximou cambaleante, quase tremendo pelas lâminas.
— Irmão, tenho uma pergunta que talvez você ache estranha — ele começou, sua voz sarcástica suavizada pelo interesse genuíno. — Alguma vez você ouviu Aenys, nosso querido Rei Louco, mencionar alguém chamado Eamon?
Jaime parou por um momento, baixando a espada e voltando seu olhar afiado para o irmão mais novo. Ele parecia ponderar a pergunta, como se cavasse nas memórias que preferia esquecer. Jaime jamais admitiria o quanto detestava lembrar de seus anos servindo Aenys.
— Eamon? — Jaime repetiu, esfregando o queixo, indo cada vez mais fundo em suas memórias. — Agora que menciona... sim, eu ouvi. Mas só em seus momentos de maior loucura.
— Ele falava de Eamon como se fosse alguém importante para ele? — Tyrion indagou, inclinando a cabeça para um lado, seus olhos perscrutando cada detalhe da expressão de Jaime.
— Não sei se importante seria a palavra certa — Jaime respondeu, inclinando-se sobre sua espada. — Ele chamava por esse nome em meio a seus devaneios, como se estivesse vendo fantasmas que ninguém mais podia ver. Os guardas costumavam dizer que era apenas mais um delírio, ou talvez um filho natimorto, algo que a loucura de Aenys nunca conseguiu enterrar completamente.
Tyrion estreitou os olhos, intrigado.
— Natimorto? Estranho que tal coisa não tenha sido registrada nos livros. Aenys chamava por esse Eamon muitas vezes?
— De vez em quando — Jaime disse com um encolher de ombros, como se quisesse deixar o assunto para trás. — Mas ninguém levava a sério. Era só mais uma das tantas palavras que saíam da boca de um rei já perdido para a loucura.
Tyrion franziu a testa, as engrenagens em sua mente girando rapidamente. Se Eamon fosse apenas um devaneio, por que Meistre Aemon reagiria com tanta intensidade ao ouvir seu nome? E por que o nome de Eamon nunca apareceu em nenhum dos registros que ele consultara?
— Então, nunca houve uma explicação oficial sobre quem seria esse Eamon — Tyrion disse mais para si mesmo do que para Jaime.
— Não que eu saiba — Jaime confirmou. — Mas, como disse, ninguém o levou a sério. Quem se importaria com as palavras de um rei louco?
— O que ele falava? — Jaime engoliu a risada, não acreditando que estava ouvindo perguntas sobre os delírios de Aenys.
— Ele pedia para que o salvasse
Tyrion assentiu, mas seu interesse apenas aumentava. Algo naquele nome parecia fora de lugar, como se escondesse um segredo enterrado nas sombras do passado. Ele sabia que teria que cavar ainda mais fundo, se quisesse entender a verdade por trás das palavras de Aenys II e do nome Eamon.
♚♚♚
Daemon estava impaciente. Seus olhos violetas brilhavam com uma intensidade quase febril enquanto ele observava Rhaella, que estava hesitante diante do enorme dragão que repousava a poucos metros. O calor que emanava da criatura parecia ondular o ar ao redor, criando uma aura quase sobrenatural. Rhaella, delicada e tímida, parecia ainda mais pequena diante da majestade escura da besta.
— É perigoso, Daemon — ela murmurou se virando para ele, a voz tão suave que quase se perdeu no vento que vinha do mar. — Eles podem nos ver... Os Westerosi. Se avistarem dragões, haverá perguntas, rumores. Não podemos arriscar.
Daemon se aproximou de sua irmã-esposa, seus passos decididos contrastando com a cautela dela. Ele a segurou pelos ombros, sentindo a tensão nos músculos delicados.
— Eles não acreditariam em dragões, Rhaella — ele disse, a voz profunda carregada de uma mistura de confiança e desafio. — Para eles, os dragões são apenas lendas, criaturas extintas. Mas nós sabemos a verdade. E há algo que quero te mostrar.
Rhaella ergueu o olhar, encontrando os olhos do irmão. Ela podia ver a chama que ardia dentro dele, a mesma que alimentava sua própria linhagem e que o tornava tão diferente de qualquer outra pessoa que ela já conhecera. Mesmo assim, o medo estava ali, pairando como uma sombra.
— Confie em mim — Daemon disse suavemente, a mão subindo para acariciar o rosto dela, sentindo a pele lisa e macia aquecer o seu toque. — Não haverá perigo. O mundo lá fora está cheio de boatos e lendas, mas ninguém ousaria acreditar que os dragões ainda existem. E mesmo se ousassem, nós estaremos muito longe antes que qualquer um tenha tempo de reagir.
Rhaella hesitou por mais um momento, mas finalmente assentiu. Ela sabia que Daemon nunca a colocaria em perigo, pelo menos não intencionalmente. Com um suspiro, ela tomou a mão dele e juntos, se aproximaram do dragão. A grande criatura levantou a cabeça, seus olhos reptilianos fixando-se nos dois. Havia uma conexão ali, um elo antigo e inquebrável entre o dragão e os Targaryen.
Com a ajuda de Daemon, Rhaella subiu nas costas do dragão, o calor do corpo da criatura passando por suas pernas como uma corrente elétrica. O dragão aceitava sua presença com um ronco baixo e profundo, quase um som de aprovação.
— Vamos voar, meu amor — ele sussurrou em seu ouvido. — Vou te mostrar o que nunca viu antes — Daemon montou em seu próprio animal logo depois dela, suas mãos segurando as rédeas improvisadas
Com um grito gutural, Daemon deu o comando, e o dragão levantou voo, suas enormes asas cortando o ar com poder e graça. O coração de Rhaella bateu acelerado em seu peito antes de dar o comando, de maneira muito mais suave que Daemon. Havia mistura de medo e excitação em seu corpo enquanto o mundo abaixo deles encolhia rapidamente. O vento chicoteava seus cabelos prateados, e ela olhou para Daemon, sentindo a força e segurança que ele transmitia.
Eles voaram alto e rápido, cortando as nuvens como uma flecha, até que as formas distantes de terras desconhecidas começaram a aparecer no horizonte. Daemon comandava o dragão com habilidade, guiando a criatura para o sudeste, em direção às ruínas de Valíria, o lugar onde a história de sua casa começou. Rhaella o seguia de perto, o calor dos animais cortando o vento frio.
À medida que as ruínas antigas se aproximavam, imponentes e cheias de mistérios, Rhaella não pôde deixar de sentir uma pontada de reverência. As colunas quebradas e as vastas cúpulas em ruínas que uma vez abrigaram os mestres dragões erguiam-se diante deles como fantasmas de uma era perdida.
Valíria era um lugar de devastadora beleza e estranha grandiosidade, uma terra onde a própria história parecia se retorcer nas pedras e nas sombras, recusando-se a sumir totalmente. Ao se aproximar das ruínas, Rhaella sentiu uma mistura de reverência e apreensão, como se estivesse prestes a cruzar o limiar entre o mundo dos vivos e o dos sonhos.
O céu acima era de um azul profundo e nublado, com nuvens pesadas que se arrastavam lentamente, como se carregassem o peso dos milênios. As torres em ruínas de Valíria se erguiam contra o horizonte, suas silhuetas escuras e tortuosas recortadas contra a luz tênue. Era um espetáculo de decadência sublime, onde os traços de uma civilização gloriosa se entrelaçavam com as marcas do tempo e da destruição, se recusando a desaparecer totalmente.
As vastas estruturas, uma vez orgulhosas e imponentes, agora estavam fragmentadas e cobertas por uma grossa camada de poeira e musgo. Colunas quebradas, como dedos petrificados de deuses esquecidos, se projetavam do solo. Os arcos, que um dia sustentaram os altos tetos dos palácios, estavam agora apenas sombras de seu antigo esplendor, oferecendo apenas uma sugestão do que havia sido. Sua dragão pousou logo depois do dragão de Daemon. Ela desceu da sela com a ajuda do marido.
— Bem-vinda a Valíria, minha rainha — Daemon sussurrou no ouvido dela, sua voz cheia de algo entre admiração e ambição, o tom fazendo seus pêlos arrepiarem na pele pálida. — Nosso passado, e talvez... o impulso para nosso futuro.
Rhaella sentia o coração apertado diante daquela grandiosidade perdida. Havia uma sensação de um passado que ainda ressoava no presente, como se as pedras pudessem falar se ela apenas ouvisse com atenção. Ela estava imersa em um mar de pedras e lembranças, e cada ruína parecia contar uma história que se perdera nas brumas do tempo. Cada passo dos dragões parecia ecoar através das ruínas, como se acordasse fantasmas dos dias antigos, seus ancestrais. O vento sussurrava entre os escombros, carregando um lamento antigo que parecia ter se infiltrado na própria terra, como se os gritos dos valirianos estivessem se enraizado ali.
Rhaella, com os cabelos prateados esvoaçando ao vento e os olhos lilases refletindo a luz opaca, estava em silêncio. O medo e o fascínio misturavam-se em seu peito, e ela se sentia como uma pequena intrusa em um lugar onde o tempo havia parado, mas a memória ainda permanecia quase viva. O esplendor de Valíria a envolvia, mas também a sufocava com sua desolação majestosa.
Ela olhava para Daemon, que parecia em casa entre as ruínas, com uma expressão de determinação e orgulho. Para Rhaella, a beleza de Valíria era uma lembrança dolorosa de um tempo que nunca conheceria, uma beleza que havia sido desgastada pela própria ambição e pelo cataclismo que a havia consumido, sem saber qual foi o motivo maior. Ela sentia um peso no coração, uma tristeza pela perda de algo tão grandioso e irremediavelmente perdido.
A cada passo de Rhaella suas botas se afundando na poeira que cobria o chão. A visão da antiga cidade, com suas torres quebradas e caminhos em ruínas, parecia um conto épico de glória e ruína. O sentimento de estar no centro de um legado que a ultrapassava e de um passado que não era seu, mas que estava agora, paradoxalmente, tão palpável e próximo, a enchia de uma melancólica admiração.
A sensação de estar entre ruínas não era apenas um testemunho da destruição, mas também da imortalidade de sua própria linhagem. Valíria era uma lembrança constante de que, mesmo em meio à perda e ao esquecimento, algo ainda permanecia, e aquilo, de algum modo, era o que Daemon esperava mostrar-lhe.
Rhaella, envolta em um manto contra o vento frio que soprava das ruínas, se virou para Daemon com um olhar preocupado.
— Daemon, não deveríamos estar aqui — ela começou — , há perigos de Valíria. Vermes de fogo que se escondem sob as pedras e de pessoas que foram infectadas com escamagris, jogadas aqui para morrer sem infectar mais ninguém — havia certo temor na voz suave da garota. Daemon olhou para ela com uma expressão calma, quase desafiadora.
— Rhaella, minha amada, não há necessidade de se alarmar. Estas ruínas foram poupadas dos vermes de fogo e das pragas que assolavam outras partes de Valíria. Aqui, o antigo poder da cidade parece ter sido selado contra esses males. É por isso que escolhi este lugar para trazer o que tenho de mais precioso — ele se aproximou, acariciando a bochecha dela com ternura —, é seguro. A destruição deixou um espaço onde o tempo parece ter parado, mas os perigos que você teme não se encontram aqui. Eu sei, já estive aqui — deu de ombros, mantendo um ar divertido. Ele tomou as mãos dela nas suas, transmitindo uma confiança serena. — Valíria é uma memória, uma lição de ambição e queda, mas o que resta aqui é mais como uma fortaleza do que uma ameaça. Estamos entre as paredes de um legado, não de um perigo real.
Rhaella ainda parecia um pouco receosa, mas a presença de Daemon ao seu lado e o olhar resoluto dele ajudavam a acalmá-la. Ela sabia que ele era impulsivo e muitas vezes desafiador, altamente volátil, mas a confiança que ele demonstrava era, em parte, reconfortante. Ela respirou fundo, tentando afastar a ansiedade enquanto observava o vasto campo de ruínas à sua volta.
— Eu confio em você, Daemon — ela disse finalmente, sua voz suavizada pelo amor e pela confiança. — Mas lembre-se que há mais do que podemos ver.
Daemon sorriu para ela, o brilho nos olhos e a confiança em seu olhar ainda presentes.
— Eu prometo que seremos cuidadosos — ele a girou, fazendo-a encarar a entrada de um templo — Agora, vamos explorar. O que resta aqui é mais do que uma lembrança de um passado glorioso; é um vislumbre do futuro que estamos moldando — beijou o pescoço dela, a fazendo soltar uma risada baixa.
Ele puxou-a gentilmente para o interior das ruínas, guiando-a através dos corredores e das câmaras que, embora desgastadas pelo tempo, ainda carregavam o eco de uma era antiga. O perigo que Rhaella temia parecia distante, a segurança que ela encontrava em Daemon ajudavam a transformar o medo em uma nova e fascinante aventura.
Daemon, avançando por uma das câmaras, viu um brilho peculiar entre os escombros. Ele se abaixou e, com um sorriso de triunfo, ergueu um colar de aço valiriano. O colar era magnificamente adornado com um grande rubi no centro, cuja cor profunda refletia a luz em um espetáculo de tonalidades vermelhas e douradas. O rubi parecia quase vivo, como se escondesse o calor de um dragão adormecido. Daemon girou o colar na luz, admirando a beleza do aço valiriano e a gema preciosa, encantado pela lembrança do poder e da riqueza que Valíria um dia detinha.
— Olhe para isso, Rhaella — ele exclamou, sua voz vibrando com uma satisfação profunda, mas Rhaella não estava ali.
Rhaella estava em outra parte das ruínas, examinando os detritos com cautela, ainda temerosa sobre o que podia encontrar. Seus olhos foram atraídos por algo que reluzia debaixo de uma pilha de pedras. Com algum esforço, ela conseguiu puxar uma espada de aço valiriano, uma relíquia impressionante. A espada era colossal, quase imensamente grande para suas mãos delicadas, com guarda-mãos esculpidos em forma de asas de dragão que pareciam prestes a bater a qualquer momento. O aço estava intrincadamente gravado com imagens de dragões em voo, seus contornos e detalhes maravilhosamente preservados.
Rhaella tentou levantar a espada, mas a peça era pesada demais para ela, e ela lutou para erguer a lâmina. Sua respiração ficou irregular, e ela soltou um suspiro cansado enquanto olhava para a arma com uma mistura de assombro e apreensão.
— Daemon — ela chamou, sua voz ecoando nas paredes da câmara. — Venha cá!
Daemon se aproximou rapidamente, rindo levemente com a dificuldade dela em manusear a espada. Ele examinou o objeto com um olhar apreciativo, tocando suavemente o aço e os desenhos dos dragões com a ponta dos dedos.
— Esta é uma verdadeira obra-prima — ele disse, os olhos brilhando com a admiração. — Uma espada digna de Aegon Targaryen
— Ou de Daemon Targaryen — ela sorriu, um sorriso genuíno, afetuoso.
♚♚♚
Os ferreiros da ilha, ao receberem a espada, se depararam com um desafio inesperado. O fio da lâmina estava tão afiado e intacto que se tornou quase impossível para eles trabalharem com ela. As ferramentas tradicionais não conseguiam limpar a lâmina sem correr o risco de se machucar, e a precisão com que a espada cortava qualquer material foi um obstáculo inesperado. O aço valiriano, forjado com um cuidado e uma técnica perdidos no tempo, revelou-se mais imponente do que imaginavam.
Daemon, ao perceber a dificuldade, observava com um olhar de orgulho e preocupação. Ele sabia que a espada não era apenas uma arma, mas um testemunho da história e do poder dos Targaryen. Deu aquele sorriso divertido tão característico dele.
— Não se preocupem — ele disse aos ferreiros — , façam o melhor que puderem. Minha esposa quer usá-la de decoração para a sala de jantar — a frase soava como uma piada que beirava o mau gosto.
Fale com o autor