Os órfãos de Nevinny Vol.2
31 Segundo plano
Nat, você lembra do Henrique? Henrique Vance? Aquele homem que era o secretário da minha mãe naquela época?
É claro, S/N. Quer dizer, eu acho que sim. Eu o vi poucas vezes, não sei se me lembro tanto.
Então, ele voltou. Tá rico, virou investidor do táxi voador. Tá poderoso. Mas tem um problema. Ele tá com ódio do meu pai. Acho que mortal, se duvidar.
Ok, e o que você quer que eu faça?
Avise os nossos amigos e familiares do bairro. Ele parece um homem furioso demais. Avise ao meu pai pra ficar sempre alerta. Ele pode tentar qualquer coisa a qualquer hora. Isso serve pra vocês também. Você e Meghan. Nesse nosso mundo os amigos dos inimigos de alguém sempre acaba pagando de alguma forma, não é? Desde já, me desculpa por isso.
Não se preocupe. Assim como sempre a gente se protege. Não importa o que aconteça.
⌚️ 10:49 a.m.
— … e isso foi o que aconteceu. Agora esse homem está por perto e ele parece bem determinado em alguma coisa. Eu não sei. É uma coisa ruim de sentir. Parece que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa e você tem a certeza disso. É angustiante — você fala tentando explicar o mais detalhadamente possível sobre o episódio da noite passado no Palácio Dakota.
Sua irmã, Lívia, nada fala, apenas atenta a todas as suas palavras. Em forma de negação ela balança a cabeça como se reprovasse ou desdenhasse do que falou. Expressão bem típica quando o assunto da conversa trata-se de Joseph.
— É o que sempre digo, S/N. É sempre a mesma coisa. Tudo onde Joseph está envolvido sempre tem algum problema por trás. Esse homem… tem que ter muito cuidado com ele. Já foi aparecer no evento em Dakota e já ameaçar assim? — ela fala dando uma breve pausa — Mas também, o que seu pai fez foi muito exagerado. Culpar um homem por uma coisa que ele não fez e mandar pra prisão por conta de um romance que teve com a sua mãe? Isso é bem exagerado. Quer dizer, é bem Joseph mesmo.
— Eu sei. Eu não tô nada confortável com essa história. Isso envolve a minha mãe…
— Que, me perdoe, é outra mal caráter… me perdoe, S/N, mas é a verdade.
— É, claro. Você tem razão. Mas, sabe? Eu não tô com medo desse homem por ele ter chegado até mim falando aquelas coisas. Eu tenho medo pelo meu pai, pelo o que ele pode fazer.
— O Henrique ou o Joseph?
— Pelos dois — você diz um pouco preocupadx.
— Ah, mas não precisa ficar assim. Pelo menos esse tal de Henrique não vai tentar matar seu pai. Disso pode ter certeza.
— Ele não, mas… e se o Henrique mandar alguém fazer?
— De qualquer forma ele seria a principal suspeita. Se algo acontecer, vocês vão ter a principal suspeita. E se ele fizer, a pena pra ele dessa vez vai ser maior do que a primeira.
— Nem me fale isso. Vira essa boca pra lá.
— Mas é a verdade.
— Eu… é que às vezes eu tenho medo, sabe?
— Medo de quê?
— Disso tudo ser genética, de família. Será que eu vou ser mau-caráter também assim como minha mãe e meu pai? — você questiona, refletivx.
— Ah, S/N, não fale assim.
— Mas como você quer que eu fale? Não é isso mesmo? Tipo, o meu pai fez tudo o que fez, e nós sabemos tudo o que ele fez. Pelo menos uma parte, não é? E a minha mãe… eu achava que ela era uma santa e de repente ela larga a nossa família, me deixando naquela situação. E agora, mais essa história que eu nem lembrava mais dela ter traído nosso pai com esse tal de Henrique.
— Seu pai. Corrija essa frase — Lívia ordena.
— Ah, ele é seu pai também. Deixa de história.
— Ora, S/N você tem apenas dezesseis anos e sua vida tem muito mais drama acumulado do que a minha que não tenho nem quarenta. Olha, uma coisa eu tenho que te dizer, você tem tudo pra ser uma pessoa desequilibrada, mas… você tá se saindo bem. Muito bem, por sinal.
— É, mas só eu sei o que eu tô passando por dentro. Até fui drogadx por conta disso.
— Que história é essa? Como assim? — Lívia pergunta, espantada.
— É, enquanto eu estive em Atelis a Meghan e a Lavínia me deram um suco mentolado pra me acalmar. Mas até que funcionou.
— E como você fala assim nessa calmaria? Se afaste dessas suas amigas pra sempre, S/N — ela ordena.
— Claro que não. Isso já passou. Na verdade, o que elas fizeram foi me ajudar. Pelo menos eu fiquei com a cabeça relaxada, sem ter muitas coisas pra pensar ao mesmo tempo.
— Então você que se resolva com essas suas “amigas” — ela fala — Agora, e você? Ainda não teve notícias da sua mãe? O mundo acabando e ela não dá nem notícias, não é?
— Não, e nem precisa. Se tudo está do jeito que está sem ela, o que poderia mudar com ela aqui?
Lívia nada responde. Apenas dá uma golada em um suco verde recém feito.
— Hoje é fim de semana e eu quero fazer alguma coisa diferente pra não pensar nesses novos eventos. Você tem ideia do que a gente pode fazer? — você pergunta.
— Não, to sem ideias. Talvez nada interessante — ela responde.
— Já sei. Por que não chama o Enzo, irmão de Cris pra vir pra cá? Você nunca chamou ele. Seria algo novo. E Cris poderia vir também.
— Não vai dar.
— Por que não?
— Eu terminei com ele.
— O quê?!
— Ontem à noite.
— Mas por quê? Vocês estavam se dando tão bem — você diz.
— É, pode-se dizer que sim. Mas eu não queria. Não ‘tava mais dando. Enzo às vezes é muito explosivo e tem o ego inflado. Não daria certo mesmo. O nosso encontro já escancarou isso bem na nossa cara e mesmo assim teimamos. Foi um erro.
— Bom, sinto muito por isso. Por um momento acho que até gostei de ver vocês dois juntos.
— Talvez eu vire sapatão. Os homens são muito complicados. Não sei. Foi uma ideia que passou pela minha cabeça.
— Sapatão? Não seria melhor dizer lésbica? Ou homossexual? — você diz.
— Pode dizer sapatão mesmo. Essa palavra era muito pejorativa no passado, mas hoje em dia já não é, sabia? Na verdade, significa orgulho e resistência. Eu pesquisei sobre o assunto. Você também deveria saber, os jovens de hoje não sabem de tudo?
— Ok, tá bom. Ficou um pouco estranho ouvir isso, já que você nunca demonstrou interesse num relacionamento lésbico. Pesquisar sobre o assunto até parece que você quis pesquisar pra saber e se tornar. Mas enfim, quem sou eu pra dizer alguma coisa? Se é o que você quer, que seja — você fala.
— Eu ainda não sei. Já tenho quase quarenta anos e nunca pensei em ser sapatão. Não sei nem se tenho roupa pra isso.
Falado isso você dá uma profunda gargalhada na qual arranca um sorriso de sua irmã, dissolvendo o fantasma de Joseph e a sombra iminente de Henrique Vance e agora de Enzo. Por um breve instante, vocês são apenas duas pessoas dividindo o absurdo do cotidiano no meio de um turbilhão.
— Eu tenho certeza de que tem. Não precisa ser algo exagerado. Se quiser, eu posso te ajudar de acordo com o que sei — você diz.
— Aceito. Me ajuda hoje à noite?
— E o que vai ter hoje à noite?
⌚️ 06:31 p.m., Residência de dona Ami…
— Eu nem acredito que S/N me fez usar esse vestido. Já tem anos que eu não usava ele — Lívia fala, animada enquanto se olha no espelho da cozinha de dona Ami.
— Eu que não estou acreditando que consegui reunir vocês na minha casa no mesmo dia. Posso saber como que consegui esse feito? Albertina, o que acha disso? — dona Ami diz, aparentemente satisfeita.
Albertina solta uma risada curta, ajeitando o pano de prato sobre o ombro antes de apoiar as mãos na cintura. Ela examina Lívia de cima a baixo com um olhar analítico, mas visivelmente divertido.
— Eu acho um milagre, Ami. Um verdadeiro milagre — Albertina responde, balançando a cabeça — E o vestido ficou ótimo, Lívia. Nem parece a mesma pessoa que vive trancada em escritório fugindo dos dramas da família.
— Albertina! Isso é que coisa que se fale? — dona Ami exclama, repreendendo-a.
Lívia dá uma voltinha no meio da cozinha de dona Ami, fazendo a barra do vestido levemente ajustado rodar no ar. O tecido escuro contrasta com a postura sempre rígida que ela mantém durante a semana, dando-lhe um ar muito mais suave — ainda que o humor ácido continue firme e forte.
— Tá tudo bem, dona Ami. A Albertina tá certa. Ficar muitas horas naquele escritório também cansa. Desde que deixei de ser garota propaganda e posar pras fotos eu tive que voltar pra minha vida de antes. Não ‘tava dando mais. Até chegar ao ponto de eu deixar de me produzir tanto. Então, hoje, eu vim com essa roupa especial pra visitar a senhora — Lívia diz.
Você sorri, encostando-se no balcão enquanto observa a cena. O aroma de chá de capim-santo e pão quente preenche o ambiente, criando um refúgio surreal e pacífico que em nada lembra as conversas tensas da manhã sobre Henrique Vance ou o rancor de Joseph.
— Ficou perfeito e você sabe disso — você fala cruzando os braços — Se você quer testar novos ares, pelo menos que seja com estilo.
Lívia nada diz apenas lhe olhando arregalando os olhos como se quisesse dizer algo.
— Como assim “testar novos ares”, Lívia? Do que S/N está falando? Tá pensando em mudar? Você já é perfeita assim como é — dona Ami diz.
— É mesmo. Uma boneca — Albertina completa.
— Não é nada disso. Eu apenas estou feliz e quero esquecer dos problemas e confusões do lado de fora. Nada de Joseph, nem Henrique. Nem mesmo quero saber de táxis voadores agora — sua irmã diz.
— Dinheiro não compra toda a paz do mundo nem juízo — Albertina intervém, puxando uma cadeira e sentando-se com vocês — Homem ferido no orgulho e com a carteira cheia é a pior combinação que existe. Mas de uma coisa eu sei, o pai de vocês sabe se virar muito bem nesse “jogo sujo”.
— É exatamente disso que eu tenho medo — você murmura — De os dois começarem um jogo sujo e a gente acabar no meio do fogo cruzado.
Lívia estende a mão pela mesa e dá um leve toque no seu braço, chamando sua atenção.
— Ei. Chega por hoje. Nós já conversamos demais sobre esse assunto. Hoje é dia de esquecer o Joseph,a Samantha, o Henrique e até o ego inflado do Enzo.
— Oh, minha filha. De novo, ainda sinto muito por esse seu namoro ter acabado — dona Ami lamenta pondo a mão sobre o rosto.
— Não se preocupe com isso, dona Ami. Bola pra frente.
— Isso. Assim que se fala, minha filha.
Nisso, você se levanta da cadeira e segue em direção à janela que fica logo ao lado da porta de entrada. Por uns segundos passa os dedos entre as brechas e observa a movimentação do lado de fora e, especialmente em frente à casa da falecida vizinha, dona Leca.
— Mas o que você olha tanto aí, S/N? — Lívia pergunta da cozinha.
— Nada. Só olhando a rua mesmo. Quero ver se passa algum táxi voador aqui por cima — você responde, mas, essa não é a sua real intenção.
Você mantém os olhos fixos na antiga casa de dona Leca, o olhar atravessando as frestas da janela de madeira. A rua, imersa na noite tranquila até demais. Nenhum rastro dos motores silenciosos das novas aeronaves nos céus do bairro, mas a sensação de vigilância constante não sai do seu peito. Na verdade, você não procura por táxis voadores; mas qualquer movimento de alguém saindo da casa de dona Leca. Ainda é bem estranho saber que aquela senhorinha não irá mais aparecer na calçada ou na casa de dona Ami outra vez.
— E você, Lívia? — Albertina retoma, ao longe, olhando para ela de esguelha com um sorriso de canto — Já que está tão decidida a mudar tudo, vai continuar fugindo do trabalho no escritório ou essa nova fase envolve encontrar um rumo completamente diferente?
— Uma coisa de cada vez, Albertina — Lívia responde, erguendo a xícara em um brinde irônico. — Primeiro eu sobrevivo a esta noite sem que meu pai arruíne o bairro. Depois, quem sabe, eu descubro se tenho vocação para ser o novo terror da cidade.
Você não consegue evitar um sorriso com o comentário, porém logo o seu foco muda quando o celular no seu bolso vibra subitamente duas vezes — o sinal inconfundível de uma nova mensagem da Nat.
Você desliza o polegar pela tela do celular debaixo da mesa, tomando o cuidado de não chamar a atenção das três na cozinha. É uma mensagem rápida de Nat:
“Oi, S/N. Avisados. Seu pai já tá sabendo também. Ele não pareceu surpreso, só mandou dizer pra você não sair de casa hoje à noite. Fica alerta e tome cuidado.”
O estômago embrulha por um segundo ao ver Lívia surgir do nada na sua frente.
“Será que eu conto?”. É o que se pergunta a respeito da mensagem de Nat. Você sabe que se falar alguma novidade vinda de Joseph ela pode surtar a qualquer minuto.
— Que cara é essa? É o celular? — Lívia pergunta imediatamente, provando que o radar de irmã mais velha continua afiado, por mais que ela tente disfarçar — Não me diga que é seu pai exigindo que você volte pra casa.
Você dá um suspiro e mostra a mensagem de Nat para ela.
— Ele não quer que eu saia de casa — você diz — Acho que ele ficou com medo por mim por causa do Henrique.
— Ah, me poupe. Até parece que esse homem vai fazer alguma coisa com você — ela diz.
— Ele não pode nem sonhar que estamos fora. Não sei como ele ainda não te ligou querendo saber se estamos em segurança.
— Eu sei o porquê. Eu bloqueei o número dele. Mas, conhecendo ele do jeito que eu conheço a qualquer momento, um número desconhecido pode me ligar ou mandar mensagem.
— É só não atender.
— Exatamente — Lívia concorda, dando de ombros com uma indiferença calculada enquanto caminha de volta para a cozinha. — Ele que lide com a paranoia dele. Se o Joseph quer entrar numa guerra de egos com o Henrique Vance por causa do passado, que faça isso bem longe.
Dona Ami olha para vocês com uma mistura de preocupação e uma espécie de severidade materna, colocando mais duas fatias de bolo caseiro sobre a mesa de fórmica.
— Eu não quero saber de conversas sombrias na minha cozinha, já avisei — dona Ami repreende suavemente, apontando a colher de pau em direção à porta — Se o pai de vocês mandou ficar em casa, é porque ele sabe o ninho de cobra onde se mete. Mas já que vocês já estão aqui, fiquem quietxs, tomem o chá e finjam que o resto do mundo não existe por um par de horas.
— Você tá certíssima, Amelita — Albertina intervém — Aliás, S/N, guarde esse celular. Ficar checando a tela a cada dois minutos não é legal.
Você guarda o aparelho no bolso da calça, sentindo o peso da advertência de Nat ainda ecoar na mente. Olhando para Lívia, por baixo do vestido escuro elegante e da maquiagem leve, é possível ver o cansaço genuíno acumulado nos olhos dela. A mudança súbita de atitude da sua irmã — o término com Enzo, as piadas sobre a própria sexualidade, a escolha de vestir algo diferente — não é apenas um capricho. É uma tentativa desesperada de erguer uma fortaleza onde as garras de Joseph Montenegro não consigam alcançar.
— Bom, se não é pra gente falar disso — Lívia começa — dona Ami, me conte mais sobre como a senhora lidava com os fofoqueiros do bairro na sua época. Preciso de inspiração para a minha nova fase.
— Ah, minha filha, na minha época a gente simplesmente não dava audiência — dona Ami responde, sorrindo nostálgica — Quem muito fala, pouco faz. Homem que ameaça demais costuma tropeçar nas próprias pernas.
A conversa segue em um tom mais morno, embalada pelo aroma de ervas e pelo zumbido fraco da geladeira antiga. Lá fora, a noite em Nevinny assenta de vez, silenciosa e fria. Por mais que o chá esteja quente e a companhia seja o único abrigo seguro que resta, a certeza incômoda continua ali, cravada no fundo do peito: Joseph sabe do retorno de Henrique, Henrique sabe onde atingir, e a calmaria dessa cozinha é apenas o intervalo curto antes de um possível próximo golpe.
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