Os órfãos de Nevinny Vol.2
32 Conchavos
A tela do celular de Allison exibe a cobertura ao vivo da emissora local. A imagem corta entre tomadas aéreas do tráfego urbano e o pátio tecnológico do Palácio Dakota:
— “ Três dias após o evento de lançamento promovido por Henrique Vance, a frota inicial de táxis voadores operou experimentalmente sobre os céus de Nevinny. No entanto, apesar do apelo futurista e do entusiasmo dos investidores, as vendas para o consumidor final e as reservas corporativas seguem tímidas. Fontes do setor apontam que o valor proibitivo por unidade e a desconfiança de parte da população em relação à segurança das rotas aéreas mantêm o mercado em ritmo cauteloso.”
📍 Rádio do Colégio Montreal…

Você e Allison esperam na porta da rádio da escola por Cynthia que havia marcado o encontro relâmpago para tratar sobre o assunto de Henrique Vance e a ameaça direta que ele havia feito. A abelha-rainha proibiu a entrada de qualquer participante da rádio pra que o caminho ficasse livre de qualquer curioso e fofoqueiro de plantão que pudesse lhes ver na reunião.
— Isso tudo tem que ser rápido. Não quero que ninguém veja nós três de conversinha e conchavo — ela diz logo destrancando a porta.
— Nós prometemos não dizer nada pra ninguém — Allison diz.
— É, tudo que eu menos quero é ter algum tipo de associação com a senhorita abelha-rainha da escola e ser associada a qualquer drama político da cidade — você completa, entrando na sala e sentando-se em uma das cadeiras estofadas do estúdio.
Cynthia fecha a porta com um clique seco, trancando-a por dentro. Depois, ela organiza a mesa de som e conferindo se todos os microfones estavam desativados, apenas faz um aceno discreto com a cabeça para vocês.
— A segurança da rádio é a única que eu controlo cem por cento aqui dentro — Cynthia diz, cruzando os braços e encostando-se na bancada principal — Primeiramente, eu pensei em ter essa conversa somente com S/N, já que é o nome dos nossos pais que estão em jogo, mas depois da última vez que nos encontramos nessa sala foi tudo movido à base de ameaças… eu decidi trazer Allison pra ser a testemunha ocular.
— Espera, então você me trouxe pra ser segurança ou coisa do tipo? — Allison pergunta, incrédulx.
— Não. Quer dizer, não só por isso. Também pelo motivo de você estar por dentro da história, é óbvio — ela fala enquanto arregala os olhos.
— Sei.
— Enfim, vamos ao que interessa. O investimento do senhor Elliot no projeto dos táxis voadores é alto demais para dar errado, e a campanha do meu querido papaizinho pra prefeitura entra em fase decisiva este mês. Em alguns dias já vai dar início às propagandas e distribuições de panfletos, campanhas…Não podemos ter escândalos de acertos de contas pessoais entre o pai de S/N e o Henrique estampando as capas dos jornais de Nevinny.
— Nossos pais entraram naquela reunião na noite do evento. Você sabe que eles vão tomar cuidado. O Henrique é uma ameaça mas ele não vai fazer nada contra os investidores do projeto, principalmente com o pai de Jennifer. Mesmo porque ele é investidor também e isso seria um mau negócio pra ele. Isso já foi dito antes. Nada vai interferir na eleição do seu pai, agora se ele não ganhar já é outra coisa — você avisa.
— E o que o senhor Joseph está pensando em fazer, S/N? — Allison pergunta.
— Eu ainda não sei. Você sabe que meu pai é aquele cara que esconde os planos de todo mundo. Informações e tudo mais.
— Pior que eu sei. Eu tenho um igual — elx diz.
— Bom, o que eu descobri conversando com o meu pai não foi muita coisa. Meu pai disse que Henrique passou anos acumulando capital no exterior, mas a estrutura financeira que trouxe para os táxis voadores passa por fundos “meio ilegais”, digamos assim. Possivelmente a empresa dele tem uma coisa chamada maquiagem fiscal. Joseph ficou feliz em saber disso. Parece que é algo que rola por trás, então ele só precisa saber qual o ponto fraco de Henrique pra fazer o negócio dele ruir.
— Como assim ‘ruir’? Vocês estão pensando em acabar com o negócio do cara? — Allison pergunta, espantadx.
— É claro que sim! — Cynthia exclama rodando sua bolsa rosa no ar — Ou é o negócio dele ou os dos nossos pais. Temos que tirar esse homem de circulação de uma vez. Eu posso intervir na parte institucional. Meu pai tem acesso direto com os conselheiros do senhor Elliot e à equipe de checagem da campanha. Se o Henrique tentar qualquer movimento bruto contra o Joseph que envolva o nome da cidade ou risco público, eu mando congelar as licenças de voo dele. Ele precisa entender que qualquer briga pessoal vai custar o apoio político local.
— Por que você fala como fosse fazer a maioria das coisas? Você não manda em nada. Quem tem o poder é o seu pai — Allison fala para Cynthia olhando-a com a cara de desdém.
Cynthia apenas solta um riso soprado, ajeitando o blazer impecável enquanto devolve o olhar de desdém para Allison com uma compostura quase irritante.
— Meu pai confia nas minhas leituras de cenário, Allison. Diferente de certas pessoas, eu não espero as coisas acontecerem para agir — Cynthia rebate, apoiando as duas mãos na bancada — Se eu disser ao meu pai que o Henrique Vance é um risco real para a imagem da campanha, a equipe jurídica dele entra em ação em menos de vinte quatro horas. É assim que a política funciona.
— Não precisa se gloriar por causa disso — você intervém, cortando o clima pesado que ameaça se instalar — O importante é que, se a gente encontrar o ponto fraco da maquiagem fiscal do Henrique, a gente tem como pressionar sem precisar partir para a ignorância. Eu só quero essa história encerrada antes que alguém saia ferido do nosso lado.
— Exato — Allison concorda.
— Aliás, Allison, você precisa falar com o seu pai sobre nossas suspeitas sobre Henrique estar envolvido no ataque de Suzanne e no sumiço do aluno novo. Eu sei que ele pode achar muita teoria… ou não, mas não podemos descartar essa ideia.
— Eu sei, S/N. Preciso falar mesmo.
— Não sei por que não falou ainda — Cynthia dispara.
— Pode deixar, vou dar um jeito de puxar esse assunto com ele hoje mesmo — Allison responde, cruzando os braços com uma expressão séria — Meu pai pode até ser resistente no começo, mas ele sabe investigar quando recebe uma pista decente. Se o Henrique tiver um dedo no que aconteceu com a Suzanne ou no sumiço do garoto, a gente vai descobrir.
— Bom, é só isso que tínhamos pra falar mesmo? Acabou a reunião. O sinal do intervalo vai tocar em três minutos. Se alguém pegar a gente trancada aqui conversando sobre máfia fiscal, polícia e políticos, o fofoqueiro do jornal da escola vai fazer a festa.
— Mas “o fofoqueiro da escola” é você, Cynthia.
— Enfim, vocês entenderam. Só sei que não posso ser vista com vocês. Isso pode manchar a minha reputação. Estive com vocês no Palácio Dakota, mas não tinha ninguém da nossa escola com nível suficiente que pudesse ter testemunhado nossas interações. Aqui já é outra coisa. Então, por favor, peço que vocês se retirem agora. Eu vou logo depois assim que me certificar de que não tem ninguém à espreita.
Você dá um profundo suspiro se preparando para dar uma resposta à Cynthia. Porém, seu controle fala mais alto e, com um falso sorriso você atende ao pedido logo indo em direção à porta.
— Obrigada. E fechem a porta quando saírem.
Ao fazerem, você e Allison olham para os lados à procura de alguma testemunha ocular. Tudo limpo. Acontece que a maioria dos alunos está ocupada nas suas salas de aula e poucos outros perambulam em alguns corredores aleatórios.
— “Manchar a reputação”? A única coisa que poderia manchar seria aquele casaco rosa dela com as gotas de sangue que sairia do nariz dela se a Lavínia tivesse presente — você diz ajustando a alça da mochila com uma força contida enquanto caminha.
— Calma, S/N. Nada de violência — Allison fala — Esquece a Cynthia. Ela vive em uma realidade paralela onde acha que comanda o conselho da cidade. O importante agora é mantermos nossa segurança. E a do seu pai, é claro.
— Você realmente acha que consegue falar com o seu pai sobre o Henrique hoje? Você acha mesmo que o senhor Jared vai se disponibilizar pra ajudar em uma questão como essa? Não seria muito envolvimento pra ele? — você pergunta.
— É… não é do tipo do meu pai se envolver em questões políticas que não são só sobre Miríade. Se envolver algo de fora assim seria meio estranho. Mas se você quiser a nossa ajuda.
— Sobre isso… acho que você tem razão. Não seria justo meter o seu pai em algo assim. Seria melhor mesmo ele ficar bem longe. As questões do meu pai são estranhas e são coisas dele. Deixa que os adultos resolvam as coisas de adultos, não é?
— Bem, se assim você quiser. Mas caso você precise de ajuda pra sua proteção, pode contar comigo sempre que desejar — Allison avisa.
— Tudo bem. Mas eu vou fazer de tudo pra me cuidar. Obrigadx pela dica — você retribui com um singelo sorriso.
Allison desacelera o passo conforme vocês se aproximam da escadaria principal e veem reunidos Rebekah, Felipe e Max que não está com uma expressão tão amigável. O semblante parece de alguém com uma tempestade por dentro.
— Ora, ora. Não é que estão aqui mesmo? O que aconteceu com vocês? Estão querendo brincar de sumir que nem os alunos da nossa escola? — brinca Felipe que recebe uma cotovelada de Rebekah.
— Oi, amor? Já estava ficando preocupadx. O que aconteceu que não respondeu minhas mensagens? — Max se aproxima dando uma abraço em Allison logo mudando sua expressão tempestuosa para uma de calmaria e paz no mesmo segundo — Oi também, S/N.
– E aí? — você responde.
— O-o que estavam fazendo tão longe nesse lado da escola? Estamos procurando por vocês há um tempo — Rebekah diz.
— Nós? Er…
— Nós apenas nos encontramos. Eu fui pegar um… livro que o professor pediu e acabei encontrando S/N pelo caminho — Allison fala.
— E cadê o livro? — Felipe pergunta.
— Ah, é que Allison já estava a caminho da biblioteca e eu comecei a passar mal, me deu uma tontura e fiquei enjoadx e elx acabou me dando uma ajuda pra me levar de volta à minha sala — você justifica.
— Você deveria ir pra enfermaria e não pra sala — Max dispara cruzando os braços.
— S/N, você tá bem? Achei que esse seu mal-estar e desmaios tinham parado. Agora fiquei preocupada com você — Rebekah fala.
— Não precisa. Tá tudo bem. Obrigadx — você diz.
— E quanto a vocês? O que estão fazendo nesse corredor? — Allison pergunta.
— Bom, er… — Rebekah inicia — Max estava mandando mensagens pra você, mas você não respondeu nenhuma delas e…
— E como eu estava bastante preocupadx mandei mensagens pra Rebekah pra ver se ela conseguia te ver na sala de aula só pra confirmar já que as salas de vocês são uma do lado da outra — Max completa.
— E aí eu disse que não estava te vendo e Max me pediu ajuda pra te procurar e… EBA! Aqui estamos. Será que eu posso voltar agora? Com toda essa demora o professor vai achar que aconteceu alguma coisa comigo.
— Não se preocupe, Rebekah. Ele nem vai notar o tempo que você esteve fora — Felipe diz.
— E quanto à você, Felipe? O que faz por aqui? Veio me procurar também? — Allison pergunta.
— Não. Eu vim falar com a Cynthia mesmo. Fiquei sabendo que ela veio pra cá. Talvez estivesse indo pra rádio. Vocês viram ela por aí?
— A Cynthia? Se nós a vimos?
— Não. Por que nós iríamos ver a Cynthia? — você diz.
— É. Não viram ela passar? Preciso muito falar com ela. É urgente — Felipe diz.
— Não e nem quero. Preciso ficar o máximo possível distante daquela garota.
— Bom, Max, já que está tudo bem com Allison, eu vou deixar vocês agora. Preciso voltar pra sala, pois não quero levar uma suspensão ou algo do tipo. Tchau.
Rebekah fala saindo apressadamente pelo caminho onde estava vindo. Felipe observa Rebekah sumir no dobrar do corredor, depois volta a atenção para você, Allison e Max. O olhar dele desconfiado passa de um para o outro, hesitando por um segundo antes de soltar um suspiro frustrado.
— Bom, eu vou fazer o que vim fazer. Me desculpem se não posso ficar, mas preciso encontrar a Cynthia.
Com a saída dos dois, o corredor parece finalmente voltar ao silêncio tenso de antes. Max se aproxima de Allison, segurando delicadamente sua mão, mas a expressão em seu rosto continua carregada de uma preocupação e desconfiança quase sufocantes.
— Pelo menos você tá bem — Max murmura para Allison, antes de olhar diretamente para você — E você, S/N... se essa tontura voltar, não hesita em ir para a enfermaria. Na verdade seria melhor ficar em casa por uns dias pra descansar.
— Pode deixar que eu vou me cuidar, sim — você fala.
O sinal do intervalo finalmente toca, alto e estridente, ecoando pelas paredes de mármore do Montreal e rompendo a bolha de suspense. Segundos depois, o barulho distante de portas se abrindo e vozes acumuladas começa a tomar conta dos corredores.
Logo recebe uma mensagem de Lavínia marcando a reunião do grupo no jardim da escola.
— Nossa, que saco! Parece que as horas estão demorando pra passar. Parece um tormento — Lavínia reclama pondo as mãos sobre a cabeça.
Ao seu redor, o grupo se acomoda em uma roda improvisada. O barulho do pátio central fica amortecido pelo farfalhar das folhas, mas a sensação de vigilância não desaparece. Cris senta ao seu lado, enquanto Allison permanece de pé alguns passos atrás, de braços cruzados, lançando olhares atentos para as alamedas próximas.
— Não dramatiza, Lavínia — rebate Cris tentando manter o tom leve, embora os dedos inquietos batam um ritmo acelerado sobre o joelho — Os dias só estão meio pesados ultimamente. Olhem, isso pode alegrar vocês.
Cris aponta para o céu, não tão distante, onde passa um veículo aéreo.
— Pra o que você tá apontando? Um helicóptero? — Lavínia pergunta.
— Não tá vendo? É um táxi voador.
— Como você sabe que é um táxi voador? — Rebekah pergunta.
— Simples. Helicóptero faz barulho — Cris responde finalizando a discussão.
— Eu ainda não achei tudo isso muita coisa — Rebekah comenta.
— É porque você não viu de perto. Ele é simplesmente lindo — Allison fala.
— Nossa, queria ter tido a chance de poder ir no evento pra ver de perto também — Cris fala.
— E por falar em ver, eu quero saber a respeito de uma pessoa que eu nunca mais vi pela escola. Lavínia, você tem notícias do Stefan? — você pergunta.
— Do Stefan? Por que eu teria notícias daquele ingrato? — Lavínia fala, aparentemente irritada desviando a atenção para o celular.
— Ah, você sabe dele, sim, Lavínia. Você é a melhor amiga dele — Max diz.
— Eu era antes daquela azeda tomar meu Stefanzinho de mim. Nós não estamos se falando como antes. São poucos contatos. Talvez ela tenha feito a cabeça dele pra não andar com ninguém do nosso grupo por causa dos “incríveis eventos” que nos rodeiam.
— Ah, nada a ver. Eu acho que você tá inventando — Allison fala — Pode ser que sim, ele tenha sido seduzido pelo argumento da abelha-rainha, mas pode ser que não. Você também pode estar se sentindo um pouco sozinha ou, sei lá.
— Sozinha eu nunca tô — Lavínia rebate de pronto, erguendo o queixo e cruzando os braços com estalo exagerado — Mas não venham me dizer que é imaginação minha. O Stefan mudou muito desde aquele baile. Se ele quer vender a alma pro clã da Cynthia, o problema é dele. Não vou ficar correndo atrás de quem prefere ser capacho de uma mimada arrogante.
— Sorte de quem tá lá em cima agora naquele táxi voador longe de todos os problemas daqui debaixo. Literalmente nas nuvens — Cris fala.
— E põe problemas nisso. Todo mundo tá esquisito. A escola inteira tá esquisita — Max diz, o tom rígido e desconfiado voltado discretamente para você e Allison — Pessoas sumindo, desculpas de mal-estar, reuniões secretas em corredores vazios... Parece que quanto mais a gente tenta ter um dia normal, mais vocês dois se metem em coisas que não deveriam.
— Max, já conversamos sobre isso — Allison pede suavemente, tocando de leve o ombro delx para acalmar os ânimos — Ninguém tá procurando confusão.
— Podem não procurar, mas ela sempre acha vocês — Max retruca, mantendo o olhar fixo em você por mais alguns segundos antes de desviar para o jardim agitado.
Você sustenta o olhar por um momento, sentindo o peso da mentira da tontura ainda pairando no ar. Mas antes que a discussão tome outro rumo, o celular no seu bolso vibra intensamente duas vezes seguidas. Ao puxar o aparelho, o painel de notificações exibe uma mensagem de Nat dizendo:
S/N, o Henrique esteve aqui. Ele esteve na mansão de seu pai. Saiu agora há pouco. Ligue para o seu pai e pergunte o que aconteceu. Beijos.
Fale com o autor