Os órfãos de Nevinny Vol.2
24 Heranças de uma revolução

O som do caminhão azul passando pela Rua das Flores é de uma nostalgia de meses que não vivenciava. Porém, o peso que carrega nas costas dessa vez parece que lhe impede de enxergar tudo com o mesmo encantamento. As casas de estilo grego, as flores brotando por todos os lados… talvez tudo tenha virado apenas meros detalhes.
Foram meses de afastamento desse bairro e vizinhança causado por um avesso absoluto entre viaturas de polícia, olhares tortos nos corredores e o silêncio sufocante de um crime não resolvido.
📍 Casa 1001, Rua das Flores
Quando a porta de madeira se abriu, o aroma familiar de erva-doce e terra molhada lhe acolhe antes mesmo do abraço. Dona Ami não parecia ter mudado nada; os olhos miúdos e atentos ainda transmitem uma paz que você já tinha esquecido que existia.
— Oh, olha quem está de volta. Demorou pra voltar — diz dona Ami com a voz mansa, mas firme, enquanto lhe dá espaço para entrar — Achei que a cidade grande e os dramas da juventude tivessem feito você esquecer o caminho da minha cozinha.
— Oi dona Ami. Posso entrar? — você pergunta.
— Claro que pode.
Dona Ami não fez perguntas imediatas. Ela apenas caminhou até o fogão, derramou a água fervente sobre as folhas secas no bule de porcelana e esperou.
Mais alguém está à espera encostada no fogão. É um rosto conhecido.
— Olá, S/N. Lembra de mim? Albertina? Prima de Amelita — ela fala indo em direção ao armário logo abrindo-o.
— Oi. Sim, claro que me lembro — você responde com um sorriso singelo.
Não demorando, chega batendo com a cabeça em suas pernas Polly, a cabrita. O rabinho mexe bem rápido demonstrando felicidade. É um sinal de que ela ainda não te esqueceu.
— Oi, Polly! — você fala acariciando a cabeça da cabrita.
Dona Ami lhe conhece o suficiente para saber que o silêncio inicial era o prenúncio de uma tempestade. Quando colocou a xícara fumegante na frente de S/N, sentou-se na cadeira oposta, cruzando as mãos sobre a mesa de madeira.
— Como anda a vida, S/N? Me diga novidades. Novidades boas. Como foi sua viagem à Atelis, sua cidade natal? — ela pergunta.
— Até que foram boas. Tranquilas até. Longe de todo o caos que ‘tava aqui — você responde.
— Oh, queridx. Eu sinto muito por toda essa confusão ter chegado em sua vida. Eu fiquei acompanhando as notícias que eu tinha de Lívia sobre você. Pessoas te acusando daquele jeito…
— É, não foi fácil.
— Como está a garota? A que sofreu o atentado? — Albertina pergunta.
— Ela tá bem. Já voltou a estudar. Eu encontrei com ela na escola. Ainda é difícil porque como as aulas voltaram há pouco tempo, ainda tem alunos fazendo aquele burburinho com a minha presença — você se explica já com infelicidade ao falar.
— Eu imagino. Já passei por coisa assim — comenta dona Ami.
— Ah, dona Ami, a escola parece que virou um hospício pra mim. Tô sempre monitorando os meus passos e tomando cuidado com qualquer coisa que eu possa falar. Tentaram matar a Suzanne no gramado, na mesma noite em que colocaram aqueles vídeos falando sobre meu pai no telão do ginásio. Todo mundo me olha agora como se eu fosse um monstro só porque eu estava lá fora na hora errada. Eu só queria fugir da humilhação, e acabei caindo direto na cena de um crime. Mesmo que meu pai tenha me defendido e pra polícia eu não ser mais uma pessoa suspeita, ainda assim o pessoal não me deixa fora disso.
— É assim mesmo. Isso vai passar. Você acreditando que não foi você é o que importa — dona Ami fala, confiante.
— Tem uma chance a mais de te esquecerem como a pessoa responsável pelo quase assassinato dessa menina. Vocês viram o jornal? A notícia que o pessoal tá comentando? Eu até falei com a Amelita — Albertina fala dando breves pausas na fala — A polícia… falou… que foi encontrada… uma lua… minguante… pontiaguda… no caso de assassinato do rapaz em Montana. E tudo porque ele seguiu uma tal de coordenadas e depois apareceu morto por causa disso. Não falaram ainda que um caso tem a ver com outro, mas não precisa raciocinar muito pra ver que tem ligação, sim, uma coisa com a outra.
— É, eu vi essa reportagem. É o que me dá alívio porque se esses dois casos tiverem ligação, aí o pessoal me esquece de vez e eu não sou mais culpadx por ter feito isso com a Suzanne. Eu assinei um termo pela polícia e fiquei, junto com a Suzanne, com a responsabilidade de investigar as pessoas da escola. Claro, que indiretamente. Mas eu preciso investigar do meu jeito, observando todos pra ajudar a polícia a resolver isso e também a mim de me livrar de vez de uma coisa dessa — você explica, asseguradamente — A Suzanne foi encontrada com uma estrela pontuda dentro de um envelope. No mesmo estilo. O meu grupo de amigos acha que tem um assassino em série caçando adolescentes, ou que alguém de dentro do Colégio Montreal armou tudo direitinho para acabar comigo e com a Suzanne de uma vez só, não sei. Até a Cynthia, que vivia no meu pé, ficou acuada depois que eu ameacei a campanha política do pai dela. Está todo mundo desconfiando de todo mundo.
— Mas como assim você ameaçou ela? Você não poderia ter feito isso, S/N. Você já não está sendo vistx como uma pessoa suspeita de um crime? Você ameaçar uma pessoa assim, aí que vão ter mais certeza de que você possa ter algum envolvimento com isso — dona Ami avisa.
— Exatamente — Albertina concorda.
— Mas eu fiz tudo às escondidas. A Cynthia, que é a garota que eu ameacei, ‘tava espalhando pra toda a escola, colocando ideias na cabeça do pessoal que eu tenho alguma coisa a ver com isso. Até a própria Suzanne desconfiou de mim, sendo que ela já tinha afirmado pra polícia que não foi eu quem tentou contra a vida dela.
— Essa sua amiga é perigosa. Essa Cynthia. Ela tá se aproveitando da situação e do fato dessa pessoa que tentou anular a vida dessa menina estar coberta com capuz e capa — Albertina afirma.
— Exatamente. Mas ela não é minha amiga, Albertina. Não tem como ser.
— Formas geométricas e coordenadas… O ser humano adora dar contornos exatos à própria maldade pra parecer mais inteligente do que é — diz dona Ami, com a voz baixa e pausada — S/N, preste bem atenção. Se alguém conhecia sua reação a ponto de saber que você correria para aquele gramado, essa pessoa não está em Montana. Ela divide o oxigênio com você todos os dias.
— Que horror! — Albertina exclama.
— Eu penso nessa hipótese todos os dias. Não é fácil você estudar numa escola onde qualquer um dali possa ter feito aquilo. O certo seria fechar a escola até que isso seja resolvido. Ou então até que aconteça algum ataque novo. Minha cabeça fica a mil — você fala.
— Nem pense nisso. Eu não suportaria ter alguém próximx a mim ser retiradx de minha vida. Não de novo — agora dona Ami muda a expressão ficando um pouco mais séria — Ah, essa cidade. Esses assassinatos. Está ficando cada vez mais confuso. Desde que minha amiga Leca foi morta por aquela dupla dinâmica, Mirella e aquele namoradinho dela, eu fiquei bem atordoada.
Você, sem acreditar no que ouviu, fica um pouco confusx por tal afirmação de dona Ami. Essa é uma novidade que você não tinha conhecimento. Até agora.
— Como assim “aquela dupla dinâmica”? A senhora disse que quem causou a morte da dona Leca foi mesmo a Mirella e o namorado dela? O aluno que era da minha escola?
— Não, S/N, não tem nada comprovado. Amelita tá com isso na cabeça agora. Tem certeza que foi essa tal de Mirella e o namorado que enfim… você sabe… fizeram aquilo com a dona Leca — Albertina fala.
— Mas é claro. Com toda a certeza. Depois do que aquela pistoleira fez comigo, eu não duvidaria de nada. Dona Leca era uma veinha que nem eu, frágil. Tanto a Mirella como o namorado dela podem ter feito isso com a minha amiga, já que ela estava de olho na minha casa — dona Ami dispara, asseguradamente.
— Bom, o pior é que faz todo o sentido — você diz — Agora, dona Ami, como será que a Mirella tá? A senhora nunca mais teve notícias dela?
— Nem se a Amelita quisesse. Pra que ter notícias de uma criminosa como essa? Eu quero o máximo de distância possível dessa mulher daqui da nossa casa e da nossa vida. Temos um policial que toma conta da vigilância do bairro e, principalmente, aqui da casa de Amelita. Essa tal de Mirella não vai e não pode voltar aqui tão cedo.
— E onde ele tá agora? Eu não vi ninguém do lado de fora — você fala olhando pela janela apenas para confirmar.
Dona Ami gargalha, respondendo sua pergunta.
— Oh, S/N, que bobinhx. Cada dia é um policial diferente que faz um plantão aqui na porta de minha casa. Mas eles não ficam o dia todo. Você é tão atenciosx e não percebeu no detalhe. Você não notou as câmeras instaladas estrategicamente do lado de fora da minha casa? Assim eles podem vigiar o dia todo quem passa por aqui e pela rua aqui em frente.
— Ah, legal. Igualzinho nos filmes. De olho no assassino, não é?
— É uma espécie disso. Me sinto uma senhora importante pra sociedade.
— Mas a senhora é mesmo. Sobrevivente de um ataque onde foi deixada trancada num armário. Aquele aviso. Como que uma enfermeira onde tinha tudo pra ser bem sucedida na frente se suja por uma coisa dessas? O que ela ganha com isso?
— Vingança. Essa menina com certeza é miridiana. Chegou até a mim por algum motivo específico. — Uma sonsa, isso sim — resmunga dona Ami, ajeitando o xale nos ombros — Ela se fez de boa moça enquanto planejava contra mim, me dopando. Aquele rapaz que andava com ela, envolvido no roubo do banco Khanterah… É uma quadrilha!
— Duas peças que não valem o chão que pisam — arremata dona Albertina, a voz carregada de raiva — Por isso que quando a Leca apareceu morta, meu coração me disse na hora: foram eles. Uma teia de aranha pura. Só de pensar que eles rondavam por aqui.
Polly, a cabrita, solta um balido baixo ao pé da sua cadeira, como se também quisesse opinar sobre o assunto, quebrando um pouco a tensão sufocante que se instalou na cozinha. Você estica a mão para acariciar os pelos ásperos do animal, tentando processar tudo.
— Se Mirella for mesmo miridiana, já sei que tenho um chama pra esse povo. Teve aquela garota da adolescência e agora mais essa. Além das minhas desavenças no passado na época da revolução e rebeldia do povo de Miríade.
O silêncio que se seguiu na cozinha foi quebrado apenas pelo estalar suave da madeira do fogão e pelo mastigar distraído de Polly em um canto. A menção à "época da revolução" e ao povo de Miríade fez o ar parecer subitamente mais denso, resgatando memórias que dona Ami claramente preferia manter trancadas a sete chaves.
— Você fala de Miríade como se fosse apenas uma página de um livro de história, S/N — diz dona Ami, com a voz um pouco mais baixa, quase num sussurro áspero — Mas quem viveu o avesso daquela rebeldia sabe que o sangue deles não seca fácil. Aquela gente... os miridianos legítimos... eles não esquecem uma afronta. E eu cometi o erro de bater de frente com muitos deles quando ainda achava que o mundo podia ser consertado com diálogo.
— A senhora só me fala desses confrontos, mas nunca disse de fato o que aconteceu. Só coisas básicas, que tinha desavenças. Me diz que os miridianos não eram boas pessoas. O que eles fizeram de tão grave com a senhora? — você pergunta.
— A Mirella tinha aquele jeito altivo, aquela frieza disfarçada de competência que eu já tinha visto antes. Nos acampamentos de Miríade, as mulheres agiam exatamente assim. Sabiam exatamente onde doía para apertar sem deixar marcas imediatas. O veneno que ela usou para me dopar... aquela mistura de ervas e compostos químicos... não é coisa que se aprende em faculdade de enfermagem tradicional. Aquilo cheira ao conhecimento botânico e militar que os miridianos usavam nas fronteiras para neutralizar guardas sem fazer barulho.
— Eu não gosto nem de pensar nessa história. Seria algo muito cruel. Pessoas pagando com a vida e a Amelita quase foi uma dessas. Coitada de dona Leca. Foi testemunha e deu no que deu. Pra Mirella e o namorado a Leca era uma testemunha perigosa. Uma ponta solta. E os miridianos cortam pontas soltas com a precisão de uma guilhotina.
Polly solta mais um balido ríspido, como se sentisse o desconforto congelante que tomou conta do ambiente. Você olha para a janela estrategicamente vigiada pelas câmeras da polícia, percebendo que a proteção ali não é apenas contra um "assassino comum", mas contra uma engrenagem ideológica e violenta que vem do passado de dona Ami e que, de alguma forma, agora parece bater à porta da sua própria realidade.
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