Os órfãos de Nevinny Vol.2

1 As árvores da cidade dourada


Nas manhãs de segunda-feira, normalmente pacatas, silenciosas, o único som que se costuma ouvir do lado de fora pelo bairro é do pequeno avião que passa avisando pelo céu que uma nova semana começa narrando frases curtas motivacionais e pra abrilhantar a passagem deixa um rastro daquela fumaça branca que embeleza o céu ficando visível para apreciá-la por alguns instantes.


Costumava ser assim todas as vezes, desde sempre que observara. Porém, nessa passagem, o locutor que fica dentro da aeronave não disse nada, apenas atravessou o céu sem dizer uma palavra.


Admirando a paisagem lá fora pela janela, os segundos que passa contemplando o espaço nota que o sol está mais forte e mais quente do que o habitual, mesmo em um clima frio de inverno com muita neve por toda a parte.


Certamente o que se encontra lá fora está mais atraente do que dentro de casa. Voltando-se à realidade que antes lhe incomodava, todo o encanto começa a se desfazer na sua expressão ao olhar para quem lhe observa no meio da sala.


Sentando-se no sofá de volta você olha para Meghan que, ao notar seu olhar, de imediato vira a cara. Ela não deu uma palavra sequer desde a hora que você chegou à mansão dela, sendo meio que obrigadx a ficar ocupando o espaço na companhia dela pela mãe da mesma.


Só há ela e você na sala no momento com exceção dos funcionários que às vezes passam hora ou outra nos seus a fazeres. A mãe está no quarto realizando um telefonema importante com a família decidindo os planos pra depois do natal e ano novo. Sendo assim, o clima não fica tão agradável devido ao seu silêncio e de Meghan e também devido ao motivo de assim estar acontecendo.


Felizmente, esse pesado e angustiante momento não dura tanto quando notam alguém chegar do lado de fora.


É o carro do pai de Nat, no qual pai e filhx chegam após um breve tempo trazendo as decorações de natal para montarem a árvore da mansão de Meghan.


— Enfim, chegamos. S/N, Meghan, vocês vão adorar todos os enfeites que trouxemos. Dessa vez não inovaram nos enfeites premium, então não fiquem descontentes se tiverem algumas decorações repetidas — Nat falando colocando algumas sacolas sobre o sofá.


— Nat continua com bom gosto. Vocês deviam ter ido pra nos fazer companhia. Por que vocês não quiseram ir? — o senhor Grant pergunta.


— Detesto comprar decorações de natal — Meghan fala emburrada e de braços cruzados.


— Tudo bem. As decorações já estão entregues, agora preciso voltar pra casa pra ajudar a minha patroa. Meghan, onde está a Zanelda?


— Em um telefonema no quarto — você responde.


— Oh, tudo bem. Não vou atrapalhá-la. Meghan mande um abraço pra sua mãe. Mal posso esperar por hoje à noite — o senhor Grant se despede olhando para você diretamente com uma piscadela assim que finaliza a frase acompanhado de um singelo sorriso.


Hoje à noite haverá um jantar de Natal e também de boas-vindas na mansão dos Mollins com a finalidade de receber você e Joseph de volta à vizinhança após um breve tempo fora. Poucas pessoas sabem da sua volta, apenas os mais chegados: a família Walsh de seu amigo falecido Victor, a família dos Ferguson na qual fazem parte Nat, o senhor Grant e sua esposa Avery e, por último, é claro, a família de onde será realizado o jantar: na mansão da família Mollins, onde há apenas Meghan e sua mãe, Zanelda.


— Pronto, agora que todas as decorações estão aqui eu vou na cozinha beber mais um pouco daquela limonada gostosa. Vocês vêm? — Nat pergunta.


— Você já sabe onde fica a geladeira então não precisa que ninguém te acompanhe, Nat — Meghan fala ainda emburrada.


— Tá, eu vou com você. Também quero um pouquinho — você diz.


Chegando na cozinha você e Nat sentam-se sobre o balcão de mármore preto e servem-se o suco.


— Esse é o meu preferido. Zanelda foi muito gentil em pedir pra preparar esse suco — Nat fala.


— Tá gostoso mesmo — você diz, saboreando.


— Não liga pra rabugice da Meghan, ela ainda tá meio sentida pela sua volta. Faz só alguns dias, então ela ainda vai acostumar.


— É, eu acho que sim. Mas ela não parece nenhum pouco feliz de me ver aqui na casa dela. Ela não trocou uma palavra comigo quando você e seu pai 'tavam fora. Na verdade eu também nem tentei.


— Calma, tem que ter paciência. Agora vamos voltar pra sala e começar a montar essa árvore. Pode ser que essa dinâmica sirva pra gerar alguma interação entre vocês e assim faça ela melhorar essa cara de dona da rabugice de vez — Nat comenta dando um sorrisinho.


— Tomara — você fala não muito confiante.


Ao voltarem para a sala, Meghan está de pé olhando em suas direções com os olhos meios cerrados e, parecendo desconfiada diz:


— Vocês pensam que eu sou surda e não consegui ouvir o que falaram na cozinha, não é? E sim, eu estou rabugenta mesmo como você falou, Nat. Mas não se preocupe, eu vou falar o porquê. Ora, por que eu estaria rabugenta e mal-humorada por causa que uma pessoa virou as costas pra gente? Sério, depois de meses sem falar com a gente essa pessoa simplesmente volta a morar na mansão que morava antes e do nada volta pra cidade pra tentar reviver a vida e as pessoas que abandonou como se nada tivesse acontecido antes?


— Meghan, por favor, essa história, você...


— Não, Nat, eu não vou começar uma briga ou fazer drama. Eu estou plena agora. Eu sou plena — Meghan respira fundo — Eu só tô procurando entender as coisas, tentando entender aos poucos o que tem pra se explicar. Mas não quero fazer isso agora. Então S/N, que bom que está de volta na sua casa novamente. Nós podemos conversar depois, quando as coisas fluírem mais, porém o que eu quero fazer agora é começar a montar essa árvore e aproveitar a minha profunda inspiração pra isso, então... vamos começar?


— Ah, é... claro. Esplêndido, Meghan. Assim que se faz. Bom, então vamos. Meu pai e eu compramos muitas coisas. Vocês vão gostar — Nat fala, animando-se.



Após algum tempo, quase na metade dos preparativos da árvore, a mãe de Meghan, a senhora Zanelda aparece na sala para enfim dar o ar da graça depois de uma longa conversa ao telefone.


— Ai, vocês não tem noção o que é já planejar festas e jantares em plena segunda-feira de manhã. Sério, vocês tem pura sorte de serem apenas adolescentes. É natal com a família, ano novo com os sócios. Nossa, é uma loucura! — a senhorita Zanelda exclama — Caramba, que árvore bonita! Continuem assim. Eu ia pedir pras meninas me ajudarem com isso, mas já que vocês insistiram...


— Não tem problema, Zanelda. As meninas já têm coisas demais pra fazer. Deixa isso por nossa conta. Vai ser um prazer decorar sua árvore esse ano — Nat afirma.


— Ai, mas eu quero a minha árvore tão linda quanto a que vocês fizeram na árvore de S/N no ano passado, hein? Não quero menos que isso, então, por favor, se dediquem. Nat, você é tão gentil. Agradeço muitíssimo por estar aqui conosco novamente e agradeço por S/N estar aqui também de novo. Sinto que o natal esse ano vai ser incrível!


— Não tem de quê, dona Zanelda. Posso vir sempre que precisar — você fala, sorridente.


— Bom, eu vou deixar vocês a sós com as meninas, então o que quiserem vocês podem pedir a elas. Pode ser que eu vá demorar um pouco.


— Mãe, pra onde você tá indo? — Meghan pergunta.


— Ajeitar o cabelo, comprar uma roupa pro jantar. Vou aproveitar e comprar alguma coisa pra você também, Meghan. Tem preferência por alguma coisa em específico?


— Não precisa comprar nada, mãe. Eu não vou nesse jantar.


A senhorita Zanelda gargalha e diz:


— Oh, quanto senso de humor tem essa minha filha. Tudo bem, eu vou comprar algo bem bonito pra vocês. Pessoal, eu volto daqui a pouco. Qualquer coisa, já sabem. Beijooos — ela finaliza cantarolando a palavra 'beijos' e assim passando pela porta.


Nat, por sua vez, que estava com a expressão simpática e com sorriso no rosto logo muda sua feição assim que Zanelda sai e, olhando seriamente para Meghan dispara:


— Que história é essa de que não vai para o jantar? Pare com essa criancice agora!


— E vai fazer o quê? Me obrigar? — Meghan retruca.


— Olha, S/N está aqui pra fazer parte do nosso jantar de natal. Isso não é bom? É como a gente sempre faz todo ano.


— É, mas esse ano não é como os outros. Meu pai não vai estar aqui. Esse vai ser um natal sem ele, então...



Você, aos poucos, se aproxima de Meghan, se agacha em sua frente e coloca as mãos sobre o braço direito dela para uma breve mensagem.


— Meghan, eu sei que você deve não estar tão feliz por eu estar aqui depois que eu meio que abandonei vocês e me mudei pra cidade. Mas, será que você pode não ficar desse jeito só por minha causa? Eu sei que você sente falta do seu pai, sinto muito por ele não estar aqui, mas pense, se ele estivesse aqui, ele não ia preferir que em vez de você ficar assim emburrada talvez ele não preferisse que você estivesse tendo boas lembranças e aproveitar esse momento como se ele estivesse?


— Eu não acredito que você disse isso. "Meio que abandonei"? Foi o que você disse? Você não "meio que abandonou" a gente. Você abandonou por completo. E sim, eu tô desse jeito por causa que você tá aqui, mas também tô assim pelo meu pai que não tá. Pra você parece ser tão fácil falar assim, pra você é tão fácil voltar depois de meses do nada e querer voltar pro nosso meio — ela diz.


— Eu sei. Eu sei que agi de um jeito que possa ter chateado você e Nat também. Nós nos entendemos, conversamos e expliquei toda a situação quando a gente se reencontrou em Dakota. Com certeza Nat te explicou também o meu lado, e vocês sabem que não foi fácil. Você tem noção do que é morar a vida inteira com seus pais e de repente em um dia você descobrir que seu pai, que era exemplo a ser seguido por tanta gente aparece em um escândalo envolvido com um crime que cometeu, vai preso e ter a sua mãe que era pra te acolher indo embora fugindo desse escândalo e te abandonando de vez? Você até hoje não entende pelo o que eu passei?


— Se eu entendo? É claro que eu entendo. Eu só não entendo o porquê de ter nos abandonado e ter ficado sem falar com a gente por todo esse tempo. Assim também como não entendo o porquê de ter voltado agora.


— Eu já falei, Meghan. Eu fiquei com vergonha da reação de vocês. Fiquei com medo de vocês não me aceitarem mais, assim como nossos vizinhos fizeram. Por que vocês acham que eu pedi pra que não contassem que eu tô aqui outra vez?


— Eu juro que não sei. Acho que nem me importa. Mas... por que você voltou? Isso já aconteceu há alguns dias, seu pai e você parecem estranhos, preocupados com alguma coisa.


— Impressão sua — você fala, levantando-se — Por que eu não posso fazer uma visita ao lugar que eu nasci? Não era isso o que vocês queriam? Você também? Eu juro que não tô entendendo agora.


— Parem de jurar. Meghan, você disse que não ia fazer drama ou brigar? Olha o que você tá fazendo agora — Nat dispara.


— Não, Nat! Não é assim. Eu quero ouvir da própria boca de S/N. Quero ouvir o que S/N tem pra falar.


— Bom, eu já falei o que eu tinha pra falar. Já falei pra Nat, Nat disse que já falou pra você e eu tô aqui agora falando de novo. Mas parece que você tá empenhada a não querer acreditar. Se for pra repetir tudo de novo o que eu já falei, eu prefiro não falar se não vai adiantar. Eu sei o que eu passei durante esses meses, só eu sei como eu me senti vendo tudo acontecer diante dos meus olhos. Me mudei pra outra cidade porque eu não tinha com quem ficar. Nat me ofereceu ajuda, mas eu 'tava com tanto medo e vergonha que eu não quis aceitar. Eu parei sim de falar com vocês pelo mesmo motivo, mas eu segui em frente, não fiquei julgando ninguém e desprezando assim como você tá fazendo comigo, na qual você deveria tentar entender o meu lado em vez de me desprezar. Você agora não tem mais o seu pai e eu tô aqui te trazendo apoio em vez de te ignorar como eu deveria fazer.


Dito isso, uma quietude toma conta da sala. Nat observa tudo em absoluto silêncio enquanto que Meghan lhe olha fixamente com lágrimas caindo de seus olhos. De repente ela levanta-se so sofá e vai correndo rapidamente em direção às escadas subindo-as.


— Eu acho que você pegou um pouco pesado — Nat afirma.


— Peguei nada. Eu só falei a verdade.


— Tá, eu vou lá falar com ela. Daqui a pouco eu volto. Fica aqui, tá?


— Pra onde mais eu iria? — você pergunta observando Nat ir correndo para o quarto de Meghan.


Porém, assim que Nat some de sua vista você deixa as decorações que segura em cima do sofá e sai pela porta da frente da mansão.


Pouco tempo depois, a pura nostalgia de estação de inverno composto daquele ar gelado, onde o cenário é de ruas e telhados pintados de branco e o sol raiando fortemente no céu invade a sua memória lhe trazendo a lembrança de tudo estar exatamente como sempre foi.


O bairro você conhece como as palmas de suas mãos, ruas do bairro onde cada casa, cada árvore, guarda uma memória da sua infância. Em cada esquina uma lembrança de suas vivências, na companhia de seus amigos e colegas que de tais formas já se foram; em uma esquina foi onde caiu de bicicleta pela primeira vez onde sua mãe, Samantha, lhe dava apoio a todo momento e lhe incentivando a continuar a cada queda. Em uma outra esquina, perto dos arbustos, foi onde deu seu primeiro beijo, desajeitado e inesquecível já que foi com a única pessoa a quem beijou até hoje.


— Aonde pensa que vai? — Nat pergunta lhe assustando.


— Ah, oi, Nat. Eu? Tô apenas revisitando o bairro. Tudo continua a mesma coisa — você fala.


— Quase tudo. Já disse que algumas coisas mudaram desde depois que foi embora.


— Cadê a Meghan? Conseguiu falar com ela?


— De primeira ela não quis abrir a porta, ficou no quarto trancada, mas depois ela cedeu e assim eu consegui falar com ela.


— É sempre assim. Ela sempre faz esse drama quando tá chateada, mas depois ela volta ao normal quando vê que exagerou.


— Mas você também exagerou, S/N. Pelo menos um pouco.


— Eu tive que falar a verdade. Ela também precisa ter consciência de que nem tudo pode girar em torno de alguém. Ela precisava enxergar os fatos e acordar do mundo de drama dela — você afirma sem hesitar.


— É, e acho que você tinha razão. Talvez eu possa ser mesmo exagerada e egoísta como você fala.


— Meghan?! Que susto! Nem vi você chegar — Nat fala.


— Eu ouvi o que vocês falaram. Nat me ajudou a pensar e eu cheguei à conclusão de que você poderia estar certx — Meghan fala olhando para você.


— Assim tão rápido? E o que você pensou? — você pergunta.


Ela dá um suspiro, se aproxima um pouco mais e diz:


— Me desculpa, S/N, por ter te destratado desde o dia que você chegou. Eu fui deselegante por ter guardado essa raiva toda pra mim pela sua decisão de ter ido embora da cidade e nunca mais ter voltado e fui egoísta por não ter sido sensível o suficiente e não ter enxergado a situação que você 'tava passando.


— É, porque julgar alguém é sempre o jeito mais fácil, não é? Mas olha, não tem problema. Eu já disse que entendo mais ou menos a sua forma de agir. Também preciso levar em consideração o que você passou e ainda tá passando pelo que aconteceu com o seu pai. Eu sinto muito. Então, se você quiser, a gente pode esquecer isso tudo e seguir em frente. Eu acho que fica bem mais fácil, não é?


Você finaliza a sua declaração e Meghan lhe abraça sem aviso. A princípio você não mostra nenhuma reação. Seus braços ficam descansados, inertes. Porém, ao lembrar que Nat está observando a cena, logo decide tomar uma atitude e, assim, devolve o abraço à Meghan.


— Eu espero que esteja tudo bem entre a gente agora — você fala com um sorriso no rosto.


— Está sim. Me desculpa por tudo S/N. É muito importante ter você aqui de novo.


E mais uma vez Meghan te abraça.


— Agora sim tô vendo a cena que eu queria apreciar. Já estava mais que na hora. Vocês não podiam ficar assim pra sempre — Nat comenta.


— É verdade — você fala.


— Nossa, agora tô animada. Tô bem mais aliviada — Meghan diz.


— Então, eu encontrei S/N aqui na estrada antes de eu chegar. Por acaso estava indo pra algum lugar específico? Você não disse que não queria ser vistx pelos seus vizinhos?

— Nat lhe pergunta, sorrindo.


— É, depois que você foi atrás da Meghan me deu uma vontade de andar pela rua. Claro que eu tô tendo cuidado, não quero encontrar ninguém desinteressante pelo caminho. Acho que o dia tá perfeito pra andar por aí e refletir.


— Mas não tem nada demais. Você só vai encontrar neve por todo lado — Meghan diz.


— Pode ser. Mas também pode ser que eu tenha pensado em alguma coisa pra gente fazer antes de terminar a decorar a árvore.


— E o que seria? — Nat pergunta.


— Tá na hora de visitar a família do Victor. Já faz um tempo que eu não falo nem vejo a família Walsh, seria uma boa aproveitar já que eu tô de volta.


— Perfeito, a gente aproveita e chama a família pro jantar à noite. Provavelmente eles nem sabem já que ficam tão entre eles.


— Nossa, dá até dó. A família Walsh era super unida com a gente quando Victor era vivo — Meghan comenta.


— Tá decidido. Acho que dona Beatrice e o senhor Finn vão gostar da notícia. Talvez esse jantar anime eles — você fala, confiante.



Após alguns instantes chegando quase no final da rua vocês avistam a mansão da família Walsh onde seu amigo Victor morava. Ela ainda está bem cuidada desde a última vez que a viu, porém o ar de tristeza é inevitável lembrar que dentro dela mora uma família triste que perdera o filho por um motivo tão trágico.


No portão de ferro ainda há uma singela coroa de flores brancas, bem bonitas e as folhas verdes ainda encontram-se bem vivas. Um nó se forma em sua garganta. Olhando para Nat e Meghan você nota suas expressões sérias e tristes ao passo que os dois se abraçam apoiando suas cabeças em seus ombros, respectivamente.


"Como estão dona Beatrice e o senhor Finn?" você pergunta consigo. A lembrança e imagem de Victor sorridente vem em sua mente e junto à isso as imagens do sonho que tivera com ele naquela noite em que a lua se aproximava lhe traz um certo sentimento de esperança, mas também de dúvidas logo em seguida.


Uma sensação sombria paira no ar, algo além da tristeza palpável. Há uma incerteza, um receio do que poderia encontrar ali dentro depois de meses. É como se o fato tivesse acontecido há pouquíssimo tempo. É como adentrar um espaço desconhecido e nesse espaço saber que pode trazer toda a dor e lágrimas de volta antes mesmo de se regenerarem por completo.


— Quem vai apertar a campainha dessa vez? — Meghan pergunta.


Você ergue a mão hesitante e, sem demora, aperta a campainha, rompendo o silêncio opressor.


Ninguém atende no primeiro toque, então tenta mais uma vez. Meghan tenta olhar pela janela se há algum movimento do lado de dentro, porém não dá pra ver nada devido às cortinas.


— Será que tem alguém aí? — você pergunta.


— Bom, quando eu passei aqui em frente hoje eu vim uma das empregadas chegando com umas sacolas, então deve ter sim — Nat deduz.


Após alguns instantes que pareceram uma eternidade, a porta começa a se abrir lentamente. Uma das funcionárias da casa, vestida com um uniforme doméstico atende à porta gentilmente com um sorriso.


— Bom dia, pois não? Ah, eu conheço vocês. Nat e Meghan. Agora, você eu não conheço — a moça diz apontando para você.


— Ah, essx é S/N, residente do bairro. Viemos fazer uma surpresa de natal pra dona Beatrice — Meghan fala, empolgada.


— Entendi. Bom, ela tá tomando café agora na sala. Vocês não querem voltar depois?


— "Quem está na porta, Karen?" — pergunta dona Beatrice lá de dentro.


— São seus amigos, Beatrice. Eles querem vê-la — a moça responde.


— "Mande entrar, Karen. Quem são?'


E assim vocês vão entrando até encontrarem Beatrice na sala tomando seu café no sofá. Ela ainda está vestida com seu elegante robe branco como se tivesse acordado há pouco instantes.


— Oh, eu não acredito. Como vocês conseguiram trazê-lx de volta? S/N, você está aqui! — ela exclama, animada.


— Oi, dona Beatrice. Pois é, eu cheguei há alguns dias. Quis fazer uma surpresa no dia certo. Vou passar o Natal esse ano de novo com vocês — você fala.


— Mas que ótimo! É muito bom ver vocês juntxs de novo. Finn! Finn, olha quem está aqui! — Beatrice berra — Oh, que cabeça a minha. Finn está no banho agora, mas assim que ele terminar ele irá te ver com certeza, S/N!


— Será que o senhor Finn ainda lembra de mim?


— Como que ele esqueceria dx amigx de toda a vida do Victor? Oh, mas que cabeça a sua — ela ri.


— É, você tem razão.


— Er... mas digam, pessoal. O que vocês vieram fazer aqui em casa tão cedo? Eu ainda estou vestida de robe, acordamos agora há pouco. Não querem tomar um café?


— Ah não, dona Beatrice. Na verdade nós viemos ver como a senhora está. S/N quis fazer uma visita à senhora e Meghan e eu já aproveitamos a oportunidade pra fazermos um convite — Nat fala.


— Um convite? Mas de quê?


— Hoje é Natal e a senhora sabe que todo ano escolhemos uma das nossas mansões pra realizarmos a ceia. A senhora já deve saber, ou se não sabe, esse ano a mansão escolhida foi da família Ferguson. Por isso Nat também está aqui pra oficializar o convite à senhora e ao senhor Finn — Meghan declara.


— Um jantar? Hoje à noite?


— É, a não ser que a senhora já tenha outro compromisso. Se for desse jeito a gente entende.


— Ah, eu não sei — dona Beatrice fala olhando para os lados como se estivesse insegura.


— A senhora pode ir, dona Beatrice. Vai até ser bom. Eu fiquei sabendo que a senhora não tem participado muito das reuniões casuais das famílias aqui no bairro. Vamo' aproveitar esse jantar de hoje. Ou a senhora tem outro compromisso? — você pergunta.


— Não, eu não tenho. Mas não sei se deveria ir. O natal é a mesma coisa todo ano, sempre um jantar casual.


— Mas esse vai ser diferente. Pode ser melhor. Nós queremos a presença da senhora e do senhor Finn. Tenho certeza de que minha família faz questão da presença de vocês — Nat diz.


Nesse momento o senhor Finn chega na sala também vestido de robe branco para recepcioná-los todo simpático e sorridente.


— Bom dia — ele fala.


— Olha, Finn quem está aqui. O pessoal veio convidar a gente pra uma ceia hoje à noite que vai acontecer na mansão dos Ferguson.


— Oh, quem é essx? É S/N? — o senhor Finn pergunta lhe olhando.


— Oi, senhor Finn, como vai?


— Muito bem. Que bom ter vocês aqui. Então quer dizer que hoje vai ter um jantar?


— É, e vocês estão mais que convidados — Meghan afirma.


— Por mim tudo bem — o senhor Finn fala — Estamos precisando espairecer mesmo. Quem mais vai e à que horas vai ser?


— Ah, somente os mais chegados vão estar lá. E a hora é a mesma de sempre. Vocês podem chegar a hora que quiserem, antes de completar a meia noite, é claro. Mas a partir das oito horas a casa estará aberta pra recebermos a todos — Nat explica.


— Parece formidável. Me agrada uma festa em sua mansão. Acho que irei aceitar essa proposta de jantar. Sua família tem um ótimo gosto pra decorações e sabe trazer um clima aconchegante que me deixa super satisfeita. Não possui algazarras, pessoas fazendo barulhos — Beatrice fala — Aliás, como está a senhorita Zanelda, senhorita Meghan?


— Minha mãe está bem. Obrigada por perguntar — diz Meghan com uma expressão desentendida franzindo a testa.


— Então, podemos contar com a presença de vocês hoje à noite? — você pergunta.


— Com certeza estaremos lá — o senhor Finn responde.


— Que ótimo. Vocês serão muito bem-vindos como sempre. Agora nós já vamos deixá-los e nos perdoem por atrapalharmos a refeição — Nat fala, desculpando-se.


— Até parece que precisam se desculpar. Vocês são de casa — Beatrice fala, rindo.


— Obrigadx, Beatrice, pela recepção e por ter aceitado nosso convite.


— Eu que agradeço a lembrança. Foi muito bom ver S/N outra vez depois de todo esse tempo e todo o escândalo horroroso. Aliás, o Joseph estará nesse jantar também?


O senhor Finn pigarreia brevemente.


— Bom pessoal, bom dia e obrigado. Até a noite! — ele diz.


— Tchau, senhor Finn. Tchau, dona Beatrice — você fala, despedindo-se.



Então vocês saem da mansão de dona Beatrice e do senhor Finn e voltam a andar pela rua ensolarada com o vento gelado que circula por ora.


— Pronto. Convite aceito. Fico feliz que dona Beatrice e o senhor Finn tenham aceitado. Eles estão precisando de uma diversão, espairecer mais a cabeça — Nat diz.


— É impressão minha ou será que fiquei louca por um instante? A dona Beatrice meio que mandou um shade pra minha mãe ou eu tô enganada? — Meghan pergunta.


— É, eu meio que achei isso também. Eu acho que me incomodou um pouco quando ela falou sobre mim — você afirma.


— Ah, peguem leve, pessoal. Vocês sabem como dona Beatrice ainda se recupera ainda todo esse tempo. Nós ainda sentimos falta do Victor, imagina ela que é a mãe — Nat afirma — Infelizmente meu círculo de amigos tem seus dramas familiares.


— Enfim, vamos terminar de decorar a árvore? S/N, eu tô cheia de fofocas pra te contar. Eu sei que você não gosta tanto, mas já que você voltou e hoje fizemos as pazes você tem a obrigação de saber de tudo enquanto esteve ausente.


— E lá vai ela. Meghan e suas fofocas — Nat ri.


— Tá, eu acho que vou gostar de saber das coisas que aconteceram aqui em Atelis — você diz — Pode me contar tudo.


Sob um sol radiante que contrasta com o branco imaculado da neve recém-caída, vocês vão percorrendo as alamedas impecáveis do condomínio de luxo. O ar frio da manhã de Natal cintila com os reflexos cristalinos do gelo, enquanto riem e conversam animadamente, deixando pegadas frescas na paisagem invernal. A curiosidade soma-se á expectativa — principalmente de Meghan — para chegarem em casa para finalmente adornar a árvore de Natal que vos aguarda, pronta para receber os enfeites coloridos e as luzes cintilantes com a finalidade de ser uma atração no jantar que aproxima-se à noite.