Os órfãos de Nevinny
104 Exímio em seu jeito de ser, rebelde por natureza
— Eu não acredito que você fez isso na escola, minha filha. Por pouco você não ganhou uma suspensão. Só não fizeram por causa da consideração que eles têm por você, minha filha.
— Oh, mãe, eles não ia me dar suspensão. Você sabe disso. O que é mais importante é que eu tô bastante satisfeita por ter dado uma lição naquela azeda da Cynthia. Foi a maior satisfação invadir aquela rádio tosca que ela tem na escola e falar umas verdades pra ela no microfone pra todo mundo ouvir. Ela merecia isso — você fala dando uma gargalhada pulando no sofá.
— Mas que coisa. O que eu fiz pra merecer pra você ser uma filha problemática assim, Lavínia? — sua mãe pergunta pondo as mãos sobre o rosto.
— Não liga pra isso, mãe. Eu sei que era o que todo mundo queria fazer. E o povo também concordou. É claro que a maioria dos votos iam ser pra Cynthia. Ela é só do primeiro ano, mas ela é aquela típica patricinha clichê de escola de ensino médio que oferece suborno pras pessoas gostarem dela. E foi o que eu falei. Vou até repetir: "Como que vocês podem permitir que a "dona" da rádio da escola se eleja pro baile? Justamente a que fala de todo mundo pelas costas? Como que alguém que compra as pessoas pra gostarem dela pode se eleger pra ser a "representante" da escola? Nem patricinha a Cynthia é e sim, uma corrupta. Seria muito mais digno ela ser uma patricinha que muitas pessoas possam odiar só por ela ser patricinha, mas que seja boa amiga do que uma patricinha que precisa humilhar pras pessoas gostarem dela. Como que vocês podem estar cegos e permitir uma injustiça dessa?"
— E eles não ficaram com raiva de você? Assim você pode se tornar a mais odiada da escola. Pode ser mais odiada ainda do que essa tal de Cynthia. Você tem uma cisma com essa menina desde o início do ano, minha filha. Deixa ela em paz, Lavínia — sua mãe suplica.
— Não deixo, mãe. Essa menina tem que aprender a deixar de ser arrogante — você afirma — E mais, o povo da escola não me odiou. Muitos bateram palma e concordaram com o que eu falei. Outros me chamaram de doida, surtada e não sei mais o quê. S/N me falou que eu tinha que ter cuidado, senão eu estaria cavando minha própria cova social. Mas na verdade eu nem liguei pro que os outros que me xingaram falaram. Mandei todo mundo se f...
— Nem complete essa frase. Simplesmente não sei o que fazer mais com essa sua rebeldia. Você é doida desse jeito, mas é uma boa filha. Também não posso reclamar.
— Eu sei, mãe. Não reclame. Eu sei o que eu tô fazendo. Só não gosto de injustiças e de pessoas que se acham o centro das atenções. Não suporto isso.
— Que horas são, minha filha? Você não tem nenhum remédio pra tomar agora? — ela pergunta.
— Quatro e meia da tarde. E não, não tenho remédio pra tomar. Eu 'tava sentindo umas dores no abdômen mais cedo, mas tomei um remédio e passou. Não foi nada de mais.
— Tem certeza, minha filha? Eu me preocupo com você. Eu sempre te falo, você tem que se cuidar.
— Mas eu tô me cuidando, mãe. Olha, já não tô mais sangrando e o pouco de sangue que saía agora a quantidade tá bem menor. Eu sei, preciso continuar tomando o tranexâmico, mas comparado a antes eu tô bem melhor.
— Você não está mais se encontrando com aquele rapaz estúpido, não é? — sua mãe lhe pergunta mudando de expressão imediatamente.
— É claro que não. Eu matei o Augustine na minha mente e no meu coração. Na verdade, eu nunca mais tive notícias dele.
— E nem queira. Nem dele e nem de outro rapaz. Você não podia estar pensando nesses assuntos ainda nesse tempo. Você é muito nova.
— Não vamos falar disso, mãe. Pode ficar tranquila. Eu não tô com nenhum rapaz. Eu juro.
— Por favor, minha filha. Assim é melhor. É para o seu próprio bem. Você não quer passar por essa história de novo, não é? Você ainda está no seu primeiro ano do ensino médio. Não pode ficar grávida de novo — Martha diz.
— Eu sei, mãe. Eu sei. Não quero passar por isso outra vez. Foi um pesadelo. Pensei que ia morrer. Agora eu tô pensando em outras coisas. Essa história da Mirella ter sido solta, também tem ano que tá acabando e tá quase chegando o baile de inverno. Ainda nem sei o que vou vestir.
— É, tem essa história dessa moça enfermeira. Como pode uma moça simpática que tínhamos tanta confiança fazer uma coisa dessa?
— Eu não sei, mas ainda tô muito incomodada com isso. Na verdade me senti muito enganada.
— Bom, já disse que você pode usar meu vestido rosa que usei no meu primeiro baile de inverno quando tinha a sua idade. Você tem exatamente o mesmo corpo de quando eu estava naquela época.
— Nem pensar. Aquele vestido é horroroso, mãe! Desculpa eu te falar isso, mas é que ele não combina comigo. Mas com certeza ele ficou super lindo na senhora na sua vez — você diz tentando contornar suas palavras ao perceber que sua mãe ficara um pouco incomodada.
— Não se preocupe. Você não me ofendeu. Já sou acostumada com o seu jeito espontâneo de ser — ela diz — Mas então, o que você tem em mente?
— Bom, certamente não vai ser aquele vestido de mais de trinta anos atrás e também nem quero usar um vestido em que eu fique parecendo aquelas bonecas Barbie artificiais fora da caixinha — você inicia — Eu não sei, mas eu 'tava pensando em usar alguma coisa diferente, sabe, onde só eu poderia usar. Não quero ficar parecendo com nenhuma outra menina.
— A escolha é toda sua. Mas você já tem algo preparado? Eu não te vi se preocupar com vestido em nenhum momento, até disse que não ia participar.
— É, mas... a maioria tá se preparando pra isso, então eu não quero ser a garota excluída que não vai aproveitar nada. Por mais que isso seja uma coisa que eu não dou tanta importância acho que seria melhor eu participar. Ainda mais sendo o meu primeiro baile de inverno — você afirma.
— Minha Lavínia realmente virou uma mocinha. Rebelde, mas uma mocinha — sua mãe diz com um sorriso leve no rosto te elogiando com orgulho.
— O tema vai ser anos oitenta. Eu quero ser aquela garota bem descolada, cheia de cores pelo corpo. S/N vai me dar umas ideias do que eu posso vestir. Disse que adora esse tema e sabe da maioria das coisas relacionadas.
— Você devia trazê-lx aqui pra agradecer aquela vez que você foi no consultório do doutor Renato. Foi muita gentileza de S/N em ter feito isso.
— Eu trago um dia. Com certeza.
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