Orlög

7 Segundo Grande Ato — Dubiedade


Notas iniciais
Capítulo dedicado à Serena e Agatha Wright, duas leitoras que começaram a acompanhar a história e me deixaram muito feliz por comentarem aqui! ^^ Muito obrigada por marcarem presença, gatas, espero que continuem acompanhando e comentando! x) E meu obrigada eterno aos leitores fiéis, 'cês me fazem um bem danado, seus lindos! ;*

Laura segurou com força o cabo do revólver, nem chegando a se dar conta dos passos vacilantes que a aproximavam do curioso invasor. De súbito, os raros pelos arrepiaram-se sobre sua pele, e o coração — antes sereno em seu peito — criou um escandaloso escarcéu em meio às novas batidas aceleradas.

Continuou caminhando rumo ao homem, empunhando a arma em sua direção com a perfeita precisão da pistoleira que era. Pela primeira vez em sua vida, o dedo sobre o gatilho hesitava, em dúvida de como proceder. Laura chutou os destroços que se desprenderam do teto da base de operações da S.H.I.E.L.D. após a queda do invasor, sujando a si mesma com o sangue que se esvaía em grossos filetes do corpo desacordado.

— O que está havendo aqui? — Fury surgiu, atraído pelo alarme que ainda soava, a ira em seu olho saudável tornando-se instantaneamente cautela ao perceber a presença do estranho, e no segundo seguinte seus braços já miravam o revólver no corpo de Loki, somando-se à força de Laura — Como isso aconteceu? Nossa base é totalmente blindada!

— Eu não cheguei a tempo de ver, diretor. Mas me parece que a H.Y.D.R.A. está tornando seus ataques cada vez mais criativos, temos que admitir... — Zombou, ainda nervosa com o primeiro relance de visão que teve do homem, disposta a bloqueá-la de sua mente o quanto pudesse. Ainda o encarava a uma distância calculada, tendo por vislumbre apenas os longos cabelos negros que sobrepujavam seu rosto.

A Pistoleira ajoelhou-se ao lado de Loki, não conseguindo mais adiar o inevitável. Virou o rosto em sua direção, deixando finalmente o semblante à mostra, que, apesar dos machucados, lhe pareceu incrivelmente familiar. Os dedos de Laura tremeram brevemente, e sua respiração se perdeu por longos instantes, presa em seus pulmões. Mal notou os lábios boquiabertos que tornavam sua expressão perdida e confusa, porém tal reação não foi desprezada por Fury.

— Você o conhece? — Questionou, pondo-se ao lado da mulher e a analisando com minúcia.

— Não... — Respondeu, mais rápido do que gostaria, abanando de leve a cabeça numa negativa complementar — Eu me lembraria desses chifres...

Fury apenas fitou-a, permanecendo quieto, porém a desconfiança estava visível nos traços endurecidos de seu rosto, algo que Laura teria notado com facilidade em outras circunstâncias, contudo naquele momento todos os seus instintos estavam direcionados ao homem que rompera cada uma das muitas barreiras de segurança da S.H.I.E.L.D., que até aquele momento fora considerada um base inexpugnável.

— Ele ainda está vivo! — Exasperou-se ao sentir a pulsação forte, bem ritmada e saudável de sua carótida, ciente de que aquela queda tinha enorme potencial para a fatalidade, contudo sequer serviu para quebrar um único osso do misterioso homem.

— Vamos levá-lo. — Fury ergueu o corpo, cuidadoso com o corte que ainda vertia sangue — Quando ele acordar, é bom que estejamos um passo à frente. Eu quero o agente Barton montando guarda à distância até que ele recobre os sentidos e responda nossas perguntas, e você também esteja preparada, Laura. Não sabemos com o que estamos lidando. Eu vou atrás de Coulson e Hill para ampliarem os reforços.

— Sim, senhor. — Anuiu, vendo o diretor se afastar com o homem ferido nos braços.

Assim que se viu sozinha, pegou do chão o inconfundível capacete de longos cornos, notando o peso físico e simbólico que o material dourado-envelhecido carregava em meio às extremidades bem delineadas. Seus dedos contornaram o alto relevo das bordas, e a Pistoleira engoliu em seco, experimentando um medo que há muito não sentia.

"Não é possível..." — Pensou, o rosto de Loki ainda vivo em sua mente, cada traço do deus salientando suas dúvidas mais internas, seus receios mais aprofundados...

...Afinal, de certa forma, ela o conhecia.

O agente Coulson chegou ao local com a rapidez de sua típica eficiência, assim que fora solicitado, acompanhado por Maria Hill e seguido pelos passos mais descontraídos do Gavião Arqueiro, este observando com atenção cada possível movimento do homem inconsciente, o complexo arco já em mãos e preparado para o ofício.

Nick Fury parecia absorto num ar contemplativo e dono de uma falsa serenidade, analisando a situação de modo a julgar se a presença do homem resultaria em malefícios para a segurança da S.H.I.E.L.D., sua mente disposta a desvendar o quanto antes os possíveis significados ocultos daquela inusitada e repentina aparição. Sua atenção apenas se voltou para a equipe quando Laura por fim se juntou a eles, e Fury fechou ainda mais sua expressão, descontente com o que percebeu nos olhos da mulher. Parecia-lhe que a determinação, antes tão vigente até mesmo em seus menores traços, havia sido momentaneamente substituída por um ar confuso e perdido.

— Todos vocês estão encarregados de vigiá-lo até que ele acorde. Em hipótese alguma abandonem seu posto, cada um de vocês só poderá sair individualmente apenas em casos extremos, e retornar o mais rápido possível até que possamos extrair respostas aceitáveis acerca desse ataque à nossa base. E eu quero ser avisado assim que for possível retirar dele alguma informação confiável. Mantenham suas armas fáceis, não sabemos o que nos espera.

Sem esperar por qualquer réplica, Fury retirou-se em seu habitual ritmo apressado, deixando alguns de seus melhores agentes encarregados daquela tarefa que merecia sua total atenção. Clint colocou-se num patamar mais elevado, de modo que pudesse atingir o alvo sem correr o risco de ferir algum de seus colegas. Entre seus dedos ágeis uma flecha rodopiava velozmente, pronta para ser lançada assim que necessário. Maria Hill e Coulson ficaram em lados opostos da maca, enquanto Laura observava ao fundo, segurando com força o pingente que caía abaixo de seus seios. Os dedos ficaram congestos com a intensidade do aperto, porém todos pareciam ocupados demais para notar.

Loki jazia inconsciente sobre uma maca de fino acolchoado, suas feridas já limpas e tratadas cobertas por gazes que aos poucos se avermelhavam, mas que se escondiam sob a peculiar roupa. Seus pulsos e tornozelos estavam presos por algemas altamente grossas, porém seu semblante tranquilo ainda estava alheio a tudo que o cercava.

Laura engoliu em seco, abalada, e se pegou pensando na cor dos olhos que se escondiam abaixo das pálpebras.

"Serão verdes... Tão verdes quanto o mar refletindo a relva num dia ensolarado..." — Uma voz atemporal e desprovida de gênero lançou o pensamento em sua mente, uma conjectura que em momento algum partiu de si, criando um sobressalto ainda maior em seu corpo já em estado de alerta. Por mais que o estranho pensamento tenha sido um tanto perturbador, não fora capaz de discordar. Sim, sabia que seriam olhos verdes porque já os vira incontáveis vezes.

— Que tipo de louco usaria isso? — Hill perguntou, confusa, segurando o elmo com verdadeira curiosidade e despertando Laura de seus próprios fantasmas — E essas roupas... Esse cara é o quê? Um cosplay de viking que se perdeu da Comic con?

— Não sendo nenhum tipo de vilão excêntrico, eu já me considero um homem de sorte. — Clint avisou, ainda revirando com habilidade a flecha entre os dedos, um ar monótono marcando sua voz como se toda a situação o entediasse profundamente — A S.H.I.E.L.D. já teve sua cota desses...

— Não me espantaria que fosse! — Phil Coulson completou, sério, parecendo desgostoso da situação — E se esse homem mostrar qualquer intenção de se opor à S.H.I.E.L.D. provavelmente teremos um problema grave em mãos. Nossas defesas nunca haviam sido ultrapassadas nesses termos tão...

— Estúpidos — Hill emendou, ainda descrente dos fatos relatados.

— Sim, acho que podemos colocar dessa forma. A questão é que ele, sozinho, conseguiu burlar todo o sistema de blindagem e segurança que dispomos. Um único homem proporcionando uma quebra da mais avançada tecnologia.

— Você acha que ele pode ser um agente da H.Y.D.R.A.? — O Gavião Arqueiro franziu o cenho, tornando a encarar o invasor com um olhar calculista, a flecha estancando o movimento giratório que antes era realizado por sua mão.

— Duvido muito. A H.Y.D.R.A. é tão silenciosa quanto a S.H.I.E.L.D. em suas missões, jamais se permitiria uma infiltração tão anunciada em nossas dependências.

— O que você acha, Laura? — Clint encarou-a, estranhando sua abstenção na discussão. Todos os olhares se voltaram à mulher, uns interessados, outros apenas especulativos. Ela respirou fundo, não querendo demonstrar o quanto a presença do invasor a atormentava num âmbito íntimo e pessoal, contudo seu intuito se perdeu assim que o viu emanar os primeiros sinais de que despertaria, obrigando o órgão em seu peito a acelerar várias batidas.

— Acho que logo vamos descobrir! — Segurou a pistola mais fortemente, percebendo todos os outros se empertigarem pela posse das armas, apontando-as com notável rapidez na direção do prisioneiro, e o silêncio reinou inquebrável por entre os agentes.

Loki flexionou os dedos, usando os antebraços de alavanca numa tentativa frustrada de erguer o corpo. As algemas o frearam, e os olhos se abriram novamente para o mundo, um par de orbes rodeados de uma inteligência afiada como poucas. Laura estremeceu com a potência daquele olhar, e quando ele se fixou em seus olhos tão negros quanto o breu, sentiu que a mudança repentina em seu brilho a fez congelar. Loki a encarou por longos e perturbadores segundos, o cálculo incorporado em suas íris dando lugar imediato à surpresa e reconhecimento, um dos poucos olhares inteiramente verdadeiro que o deus da trapaça daria em sua estada entre os mortais.

A Pistoleira encarregou-se de constrigir o aperto ao redor de sua arma, ajeitando a mira conforme o rosto do homem se movia tentando perceber o ambiente à sua volta. Deu passos curtos e decididos em direção ao invasor, não se importando se a aproximação poderia atrapalhar a mira do Gavião Arqueiro. Articulou a maca de modo que o deus tivesse o tronco erguido e conseguisse olhar o ambiente com maior conforto...

...De modo que a Pistoleira também fosse capaz de vislumbrá-lo mais abertamente.

— Quem é você? — Laura agradeceu pela firmeza rígida que ouviu sair na própria voz, ganhando um pouco mais de confiança para observar os obstinados olhos verdes que lhe eram tão familiares. À frente da mulher, Phil Coulson destinou duas simples palavras a Fury através de um comunicador: "Ele acordou", e foi o suficiente para que a tensão se multiplicasse entre os agentes. Como se falar em voz alta tornasse o perigo mais real, de alguma forma.

— Sugiro que comece a se explicar logo! — Hill emendou, disposta a não permitir que o invasor percebesse o clima friável que os envolvia desde que a segurança da S.H.I.E.L.D. foi burlada — Não somos do tipo que atira e depois pergunta, mas sempre há exceções às regras. E posso garantir, não estamos no nosso melhor estado de espírito depois da bagunça que você fez aqui...

— Eu sou Loki de Asgard. — Principiou, a voz elegante desprendendo de seus lábios num sotaque curioso, macio e convidativo — Viajei até seu Reino a fim de alertá-los do perigo iminente que o ronda. — Avisou, recebendo como resposta imediata os olhares incrédulos dos mortais que o observavam, e sua atenção acabou se demorando na mulher cuja pele de ébano constantemente surgia em seus sonhos, e que agora entorpecia sua realidade de uma forma que o desagradava. Uma pontada de desprezo escapou no brilho contido de seus olhos conforme gastou aqueles breves segundos analisando-a, decepcionado.

"A ninfa que visita meus sonhos não passa de uma mortal... Uma reles midgardiana, presa à mediocridade de sua própria espécie!" — Conjecturou, julgando difícil despistar os sentimentos aversivos para longe de seu rosto.

— Entendi porra nenhuma... — Laura ergueu uma única sobrancelha, a expressão desafiadora tomando caminhos hostis em seus traços — E desde quando a América é a merda de um reino? Parece que o alce aí levou uma pancada feia na cabeça quando caiu.

— Laurinha, Laurinha... Sempre esbanjando sutileza! — Clint, assim que desceu de seu posto, passou um braço pelos ombros da mulher, que lançou um olhar desaprovador ao Vingador mesmo após o gesto fraternal. Detestava qualquer tipo de apelidos ou variações usadas em seu nome, sendo o diminutivo aquela que mais a irritava, sempre passando-lhe a impressão de imaturidade. Clint, é claro, conhecia muito bem esse detalhe de sua personalidade — Seu dom de se expressar com tanta delicadeza sempre tem a capacidade de me deixar atônito!

— Vá polir suas flechas, Légolas. — Replicou, vendo-o sorrir como um irmão mais velho que consegue irritar a caçula.

— Não abuse das referências se não quiser que o Rogers apareça à caça delas! — Piscou com certa maldade ao perceber a careta descontente da mulher, ciente da antipatia e indiscutível impaciência que Laura nutria pelos extremismos ideológicos do Capitão América. Ele afagou carinhosamente a pele desnuda de seu braço, parecendo por um instante ignorar a presença de Loki, este apenas observando como os mortais se relacionavam de um modo paradoxal, não vendo qualquer sentido naquele tipo de interação.

— Podemos voltar o foco ao que interessa? — Maria Hill interrompeu suas incansáveis provocações, o tom irritadiço de quem não suporta procrastinar um trabalho.

— De qualquer forma, temos que esperar o diretor. — A Pistoleira defendeu-se, lançando um olhar incomodado ao homem que fizeram prisioneiro — A menos que você esteja disposta a ouvir os absurdos desse cara duas vezes.

— Ele se pôs a caminho assim que eu o chamei — Coulson declarou, eficiente — A qualquer momento estará aqui.

A discussão entre eles cessou, reinando no lugar um silêncio pesado. Laura não conseguia desvencilhar por muito tempo seus olhos das gemas verdes e profundas que também pareciam procurar por ela com frequência, ambos em busca de qualquer vestígio que invalidasse aquele sentimento desconcertante de reconhecimento recíproco. Uma distinção imediata, confirmada assim que seus olhares se tocaram. Contudo, quanto mais se analisavam, mais tinham a certeza de que se conheciam dos vários sonhos que tiveram um com o outro. Nick Fury demorou não mais do que um minuto para se reunir a eles, porém, se coubesse à Laura calcular aquele breve período de espera, seu palpite mínimo seria dez vezes maior do que o real, tamanha a intensidade que aqueles olhos verdes a enredaram em suas próprias armadilhas.

Fury entrou no recinto de forma escancarada, seu olho solitário fixo em Loki com a promessa de futuras ameaças. Todos prenderam por um instante a respiração, sem que percebecem, apenas pela presença carregada que o diretor trouxe ao ambiente. De todos, apenas Loki parecia indiferente.

— Como você nos encontrou? — Fury foi direto ao assunto que mais lhe incomodava, seu timbre áspero e a rudeza em seu rosto fazendo com que todos novamente segurassem suas armas com mais força, quase como se apertassem um amuleto por ordem do subconsciente.

— Do meu Reino, pode-se encontrar todos os lugares que se deseja. — Loki explicou num tom minuciosamente solícito, a calma de suas palavras soando como alguém que apenas deseja contribuir com suas respostas — Nada escapa aos olhos de Heimdall.

— Lá vem ele com esse lance de reino. — Laura bufou, incomodada — E quem seria esse tal de Heimdall, Vossa Majestade? — A Pistoleira usou o tratamento de forma jocosa, arrancando imediatamente do deus um olhar que se acendeu em perigosas faíscas, mesclando em suas íris cobiça, raiva e alguma angústia. Foi um olhar que se estendeu apenas por ínfimos milésimos de segundo, logo em seguida recobrando a afabilidade programada, porém aquela sombra não passou despercebida para Laura, e seu desconcerto diante do homem apenas cresceu.

— Heimdall é o vigilante de Asgard. O fiel guerreiro de Odin que guarda nossas fronteiras. — Anunciou, já recomposto apenas externamente, pois em seu íntimo o gelo que corria por seu sangue parecia ganhar vontade própria, e Loki cogitou num rápido instante abrir mão de seus planos iniciais apenas pelo enorme prazer que teria em investir contra aqueles meros insetos.

— Odin, Loki, Asgard... Ele está claramente zombando de nós, Fury! — Hill exaltou-se, seu gênio explosivo já se manifestando, capaz de fazer com que seus traços delicados se deformassem em meio à raiva.

— É bom que você fale a verdade, rapaz! Por que está aqui?

— Eu escapei do meu mundo porque ele se afundou em tirania. Ousei me opor às ideologias do monarca e sofri um atentado por isso — Apontou para o ferimento, destacado abaixo das vestes pelas gazes que criavam um sutil alto relevo, ilustrando sua explicação — Vim para esta terra para avisá-los do perigo que a espreita. Os deuses que vivem em Asgard tramam contra os humanos, e logo a destruição chegará até vocês. Eu sou Loki, e por toda minha existência fui refém de Odin, fui criado sob os termos de sua intolerância e loucura, por isso estou a par de suas intenções. O rei de Asgard conspira contra seu povo há muito tempo, e recentemente seus atos estão voltados para extinguir sua espécie.

— Pelo amor de Deus, Fury, você não pode realmente estar dando corda pra isso...? — Hill começou a protestar, contudo o diretor apenas ergueu uma mão em sua direção, silenciando a agente de imediato com o gesto e ao mesmo tempo ocupado em encarar somente o deus, que também se mantinha retribuindo a intensidade do olhar. Um sorriso contido e calculado, quase sereno, brotou nos cantos dos lábios de Loki, esbanjando compreensão.

— Essa terra não dispõe da magia que flui de Yggdrasil, mas você sabe que o que eu digo é verdade. Sabe que existem outros mundos além deste, e que um dia eles poderiam tornar-se uma ameaça. — Loki disse, tentando camuflar o triunfo ao perceber o semblante impassível do homem que tentava convencer.

— Será necessário mais do que isso para me fazer acreditar em mitologia barata — Retrucou, porém Loki percebeu a leve hesitação em seu timbre, algo que para os mortais certamente passou sem que se notasse, contudo, para o deus, as reações midgardianas eram tão límpidas quanto a fonte da Árvore da Vida.

"Serão ainda mais fáceis de manipular do que Thor em seus dias mais tolos..."

— Quando eu ainda não passava de um bebê, Odin sequestrou-me para cumprir seus próprios estratagemas, para usar a influência de minha estirpe contra um povo que tornou-se inimigo de Asgard desde a Aurora dos Deuses. Seus planos não tiveram êxito comigo, e assim que comecei a me rebelar contra suas tramas, fui atacado e deixado para morrer por minha subversão. Consegui escapar por meios ilícitos, e escolhi vir a esta terra para avisá-los o que planeja o Pai-de-Todos.

— E o que exatamente um deus nórdico teria contra nós? — Fury perguntou num tom incrédulo, que ao fundo demonstrava uma pontada de interesse logo percebido pelo deus da trapaça.

— Houve uma época, quando Asgard ainda não era governada por Odin, que mortais e deuses se relacionavam com frequência. Naquele tempo Midgard clamava pelas bênçãos dos deuses, seu povo ainda buscava por nossa sabedoria e poder para ajudá-los em suas questões mundanas... Muitos desses pedidos eram atendidos, e com frequência os deuses caminhavam por Midgard pelas orações que daqui vinham. Essa convivência entre deuses e mortais gerou algumas descendências, o que nós chamávamos de semideuses ou híbridos...

— Me acorde quando Percy Jackson aparecer — Laura sussurrou para Clint, que pigarreou para disfarçar o riso.

Loki, apesar de ser o único dentre os demais apto a escutar o murmúrio àquela distância, não foi capaz de entendê-lo, optando por continuar o seu relato como se tal interrupção jamais tivesse ocorrido.

— Antes de se instaurar a monarquia de Odin, os híbridos eram bem vindos a habitarem Asgard por consequência de seu sangue divino. Contudo, Odin matou o seu antecessor e, assim que ocupou o trono, iniciou uma guerra contra os semideuses que viviam entre nós, exterminando a todos. Quase todos. Alguns conseguiram escapar e vieram viver entre os mortais, e sua linhagem continuou se propagando. Recentemente Odin descobriu a existência dos híbridos remanescentes, e deseja terminar o que há muito começou, nem que para isso julgue necessário destruir todo o Reino dos mortais.

— Me parece uma história muito bem ensaiada, de fato. Mas nada além de uma história. — O diretor constatou, num tom sugestivo de desafio e já beirando a impaciência.

— Já que a maneira sobre-humana com que me infiltrei em suas barreiras de segurança não o convence, posso me valer de outros artifícios mais persuasivos... — Os lábios do deus se repuxaram de leve, quase imperceptíveis naquele espectro de sorriso, e logo a demonstração hábil de sua feitiçaria ofuscou qualquer tipo de distração.

Loki suspendeu com força os punhos, arrancando um ruído estridente dos grossos grilhões que o prendiam, e à medida que o ágil movimento durou, o material de tonalidade metálica tornou-se paulatinamente enegrecido, por fim desfazendo-se em cinzas e libertando o jotun daquela improvisada contenção. Por um confuso segundo, todos tentavam assimilar a cena sob uma máscara embasbacada cobrindo cada feição. O deus da trapaça massageou os pulsos a fim de limpar as cinzas de sua pele, um olhar resoluto direcionado a cada agente, tornando-se um tanto intensificado quando alcançou Laura.

"Midgardianos... Tão incrédulos e impressionáveis!" — Cruzou as mãos sobre o corpo, mantendo a calmaria em cada mínimo gesto, como um mentor que aguarda pacientemente que seu aluno chegue sozinho à conclusão certa. Imaginou que talvez alguns usassem suas estranhas armas para ameaçá-lo, contudo nem isso fizeram, dominados demais pelo choque daquela pequena demonstração de seus talentos.

— Estão dispostos agora a creditar um pouco mais de confiança à minha... Como disseram? História? — Sorriu, dessa vez de modo largo, ciente de que tanto suas palavras quanto seu singelo truque tiveram o efeito que Loki tanto almejava.

"Muito em breve, estarão todos a meu completo serviço!"

Notas finais
Pessoal, só um adendo aqui: nos filmes da Marvel, as habilidades do Loki são MUITO pouco aproveitadas. Vai muito além de manipular o gelo e criar ilusões (pois é, ele é ainda mais foda do que julga nossa vã filosofia). Só quero deixar claro que não estou dando nenhum poder que ele já não tenha, e manipular a matéria a nível molecular (como ele fez com as algemas) é um dos muitos talentos do nosso deus-jotun-diliça-da-porra :) E preciso compartilhar isso com vocês! Nem todos aqui sabem, mas eu faço faculdade de medicina veterinária (não peçam as famosas "olhadinhas", pessoal, é feio! Hunf ;P), e ontem eu castrei meu primeiro macho. Até aí vocês dizem "E o que diabos eu tenho a ver com isso?", bom, eu explico! O nome do cachorro era Odin, e vocês não fazem ideia DO QUANTO FOI INSPIRADOR, SENSACIONAL, MARAVILHOSO, segurar as bolas de Odin e jogar fora depois de passar o bisturi! Cara, me sinto outra pessoa! Castrei Odin, que emoção! Loki me agradeceria eternamente por isso, porque se tem alguém em todo os Nove Reinos que NÃO deveria ser pai, esse alguém é o próprio Pai-de-Todos (irônico, não?) xP Espero que tenham gostado do capítulo, e foi mal pelo momento desabafo aí de cima, mas eu precisava, hehehehe!